JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO
Ex-Funcionário do Banco do Brasil. Ex-Professor de Matemática e do Curso Pitágoras. Escritor. Funcionário aposentado da Justiça do Trabalho, BA.
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As mais belas crônicas escritas pelos escritores mais consagrados do Brasil.
Pesquisadas em vários SITES da Rede Mundial de Computadores-Internet, algumas delas condensadas e todas organizadas por JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO.
Ler é estimulante e essencial.
A leitura habitual e incessante provoca experiências místicas e rompe muros da mediocridade e da ignorância, inspirando o espírito a avançar em direção da luz, da sabedoria e do aprendizado ilimitado.
Um texto pode fazer-nos vivenciar épocas de guerras, tristezas e alegrias.
Nada desenvolve mais a capacidade verbal que a leitura de livros, que até nos ajudam a sonhar e a pensar com mais nitidez.
Enfim, a boa leitura enriquece a alma e o espírito.
IMPORTANTÍSSIMO. Informo aos escritores, seus representantes legais e respectivas editoras, detentores dos direitos autorais dos textos que aparecem neste arquivo, que eles serão imediatamente removidos do SITE caso assim o queiram.
1. ADÉLIA PRADO. Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.
2. ADÉLIA PRADO. Tenho um pouco de pudor de contar, mas só um pouco, porque sei que vou acabar contando mesmo. É porque lá em casa a gente não podia falar nem diabo, que levava sabão, quanto mais... ah, no fim eu falo. Coisa do Teodoro, ele quem me contou, você sabe, marido depois de um certo tempo de casamento fala certas coisas com a mulher. O seu não fala? Pois é, e de novo tem um tempão que aconteceu. Lembra aquela história dos queijos? Igual. Demorou um par de anos pra me contar. O pessoal dele é assim, sem pressa. Tem uma história deles lá, que o pai dele, meu sogro, esperou 52 anos pra relatar. Diz ele que esperou os protagonistas morrerem. Tem condição? Mas o Teodoro — foi quando a gente mudou pra casa nova — teve de ir nas Goiabeiras tratar um marceneiro e passou, pra aproveitar, na casa da tia dele, a Carlina do Afonso, e encontrou lá o Gomide. Tou encompridando, acho que é só por medo do fim, mas agora já comecei, então. Então, diz o Teodoro, que o Gomide tirou do bolso do paletó uma trouxinha de palha de milho, cortadas elas todas iguaizinhas e amarradas com uma embirinha da mesma palha. Escolheu, escolheu, pegou uma bem lisa e bem branquinha, tirou o canivete do outro bolso, lambeu a palha pra lá, pra cá, e ficou um tempão lhe passando firme a lâmina, do meio pras pontas, de ponta a ponta, entremeando com lambidas. Depois, ainda segurando a palha entre os dedos, foi a hora de tirar e picar o fumo de rolo bem fininho. Ia picando e pondo na concha da mão. Acabou, guardou o rolo e ficou socavando o fumo na mão com a ponta do canivete. Depois pegou a palha, mais uma lambida e foi pondo nela o fumo, espalhando ele por igual na canaleta formada, pressionando bem pra ficar bem firme. Deu mais uma lambida na parte mais próxima do fumo e com os polegares e indicadores foi enrolando o cigarro devagarinho, uma enrolada e uma lambida, uma enrolada e uma lambida. Com o canivete dobrou uma das pontas para o fumo não escapar, tirou a binga do bolso, acendeu e pegou a pitar. Agora é que vem, ai, ai. Teodoro falou que o tempo todo da operação ele não despregava o olho daquilo. Disse que nem sabe o que tia Carlina arengava, só punha sentido no Gomide fazendo o pito. Diz ele que foi uma coisa tão esquisita — esquisita, não —, tão encantada que ele ficou de pau duro. É isso. Falou também que ficou doido pra sair dali, comprar palha, fumo de rolo e repetir tudo igualzinho ao Gomide. Eu entendo. Quando conheci o Teodoro, ele fumava e eu achava muito emocionante. Tenho muita saudade de quando não existia essa amolação de cigarro dar câncer, nem de mulher ser magra. A gente tinha mais tempo para o que precisa, não é mesmo? Será que faz mal mesmo? Colesterol, depois de tanto barulho, estão falando que já tem do bom. Qualquer dia vou pedir ao Teodoro pra dar uma fumadinha, só pra fazer tipo.
3. ADÉLIA PRADO. E o locutor da festinha continuou empolgado, fazendo bonito pra sua mulher, que deixara, naquela noite, comparecer ao seu trabalho, tendo-lhe adquirido, ele próprio, o convite. ... "porque, além de militar reformado da PPMG, é ainda o proprietário do animado Bar Central, o avô da nossa Lesliene, a feliz aniversariante desta noite.” Quando disse "nossa Lesliene”, acreditou desapontado que a mulher não salvava sua inventividade narrativa. Arrependeu-se de tê-la trazido e insistiu com o moço do vídeo para que filmasse mais à esquerda do palco, a mesa da dona da festa. De verdade, queria mesmo é que a mãe de seus filhos não aparecesse no filme; uma mulher que não passava uma sexta-feira sem encher latas e latas de biscoitos e só sabia ir em festa daquele mesmo jeito: saia preta, blusa de seda, por fora, pra disfarçar as ancas e arquinho na cabeça — putisgrila —, desse tinha vários de diversas cores, devia se achar nua sem o arco nos cabelos, logo ele, um homem conhecido, com aquele talento incrível para animar festas. “... agora, senhoras e senhores, o momento tão esperado em que a nossa — olhou de novo pra mulher olhando pra ele embevecida, se esquecendo de ficar em pé —, a nossa festejada Lesliene, a menina-moça da noite, vai apagar as merecidas velinhas.” Ai, será que estava certo dizer “merecidas velinhas”? Achou ótimo ser o locutor e estar dispensado de dançar com a mulher, que não conseguia terminar o pratinho, bebendo guaraná em pequenos goles. Pensou ter sido um erro tê-la trazido à festa. Se sentia desconfortável, inseguro dos adjetivos, querendo tirar a gravata e mostrar pras pessoas o que o roqueiro doidão mostrou durante um show e acabou preso. Gente do céu, o que está acontecendo comigo? Olhou para o avô, da Lesliene. Um filho da mãe, esse "militar reformado" espancador de presos. Nem que a marica estica eu falo mais o nome dele aqui, E essa Lesliene está me saindo uma perua e tanto. Então isto é salto para uma menina de quinze anos? “... e agora, senhores — esqueceu das senhoras —, o Toniquinho do Arlindo vai tocar a valsa que a aniversariante dançará com o pai dela.” Não disse "o talentoso músico Antônio Miranda, filho do nosso popular Zico Miranda, tocará a valsa que Lesliene dançará com o seu progenitor". Meio escondida por uma coluna do salão, sua mulher ainda não terminara os salgadinhos. Finíssima. Lembrou que ela lhe aconselhara trocar de camisa, "você fica melhor com a de linho creme". Teve vontade de chorar e ao mesmo tempo sentiu raiva daquele amor paciente e silencioso, capaz de morrer por ele. Foram pra casa calados. Quando se virou pro canto, um homem roubado, ela disse: você fala tão bonito, Raimundo! — Pois você fique sabendo que de hoje em diante não pego mais bico de locução noturna. Já tou cheio disso. Vou reabrir minha oficina que é melhor negócio. — Acho pena, você fala tão bem! — Cremilda, se eu te pedir, você nunca mais põe arquinho no cabelo? Dá pra sua irmã aquele conjunto de saia e blusa? Você me perdoa? Não entendia bem o discurso do marido, estranho naquela noite, mas era uma verdadeira mulher, fez como Nossa Senhora, disse sim ao senhor. E Raimundo fez com ela o que faz um homem competente para deixar feliz sua mulher.
4. ADÉLIA PRADO. Tinha, como direi, eu, que sou uma senhora a seu modo pacata e até pudica, uma, ou melhor, um derrière esplendido. Não é preciso ser homem pra essas avaliações. Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anáguas daquele tempo, inscrevia-se na cara de sua dona, que, movendo os olhos como as ancas, subia a rua em falsa pudicicia, apregoando-se: tenho. Os homens ficavam loucos. Eu era mocinha boba e escutei no armazém do Calixto ele dizer pro Teodoro, meu futuro marido, naquele tempo preocupado em fazer bodoques de goma: eh, ferro! O Vicente não vai dar conta daquela ali, não. É preciso muita saúde. Calixto falava com o Teodoro do que eu suspeitava serem os tesouros da Oldalisa e ela nem aí, toda toda, sobe e desce rua. Exatamente o que era me escapava, só podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por estar viva e participar de segredos tão excitantes. O Vicente era muito magrinho, não jogava bola, não nadava, "não salientava em nada", o Vicente Cisquim. Pois foi dele que a Raimunda — como o Calixto chamou ela naquele dia — gostou. Casaram e tiveram pencas de filhos. O Calixto ficou chupando o dedo. Ser bonitão e dono de armazém não contou ponto pra ele. Pois é, falou o Teodoro, hoje, assim que botou o pé em casa: O que é a tecnologia, hein? Tecnologia? É o avanço da medicina. Teodoro falava era do avanço do tempo. Tou aqui matutando, disse ele, porque a Oldalisa escolheu o Vicente, não tem base. Tô vendo aquela dona pegando as compras no caixa e... Plim! Era ela, a velha senhora. A Oldalisa do Vicente? É. O Vicente estava junto? Não. Estava com duas alianças e um menino, neto dela com certeza. Será que o Vicente morreu da praga do Calixto? Acho que não, porque eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada da olda, só mesmo a lisa, magra e murcha. Ter encontrado a Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem filosofante sobre as agruras do corpo. Teria ele também sido um apaixonado da Oldalisa e eu corrido sérios riscos? Porque amor não olha idade, não é mesmo? Agora, daquela do escritório eu tive, medo não, por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma cintura de vespa seguia-se, instruída e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocência. Batia à máquina, agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem pôs. Se chamava Rosiva, a perigosa. Imagina o risco que eu corri.
5. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. O CRONISTA É UM ESCRITOR CRÔNICO. O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crônica sistematicamente. Virei um escritor crônico. O que é um cronista? Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula. Já andei dizendo que o cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando. São Simeão passou trinta anos assim, exposto ao sol e à chuva. Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba virando um estilista. O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna no jornal. Por isto, há uma certa confusão entre colunista e cronista, assim como há outra confusão entre articulista e cronista. O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idéias. O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu "eu", como o do poeta, é um eu de utilidade pública. Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Conto casos, faço descrições, anoto momentos líricos, faço críticas sociais. Uma das funções da crônica é interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. Não tem importância. O cronista é crônico, ligado ao tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele.
6. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. AMOR-O INTERMINÁVEL APRENDIZADO. Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado. Se enganava. Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado. Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sabia nunca, como ali já não se saciara. De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos. Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram. Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor. O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava. Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão. O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina. Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal. O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final. Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não. Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não. Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não. E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não. Absurdo. Como pode o amor não coincidir consigo mesmo? Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente. Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente. Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado. Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado. O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado. Optou por aceitar a sua ignorância. Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado. E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.
7. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. FAZER 30 ANOS. Quatro pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave. Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar. Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada. Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar. Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar. Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós. Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente. Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes. Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer. Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó. Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.
8. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. A MULHER MADURA. O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos. De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé. Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda. A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo. A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs. A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito. A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril. O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa. Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza. Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador. Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo. A mulher madura está pronta para algo definitivo. Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo. A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes. Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
9. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. ANTES QUE ELAS CRESÇAM. Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal? Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros. Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela. Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas. Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.
10. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. O VESTIBULAR DA VIDA. Um enduro sem moto, um rali sem carro, uma maratona onde, ao invés de atletas, correm paraplégicos, cegos, presidiários, grávidas e doentes em suas macas, esta é a imagem que nos deixa este vestibular realizado esta semana, mobilizando centenas de milhares de jovens em todo o país. Várias fotos mostram jovens correndo desabalados dentro de seus jeans justos e camisetas palavrosas em direção ao portão da universidade, como se fossem dar um salto tríplice. Como se fossem dar um salto sem vara. Como se fossem dar um salto na vida. Ao lado, aparecem parentes incentivando o corredor-saltador, aparecem colegas gritando em torcida. Correi, jovens, correi, que estreita é a porta que vos conduzirá à salvação! E ali está, como São Pedro, um porteiro ou guarda, que vai bater a porta na cara do retardatário, que chorará, implorará, arrancará os cabelos num ranger de dentes, enquanto, saltitantes, os mais espertos pulam (ocultamente) um muro e penetram o paraíso (ou inferno da múltipla escolha). A Telerj declarou que teve que acordar mais de 10 mil jovens pelo despertador telefônico. Carlinhos Gordo, o maior ladrão de carros do país, estava entre os 39 presidiários que, no Rio, fizeram, mesmo na cadeia, o exame. Mais de trinta deficientes visuais tiveram que tatear as 51 folhas em braile. Maria Alice Nunes teve um filho e saiu da maternidade com o recém-nascido no colo para enfrentar o unificado. Um índio cego — o guarani José Oado, 24 anos — disputa uma vaga em História (ou na história?). Andréa Paula Machado, 17 anos, teve que interromper o exame escrito várias vezes, para o prazer oral do bebê que, entre uma mamada e outra, voltava ao colo da avó. Dois fiscais que transportavam as provas no caminho de Petrópolis morreram num acidente. Um estudante com rubéola fez, num posto médico, prova ao lado de outro com catapora. Todas as idades ali estavam representadas: Márcia Cristina da Silva, 13 anos, vejam só!, já começou a treinar para o vestibular de Medicina em 88, e neste só achou difícil a prova de literatura. Mas lá estava também Edgar Carvalho, 73 anos, advogado, trocando as delícias da aposentadoria pela idéia de se tornar médico e ainda ser útil aos outros. Por isto, discordo da jovem que o interpelou acusando-o de estar tirando a vaga de outro. Socialmente é melhor um velho de 73 anos que qualquer dos jovens que faltaram à prova porque dormiam, que não foram classificados porque achavam que vestibular era loto e vivem a ociosidade daninha à custa de seus pais. Mas, de todos os casos, impressiona mais o de Maria Regina Gonçalves, uma enfermeira de 38 anos. Vejam que estória mirabolante. Lá vai a nossa Maria Regina. Mas não vai simplesmente. Vai grávida. Vai grávida, mas não é uma grávida amparada pelo seu marido, mas uma grávida solteira, enfrentando o mundo com sua barriga e coragem. No entanto, hora e meia antes do exame, em São Cristóvão, é assaltada por três marmanjos covardes, que tomam dela os documentos, 200 mil cruzeiros, e o pior: lhe dão uma porção de safanões, num exercício de sadismo matinal. Maria Regina poderia depois disto voltar chorando para casa e ficar lamuriando o resto da vida. Fez o contrário: foi em frente, embora, ao chegar no local, soubesse que uma outra colega, também assaltada, desistira do exame. Maria Regina deu um jeito, arranjou até cópia xerox de sua carteira de identidade, fez a prova, comprometendo-se a mostrar os outros documentos mais tarde. Mas, de noite, teve uma hemorragia. Pena que os ladrões não pudessem ver a cena, pois ficariam mais felizes. O médico lhe ordena "repouso absoluto". Ela ali "repousando", mas agoniada, porque a burocracia lhe exigia comprovações de documentos para validar os exames. Como desgraça pouca é bobagem, quatro dias depois morre o pai de seu namorado, daí a uns dias ela aborta e teve que ficar mesmo internada. E vede agora, ó filhinhos e filhinhas do papai, que esbanjais vossos corpinhos sem destino nas praias da irresponsabilidade! Maria Regina foi a primeira colocada (nota 96) no concurso para Enfermagem e Sanitarismo. Tirou primeiro lugar e seu nome não apareceu na lista. Ainda vai ter que provar que existe. Mas já impetrou mandado de segurança. É claro que vai ganhar.
11. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. NEM COM UMA FLOR. "Até hoje só bati numa mulher, mas com singular delicadeza". Vinicius de Moraes. Um amigo ia passando pela Avenida Atlântica quando viu um homem batendo numa mulher dentro de um carro estacionado. Resolveu parar e chamar a polícia. Mas iam passando pelo calçadão dois garotões atléticos que vendo o tumulto pararam também para saber. Meu amigo então lhes explica que o sujeito estava batendo na mulher. — Mas a mulher não é dele? - indagou o garotão. — E só porque é dele pode bater? - diz o amigo. — É, nessa você me pegou, cara. Nesta semana a OAB descobriu que em Imperatriz, no Maranhão, nos últimos cinco anos, maridos mataram 30 mulheres. Mas o fizeram por uma razão muito clara: não queriam pagar pensão nem partilhar os bens na separação. Diante desta estatística da terra de Sarney, os machos da terra de Tancredo ficam humilhados, porque eles só matam mulher por "traição", e, mesmo assim, em menor escala. Mas vou lhes contar outra estória: uma amiga estava em São Paulo numa conversa sobre espancamento de mulheres. De repente, falou-se de um conhecido professor que havia espancado a mulher (coisa, aliás, que acontece em várias faculdades do país). Reparem bem, estamos falando de gente fina. Não se trata de cachaceiros na subida do morro, do sujeito massacrado pela vida que chega em casa escorraçando as crianças, cães e mulheres. Estamos falando de gente inteligente, formada, com anel no dedo, que toma coquetéis com a gente e cita Marx, Hegel et caterva. Vai daí, alguém, comentando a razão por que o professor teria batido na mulher, sendo ele uma pessoa célebre, indaga: - Mas, afinal, ele é ele, e ela quem é? Na primeira estorinha vocês viram que um acha que a mulher é propriedade privada do marido, e por isto pode apanhar. Quer dizer: é igual quando a gente tem um cavalo ou cão. Já na segunda narrativa, a titulação acadêmica ou a importância hierárquica justifica a violência sobre o mais fraco. E a mulher, do ponto de vista muscular, é geralmente mais fraca que o homem. Por isto faz muito sentido quando na favela ao lado ouço as mulheres que apanham gritar: "Covarde! Vai bater num homem". E um garotão esclarecido, que estuda lutas marciais, ao ouvir a estória do professor espancador, observou: "Eu queria ver esse professor crescer para cima de mim".As estorinhas como essas são intermináveis. Lá vai outra. Uma amiga estava dando uma entrevista à televisão e o assunto era exatamente o espancamento de mulheres e a necessidade de se criar uma delegacia especial no Rio, como Franco Montoro criou em São Paulo, só para atender mulheres. E lá ia explicando o bê-á-bá da violência dos homens sobre as mulheres, lembrando que, quando uma mulher é violentada ou espancada, nas delegacias comuns têm que passar por vexames e cantadas, que os homens vêem a vítima como culpada, porque nossa sociedade nos convenceu de que a mulher é sempre uma Eva pecadora. Lembrava que em alguns países, além das delegacias para mulheres, há associações estruturadas para esconderem as vítimas, porque sabem que se muitas delas voltarem para casa serão até assassinadas. E foi explicando que em alguns lugares dos Estados Unidos existe um tratamento para maridos violentos, em sessões comuns, uma espécie de Associação de Alcoólatras Anônimos (os Espancadores Anônimos), que se curam e se tratam em grupo, porque isto é uma doença pessoal e social. Mas enquanto minha amiga dava a entrevista, os câmeras estavam indóceis. Parecia que o assunto era com eles. E aí, não agüentaram, interromperam a entrevista e um disse: — a gente trabalha na rua o dia inteiro, chega em casa cansado e a comida não está pronta, o que é que há? Ela está querendo apanhar! E a amiga tentou explicar: — então é só você que trabalhou? Ela não batalhou por aí em dupla jornada? Imagine se toda mulher fosse bater em marido que traz pouco ou nenhum dinheiro para casa? Os câmeras continuaram resmungando durante a entrevista. Não sei o que aconteceu quando eles chegaram em casa. Mas se houvesse na cidade uma delegacia para defender o direito das mulheres certamente pensariam duas vezes. Talvez não chegassem em casa sobraçando flores. Mas seguramente chegariam menos arrogantes.
12. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. VELHO OLHANDO O MAR. Meu carro pára numa esquina da praia de Copacabana às 9h30m e vejo um velho vestido de branco numa cadeira de rodas olhando o mar à distância. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens surfistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar à distância. O carro continua parado, o sinal fechado e o estupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por isto, paradoxalmente, fixei-me por um instante naquele corpo que parecia ancorado do outro lado das coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a imaginá-lo quando jovem. É um exercício estranho esse de começar a remoçar um corpo na imaginação, injetar movimento e desejo nos seus músculos, acelerando nele, de novo, a avareza de viver cada instante. A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fotos de sua juventude tinha sempre a sensação de que ele estava inventando uma estória para me convencer de alguma coisa. No entanto, aquele velho que vejo na esquina da praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia, em alguma outra praia, nos braços de algum amor, bebendo e farreando irresponsavelmente e achando que o estoque da vida era ilimitado. Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das banhistas que passam? Olhando alguma delas teria se posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os que por ele passam poderiam supor que ele fazia maravilhas na cama ou nas pistas de dança? Me lembra ter lido em algum lugar que o inconsciente não tem idade. Ah, sim, foi no livro de Simone de Beauvoir sobre "A velhice". E ali ela também apresentava uma estatística segundo a qual por volta dos 60 anos poucos se declaram velhos; depois dos 80 anos, só 53% se consideram velhos, 36% acham que são de meia-idade e 11% se julgam jovens. Não sei porque, mas toda vez que vejo um senhor de cabelos brancos andando pela praia penso que ele é um almirante aposentado. Às vezes, concedo e admito que ele pode ser também da Aeronáutica. Por causa disto, durante muito tempo, vendo esses senhores passeando pela areia e calçada, sempre achava que toda a Marinha e Aeronáutica havia se aposentado entre Leblon e Copacabana. Mas esses senhores de short e boné branco que passam às vezes em dupla pelo calçadão, são mais atléticos que aquele que denominei de velho e, sentado na cadeira, olha o mar. Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta que um número crescente de amigos e conhecidos tem me pronunciado a palavra "aposentadoria" ultimamente. Isto é uma síndrome grave. Em breve estarei cercado de aposentados e forçosamente me aposentarão. Então, imagino, vou passear de short branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser um almirante aposentado, aproveitando o sol mais ameno das 9h30m até cair sentado numa cadeira e ficar olhando o mar. Me lembra ter lido naquele estudo de Simone de Beauvoir sobre a velhice algo neste sentido: "Morrer, prematuramente, ou envelhecer: não há outra alternativa." E, entretanto, como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa." Cada um é, para si mesmo, o sujeito único, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torno o nosso: doença, ruptura, luto. Lembro-me de meu assombro quando, seriamente doente pela primeira vez na vida, eu me dizia: "Essa mulher que está sendo transportada numa padiola sou eu." Entretanto, os acidentes contingentes integram-se facilmente à nossa história, porque nos atingem em nossa singularidade: velhice é um destino, e quando ela se apodera de nossa própria vida, deixa-nos estupefatos. "O que se passou, então? A vida, e eu estou velho", escreve Aragon. Meu carro, no entanto, continua parado no sinal da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, viajou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a vida por ele, me iludir que no escritório transformo o mundo com telefonemas, projetos e papéis. Um dia, talvez, esteja naquela cadeira olhando mar à distância, a vida distante. Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que rever e contemplar. Neste caso não me importarei que o moço que estiver no seu carro parado no sinal imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o mar interior e terei alegrias de nenhum passante compreenderá. Li esta crônica há mais de 10 anos, no Jornal do Brasil - Rio de Janeiro, se não me falha a memória. Achei-a tão bonita que recortei o jornal e guardei num daqueles lugares que só por acaso a gente acaba voltando. Foi o que aconteceu. Mexendo em meus papéis, encontrei-a e voltei a me emocionar ao lê-la. Apresso-me em dividí-la com os amigos do Releituras.
13. ALCÂNTARA MACHADO. A ELOQÜÊNCIA E O BRASILEIRO. A eloqüência marca Sloper que nos desgraça é com certeza resultado da preocupação de fazer literatura a muque. Entre nós quase toda a gente pensa que literatura é arrevezamento, ginástica verbal, ilusionismo imaginoso, hipérbole sublime. E devido a isso mesmo há no Brasil muitos cavalheiros que falam mas poucos que dizem. Falam até debaixo d'água. Não dizem coisa nenhuma. De tal forma que hoje em dia o conceito de literatura é até pejorativo. — Não presta para nada esse artigo. É só literatura. Aí está. A culpa é inteirinha dos que a ela se dedicam, banalizando-a, pondo-a ao alcance de toda a gente, com o objetivo de embasbacar até um limpador de trilhos da Light. Aliás para ser franco, ninguém se diverte mais do que eu com as asneiras dengues e sonoras dos oradores de minha terra. Sou leitor fanático dos apanhados jornalísticos das sessões no nosso Congresso, na nossa Câmara Municipal, das excursões políticas, das reuniões de agricultores, comerciantes e homens de letras, de todas as assembléias, de todas as festanças e comemorações discursadas. Leitura ainda mais hilariante que a dos livros de Jerome K. Jerome. Nem se compara. Entre os nossos vereadores e parlamentares, principalmente, há cada campeão em matéria de retórica edição Quaresma da gente ficar de boca aberta. Até entrar mosca. É verdade. Pessoal danado para dizer bobagem com ênfase. Nunca vi. A idéia vem sempre vestida de cores escandalosas, amarrada com laçarotes de penteado de negra, toda arranjadinha para dar bem na vista. Todos os discursos têm um trechinho imutável que eu não me canso de saborear. É quando o orador alude humildemente à miséria cearense dos seus dotes oratórios. É assim: O Sr. Sesostris da Cunha — Embora reconheça, Sr. presidente, que minha desautorizada voz, tão desafeita à tribuna, vem quebrar a harmonia (não apoiados gerais). O Sr. Amazonas Neto — V.ex. é um belo orador. Todos nós o ouvimos sempre com imenso prazer (apoiados gerais). O Sr. Sesostris da Cunha — Muito obrigado a v. ex. Como ia dizendo, Sr. presidente, sem embargo... Delicioso. E fatal. Mas, sobretudo, delicioso. Eu sei que estou sendo irritante. Paciência. Sei perfeitamente que nesta terra o que eu estou fazendo se chama falar mal. Paciência. É sempre melhor do que falar bem. Compreendam-me. João Filipe, que foi ministro de Floriano e hoje é professor jubilado da Politécnica do Rio, velhinho moço de sarcasmo estupendo, desabafou certa vez comigo: — Eles são bestas e não querem que a gente tome nota. Eu tomo, sim.
14. ALCÂNTARA MACHADO. A SOCIEDADE. — Filha minha não casa com filho de carcamano! A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque. O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço. O Lancia passou como quem não quer. Quase parando. A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino. Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C sabe: uiiiiia-uiiiiia! — O que você está fazendo aí no terraço, menina? — Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais? Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço. — Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar! — Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus! Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista. Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar: Dizem que Cristo nasceu em Belém... Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais. Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feitas e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos. — Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade. — Não! — Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu. ...mas a história se enganou! As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum! — Meu pai quer fazer um negócio com o seu. — Ah sim? Cristo nasceu na Bahia, meu bem... O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons. ...e o baiano criou! — Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão da Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele, compreendeu? — Já sei, mulher, já sei.
15. ALCÂNTARA MACHADO. APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA. O trenzinho recebeu em Magoarí o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro. Trem misterioso. Noite fora, noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam: — Vai pisar no inferno! Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando. O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito. Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Magoarí. Porém, aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Magoarí. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. 0 taioca guia dele só dava uma forga no bocejo para cuspir. Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz: — O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial? O rapaz respondeu: — Não sei: nós estamos no escuro. — No escuro? — É. Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo: — Não tem luz? Bocejo. — Não tem. Cuspada. Matutou mais um pouco. Perguntou de novo: — 0 vagão está no escuro? — Está. De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim: — Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz! E a luz não foi feita. Continuou berrando: — Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia. Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite: — Que é que há? Baiano velho trovejou: — Não tem luz! Vozes concordaram: — Pois não tem mesmo. Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo. Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou: — Ele é pobre como a gente. Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos. — Foguetes também? — Foguetes também. — Be-le-za! Mas João Virgulino observou: — Isso custa dinheiro. — Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magafere-chefe do matadouro de Magoarí, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse: — Dois quilos de lombo! Cortou outro e disse: — Quilo e meio de toicinho! Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas. — Quantas reses, Zé Bento? — Eu estou na quarta, Zé Bento! Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando. — Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? Baiano velho respondeu : — É por causa das trevas! O chefe do trem suplicava: — Calma ! Calma! Eu arranjo umas velinhas. João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos. — Aqui ainda tem uns três quilos de colchão mole! 0 chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às armas cidadãos! 0 taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confusão. Tocando a sineta o trem de Magoarí fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair foi o chefe, muito pálido. Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um: Os passageiros no trem de Magoarí amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante da Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares. Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou: — Qual a causa verdadeira do motim? O homem respondeu: — A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões. O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou: — Quem encabeçou o movimento? Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou: — Quem encabeçou o movimento foi um cego! Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.
16. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. O futuro de uma cueca de listras. O teatro da escola está repleto de alunos do ginásio. Os garotos acompanham com olhos enormes cada movimento, cada palavra do padre pesquisador de fenômenos paranormais. O sacerdote vai tecendo argumentos científicos que demolem tudo o que chama de superstição. Trata-se de um homem inteligente. Sabe que nos jovens corações que o ouvem se enraíza uma semente de conflito em relação a qualquer religiosidade. A fé não precisa ser obscura, ele repete. Para consolidar sua argumentação, convoca um voluntário a se submeter a uma sessão de hipnose. O garoto voluntarioso que se apressa em ir até o palco nem se lembra de que naquele dia está usando a odiada cueca de listras que ganhou de uma tia. Depois de ouvir duas ou três invocações, fica semiconsciente. Nesse estado, segue as sugestões do hipnotizador. Vira-se de um lado para outro, inclina-se para trás e para frente até que suas calças se desarranjam ligeiramente e revelam o terrível segredo. Nem os risos da platéia o despertam, o que é uma consagração ainda maior para o padre que, ao contar até três e estalar os dedos, liberta o hipnotizado da submissão. Assim, encerra-se a preleção, pois o sinal para o reinício das aulas já soa. Os demais alunos não arredam pé do teatro, mesmo com o terceiro toque fatal que precede a chamada nas salas de aula. Todos esperam com avidez para ver como será o despertar do hipnotizado. Acordou com o padre perguntando pelo seu nome e querendo saber se ele se lembrava de algo. Não, não se recordava de nada sobre os últimos minutos. Com naturalidade, como alguém que apenas se ausentara para ir à padaria, ajeitou as calças. Percebeu o afloramento da cueca de listras, mas teve presença de espírito para não a transformar em ator principal de uma farsa involuntária. Esse desempenho neutralizou a sanha dos colegas, que esperavam se divertir um pouco mais com um embaraço de sua parte. O padre insistia em perguntar por onde ele teria estado durante a hipnose e, diante da ausência de respostas, pôde concluir que o inconsciente era um manancial de riquezas inexploradas. Um universo de onde brotam as fantasias e, particularmente, as ilusões humanas. Mesmo grogue, o menino registrou com interesse essa descrição sobre a fonte do ilusório. Mais tarde foi aprender como as ilusões, inclusive a única reverenciada pelo padre, tentam tornar suportável a angústia de se desejar algo que não há. Um desejo que nos torna únicos e especiais, posto que as outras formas de vida apenas vivem, consumindo-se até o fim inevitável. Essas idéias, naquele dia, ainda eram tênues formações, sem merecer ser centro de atenção do menino. Esse era então um privilégio ocupado pela cueca de listras. Dela, o menino conseguiu se livrar pouco depois. Quanto às ilusões, o processo de libertação vem sendo mais árduo e me exige novos esforços todos os dias.
17. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Cardápio existencial. -E se a vida for como um cardápio? A pergunta pegou Rosinha de surpresa. Ela levantou os olhos do menu e se deparou com o marido em estado reflexivo. -Ora, Alfredo, deixe de filosofar e escolha logo o seu prato. Os dois haviam saído para jantar e estavam na varanda do Bar Lagoa, de onde se pode ver um cantinho de céu e o Redentor. -Rosinha, pense nas conseqüências do que estou dizendo. Se a vida for como um cardápio, nós talvez estejamos escolhendo errado. No lugar da buchada de bode em que nossas vidas se transformaram, poderíamos nos deliciar com escargots. Experimentar sabores novos, mais sofisticados... -Por que a vida seria como um cardápio, Alfredo? Tenha dó. -E por que não seria? Ninguém sabe de fato o que é a vida, portanto qualquer acepção é válida, até prova em contrário. -Benhê, acorda. Ninguém vai aparecer para servir o seu cardápio imaginário. Na vida, a gente tem que ir buscar. A vida é mais parecida com um restaurante a quilo, self-service, entende? -Boa imagem. Concordo com o restaurante a quilo. É assim para quase todo mundo. Mas quando evoluímos um pouco, chega a hora em que podemos nos servir a la carte. Rosinha, nós estamos nesse nível. Podemos fazer opções mais ousadas. -Alfredo, se você está querendo aventuras, variar o arroz com feijão, seja claro. Não me venha com essa conversa de cardápio existencial. Além disso, se a nossa vida virou uma buchada de bode, com quem você pensa experimentar essa coisa gosmenta, o tal escargot? -Querida, não reduza minhas idéias a uma trivial variação gastronômica. Minha hipótese, caso correta, tem implicações metafísicas. Se a vida for como um cardápio, do outro lado teria que existir o Grand Chef, o criador do menu. -Alfredo, fofo, agora você viajou na maionese. É o cúmulo querer reconstruir o imaginário religioso baseado no funcionamento de um restaurante. Só falta você dizer que nesse seu céu, os anjos são os garçons! Nesse momento, dois chopes desceram sobre a mesa. Flutuaram entre as mãos alvas, quase diáfanas, de um dos velhos garçons do Bar Lagoa. Alfredo e Rosinha trocaram olhares de espanto e antes que pudessem dizer que ainda não haviam pedido nada, o garçom falou com voz grave: -Cortesia da casa. Já olharam o cardápio?
18. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Ao sentir o afloramento da angústia, a Glorinha não tem dúvidas. Vai sempre ao shopping, onde compra um acessório, algo extremamente essencial, com o poder de tornar sua vida menos faltosa. Daquele tipo que logo depois é apenas mais um item supérfluo dentro de casa. O Leopoldo, quando fica angustiado, procura encontrar a cara metade. Já a encontrou algumas vezes, tanto que em alguns casos paga pensão decidida em Justiça, comprovando o quanto a tal metade era cara. Hoje, procura opções mais baratas, mas continua pagando. Quando o Joselito se angustia, toma um porre. Para ele, não cola essa história de que copo vazio está cheio de ar. Copo vazio deixa o Joselito angustiado. Afinal, não vê graça em apenas respirar. O Godofredo é zen, ou pelo menos está se esforçando para ser. Quem sabe assim arranja um jeito de neutralizar a maldita angústia que o consome. Ele aprendeu técnicas de meditação e relaxamento. Sua esperança é encontrar um mestre iluminado que lhe revele o sentido da dor. Por enquanto só encontrou paliativos, mas ele não desiste. A Luísa já passou dessa fase. Ela não busca mais o mestre. Já o encontrou e toda semana vai reverenciá-lo em um culto que a deixa em êxtase. A sensação dura algumas horas. Quando a angústia volta, ela começa a falar silenciosamente com o mestre. Conversa bastante, para ver se a maldita passa. O Júlio arranjou um jeito de lucrar com a angústia. Quando ela bate, ele pinta um quadro. Quanto maior for a bendita, mais prazer ele destila com os pincéis e as tintas. A energia flui dos cantos mais escuros para a claridade da tela. É certo que ele ainda não vendeu nenhum quadro. Seu lucro não é monetário. Por enquanto é um ganho pessoal, intransferível. Uma sensação de gozo que perdura na obra artística. Ele já tentou explicar seu método de relação com a angústia para os amigos. Logo percebeu que esse não é um conhecimento que se possa dividir, mesmo com quem se goste. Melhor do que falar, é mostrar seus quadros. Alguns amigos não entendem o que Julio pinta. Eles ficam angustiados vendo seus quadros. O pintor se angustia quando os amigos ficam assim. Aí ele pinta outras telas. De uns tempos para cá, o Júlio também resolveu escrever crônicas, algumas vezes poesia. Um crítico, que não entendeu nada, disse que o texto do Júlio era hermético como uma pintura abstrata. O pintor-cronista-poeta ficou maravilhado.
19. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Não consigo deixar de pensar nisso. -Nisso o quê? -Como teria sido o mundo sem Colombo. Nós nem estaríamos aqui nesse botequim bebendo chope e papeando... -Então, salve Colombo! Deixe de pensar nele. Viva o presente e, principalmente, pague o que me deve. -Você não entendeu. Não estou pensando em Colombo. Estou pensando no que teria sido o mundo sem ele. -Com ele ou sem, os europeus iriam acabar chegando ao Rio de Janeiro e hoje alguém iria estar tomando chope em um botequim como esse. Tudo seria mais ou menos igual. Até um caloteiro como você iria existir. -Você está enganado. Sem Colombo, nós não estaríamos aqui. Sem ele, iria prevalecer o método de Portugal, que eram as cabotagens em torno da África e da Ásia. Um processo muito mais lento. Em qualquer lugar em que vissem mulher bonita, os portugueses paravam e se punham a fazer versos e a tocar suas guitarras. -Eles estavam certos, quer coisa melhor do que mulher, poesia e música? -Mas perceba as conseqüências. Seguindo as cabotagens, os portugueses chegariam ao Japão, como fizeram realmente, mas talvez demorassem muito mais para se arriscar em linha reta ao Oriente. Foi a loucura de Colombo que fez os portugueses virem direto para a América. Se dependesse deles, isso poderia ter demorado mais, quem sabe uns duzentos anos. -E daí? Um pouco antes, um pouco depois, terminaria tudo como estamos vendo agora. -De forma alguma. Sem as Américas, não haveria batatas no cardápio da Europa. Sem batatas, a população européia iria continuar passando fome, crescendo devagar. Não haveria o excedente que criou o exército de mão-de-obra de reserva, a mais valia. Não teria havido a Revolução Industrial. -Você não acha que está exagerando um pouco? -Claro que não. Sem Colombo, não teria havido luta de classes e as revoluções que balançaram o mundo no último século. -Aonde você quer chegar com essa conversa? -Ora, meu ponto de vista é claro. A ousadia de Colombo criou o mundo como o conhecemos. É preciso ser ousado, é preciso ir além do convencional. -Ainda não entendi o que quer dizer esse papo todo. -Bom, você mesmo podia ser mais ousado e fazer um gesto inesperado. Por exemplo, poderia perdoar essa dívida que veio me cobrar. -Tenha paciência. Está me achando com cara de Jesus Cristo? Essa conversa toda é apenas mais uma forma de você adiar o pagamento. Você está me enrolando. -Longe de mim essa idéia! Mas continuando nosso assunto, como teria sido a história do mundo sem Jesus Cristo? Você já pensou nas conseqüências?
20. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Não consigo deixar de pensar nisso. -Nisso o quê? -Como teria sido o mundo sem Colombo. Nós nem estaríamos aqui nesse botequim bebendo chope e papeando... -Então, salve Colombo! Deixe de pensar nele. Viva o presente e, principalmente, pague o que me deve. -Você não entendeu. Não estou pensando em Colombo. Estou pensando no que teria sido o mundo sem ele. -Com ele ou sem, os europeus iriam acabar chegando ao Rio de Janeiro e hoje alguém iria estar tomando chope em um botequim como esse. Tudo seria mais ou menos igual. Até um caloteiro como você iria existir. -Você está enganado. Sem Colombo, nós não estaríamos aqui. Sem ele, iria prevalecer o método de Portugal, que eram as cabotagens em torno da África e da Ásia. Um processo muito mais lento. Em qualquer lugar em que vissem mulher bonita, os portugueses paravam e se punham a fazer versos e a tocar suas guitarras. -Eles estavam certos, quer coisa melhor do que mulher, poesia e música? -Mas perceba as conseqüências. Seguindo as cabotagens, os portugueses chegariam ao Japão, como fizeram realmente, mas talvez demorassem muito mais para se arriscar em linha reta ao Oriente. Foi a loucura de Colombo que fez os portugueses virem direto para a América. Se dependesse deles, isso poderia ter demorado mais, quem sabe uns duzentos anos. -E daí? Um pouco antes, um pouco depois, terminaria tudo como estamos vendo agora. -De forma alguma. Sem as Américas, não haveria batatas no cardápio da Europa. Sem batatas, a população européia iria continuar passando fome, crescendo devagar. Não haveria o excedente que criou o exército de mão-de-obra de reserva, a mais valia. Não teria havido a Revolução Industrial. -Você não acha que está exagerando um pouco? -Claro que não. Sem Colombo, não teria havido luta de classes e as revoluções que balançaram o mundo no último século. -Aonde você quer chegar com essa conversa? -Ora, meu ponto de vista é claro. A ousadia de Colombo criou o mundo como o conhecemos. É preciso ser ousado, é preciso ir além do convencional. -Ainda não entendi o que quer dizer esse papo todo. -Bom, você mesmo podia ser mais ousado e fazer um gesto inesperado. Por exemplo, poderia perdoar essa dívida que veio me cobrar. -Tenha paciência. Está me achando com cara de Jesus Cristo? Essa conversa toda é apenas mais uma forma de você adiar o pagamento. Você está me enrolando. -Longe de mim essa idéia! Mas continuando nosso assunto, como teria sido a história do mundo sem Jesus Cristo? Você já pensou nas conseqüências?
21. ANTÔNIO CARLOS VILLAÇA. QUANDO EU CHEGAR AO CÉU! Quando eu chegar ao Céu, de manhã, de tarde ou de noite, não sei ainda, pedirei para ir à biblioteca de Deus, onde curiosamente bisbilhotarei — com respeito — algumas obras. Quero reler a Invenção de Orfeu, de nosso Jorge de Lima, sofredor, telúrico e místico, homem bom, cirenaico, assim lhe chamou Rachel de Queiróz, quando ele morreu, novembro, 15, do ano de 1953. E pedirei, sim, para conversar com Manu, Manuel Bandeira, que se chamava Neném. Matarei saudades do dentuço Manuel, que foi o melhor ser humano que conheci, neste mundo. E gostaria de conhecer Chiquita do Rio Negro, que recusou casar se com Ataulfo Nápoles de Paiva, conviva do baile da ilha Fiscal. Escrevi sobre Chiquita. Li a sua biografia, escrita por Garrigou-Lagrange. Meu Deus, convocaria Jaime Ovalle, o tio Nhonhô, que morreu com a idade de Jorge de Lima. Ali, na biblioteca do Céu, conheceria o estupendo Ovalle, o do Azulão, o bêbedo místico, o amigo de Manuel, íntimo de Londres e de Nova York. Por fim, suplicaria para falar com João Guimarães Rosa, poliglota, com quem tão poucas vezes falei. E evocaria a posse do seu sucessor, na Casa de Machado. Esqueci-me completamente dessa posse, ai de mim. E fui. Lá estava eu, 1968. Um ano depois da morte de Rosa. Mário Palmério falou sobre ele, como seu herdeiro. E gostei tanto do discurso, equilibrado, lúcido, original. Se me lembro. Foi procurar cartas íntimas de Rosa para grande amigo, médico e fazendeiro em Minas, Moreira Barbosa. Cartas de outrora. Deliciosas, fraternais, confiantes, de pura entrega. Reveladoras do ser complexíssimo, fechado, carente, que gostava de disfarçar, despistar, ir e vir, comensal do mistério. Saudarei a uns e outros na largueza dadivosa do Céu, turbilhão de amor, como dizia o insaciável Léon Bloy.
22. ANTÔNIO MARIA. O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo: "Acordo às sete da manhã e a primeira coisa que faço é tomar o meu bom chuveiro". Como são desprezíveis as pessoas que falam no "bom chuveiro!" E segue o parceiro: "Depois peço os jornais, sento à mesa e tomo meu café reforçado". Ah, a pena de morte, para as pessoas que tomam "café reforçado!" E a explanação continua: "Nos jornais, vocês me desculpem mas, a mim, só interessa o artigo de Macedo Soares e as histórias em quadrinhos". Nessa altura o autobiográfico procura colocar-se em dois planos, que lhe ficam muito bem: o que ele julga de seriedade política (Macedo) e o outro, de folgazante espiritual (histórias em quadrinhos). E vai daí para outra modesta homenagem a si mesmo: "Aí, então, é que vou me vestir. Quanto à roupa, nunca liguei muito, mas, camisa e cueca, tenha paciência, eu mudo todo dia". O "tenha paciência" é porque está absolutamente certo de que estamos com a camisa e a cueca de ontem. "Acordo minha senhora, pergunto se ela quer alguma coisa e vou para o escritório". Gente que chama a mulher de "minha senhora" está sempre pensando que: não acreditamos que eles sejam casados no civil e no religioso; no fundo, desconfiamos de que sua mulher lhe seja infiel. E vai adiante o mal-feliz: "Só aí vou para o escritório, mas nunca antes de passar no jornal, para ver se há alguma coisa". Esse "passar no jornal" é um pouco difícil de explicar. Mas todo homem banal tem muita vergonha de não ser jornalista e alude sempre a um jornal, do qual tem duas ações ou pertence a um primo, ou amigo íntimo. Vai por aí contando sua vidinha, que termina, melancolicamente, com esta frase: "À noite, eu sou da família!". Bonito! "Visto meu pijama, janto, deito no sofá e vou ver a televisão, com as crianças em cima de mim". Está aí o retrato perfeito do cretino nacional. E, o que é triste, além de numeroso, está em toda parte. Que horror me causam as pessoas do "bom chuveiro", do "café reforçado", os de "Macedo Soares e das histórias em quadrinhos" (os que gostam só de Macedo Soares ou só de histórias em quadrinhos são ótimos), que precisam dizer que mudam camisa e cueca todos os dias, as que citam "sua senhora" e os que "passam no jornal, antes de ir para o escritório". Nossa maior repulsa, ainda, por quem janta de pijama e deita no sofá, com as crianças em cima. Ah, essa gente me procura tanto!
23. ANTÔNIO MARIA. Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá. Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto? Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer: — Estou me sentindo assim, assim, assim... A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os que fazeres do sexo. Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença. E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: "Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country". Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca. Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme. Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta: — Que é que houve? O senhor está mais velho? Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou: — O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu. Tinha pensado que, sem os óculos... Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes. Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.
24. ANTÔNIO MARIA. Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havíamos bebido e procurávamos um café aberto, para uma média, com pão-canoa. Quase todos estavam fechados ou não tinham ainda leite ou pão. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um português e nos conhecia de nome de notícia. Propôs-nos, em vez de café, um vinho maduro, que recebera de sua terra, "uma terrinha (como disse) ao pé de Braga". Não se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstâncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a José Manuel Pereira, que nos deu seu vinho. Nesse café, além de nós, havia um casal, aos beijos. As garrafas vazias (de cerveja) eram quatro sobre a mesa e seis sob. Beijavam-se, bebiam sua cervejinha e voltavam a beijar-se. Não olhavam para nós e pouco estavam ligando para o resto do mundo. Em dado momento, entraram dois rapazes e pediram aguardente no balcão. Ambos disseram palavrões, em voz alta. O casal dos beijos e da cerveja parou com as duas coisas. Outros palavrões e o cabeça do casal protestou:— Pára com isso, que tem senhora aqui! Um dos rapazes dos palavrões:— Não chateia!— Não chateia o quê? Pára com isso agora! Um dos rapazes do palavrão:— E essa mulher é tua mulher?— Não é, mas é mulher de um amigo meu! A briga não foi adiante. Todos rimos. O dono da casa, os rapazes dos palavrões, o casal. Está provado que: quem sai aos beijos com mulher de amigo não tem direito a reclamar coisa alguma.
25. ANTÔNIO MARIA. Aconteceu na Avenida Copacabana, esquina de Santa Clara. Uma jovem senhora chamou o guarda e apontou o homem, encostado a um poste:— Prenda este homem, que ele está se portando inconvenientemente. Era um homem magro, pálido, vestido em casimira velhinha. Não tinha cara de gente má. Ao contrário, seus olhos eram doces e mendigos. O policial segurou o homem pela lapela. O homem não se mexeu. Apenas levantou os olhos e perguntou: - Por quê? A senhora estava uma fúria e dizia num fôlego só:— Há uma hora este cidadão me segue. Começou no lotação. Desceu quando eu desci. Entrei numa loja e ele entrou também. Andei um quarteirão e ele andou também. Entrei no mercadinho e ele entrou também...— E lhe disse alguma coisa?— Não. Só olhava. O guarda soltou a lapela do homem. O homem agradeceu. O guarda dirigiu-se ainda à mulher:— Mas ele só olhava?— Sim. Mas olhava de maneira obscena. O guarda perguntou, então, ao homem:— Você olhava de maneira obscena?— Sim. Não sei mentir. Mas qualquer um no meu lugar faria o mesmo. 0 senhor já viu ela andar? 0 guarda viu depois, quando a mulher desistiu da prisão do seu espectador e foi andando. Não se deve explicar muito, mas é preciso que se diga: era uma moça brasileira. Uma moça de formato brasileiro, com movimentos brasileiríssimos. Dessas que deviam ter, como certos automóveis, uma tabuleta às costas, onde se lesse: "Amaciando".
26. ANTÔNIO MARIA. Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa. O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação. Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.
27. ANTÔNIO MARIA. Dinheiro — Preciso 35 mil cruzeiros empréstimo, boas referencias. Pago no vencimento 50 mil 30 dias.— Mas, a gente vai separar por quê? — perguntou o marido. A conversa começou cerca da meia-noite, e eram oito da manhã. Marilda só dizia que ia separar e que não ficava mais nem um dia. Na hora de explicar o motivo, se trancava. A pergunta "você tem um novo alguém", Jaribe lhe fizera umas mil vezes. Marilda se arrepiava da cabeça aos pés, com a forma "um novo alguém". Foi quando Jaribe levantou, foi no armário e, de urna malinha da Varig, trouxe um Smith Wesson 38, carga dupla.— Fala, Marilda. Se não falar eu me mato aqui mesmo. Marilda não sabia daquele revólver. Nunca vira, antes, alguém com um revólver na mão. Sentiu uma náusea. A violência, qualquer espécie de violência, lhe nauseava. Pediu:— Guarde o revólver que eu falo. Jaribe atirou o revólver, de qualquer maneira, no armário.— Vai, fala. Marilda ergueu metade do corpo e recostou no espaldar da cama. Tinha que falar. Um homem nunca se conforma em separar-se sem ouvir, bem direitinho, no mínimo 500 vezes, que a mulher não gosta mais dele, por que e por causa de quem. Já mulher, não (pensava). Basta que o homem lhe diga uma vez que quer ir embora, nasce-lhe um brio, um ódio poderoso, uma espécie de soberba, tão grande, que ela se veste toda, pega um telefone, pede um táxi e sai. Mulher (pensara Marilda, a noite inteira) pode não ter muita vergonha nos outros lugares. Mas, na cara, tem. Mulher não se importa de vestir o menor dos biquínis e deixar que a vejam, horas. Mas não consente que o homem que a despreza lhe olhe a cara, um só minuto. Mas tinha que falar, porque homem, enquanto não sabe do pior, não sossega. E começou, Marilda, sem um segundo de sono (seis "dexas"), recostada no espaldar.— Escuta, bem. Você sabe que eu tenho minhas coisas, não sabe? Fala. Sabe ou não sabe? — Mas conta.— Você vai dizer que eu sou louca, se eu disser que, no terceiro mês de casada, não agüentava ouvir ou dizer seu nome. Nós estamos casados há dois anos e três meses, não é? Pois bem, qual foi a última vez que você me ouviu chamar você pelo nome? Jaribe fez uma rápida busca no tempo e só lembrou de Marilda a chamá-lo de "meu bem". Ou, então, quando não havia ninguém perto, falar assim: "hei"!... e dizer o que queria. Marilda continuava:— Tentei o seu sobrenome. Você se lembra que, de junho a agosto do ano passado, eu passei chamando você de Carvalho? Mas não podia continuar. Mulher chamar marido pelo sobrenome é humilhante demais.— Mas meu nome é tirado da Bíblia — ... apelou Jaribe. Marilda continuou:— Mas não é só isto. Você fala umas coisas que não há mulher que agüente. Houve uma pausa, que Jaribe se apressou em quebrar:— Por exemplo? Marilda preferia não dizer. Ajeitou-se no espaldar da cama, puxando o lençol acima dos seios, pois naquela posição a camisola não estava dando conta. Mulher não diz nada sério, não assume mesmo a mínima dignidade, se houver qualquer de suas pudícias à mostra. Marilda puxou o lençol até o pescoço.— Eu estou esperando — insistiu Jaribe. E Marilda falou o resto:— Outra coisa: você fala "menas".— Como assim?— Você diz muito: "menas gente".Jaribe a amava como um louco. Sentia, por dentro, uma dor enorme. Aquela dor da falta de ginásio. Mas queria saber tudo:— E você tem um novo alguém? Marilda botou o rosto dentro das mãos e começou a chorar. Chorava e falava, ao mesmo tempo:— Me manda embora! Me manda um mês para fora pra ver se a gente conserta! Deixa eu ficar dois meses no Paraná com a família da minha madrasta! Vai, arranja um dinheiro e me manda! Depois a gente acerta. Jaribe o que queria era esperança. Como todo homem que sente perder a mulher, queria a esperança de ainda retê-la. Tivesse ou não "um novo alguém", ele queria Marilda. Honra? O que é honra? Em que parte do corpo está localizada? Com a lucidez dos enganados, Jaribe descobria todas as verdades da vida. Pobre Jaribe! Iria arranjar o dinheiro, custasse o que custasse. Com uns 35 mil cruzeiros, solucionaria o problema. Qualquer agiota lhe emprestaria 35 por cinqüenta, em trinta dias. Qualquer um. O próprio contador da Importadora. Se falhasse, era só botar um anúncio no Jornal do Brasil. Naquela efusão de suas esperanças, pensou: "Por que será que a Condessa comprou a Tribuna?". Pôs-se de pé.— Olha, Marilda. Você vai para o Paraná, sim. Depois de amanhã. Fica lá, descansa, passa o tempo que quiser e depois volta.— Faz uma coisa — pediu Marilda —. Você me escreve, tá?— Claro. Você vai para descansar. E Jaribe foi para o banheiro, alentado por todos os maus alentos. Vigiar-se-ia dali por diante quando falasse. Precisava de Marilda. Retê-la-ia, custasse o que custasse. E, coitado, em tudo o que pensava, não estava mais que estruturando sobre o absurdo.
28. ANTÔNIO PRATA. QUASE. Como nunca levou jeito para a música nem para a arte da carpintaria, Osmar dos Santos formou-se advogado — profissão que muito lhe convinha, visto que não nascera para outra coisa senão para advogar. Rosinha Carvalho, por sua vez, já aos treze sabia comandar uma casa como ninguém: lavava, passava, cozinhava e fazia magníficos arranjos de flores. Certa vez passou por Bauru, onde residia a moça, um amigo do Dr. Carvalho que, abismado com os arranjos, felicitou: "Mas que lindo arranjo de flores, Rosinha!" Dr. Carvalho, bom pai e conhecedor das artes varonis para atingir a cópula, muito prudentemente acertou três tiros no homem, que morreu ali mesmo. Mas Osmar nunca ficou sabendo do ocorrido, posto que não nascera em Bauru nem nunca por lá passara (a bem da verdade, só saíra uma vez de sua cidade, indo para São Vicente a trabalho) e, sendo assim, não ficou chocado e pôde continuar com sua nobre ocupação sem maiores (nem menores) tormentos. Rosinha chorou um pouco, mas depois resignou-se com a fatalidade e continuou com seus lindos arranjos. Rosinha, bela moçoila e prendada como só, já estava em idade de casar. Osmar, advogado com o diploma na parede e a bela tabuleta na porta, também. Eis que um dia quis o destino, esse cosedor de histórias, unificador do diverso, carpinteiro da vida, que Rosinha fosse a Pirajuí, cidade mui bela onde habitava, entre muitos outros, Osmar. Rosinha iria acompanhar a mãe num encontro com umas primas distantes, a respeito de uma herança deixada por um tio. Antes do ocaso, partiam numa caravana com mais três capangas e duas mucamas muito limpinhas rumo a Pirajuí. Em lá chegando, foram direto à casa das primas, que, com chá e biscoito, as receberam de forma cordial e hospitaleira. Como faltava açúcar, dona Isaura Carvalho, mãe de Rosinha, mandou-a à mercearia, acompanhada de uma das serviçais. Por acaso ou não, ocorreu que, neste mesmo instante, Osmar se deu conta de que havia acabado suas cigarrilhas, tão importantes em sua rotina e em sua nobre ocupação, dando-lhe um ar austero que um bom advogado precisa ter. Assim sendo, levantou-se e rumou à mercearia, a mesma já mencionada, para onde também ia nossa querida Rosinha. Osmar chegou primeiro e pediu as cigarrilhas. Abriu o pacote e pegou uma. Quando já ia saindo, chegava Rosinha. Infelizmente, ocupado que estava em acender seu precioso tabaco, Osmar não avistou Rosinha,tendo ela, portanto, jamais se casado com ele.
29. ANTÔNIO PRATA. PRIVADA I: O HOMEM E SUA OBRA. "Este ódio de tudo o que é humano, de tudo o que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria', este horror dos sentidos (...) tudo isso significa (...) vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". Nietzsche. O Homem é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos os únicos na vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e conseguíamos encostar o dedão no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com panos, penteamos o cabelo pra trás, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e saímos da selva. Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de todos os seus habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza! Nós usávamos ferramentas, meias e fio dental! Novo rico que se preze, no entanto, dá bandeira. Há sempre um douradinho além da conta, um sotaque suburbano escapando num momento de exaltação, um conversível rosa com a placa mom ou dad. Com a humanidade também é assim. Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em pesquisa para criar lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda a crosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos denunciará o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem desculpa, não tem disfarce. A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de onde viemos. Aí não tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do tamanduá. Nus como as trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade universal, fisiológica, cilíndrica e obscura que por tanto tempo tentamos ocultar. Somos animais! Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das conseqüências que tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário existir, mas não é preciso divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao ostracismo. No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fácil. O sujeito simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia embora, deixando as sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e andando. Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e, portanto, a agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas. Foi o crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o processo. A moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-se sempre o risco de se encontrar um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda mão. Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante idéia: cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em pouco tempo a invenção de Walter, assim como suas iniciais, já podiam ser vistas em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas veio a revolução industrial, o grande êxodo para as cidades e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia. Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso próprio lar. Para que isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos antiacne e todas as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos perfumados. Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades com o máximo distanciamento possível. Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo. Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta. E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito. Como se sabe, só as baratas sobreviverão.
30. ANTÔNIO PRATA. ASCENSÃO. Faz apenas um segundo que Woopy Goldberg terminou de anunciar: "and the Oscar goes to João Arlindo, from Brasil! With the film “Batuque”, mas ele permanece imóvel. E com uma ereção daquelas não vai levantar mas nem fodendo — me perdoem o trocadilho. Com a calça fininha do smoking alugado, e de cueca samba-canção então... Seria um vexame sem precedentes, compartido via satélite por mais de um bilhão de pessoas de Belford Roxo a Pequim, passando pela casa da tia Conceição, que acaba de dar o primeiro soluço de felicidade, e pelo bar do Pedrão, onde nesse instante todos os amigos se levantam das cadeiras e pulam de alegria. João terá que tomar alguma atitude. E rápido. Mas qual? Já se passaram três segundos desde que anunciaram seu nome. Três segundos é pouca coisa. E o tempo que leva para a pessoa perceber que é com ela, abraçar o companheiro do lado, esticar as pernas e começar o longo caminho da poltrona até o palco, tremendo que nem vara de marmelo (segundo dizem aqueles que já viram uma vara de marmelo). E o que demora para a tradução simultânea (que nunca é simultânea, e às vezes tampouco tradução) repetir o nome do ganhador, do filme e do país de origem do filme. Mas depois de seis, oito segundos, a coisa já vai começar a ficar esquisita. Por que o cara não levanta? — se perguntará o quase um quarto da humanidade que acompanha o acontecimento. A câmera já está mostrando João, e em no máximo dez segundos Rubens Ewald Filho fará algum comentário. A Woopy Goldberg — quem sabe? — também. E aí? Já se passaram cinco segundos e João sente-se como naquelas cenas em que o herói vai correndo pelo píer e não sabe se salta ou não salta no barco que zarpa, levando sua amada, ou como o jogador que caminha em direção à bola e tem que escolher de que lado baterá o pênalti. A situação de João é ainda pior do que as descritas, porque não se trata de optar entre duas possibilidades, mas de inventar sua própria saída — e será que existe alguma? 0 tempo que leva um pinto da ereção completa à broxada total é superior ao que se pode esperar na poltrona, depois que já anunciaram que você é o ganhador do Oscar sem causar estranhamento. Além do mais, as únicas coisas que passam pela cabeça de João são os rios de suor que descem, caudalosos, em direção às costas. Sete segundos. Rubens Ewald Filho comenta que João Arlindo, "o filho pródigo da cinematografia nacional, está tão emocionado diante do primeiro Oscar brasileiro, que mal consegue levantar-se da poltrona!". Mal sabe Rubens que, caso João se levante agora, mais olhos verão a sua pródiga ereção do que viram o homem pisar na lua! Nove segundos. 0 coração de João está a 210 bps, e o fluxo sangüíneo só faz perpetuar seu estado de desesperação. Isso é o Oscar, meu amigo, não é uma festa de debutantes em Mogi das Cruzes! É o maior ritual global o circo do Império e, na situação em que se encontra João será comido pelo sarcasmo de mais de um bilhão de leões-telespectadores! E entrará para a mitologia contemporânea como "o cineasta que teve uma ereção no Oscar", e assim será comentado nas rodas globais: "Oh you mean: that brazilian director who had an erection during the Oscar ceremony? Yes, of course I remember! How could I forget?!" "Hombre, João Arlindo es el tío aquel de la erección, verdad?" "Hein kraft nich däs ereckcionaz, nun?", e durante algumas semanas seu nome será mais digitado na Internet do que o de Britney Spears, do Michael Jackson e da Madonna juntos. João sabe muito bem disso. Onze segundos. Woopy Goldberg vai de novo ao microfone: "João, are you there?!". Como conseqüência 1 bilhão, 234 milhões, 187 mil e 27 pessoas riem, pois sentem compartilhar a estranheza diante daquele premiado que não se levanta. Essas 27 são os amigos lá no bar do Pedrão, que ainda se abraçam e agora pulam ao som de “Aquarela do Brasil”, oportunamente colocada pelo próprio Pedrão (versão do Canal 100, por Valdir Calmon e sua orquestra). Tia Conceição, por entre um soluço e outro, observa preocupada a demora do Joãozinho em sair da poltrona. Rubens Ewald Filho comenta: "Gente, será que tá acontecendo alguma coisa com nosso querido João Arlindo?". Antes que Rubens Ewald acabe seu comentário, no entanto, o cineasta brasileiro já sumiu do enquadramento da câmera que até então o mostrava: entre o segundo 12 e o 13 João Arlindo se atirou da poltrona e estatelou-se no chão do corredor. Agora, sobre o tapete vermelho ele se contrai, esperneia e baba, da forma que sempre ouviu dizer que fazem os epilépticos. Diante do silêncio de um quarto da humanidade, da Woopy Goldberg, do Rubens Ewald Filho e da tia Conceição, o primeiro cineasta brasileiro a receber um Oscar é retirado de maca. E, a despeito da insistência do pessoal da emergência em esticá-lo, ele consegue colocar-se de ladinho, e é assim, em posição quase fetal, que some pelas coxias do enorme teatro, sem deixar notar a ereção. Tia Conceição não agüenta de desespero e morre do coração. O pessoal do bar do Pedrão, perplexo, continua abraçado e olhando o telão. Será só no segundo 124 que esboçarão um movimento, quando o celular do Serginho, ligado no sistema vibratório, tremer no bolso de sua calça. Do outro lado da linha, uma voz muito conhecida dirá: "Caralho, Serginho, cês não vão acreditar no que me aconteceu!".
31. ANTÔNIO PRATA. RECEITA. Fazer um texto não é difícil. Como tudo na vida, basta que sigamos um método. Depois de muitos estudos sobre o assunto, tendo consultado desde os mais ancestrais pergaminhos ciganos da Checoslováquia até as últimas pesquisas científicas norte-americanas, juntei conhecimento suficiente para produzir um pequeno tratado sobre o tema. Se o publico aqui não é por vaidade ou capricho, mas porque acho que todo conhecimento deve ser compartido. Dessa forma, tenho esperança, chegará o dia em que todo o saber humano poderá ser reunido e centralizado em um único programa de computador, ou software — que é o termo correto — e vendido a preços módicos nas bancas de jornal, postos de gasolina ou virão grátis nas compras acima de 50 reais nos supermercados Mambo. Aí vai, portanto, a minha modesta contribuição. Como escrever um texto. Assim como para fazer uma sopa é preciso, antes de mais nada, escolher os ingredientes, para escrever um texto é necessário, primeiramente, selecionar as palavras que vamos usar. Se para os ingredientes da sopa vamos ao mercado, para encontrarmos as palavras recorremos ao dicionário. Algumas considerações desnecessárias (porém interessantes). O dicionário é superior ao mercado em muitos aspectos. Em primeiro lugar, porque no dicionário o preço das palavras não cresce a cada dia — como ocorre com os legumes no mercado —, posto que todas são de graça. Ademais, os dicionários podem ser guardados na estante da sala, o que seria impossível de se fazer com um mercado — não por sua forma, muitas vezes retangular como os dicionários, mas devido ao tamanho (mais provável seria guardar a estante da sala no mercado, mas isso seria inútil tendo em vista que nosso objetivo não é dar cabo da estante e sim escrever um texto). Há uma diferença básica entre os mercados e os dicionários: se nos primeiros os produtos entram novos e saem assim que fiquem velhos, no segundo não se encontra um só artigo novo, pois ser velho é condição sine qua non para estarem ali. Apesar das considerações anteriores, é impossível provar logicamente a superioridade de um mercado sobre um dicionário ou vice-versa. Prova disso é que podemos tanto encontrar dicionário em um bom mercado, como mercado em um bom dicionário. Assim sendo, deixemos de lado essas comparações inúteis e voltemos ao tema em questão: como escrever um texto. Agora sim, como escrever um texto, parte I: Ritmo. Tanto os pergaminhos ciganos da Checoslováquia como os cientistas norte-americanos estão de acordo em um ponto: um texto deve ter ritmo. Por isso, uma vez aberto o mercado, perdão, o dicionário, é importante ter em mente que um bom escrito leva um número equivalente de palavras pequenas, médias e grandes. Um método infalível na hora de separar as palavras é, sempre que escolhermos uma curta, como chá, lua ou oi, buscarmos imediatamente uma comprida, como halterofilismo, mononucleose ou antropomorficamente. Assim que você sentir que já tem em mãos um bom número de palavras curtas e longas — isso depende do tamanho do texto que quiser escrever —, parta para a busca de um número igual de palavras médias, tais como sudorese, abobado ou alicate. Aconselha-se anotar essas palavras num papel, com lápis ou caneta, ou datilografá-las num computador ou máquina de escrever, de acordo com as condições infra-estruturais de cada um. (O texto final, no entanto, poderá ser escrito de muitas outras maneiras, como com sangue nas paredes, com canivete num tronco de árvore ou com um arco de violoncelo nas areias de Jericoacoara, dependendo não só das condições infra-estruturais como do efeito desejado. Isso fica a cargo do autor.) Parte II: Etiqueta ou bom senso. Se para uma sopa de batatas precisamos de muitas batatas e para uma sopa de beterraba muitas beterrabas, para um texto triste precisamos de palavras tristes, para um texto audacioso de palavras audaciosas e para um texto semi-erótico de palavras semi-eróticas. Se o autor tem em vista um texto fúnebre, por exemplo, não cairão bem as palavras lantejoula ou meretrizes, assim como num convite de casamento dificilmente se poderá usar a palavra excremento (apesar de, todo o apelo que a rima possa ter). É sempre bom observar essa pequena, porém importante, formalidade da escrita. Parte III: Pontuação. Nesta altura o futuro autor já tem consigo um bom número de palavras, harmoniosamente divididas entre curtas, médias e longas, anotadas em alguma superfície de celulose ou cristal líquido. Chegou a hora de condimentar essas palavras. Os pontos são no texto o que os temperos são para a sopa, e é importante saber usá-los. Para cada cinco palavras, em média, o autor deverá ter uma vírgula. Para cada dez, um ponto. Para cada 15, uma interrogação e/ou uma exclamação. Algumas dicas: para um texto mais picante, acrescente muitas exclamações. Nunca use muitas interrogações se o texto se destina a um grande público. Por último, evite as crases, os tremas e o ponto-e-vírgula, pois são de sabor muito forte e devem ser usados com parcimônia, assim como o gengibre ou o curry na culinária. Parte IV: Prosa e poesia. Tendo os ingredientes e os temperos todos à frente, é chegado um momento muito importante, a hora de se decidir que tipo de texto se quer escrever. Há somente dois, prosa e poesia. É muito fácil diferenciar um do outro: os de poesia são fininhos e as frases se colocam umas sob as outras, formando pequenos blocos. Ao final de cada um desses tijolinhos, pula-se uma linha e começa-se um novo. Os textos de prosa são mais consistentes, e as linhas ocupam toda a extensão da página, desde a margem esquerda até a direita. Se o autor é preguiçoso ou está terrivelmente atrasado para algum compromisso, convém fazer uma poesia. Nesse caso, vale a pena seguir alguns passos. 1 — Volte ao dicionário e busque algumas interjeições como Oh! e Ah!. Não economize também nas reticências, exclamações e interrogações. São pequenos detalhes, mas muito úteis. Mesmo a mais simples das frases, se antecipada por uma dessas palavrinhas e seguida por esses pontos, ganhará um novo alento, uma vaguidão que facilmente será confundida com profundidade, como você pode comprovar no exemplo a seguir: Antes: Havia casas azuis. Depois: Oh! Havia casas... Azuis?! Caso o futuro autor disponha de mais tempo e motivação, e deseje escrever um texto em prosa, não encontrará grandes dificuldades. Basta pegar todas as palavras previamente selecionadas e dispô-las sobre a página. Não é preciso lavá-las nem deixá-las de molho. Tente sempre mesclar as pequenas, médias e grandes. Lembre-se de que os pontos, as exclamações e interrogações vão sempre ao final das frases, e os acentos em cima das palavras. A cada seis ou sete linhas, termine uma frase no meio da folha e comece outra embaixo, depois de um espaço. Isso se chama parágrafo. Os antigos pergaminhos da Checoslováquia demonstram alguma preocupação quanto à importância do sentido e da clareza em um texto. As últimas pesquisas norte-americanas, no entanto, provam que essas questões são absolutamente irrelevantes. Uma rápida visita a uma biblioteca demonstrará que há textos dos mais absurdos impressos por aí, e que nem a clareza nem o sentido são as características que fazem deles clássicos ou novelinhas baratas, exemplares da Academia Brasileira de Letras ou calço para mesas. Por último, cabe destacar que um texto, ao contrário de uma sopa, não alimenta, não esquenta, nem pode ser servido com conchas. Assim como até hoje não tive notícias de nenhuma ONG ou instituição beneficente que saia pelas madrugadas frias distribuindo textos e cobertores para mendigos (embora não seja uma má idéia). Não podemos deixar de mencionar que um texto resulta mais prático que uma sopa, pois pode ser guardado na estante da sala e não precisa ser resfriado nem muito menos congelado. Apesar das considerações anteriores, é impossível provar a superioridade de um texto sobre uma sopa ou vice-versa. Mesmo porque, é possível encontrar tanto letras em boas sopas, quanto sopas nas boas letras. Assim sendo, vamos ficando por aqui. Afinal, os textos e as sopas, os mercados e os dicionários, as palavras grandes, os ingredientes, eu, você, os cientistas norte-americanos e os pergaminhos da Checoslováquia nos assemelhamos numa única coisa: todos, em algum momento, chegamos ao fim.
32. ANTÔNIO PRATA. PRA LUA. Não foi assim logo de cara. Claro, seu Julião e dona Neuza já tinham reparado numa coincidenciazinha aqui, uma sorte acolá, mas só foram perceber que Julinho tinha mesmo um dom especial no verão de 1984, em Caraguatatuba, assim que o moleque acabou de chupar o quinto picolé, de manga. Quinze minutos antes, ao acabar o primeiro sorvete, um Fura-bolo, Julinho pulou de alegria: o palito viera premiado, dando direito a mais um. Até aí, nada de mais... Acontece que o segundo sorvete (um Esquimó) também dava direito a outro, assim como o terceiro (de coco), o quarto (tangerina) e provavelmente todos os que chupasse se, no quinto picolé — a barriga do garoto já estava parecendo uma tela do Pollock, tantas as gotas de diversas cores que escorriam em direção à sunga verde-limão—, o sorveteiro não tivesse dado com a tampa de isopor em sua cabeça e saído soltando os palavrões mais cabeludos, cujos significados Julinho só viria a descobrir muitos anos mais tarde, na perua do colégio, numa tarde de maio — o que não vem, absolutamente, ao caso. O que nos interessa é que nessas férias Julinho ganhou três quilos e o respeito de toda a criançada de Caraguá, com quem trocava os palitos premiados por pipas, baldinhos de areia, favores e até uma bicicleta com buzina, cestinha e farol. (A bicicleta, infelizmente, teve que ser devolvida assim que uma mãe apareceu no guarda-sol da família, trazendo um filho choroso numa mão, 45 palitos premiados na outra e exigiu a anulação da troca.) Apesar de já saberem que ali tinha coisa, foi só quando Julinho estava na quinta série, na época que surgiram as Raspadinhas, que seus pais realmente se deram conta do potencial econômico de seu dom. Enquanto a maioria dos mortais gastava tubos do dinheiro naqueles cartões lotéricos e, na melhor das hipóteses, ganhava 50 centavos — gastos em mais uma Raspadinha que, claro, não dava em nada —, Julinho sempre tirava a sorte grande: era só raspar a camada prateada e sair pro abraço. Em alguns meses, a família comprou uma cobertura, casa na praia, carro importado e jet ski. Não fosse o processo promovido pela Associação Brasileira dos Donos de Casas Lotéricas — que deu queixa na polícia dos prejuízos causados pelo gordinho que aparecia sempre chupando um picolé, comprava uma Raspadinha e limpava os caixas dos estabelecimentos — e a família, em pouco tempo, entraria nas listas das mais ricas do Brasil. Em entrevista ao vivo no programa do Gugu, logo após serem absolvidos no processo — com o acordo de que Julinho jamais jogasse em qualquer tipo de loteria federal —, seu Julião, o pai, disse que não tinha truque nenhum: "O garoto é assim, desde pequeno: rabudo. Pede par, sai quatro, ímpar, dá cinco e, no amigo secreto do Natal, sempre é tirado pelo tio Leôncio, meu cunhado, que dá os melhores presentes." Dona Neuza, a mãe, acrescentou orgulhosa: "Hum-hum..," Desde o lance das Raspadinhas, seu Julião e dona Neuza já não trabalhavam: como os pais de um craque ou de um desses cantores mirins, dedicavam-se exclusivamente a desenvolver o talento do filho. Passavam o dia colocando tampas de margarina e embalagens de chocolate em envelopes e respondendo a perguntas tipo “qual é o sabão que deixa limpão"; "a bateria que nunca arria"; "o refrigerante que faz splash" ou "o absorvente da executiva moderna". Toda manhã, antes de ir para a escola, Julinho punha as cartas no correio: eram casas, caiaques, home theatres, férias em estâncias hidrominerais, fins de semana em hotéis-fazenda, um ano de supermercado grátis e outros prêmios que não acabavam mais. Dona Neuza pôs botox, silicone, clareou os cabelos e entrou numas de Feng-Shui; seu Julião fez implante capilar, montou um bar espelhado na sala da cobertura e fazia churrasco todos os domingos; Julinho tinha um minibugue, fã-clube, todos os bonequinhos dos Comandos em Ação, Passaporte da Alegria vitalício no Playcenter e a Tilibra estava prestes a lançar uma linha de cadernos com sua foto na capa. Apesar de todo o sucesso, Julinho estava entediado. Não havia nada que quisesse que não conseguisse: quando jogava futebol, para qualquer lugar que chutasse, a bola entrava; todo dia tropeçava com carteiras cheias de dinheiro e, quando ficava doente e perdia uma prova na escola, o professor faltava. Era muito fácil. Além do quê, não agüentava mais chupar picolé. Sem uma dificuldade, por menor que fosse, um empecilhozinho qualquer, as coisas perdiam a graça. Andando de lá para cá com seu minibugue pelas ruas do condomínio, Julinho lamentava: "Se ao menos eu tivesse que preencher algum formulário, ou pagar uma mensalidade, ou fazer duzentas abdominais toda manhã, eu sentiria que estou tendo algum trabalho, mas assim, do nada, não tem graça!". Tudo o que ele queria, como sempre nesse tipo de história, era ser como as outras crianças. Mas como? Foi por acaso, caminhando pelo Centro de São Paulo, num dia desses em que o céu cinza parece apenas a metáfora que um escritor previsível criou para espelhar a nossa nublada configuração interna, que Julinho deu de cara com o lugar mais impressionante que seus olhos já haviam visto, um mercado onde se podiam encontrar ovos de dinossauros vietnamitas, videocassetes chineses, múmias maias, DVDs pornográficos da Hungria, parentes distantes, lança-mísseis russos e até amor verdadeiro — a galeria Pajé. E foi ali, entre um Rolex falsificado e um cachorrinho de pelúcia (que era ao mesmo tempo dicionário eletrônico, liquidificador e chapinha para cabelos), que Julinho encontrou a lâmpada árabe. Haddad, o vendedor, garantiu que a preciosidade era do século XIII e havia sido roubada pessoalmente do Museu de Bagdá, durante a invasão americana. Julinho, contando, como sempre, com a própria sorte, não vacilou. Assim que chegou em casa e começou a lustrar a lâmpada com a manga da camisa, o ambiente encheu-se de fumaça, ouviu-se uma explosão e, depois de uma chuva de purpurina e lantejoulas, lá estava ele, translúcido e obeso, pairando a um metro do chão: o gênio da lâmpada! — Ó amo querido, me libertaste da terrível prisão! Como recompensa, concedo-te três pedidos. Diz-me apenas quais são teus desejos e logo os satisfarei! Julinho nem pestanejou: — Primeiro eu queria ser como os outros, não ter tanta sorte: me dar bem às vezes, mal em outras, ter que me esforçar para conseguir o que quero. Segundo, já que a sorte me abandonará, quero apenas garantir uma regalia: que todas as mulheres que posam para a Playboy queiram fazer sexo comigo até o fim da vida. Terceiro, desde criança que penso nisso: por que chamam esse objeto dourado de lâmpada, se ele mais parece um bule? O gênio, com aquela cara séria e atenta que gênio faz nessas horas, respondeu: — Meu amo: teus desejos são uma ordem! Mais fumaça, mais chuva de purpurina e lantejoulas e, quando tudo se acalmou, no lugar que antes o gênio sobrevoava, havia um bilhete: “Caro amo, temo avisar-te que ocorreu uma falha na execução de teus desejos. Acontece uma vez a cada mil anos o que nós, gênios da lâmpada, chamamos de paradoxo retroativo. Teu primeiro desejo foi imediatamente aceito e teu azar, portanto, começou ali mesmo, fazendo com que os efeitos desse gênio não tenham efeito nenhum. Em outras palavras: tudo continuará como antes, tu continuarás sortudo. Se fizeres sexo com playmates ou descobrires por que esse bule é uma lâmpada será porque nasceste virado para a lua, não por conta de meus serviços. Agora, devo ir-me, haverá uma convenção de gênios da lâmpada no Rotary Club de Ribeirão Preto e não posso perdê-la por nada. Adeus e obrigado." Julinho, desesperado, resolveu jogar a toalha. E a toalha, no caso, era ele mesmo: olhou seu quarto pela última vez, derramou uma lágrima de despedida e saltou pela janela da cobertura. Enquanto caía, pensava no infortúnio de não ter nenhum infortúnio, na desgraça da graça a ele concedida e, sabe-se lá por quê, num short amarelo de que gostava muito quando era pequeno. Vinte e cinco andares e sete segundos depois, para surpresa dos pedestres, lá estava ele, vivo e consciente, estatelado sobre uma Kombi azul. Naquele momento, ainda zonzo por causa da queda e surdo com o esporro do japonês, que reclamava dos estragos causados ao veículo e perguntava como era que ele ia fazer agora para trazer o shimeji de Cotia todo dia, Julinho compreendeu sua sina: era imortal, sortudo demais para morrer. Uns dizem que foi o tombo, outros comentam que a coisa já vinha de longe, que ele sempre teve um parafuso a menos, mas o fato é que todo dia, desde o salto, Julinho tenta, inutilmente, tirar a própria vida. Depois de beber cianeto (estava vencido), cortar os pulsos (a faca quebrou), enforcar-se (a árvore tombou) e tentar todos os outros métodos conhecidos e desconhecidos de suicídio — chegou até a alimentar-se por uma semana só de detergente de maçã —, Julinho perdeu de vez o juízo. Vaga doido pelo mundo, magro, descalço e barbudo. De vez em quando, engole espadas, caminha sobre brasas, deixa jamantas passarem por cima de seu corpo e faz cooper em campos minados de Angola, sempre em vão. Para piorar, uma multidão de fiéis o segue aonde vá, acreditando ser a volta de Jesus à Terra. Alguns rabinos discutem se é ou não o messias, as playmates não lhe dão sossego e produtores de televisão ligam todo dia, insistindo em fazer um documentário para o Discovery Channel. Agora, por exemplo, Julinho está em Foz do Iguaçu, chorando arrependido da remota manhã em que foi pedir aquele maldito Fura-bolo em Caraguatatuba. Em instantes se atirará do alto da mais alta das cataratas — de onde será resgatado, alguns minutos depois, vivo e limpinho, pelos bravos homens do Corpo de Bombeiros do Brasil.
33. ANTÔNIO TORRES. POR UM PÉ DE FEIJÃO. Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (á nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida. Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar. Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar? E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta. No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio-dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão. Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe. E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que antes havia arrancado os pés de feijão: - Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido? E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca. À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado. Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando. - Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos. E disse mais: - Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então eu pensei: O velho está certo. Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão.
34. ARMANDO NOGUEIRA. PELADA DE SUBÚRBIO. Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos. A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória. Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro. Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara. A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola. No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.
35. ARMANDO NOGUEIRA. PELADAS. Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto. E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: "eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe." Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha. Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa. Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula. Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho. Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: "Copa Rio-Oficial", "FIFA - Especial." Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati. No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha. Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura. Nova saída. Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas. O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar. Em cada gomo o coração de uma criança.
36. ARMANDO NOGUEIRA. MÉXICO 70. E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus. Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro. E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva. O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria. Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros. Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74. Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes. Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol. Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo. Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara. Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância. A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho. Até que os deuses do futebol inventem outra.
37. ARNALDO JABOR. SINAIS DOS TEMPOS. Tem uma pedra no meio do caminho... Essa pedrinha na praia de Marrocos é o pretexto para a explosão, conflitos antigos... Já existe tensão em Ceuta, uma cidade de 70 mil habitantes na costa de Marrocos, há uma briguinha em torno de Melila, também na costa. Essa guerra da pedrinha é a caricatura perfeita desse falso mundo global, onde árabes e judeus lutam por pedaços de deserto, onde Índia e Paquistão vivem rosnando, depois do Kuwait, Bósnia etc. Será que a Espanha está com medo de outra invasão dos mouros? Será que é influência do atual preconceito contra árabes na síndrome internacional de Bush? Ou será que o desejo de guerra é anterior aos motivos? Eu acho que a causa só se explica pela frase de Nélson Rodrigues: “só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana, e mesmo assim tenho minhas dúvidas sobre o Universo.”
38. ARNALDO JABOR. OCIDENTE "ORIENTAL". O Ocidente inventou a "solução". O Oriente inventou o Maktub, "tinha de ser assim". O Ocidente quer "resolver” as coisas. O Oriente acha que a vingança é um prato que se come frio. O Ocidente quer o “progresso”. O Oriente não sabe o que é isso. O Ocidente fala em “liberdade”, em indivíduo. O Oriente são formigueiros pobres com um só rosto. Para o Ocidente, a morte é a pior coisa. Para o Oriente, a morte é quase igual à vida. Ou seja, nosso primeiro passo tem de ser a desesperança. Só com muito dinheiro jorrando lá, com muita diplomacia, talvez se possa minorar o terror. Mas, pela lógica da doutrina Bush, teríamos de atacar também a Indonésia, a Síria, a Líbia, o Irã, de modo a raspar do mapa 3 bilhões de islâmicos. A solução só começará se acabarmos com a idéia de solução. O Ocidente terá de ser mais Oriente e conviver pacientemente com essa tragédia do século XXI.
39. ARNALDO JABOR. BOLA DE CRISTAL. Em geral, a bola de cristal é para ver o futuro. Mas nestas questões do adultério entre a coisa pública e privada, Sudam, Sudene, briga de ACM e Barbalho o desejo dos envolvidos é apagar o passado. As frases de defesa são sempre as mesmas: meu passado ilibado... eu nunca... jamais fiz... é como se não tivesse havido passado. Ninguém estava lá... eu não era eu... Desde as capitanias hereditárias, desde o império, dinheiro público e empresário privado deu em assalto ao povo e ao país. Agora, ver o futuro é muito difícil. Mesmo com bola de cristal, quem poderia prever que Jáder Barbalho, aquele humilde vereador de esquerda, seria tão poderoso e rico no futuro? Quem poderia prever que ele seria presidente do Senado? Quem poderia prever que no século XXI o Brasil estaria paralisado por antigas questões como essa? Nosso presente tem sido um passado que não acaba nunca.
40. ARNALDO JABOR. MAIS REALISTA QUE O REI. Há muitos anos, os brasileiros revoltados com a política já elegeram um rinoceronte votadíssimo chamado "Cacareco". Só que o Cacareco não arrastou consigo hienas, macacos ou tamanduás para o poder. Mas o Enéas, aquele homem que parece estar de cabeça pra baixo, trouxe consigo vários bichos que não foram votados nem por suas mães. E pior... Dos novos deputados, só 33 foram eleitos cara a cara. O resto, foi por legenda ou carona. E não se consegue reformar a lei eleitoral, porque ninguém quer fidelidade partidária, nem poucos partidos, nem voto distrital. A maioria prefere o atraso, porque facilita a malandragem. E o absurdo é que talvez... Talvez se consiga cassar os dois Cacarecos apenas por causa de um detalhe... De residência. Contra a má fé eleitoral não se pode nada, pois as anomalias políticas estão bem protegidas pela Constituição de 1988, que por medo de uma nova ditadura, criou uma democracia engessada e sem defesas.
41. ARNALDO JABOR. QUEM EXPLICA? A verdade é simples. A mentira é enfeitada. Assistimos a repetição óbvia da verdade de dona Regina e os rebolados verbais de Arruda e ACM para encobri-la... Na versão dos senadores, dona Regina seria uma louca, que sem ordens, sem pedido, só por consulta reuniu uma equipe e passou a madrugada violando o painel para dar de presente a... ninguém... orque nem ACM, nem Arruda teriam pedido nada... Dá uma sensação de absurdo, ver o Brasil paralisado diante deste circo. A pergunta que eu gostaria de fazer é: por quê? Um senador, ou deputado rouba na Sudam, tudo bem, entende-se... Mas painel? Por quê? Foi rivalidade política de Arruda contra Luís Estevão? Ou foi ACM querendo controlar a mente dos senadores? Foi “puxa saquismo” de Arruda? Ou foi pura delinqüência? Terá sido o desejo de ACM de se autodestruir? Será que foi o prazer perverso de sabotar a democracia? Por que fizeram isso? Como disse o jornalista Carlito Maia: “Freud explica? Não. Fraude explica.”
42. ARNALDO JABOR. MISÉRIA E RANCOR. O que mais choca nessa guerra suja é a eficiência dos traficantes, comparada com o desencontro dos agentes da lei, que ficam batendo cabeça uns nos outros. A anormalidade nisso tudo não está apenas do lado do crime. Eles são fruto de décadas de miséria e rancor. A anormalidade está também nos órgãos que não conseguem nem bloquear celulares. Os incapazes somos nós, aprisionados em burocracias, em tradições corruptas, em velhas táticas. A sociedade não fez nada quando as favelas e periferias eram pequenas. A miséria era dócil, podia ser ignorada. Agora, o combate ao crime passa primeiro pelo reconhecimento de nosso fracasso. Precisamos de novas formas de luta. O crime deixou de ser apenas um caso de polícia. A experiência prática das polícias tem de ser unida ao poderio estratégico das Forças Armadas. O crime no Brasil virou um problema de estado maior.
43. ARNALDO JABOR. NÃO BASTA INDIGNAÇÃO. Estamos indignados. Mas o perigo da indignação é que ela nos purifique e nos alivie. Que nos faça esquecer que a tragédia tem dois lados. Nossa tragédia é a incapacidade total que temos demonstrado para combater o crime. O inimigo não é só o tráfico. O inimigo é também a desorganização, a falta de verbas, de armas, a falta de vontade política e de imaginação para lutar essa guerra suja, porque é uma guerra. O crime no Rio e em São Paulo não se combate com batidas policiais, espasmos que cessam quando passa a crise do momento. Assim nunca ganharemos. O crime tem as verbas do pó, das armas, o crime é rápido - tem a vantagem de não ter burocracia. Não adianta só subir morro. A solução começa pela vigilância das fronteiras, passa por uma imensa estratégia policial. E militar. O tamanho do problema exige uma imensa solução. Precisamos de um estado maior contra o crime. Que assuma que uma guerra já foi declarada.
44. ARNALDO JABOR. A MÃO INVISÍVEL DO MERCADO. Como explicar esta onda de erros que desmoralizam os Estados Unidos, desde que Bush assumiu? Esse senhor já foi eleito naquela esquisita contagem de votos... Parecia que a América era um curral eleitoral subdesenvolvido. Aí, o homem entrou e só aprontou roubadas!? Conseguiu unir o mundo árabe todo contra a América. Foi contra o protocolo de Kyoto, na base do dane-se a poluição mundial. Fechou as fronteiras a produtos emergentes, na base do dane-se a América Latina. Agora, nem a economia americana, dona do mundo, escapa? Ditaram-nos regras de rigor contábil, equilíbrio fiscal, e agora vêm com esses escândalos? A explicação talvez seja a seguinte: a mesma sensação de onipotência que faz o Bush ignorar o mundo e errar tanto na política faz as grandes corporações instituírem a corrupção descarada. É a doença dos grandes impérios, que caem por se sentirem inatingíveis. A queda de Roma começou assim... Estamos em pânico: a tal mão invisível do mercado deu para bater carteiras assim... (O comentarista faz o típico gesto usado para roubos.)
45. ARNALDO JABOR. PASSOS PARA TRÁS. Já tivemos a queda do muro de Berlim, quando acabou o comunismo. Ahhh... bons tempos, ingênuos, viva a democracia! Mas logo descobrimos que havia outras guerras frias escondidas. O muro é a cara dos impasses insolúveis de hoje. É a cara do Bush e sua arrogância imperial, é a cara da política de direita de Sharon. Ai que saudades das portas abertas de Rabin e de Barak. Eles nos ensinaram que só os países poderosos como Israel podem acabar com conflitos, por benevolência e até por superioridade cultural, mas a estupidez da política interna não deixa. Por isso, pensando bem, temos de ser "modernos". Boa idéia, os muros, já temos. A muralha da China, há 3 mil anos, contra os mongóis. Poderia haver muro entre a Índia e Paquistão, entre o Irã e o Iraque. Pode ter um entre México e USA para não entrar chicano imigrante. Até aqui podiam pintar muros em volta das favelas, contra o tráfico. Quem está fora não entra e quem tá dentro não sai. É, o século 21 está andando para trás...
46. ARNALDO JABOR. FANATISMO NÃO SE COMBATE COM FANATISMO. A “América” é uma invenção do cinema. A moda, o amor eterno, o happy end... São invenções de Hollywood para exportar cultura e poder para o mundo todo. Até que, no 11 de setembro, o filme catástrofe inspirou Bin Laden, mudando o Ocidente com um final trágico. Pensamos que a “América” ferida ficaria mais humilde. Ao contrário, o filme de guerra e vingança de Bush é o grande sucesso há mais de um ano. Mas já surgem outras produções. A “América” inteligente, humanista, está acordando. O mal de Saddam e o sinistro bem de Bush vão criar uma nova era crítica, como nos anos 60. Os americanos vão descobrir que fanatismo não se combate com fanatismo. Só a tolerância dissolve a loucura. O faroeste de Bush, com o mal de um lado e o bem de outro, será um fracasso de bilheteria. As marchas vão crescer nas universidades e ruas da “América”, e o mundo poderá ter um happy end, se a direita fanática de lá ou de cá não continuar a fazer novos filmes de terror.
47. ARNALDO JABOR. CONSEQÜÊNCIAS E CAUSAS. Existem conseqüências e existem causas. Esses dados do IBGE mostram dados sobre nossa miséria que não servem para absolutamente nada. Apenas ficamos deprimidos por ouvirmos o que já sabíamos. A grande pesquisa que o IBGE ou a ONU deviam fazer seria outra. Por exemplo: quantos milhões de dólares são sonegados no Brasil por bancos e empresas que não pagam Imposto de Renda? Quem são eles? Por que não se consegue prender esses homens? Como planejar um país com oligarquias regionais que impedem qualquer planejamento central? Por que não se conseguiu fazer a reforma da Previdência que nos tasca 60 bilhões por ano? Quanto foi roubado do povo em obras superfaturadas nos últimos cinco anos? Quantos bilhões são tirados do tesouro pela indústria de liminares? E por aí vai... A gente precisa é de estatísticas sobre as elites, as oligarquias, sobre a riqueza. Dos que amam o atraso porque ele dá lucro. Essa é a pesquisa que precisamos conhecer. Não adianta nos chocarmos com a pobreza sem conhecer e atacar os mecanismos que a produzem.
48. ARNALDO JABOR. VERDADEIRA GUERRA FRIA. A América tem três métodos de negociar: dividir para mandar, fato consumado e bode na sala. Esse acordo com o Chile busca dividir os latinos em relação a qualquer política de bloco, como o Mercosul. O segundo ponto é o fato consumado. Conseguem o interesse principal e depois se "revêem os pontos mais polêmicos", como reza o acordo com o Chile. É o fato consumado. E tem o bode na sala. Criam-se exigências terríveis e depois cedem um pouco. Se você põe um bode na sala berrando e cheirando mal, quando você tira, os bobos têm um alivio: ah, tudo melhorou, e aceitam as regras. Por trás de tudo isso, a América só tem uma idéia fixa. Controlar a economia do hemisfério. O perigo da Alca não são tarifas assim ou assado, são as regras que impedem os estados de criar restrições aos capitais estrangeiros. Não há na mente americana a idéia de toma lá dá cá. Só existe "império". E nós? Eles são tão fortes, que se jogarmos duro, quebramos a cara, se aceitarmos tudo... Quebramos a cara também. Como diria Lenine, o que fazer, Lula?
49. ARNALDO JABOR. VEM AÍ UMA NOVA REFORMA CULTURAL. O Bush dá à América um novo objetivo. Revoltas estavam fora de moda... Nos anos 90, achávamos que o mundo ia dar certo e que protesto era coisa de maluco ou comunista. Mas, graças a Bush e sua direita, a face real do reacionarismo bélico, a pior face da América está aparecendo. Para Bush, a globalização é apenas a imposição dos valores republicanos ao mundo. Mas, graças a ele, as marchas já começaram. A jovem América, que aperfeiçoa a democracia, despertou, e já marcha, e canta... E não só contra a guerra, mas pela ecologia, pelo respeito a outras culturas. Vai surgir na América uma nova reforma cultural, sem a ingenuidade hippie e utópica do ‘paz e amor’. Agora, a luta será pela democracia real, pois já sabemos que o mal e o bem do mundo passam pela economia. Ninguém agüenta mais esse mercado sangrento. E isso vai mudar nossas vidas. Pois, na verdade, só a poderosa América muda a Humanidade. Quem diria? Bush vai causar um progresso cultural sem querer, com a contribuição de seus erros absurdos.
50. ARNALDO JABOR. O PREÇO DO PODER. Você sabe o que é um pato manco? É o nome que os americanos dão a um presidente que acabou o mandato mas ainda não saiu do cargo. Ninguém liga mais pra ele. E ele fica por ali, mancando... Quééémmm... Quéeém... O país esteve esse ano todo sob suspense, e, agora, está sem chefia clara. Apesar da transição democrática comandada por FHC, que não quer ser só um pato manco. Mas um pato cooperativo... Vemos que sobra um perigoso vazio para picaretas e sabotadores. Parlamentares já querem aumento. A nova oposição até do neo-PFL prepara vingancinhas contra Lula, como no salário mínimo, o governo também aproveita para medidas chatas como o aumento de gasolina. E mesmo boas notícias não se explicam. Por que os meninos de Wall Street baixaram o risco-Brasil? Porque quiseram. O Lula descobre que os poderes sobre o país são muitos. Dentro e fora, de fisiológicos a especuladores. Estamos vendo que entre o pato manco e o sapo barbudo há muito poder oculto. Governar no Brasil é pular armadilhas e evitar cascas de banana.
51. ARNALDO JABOR. DIFÍCIL, MAS POSSÍVEL. Política e poesia. Razão e emoção. No dia do centenário do poeta Carlos Drummond de Andrade, Arnaldo Jabor tenta mostrar que essa equação de opostos ainda é possível. Drummond era o poeta da desesperança, mas hoje não há só a fome de comida no Brasil. Há uma fome de esperança também. O Brasil está faminto de emoção. FHC traçou um mapa racional, lógico, que tem de ser percorrido. FHC foi talvez a razão. Lula começa como coração, essa onda de fé talvez possa acionar uma grande vontade política e conseguir reformas, que apenas a lógica e a técnica não conseguiram. Talvez entremos num período novo, em que as duas épocas se fortifiquem. Lógica e amor. Pois, como dizia Drummond: que pode uma criatura senão entre criaturas amar? Amar e esquecer, amar e mal-amar, amar, desamar, amar? Esse é o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, a doação ilimitada a uma completa ingratidão. E na concha vazia do amor, a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.
52. ARNALDO JABOR. A SERVIÇO DE OSAMA. A grande guerra que está sendo travada hoje é entre um mundo em que muitos países opinem ou um mundo em que só o mais forte manda. Bush quer provar que destrói Saddam, o que o pai não conseguiu. Mas não é só isso. Bush também quer afirmar seu poderio contra um multilateralismo que ele não entende. Bush obedece à máquina de guerra da indústria que o elegeu. São 500 bilhões de gastos militares. As armas precisam de uma guerra. As bombas desejam explodir. Bush está frustrado com esse gesto de Saddam. Pois a guerra é sua salvação na política americana. Sua mediocridade só pode ser oculta sob a capa de um cowboy vingador. O Osama deu a ele em 11 de novembro o pretexto de ser uma vítima. Com essa desculpa, ele tem executado sua política irracional. Bush quer desmoralizar a ONU, a Europa e afirmar que esse papo de democracia internacional acabou. Ou seja, Bush esta fazendo tudo que o Osama mandou: vai botar o mundo contra a América e pode destruir o Ocidente. Bush é o mais obediente homem-bomba de Osama.
53. ARNALDO JABOR. TEM DE PARAR TUDO. Você sabia que no Rio já morreu mais gente na guerra do tráfico do que na guerra Israel-Palestina? Pois é, comentar o quê, se o poder público não consegue nem bloquear celular na prisão? Basta botar aquelas telas de arame de galinheiro em volta, sabiam? Comentar o quê, se não conseguem nem prender um preso dentro da prisão? O Fernando Beira-Mar está preso, comando chacinas de dentro da Bangu I. Por que não seguram ele? Porque ele tem milhões de dólares? Comentar o quê? E ainda não é Colômbia não. Comentar o quê? Todo mundo sabe o que fazer, polícia, Justiça, governo... Não fazem por quê? Por que a burocracia impede ações emergenciais, o por que não querem? Por que ainda não calaram Fernandinho, nem que seja no celular? Por que ninguém quer matar a galinha dos ovos de ouro? Tem de parar tudo. Governar, hoje no Brasil, é reformar a polícia, só isso. O resto pode esperar. Comentar o quê? O nosso 11 de setembro é esse – só que nossas torres de comando já caíram há muito tempo.
54. ARNALDO JABOR. PINGUE-PONGUE DE SANGUE. O maior feito de Osama foi que ele deflagrou uma onda de loucura no mundo. Ele deu uma idéia simples aos loucos e ressentidos do Oriente e da miséria: a morte como um cachorro louco e invisível em todas as esquinas. A morte vinda de lugar nenhum. E o que mais exaspera o Bush e todos nos é a perda do controle sobre a vida social. O Ocidente sempre achou que podia prever, organizar a sociedade. Agora isso é impossível. Há dois bilhões de homens no Islã, e a grande maioria nos odeia, mesmo os pacíficos consideram os terroristas heróis. Como controlar isso? E a onda de violência contamina a todos, do maluco de Washington, aos traficantes do Rio e São Paulo, que dizem assim: boa idéia! Virou... Moda. E vamos nos acostumando aos corpos despedaçados nas discotecas e em Gaza. E nossas vinganças também serão cada vez mais banais. Breve haverá grandes massacres aqui e lá. Podemos organizar sistemas de vigilância. Mas a idéia de solução... Já era. Solução não há mais. Só o problema. Teremos de conviver com esse pingue-pongue de sangue para sempre.
55. ARNALDO JABOR. A CHANCHADA CONTINUA. José Lewgoy era mais que um ator. Era uma personagem brasileira. Fazia parte do trio de ouro da chanchada. Grande Otelo era o neguinho safado, Oscarito, o branquelo malandro e Lewgoy o eterno vilão, milionário malvado, traficante, bandido de Faroeste, mágico de turbante, grego de camisola. Seu período de grande fama foi nos anos 50, quando o cinema brasileiro fazia o pastiche dos musicais e americanos, quando não tínhamos um cinema próprio e ficávamos na caricatura do cinema dos outros. Nesses atores havia uma cor brasileira profunda, de um tempo sem TV, com rádio e cinema, mas que marcou os fundamentos do moderno teatro e cinema no Brasil. Mas José Lewgoy era muito mais que um cômico. Ator de fina formação, foi de “Carnaval no Fogo” até Shakespeare, e ajudou a definir o moderno cinema brasileiro. Era um homem bom e só fazia papel de canalha. E se foi. Devemos chorar a morte deste bandido tão querido. Pois tantos outros de verdade ainda ficaram por aqui. Lewgoy foi para o céu, mas a chanchada continua...
56. ARNALDO JABOR. SAUDADES DE EVITA. Evita surge e morre justamente no início da decadência da riqueza da Argentina no início do século XX. Era uma riqueza sem base, passageira, que contaminou a consciência argentina com uma ilusão irrealizável. Sonhando com Evita, que pregava justiça pela caridade e assistencialismo, a Argentina passou os últimos 50 anos sem se preparar para uma democracia real, produtiva. De certo modo, Evita parece a própria América Latina. Ela é o mito substituindo a verdade política, ela é a esperança infundada num milagre, ela é o desejo de justiça secular sem os instrumentos para realizá-la, ela e Peron eram o substitutivo paternalista e populista de uma democracia que jamais vinga entre nós. Hoje, depois de uma vaga euforia democrática dos últimos anos, mergulhamos de novo no populismo e no milagre impossível. Hoje, como há 50 anos, estamos na mesma. Sem base. Sem cultura política. Sem dinheiro. Não temos de chorar mais por Evita. Temos de chorar pela permanência do seu mito. Santa Evita é a santa padroeira da tragédia latino-americana.
57. ARNALDO JABOR. PERNAS DE PAU EM ECONOMIA. Afinal de contas em quem acreditar nesta ciranda financeira? O Sr. John Taylor, sub-secretário do Tesouro americano, diz: não há motivo para se preocupar com a economia do Brasil. “As políticas fundamentais estão certas." Também o porta-voz do FMI, Thomas Dawson, diz: “o desempenho do Brasil tem sido bom.” Mas, aí, a senhora Lisa Schineller, da Standard & Poor, diz: “o Brasil é um perigo!" Por que? Essa senhora quer nossa caveira? Não. É que ela trabalha numa empresa para aconselhar as velhinhas do Kentucky e os aposentados que investem aqui. Claro que as agências sempre julgam pelo pior, para não errar e perder freguês. E como os USA estão na maior crise, com escândalos e calotes, eles falam para as velhinhas: "vende Brasil, para cobrir os prejuízos daqui". Nós pagamos o pato do vexame americano. E o pior é que os fracassomaníacos daqui também acreditam nos índices e apostam tudo contra o Brasil. Só se esquecem que o Brasil também são eles. É, gente, somos craques no futebol e pernas de pau em economia.
58. ARNALDO JABOR. ESTAMOS VIRANDO A FICÇÃO. Assistindo a essas reportagens... O que me espanta é que a gente se espante. Há uma normalidade profunda na vida desses traficantes e suas ligações com a policia. Por que nos espantamos? É tudo tão normal, tão previsível... É preciso que os poderes parem de considerar o tráfico apenas um caso de polícia. A tese é assim: o traficante é um homem que caiu em pecado, transgrediu a lei e tem de ser punido pelos homens de bem. Isso é apenas a metade da verdade. As velhas verdades não bastam mais. Novos conceitos têm de surgir para dar conta dos fatos novos. O mundo do tráfico, do crime nas periferias, já é um novo país, uma nação desgraçada onde o único comércio lucrativo é o pó. Esse país tem leis próprias, moral própria, associações entre pobres de farda e pobres no crime. A solução só poderá vir pelo reconhecimento desta nova pátria miserável. Ou pela legalização das drogas, ou então por uma guerra profunda, feita de armas, fronteiras vigiadas e mais importante: o saneamento da miséria. Porque a verdade é que esse novo país está virando a realidade. E nós estamos virando a ficção.
59. ARNALDO JABOR. AS COISAS QUEREM A GUERRA. Ninguém quer a guerra. Nem a ONU, nem a Europa, ninguém. Nem é o Bush que quer a guerra, são as coisas. É a indústria bélica, é a lógica dos canhões, das bombas inteligentes. Há uma máquina desejante nos USA querendo, melhor dizendo, precisando guerrear. O próprio Bush é filho dessa máquina que o elegeu, que o desejou, a máquina da indústria de armas, a máquina do tabaco, a maquina do aço. Essa máquina começa no antigo desejo de domínio que os americanos têm desde seu nascimento como país. O mercado como guerra. É a mesma máquina que deseja o lucro total, o domínio econômico. Hoje as coisas mandam mais que os homens. Bush obedece as coisas. Provavelmente atacará perto do 11 de setembro. Mas não apenas como resposta ao ataque do Osama. A máquina também precisa mostrar ao mundo todo seu poder imperial. A guerra não vai adiantar nada. Só vai unir o Oriente todo contra nós. O mundo entrou numa fase onde nenhuma palavra basta, nem razão, nada. Só a lógica das coisas. O desejo das coisas. E as coisas não falam, mas as coisas podem destruir o mundo.
60. ARNALDO JABOR. A VERDADE VAI TER DE APARECER MAIS. No primeiro turno, todo mundo era contra o governo, inclusive o Serra. É melhor ser contra, dá mais voto. Serra não podia bater muito no Lula para não deixar subir o Garotinho. Lula, absoluto, não bateu muito no FHC, para ter alianças futuras. Por isso, Serra foi governista light. Por isso, Lula foi oposição light. No segundo turno, a verdade vai ter de aparecer mais... Agora, vai haver polarização de novo. Lula vai ter de ser mau com o governo. Serra vai ter de defender o governo,. Mas... Se Lula ficar revolucionário demais, perde, se ficar light demais, perde, também se Serra ficar contra o governo perde voto. Se ficar muito a favor, perde também. Serra, que foi seco no primeiro turno, vai ter de sorrir e ser emocional. Lula, que foi emocional, vai ter de ser mais racional. O problema é que os dois pensam parecido. Os dois querem mudança. Os dois têm origem de esquerda. O Lula fundou o PT. O Serra fundou a AP - Ação Popular. Ambos querem política industrial, desenvolvimento, um novo nacionalismo. Os dois são parecidos... A diferença é na maneira de agir. A solução seria um mix dos dois. Razão e emoção para o bem da democracia.
61. ARNALDO JABOR. BUSH E SHARON ODEIAM A DEMOCRACIA. Já vejo em minha bola de cristal: o Iraque vai ser atacado, o Arafat assassinado, a Europa vai se rearmar e a China vai virar real perigo atômico. Osama deve estar rindo: Sharon e Bush fazem tudo o que ele quer. Vão destruir o ocidente por ele. A verdade é que tanto o Bush quanto Sharon querem acabar com a ONU. Acabar. Querem enterrar a ONU feito sapo de macumba. Por quê? Porque a ONU é a democracia internacional, é a igualdade das nações diante da razão. E tanto o Bush quanto o Sharon, que é uma espécie de genérico do Bush, odeiam democracia e razão. O que eles querem é um mundo impossível, sem árabes, sem diferenças, um mundo habitado por bilhões de bushes e sharons. Um mundo igual a eles - violentos e irracionais. Isso só vai mudar quando começarem a chegar os cadáveres dos jovens americanos, e esses loucos se saciarem de sangue e de erros. Um dia a opinião pública da própria América vai frear isso, como fez com o Vietnã, expulsando esse imperador louco. Ate lá, o lema dessa época será aquele do general fascista: “abaixo a inteligência, viva a morte!”
62. ARNALDO JABOR. EUA QUEREM SER DITADORES INTERNACIONAIS. Fica meio ridículo falar sobre o Iraque. Ninguém vai ouvir, nem o Sadam, nem o Bush vão ouvir, nem o Osama, que está no fundo da caverna. Só interessa saber o que essa guerra suja pode mudar em nossas vidas, com essa política de ação preventiva do caubói Kid Bush. Que é isso? É a política do valentão paranóico que diz assim: "vou dar uma porrada naquele cara ali antes que ele bata em mim." Bush pode decretar, por exemplo, que a Colômbia e o Brasil estão na rota do terror e do tráfico e transformar a América Latina num novo teatro de guerra. E como para eles guerra e mercado são quase a mesma coisa, os EUA podem um dia decidir que a Alca tem de sair do jeito que eles querem e que quem se opuser é terrorista. Ação preventiva é sentença sem julgamento, é ditadura internacional. Mas que país latino pode botar o dedo na cara do Bush e berrar: “como é que é? Vai encarar?” Nós estamos quebrados, sob o FMI, sem armas. É, mas mesmo assim vem aí um novo nacionalismo. Com esse conto do vigário da globalização, o Bush está nos obrigando a isso.
63. ARNALDO JABOR. COMENTARISTA FANTASMA. Boa noite. Eu sou comentarista político, mas ninguém me conhece, eu sou o comentarista fantasma, mudo de emissora quando quero, eu posso dizer qualquer coisa, pois ninguém me vê, eu posso fingir isenção, posso fazer picaretagens. E não posso nem ser despedido nem cassado, pois eu não tenho rosto... É assim que se comporta a maior parte dos deputados desse país, pois só 33 têm rosto. A maioria da Câmara não tem rosto. Bloqueia, exige, cria crises e não é responsável por nada. Tudo é sempre culpa do Executivo. Poucos foram eleitos cara a cara com o eleitor. Como cobrar alguma coisa de parlamentares que não foram eleitos? Nenhum tem fidelidade partidária, mudam de partido segundo as conveniências. A maioria não tem nem culpa, nem nada. Só interesses. Vai ser fogo o Lula governar com esses fantasmas. E sem as medidas provisórias, que os fantasmas destruíram, para paralisar a presidência. Deus... Será que um dia haverá uma reforma eleitoral no país? Só uma grande reforma política, com parlamentarismo, poderia evitar essa vergonha que nos paralisa. Não. Não permitiremos. Seremos eternamente os fantasmas contra a democracia...
64. ARNALDO JABOR. TUDO PELA SATISFAÇÃO. Há muitos anos saiu num jornal popular uma manchete famosa: “matou a mãe sem motivo justo”. E o que chocou nessa notícia é que parecia haver um motivo justo pra se matar a mãe... E nosso país ultimamente virou o carnaval dos psicopatas. Suzane mata os pais. Empregada espanca velhinha. E agora esse Gustavo mata a avó a facadas... Parece que os assassinos estão encontrando motivos pra matar parentes. Não há motivos, claro, mas há um estímulo no ar para esses crimes. A sociedade de consumo nos ordena satisfação o tempo todo. Coma, beba, vista, ame, transe. Só que é impossível realizar tantos desejos. E o consumo foi virando uma espécie de droga. Só muito doidão como o Gustavo pode se dar conta do desejo infinito. O excesso de ofertas nos deixa sempre insatisfeitos. E, pior, tudo que seja frustração a desejos tem de morrer. Some-se a isso o espetáculo banal da violência, e temos o tal "motivo justo". Quase um slogan: “mate quem impedir seu desejo”. É... Um amigo meu falou que só dorme de porta trancada: "sei lá o que meus netos estão aprontando"...
65. ARNALDO JABOR. SOBRE A VERDADE. Quando a dona Regina mentiu, na primeira vez... ela estava mostrando a verdade de seu medo. Depois, por medo, disse sua verdade. Quando Arruda mentiu, mostrou a verdade de sua esperteza política. Capaz de mentir com verdade... Quando depois ele confessou em lágrimas sua verdade, disse que dona Regina, sem ordens, por gentileza, saiu correndo e lhe trouxe a lista graciosamente. Será verdade? ACM... Mentiu no depoimento inicial. Hoje disse que mentiu por amor...amor ao Senado e para proteger a pobre dona Regina... Qual a verdade? Toninho Malvadeza ou Toninho Bonzinho? A verdade é que se não houvesse o laudo técnico provando a violação do painel as mentiras seriam as verdades. As verdades vieram pelo medo!!! E pela metade, pois reparem que cada um empurra a culpa para o inferior. ACM ferra Arruda que ferra dona Regina. A verdade é que o Brasil esta parado no meio de uma crise mundial e o Congresso nesta palhaçada. A verdade é que nesta guerra de vaidades e sabotagens... Esses políticos querem que o Brasil se dane, para ver triunfar suas mentirosas verdades.
66. ARNALDO JABOR. SURPRESA? O que espanta é essa surpresa toda com a roubalheira da Sudam. Todo mundo soube sempre que onde o governo dá grana subsidiada para empresários haverá roubo... E pior que roubo é o falso progresso, o atraso social e econômico que ele provoca. Nesse país paralítico não adianta a gente achar que a roubalheira e a imoralidade são acidentes de percurso, são "crimes num mundo honesto". É importante que a gente entenda que a Sudam já foi planejada para isso, assim como a Sudene...a antiga Sunamam, tantas outras... Há 400 anos que o Brasil foi planejado para ser esse casamento sujo entre empresários e dinheiro público. O mecanismo funciona porque as leis foram feitas para não punir, assim, vale a pena apostar na lentidão da justiça... Ninguém tem medo da lei. Outra causa é o equívoco de que o estado tem de subsidiar empresários... O governo tem é de sanear a economia para que com juros baixos os bancos privados financiem verdadeiros empresários e não esses vagabundos impunes que povoam o Brasil todo. Sempre que houver o nome “superintendência de desenvolvimento”, ali haverá mentira e atraso... Roubo no Brasil não é acidente. É norma...
67. ARNALDO JABOR. A DIREITA NO PODER. Boa idéia! Se tem franco atiradores no teto, a gente bombardeia o hotel onde há centenas de jornalistas. Bummmm!!! Ahhh... Foi sem querer... Não leva a mal, não... A intenção era boa... O problema é que a intenção não era boa. Não foram gafes. Foram desejos, o desejo de bombardear a Al Jazeera também: "vamos arrasar a TV Globo do deserto". Vitoria Clark, a porta-voz bodeada do Pentágono, comentou: "é, cobrir a guerra é perigoso... Quem mandou? A gente avisou..." E o general porta-voz da coalizão disse: "os EUA estavam sendo atacados do hotel". É verdade, os jornalistas estavam atacando-os com a liberdade de opinião. Essa direita americana quer matar a informação, fora e dentro da América... Bush também morde e assopra. Esse papo de Estado Palestino que ele propõe é para adoçar-nos a boca. O Sharon já disse: "nem pensar em tirar os assentamentos de Gaza". Mais grave que a guerra é o mundo que querem criar. Não respeitam culturas nem diferenças, só querem nosso choque e nosso medo. O mundo vai sofrer com violência e trapalhadas. O império americano será uma mistura de cowboys e homens-aranha com os Três Patetas.
68. ARNALDO JABOR. O CÚMULO DO EGOÍSMO. Houve muitos fatos positivos nesse governo. Fim da inflação. Melhorou educação. Melhorou a saúde. E por que a distribuição de renda é ruim? Culpa do governo? Não. A culpa é de alguma coisa anterior e acima desse governo e de qualquer governo que entre. A culpa é de um tipo de "rico" brasileiro. Mas não dos ricos que trabalham, criam empregos, e crescem junto com o país. Não. Eu falo do rico que vem desde a colônia, há séculos. É o rico que preda e mama no estado. É o rico que não produz., o rico financeiro que acumula, não investe e manda bilhões para fora. É o rico que não paga Imposto de Renda nem imposto nenhum. É o rico parasita. É o rico que corrompe o estado para seus interesses privados e impede qualquer planejamento sério. É o rico que paralisa até os ricos que querem produzir. Esse rico brasileiro não é capitalista. Ele vive do nosso atraso, que lhe dá lucro. É o rico e suas ricas famílias que mandam num estado, as famosas oligarquias. Nem revolução acaba com eles. Só a democracia pode desfazer as oligarquias brasileiras e os donos do poder sujo. A má distribuição de renda é culpa deles.
69. ARNALDO JABOR. NOVIDADE POLÍTICA. A frase mais profunda que houve foi: "a esperança venceu o medo". A era FHC teve um importante papel para o dia de hoje. FHC comandou uma tecnologia política moderna, combatendo salvações demagógicas e preservando a democracia debaixo de grande crises econômicas e políticas. FHC acertou e errou. Mas, mesmo seus acertos não foram bem entendidos, pois seu governo esqueceu que havia uma população querendo participar. FHC não fez nem um honesto populismo, deixando a população fora da viagem de seu governo. Com medo das armadilhas da fisiologia e da economia, na era FHC a política virou uma arte para poucos especialistas, praticada na solidão dos conchavos de Brasília. Por isso, e além do povo, FHC ficou também desamparado. Viramos um país de números e estatísticas e de... Medo. Medo de ousar. Com medo das utopias loucas, acabamos com medo da esperança. Com a vitória de Lula, o povo se sente no poder, com um líder igual a ele. Se Lula e o PT mantiverem a esperança respeitando a complexidade técnica que FHC praticou, Lula poderá ser uma 4ª via, um grande governo popular e democrático. Se isso acontecer, o governo de Lula pode virar um novidade política para o mundo todo.
70. ARNALDO JABOR. O BRASIL VIROU UM SANDUÍCHE. Quem é e qual o curriculum do secretário do tesouro americano, Paul O'Neill? As respostas, com Arnaldo Jabor. O Brasil virou um sanduíche. De um lado, brasileiros apostando no dólar e torcendo pelo próprio fracasso: "oba, tomara que o Brasil quebre para eu ganhar grana!" Do outro, as declarações estúpidas dos direitistas do Bush. O’Neill é o rei da grossura. Quando houve gestões para ajudar a África miserável, ele disse: “nem me falem de compaixão”. Pela África, essa nova gafe do O'Neill devia ser dirigida para dentro da própria casa. Quem está desviando dinheiro são as empresas que ele, Bush e Cheney protegeram. E os três são acusados também de maracutaias. Bush está exterminando com a política de globalização. Os EUA fazem o contrário do que dizem, só pensam neles e já abandonaram qualquer amabilidade, partindo para um bruto imperialismo militar e econômico. Vão usar o Iraque para que esqueçam seus roubos internos. Essa declaração do O'Neill revela a visão de mundo do governo americano: “só existimos nós; o resto são os ‘bárbaros’". A única globalização que estão conseguindo é a globalização do ódio dos "bárbaros" contra a América.
71. ARNALDO JABOR. É PARA SENTAR E CHORAR. Arnaldo Jabor critica os que sempre vêem na ideologia mais em voga a cura para todas mazelas do mundo. A realidade acaba sempre os desautorizando. Os idiotas sempre esperam a chegada de um mundo bom. Eu sou um deles. Primeiro acreditamos no socialismo, na justiça e igualdade. Mas tudo acabou numa mistura de falência e corrupção. Aí os idiotas acreditaram no capitalismo salvador. “A globalização e o mercado vão resolver a vida dos subdesenvolvidos.” Deu zebra: os pobres só pioraram e não teve colher de chá para país pobre, emergente. "É”, pensamos nós, os idiotas, “mas os EUA são um país ético e confiável!!!" Outro bode: a Enron roubou, a World Com roubou, outras roubaram e agora a Merck meteu a mão grande. Mas, ainda com esperança, os idiotas pensam: “ahhh, mas amanhã o Bush vai à TV fazer um discurso indignado contra esses crimes!!!” Outra zebra: a imprensa norte-americana mostrou que o Bush também enriqueceu assim. Ele e o vice dele, o Dick Cheney. Os dois ficaram ricos com informações privilegiadas em suas empresas, a Harken e a Halliburton, na década de 80. Quer dizer, o capitalismo onipotente faz o que quer no mundo e no plano ético os EUA estão virando a Nigéria. Aí, nós, os idiotas da esperança, sentamos no meio fio e choramos lágrimas de esguicho.
72. ARNALDO JABOR. É TUDO IGUAL. Existem dois tipos de tragédia: tragédia súbita e tragédia preparada. Existe um avião que explode, um piano que cai sobre tua cabeça, um infarto fulminante. Mas existem as tragédias brasileiras preparadas. Qual a receita para essas tragédias? Bem... Pegue-se um ingrediente básico, a miséria. Junte-se a ignorância, a inconsciência do perigo numa balsa cheia ou numa encosta deslizante. Adicione uma pitada de desrespeito do poder pela vida dos pobres e pummmm! Temos explosões no shopping, mortos no fogo e na água. Depois temos mães chorando, bombeiros procurando corpos e as autoridades falando em "tomaremos providências enérgicas". Depois não se fala mais nisso. Eram tragédias evitáveis, mas foram preparadas como um bolo maldito. Vocês se lembram de Vila Soco, em Cubatão? Centenas de pessoas foram fritas como torresmo ou batatinhas pelos canos de petróleo. Essas cenas se repetem todos os anos. Nem precisa mandar repórter para filmar os mortos. Basta pegar no arquivo. É tudo igual. Talvez num dia sujo do futuro isso nem mais seja notícia. “Ai que chatas essas desgraças monótonas, que se repetem sempre.” A única tragédia que não foi prevista pelos podres poderes foi a violência. Ninguém contava com que um dia os miseráveis teriam armas e dinheiro da cocaína. E aí, pela primeira vez, as elites estão sentindo o arrepio do perigo.
73. ARNALDO JABOR. GOVERNO SURPRESO? Surpresa? Como o presidente da República diz que foi pegado de surpresa? É inacreditável, doentio que um governo com três agências de energia não soubesse do perigo. O que aconteceu? Um governo preocupado só com ajuste fiscal e com reformas desconstrutivas não se preocupou com o desenvolvimento de infra-estrutura. Um governo que nunca soube se explicar à opinião pública ficou com medo de dar notícias ruins e resolveu se auto-enganar, tipo, tudo bem, Deus é brasileiro... É a síndrome do marketing, das pesquisas de opinião, da imagem. No desejo de combater o crônico pessimismo brasileiro, o governo inventou a bandeira tucana do otimismo irresponsável... O tradicional desprezo do brasileiro pelas questões técnicas. No país só temos bacharéis, literatos e ideólogos que odeiam o mundo real. Houve também o inferno das sabotagens da oposição e o inferno dos conchavos dos coronéis e fisiológicos, que não deram um dia de trégua a FHC. Até ACM teve culpa, enfiando um ministro como Tourinho, que passou dois anos dizendo: racionamento? Nem me falem nisso... E houve também o monetarismo frio do ministério da fazenda, desestimulando investimentos, gastos públicos vetados pelo maravilhoso deus FMI. A única vantagem deste apagão é descobrirmos que esse papo de Brasil moderno é furado. Continuamos um gigante com pés de barro.
74. ARNALDO JABOR. BUSH A CONTRAGOSTO. George Bush sonhava em governar de frente para os americanos e de costas para o mundo. Mas, atropelado pelo onze de setembro, se lançou a uma cruzada contra o terrorismo. A contragosto, teve que se envolver no conflito no Oriente Médio e já tem um plano para derrubar o ditador iraquiano, Saddam Hussein. Isso sem falar nas brigas compradas no cenário internacional, sendo que a mais recente foi a rejeição ao tribunal permanente para julgar crimes de guerra. Arnaldo Jabor. Depois do 11 de setembro, achamos que o golpe terrorista provocaria mais humildade na América do Norte. Ficariam menos arrogantes e isolacionistas. Engano. Ficaram mais imperiais. Por isso, os USA estão contra qualquer repartição de poder. Devem um granão a ONU, para desmoralizá-la. Querem mandar na Otan, na OEA, deram a gafe de apoiar o golpe frustrado na Venezuela. Dai, não apóiam o Tribunal Penal Internacional. Eles têm medo que crimes americanos possam ser julgadas por outros países. Pois o Bush não decretou há pouco que os USA são o bem? E nós? Somos o quê? Os USA querem uma Guerra Fria qualquer que os absolva e justifique. E nisso Bush não pára de errar. Está unindo o mundo árabe e os emergentes contra os USA. Aliás, ontem o Bush acusou Cuba, Síria e Líbia de fabricação de armas biológicas. Cuba? Ali nos trópicos, debaixo de bloqueio há trinta anos? Difícil. Lembrem que se provou que aquele antrax terrível era produzido na América do Norte. E mais: por que os USA conseguiram expulsar da Opaq da ONU o brasileiro Bustani? Porque ele queria tratar os usa democraticamente apenas com um membro da organização e não como o dono do mundo. Bill Clinton, onde está você, agora que precisamos tanto de um democrata?
75. ARNALDO JABOR. O SAPO E A COBRA. Acho que um "choque de capitalismo" pode nos arrancar do atraso sim, acho que a "instantaneidade" do mundo de hoje pode fazer algum bem ao caos paralítico do Brasil patrimonialista. Mas entre remédio e veneno há quase nada. Ignorantes de direita e de esquerda não vêem isso. Saudosistas da utopia sabotam as reformas e se agarram ao passado, enquanto deslumbrados liberais abrem as pernas e anseiam pelo estupro do futuro. A verdade óbvia, solar, é que o plano da Alca traz embutido o nosso destino - feito por eles. Isto é o fato histórico mais grave, mais assustador para nosso futuro. A sensação que tenho é a estória do sapo e da cobra. Já viram como se alimentam as jibóias e as jararacas? Joga-se um sapinho na jaula. O bichinho pula de pânico pra todo lado e a cobra fica imóvel, olhando. Ele pula daqui, pula pra lá e acaba hipnotizado, seduzido, entrando obediente na boca aberta da serpente. Tenho pavor de que isso nos aconteça. Nossos 500 anos de dependência, deslumbramento e ignorância apontam para isso. Claro que há uma consciência difusa do perigo, claro que dentro e fora do Itamaraty se fala em nossos "interesses comerciais", em "integração com Europa e Ásia", em "defesa do Mercosul", mas o perigo é imenso porque os brasileiros não sabem negociar e, por abstratos, bacharelescos e molengas, se perdem em bravatas vazias para compensar medo e despreparo técnico. Corremos o grave risco da "síndrome do sapinho", de morrermos seduzidos pela boca da cobra, até vagamente honrados com a devoração. O essencial é considerar a Alca o problema nº 1 do país, nosso terremoto, nosso dilúvio, nosso perigo de extinção. É fundamental que o Itamaraty (e todos) se toquem para o assustador horizonte e não empurrem nosso destino histórico com a barriga. O ministro Celso Lafer obtemperou: "A Alca não é destino; é opção". Espero que sim. Negociadores, diplomatas progressistas, uni-vos! Temos tudo a perder.
76. ARNALDO JABOR. FREUD EXPLICA MUITAS POSIÇÕES POLÍTICAS. A psicanálise é uma grande arma para a ciência política. Principalmente no Brasil, à beira das eleições, com todos os ódios e neuroses aflorando. Por trás das ideologias e certezas de cada um, jaz o trauma, pulsando como uma velha ferida - a neurose, o sintoma. Há uma doença manchando a bandeira política de cada um. Imaginemos uma sessão de análise de grupo. No centro, um psicanalista de charuto e barba. Em volta, intelectuais pensando o Brasil. Psicanalista - o que fazer diante da realidade brasileira? O Amante do Povo - Doutor... é tão terrível ver a miséria deste país... Eu sofro tanto com isso... Psi - O senhor é miserável? - Não... ganho até bem... Psi - O senhor luta por eles? - Não; só choro. Psi - Essa 'dor' pelos pobres lhe traz muito lucro. Sente-se 'bom'. Eles não ganham nada com isso. O próximo!... O Erudito - Eu sei tudo, doutor. Inclusive do seu Freud. Eu li tudo. Não há saída... só me resta ficar aqui na universidade pensando na aporia (bem sem saída) histórica em que estamos, não há um 'telos' (luz no fim do túnel) possível... Como filósofos, não podemos sacrificar nossa 'gravitas' (seriedade) com uma 'praxis' (prática-teórica) que seja apenas um 'ersatz' (quebra-galho) da verdadeira revolução... Psi - 'Acabou o tempo da reflexão; começa a ação (Marx)'... O senhor tem inveja de quem vai à luta... A filosofia para o senhor é apenas um mecanismo de defesa. O Radical Durão - Temos de encarar os problemas do país radicalmente, sem frescuras. Essas complexidades democráticas modernas, ambigüidades políticas são coisas de veado! Psi - O senhor tem medo da complexidade ou medo de ser veado? O próximo!... A Vítima - Só eu estou certo! Apanhei muito em 69. Tortura, porrada. Psi - O senhor acha que se santificou no pau-de-arara? Nunca o senhor se sentiu tão puro e nobre como durante a ditadura, não é? Orgulhe-se da luta, não das porradas. Mesmo um grande herói torturado pode errar politicamente. O Limpinho - Doutor... Eu tenho nojo desses políticos, desta sordidez... Como artista e pensador, eu me mantenho longe desse lixo todo, deste horror brasileiro... Eu sonho com um Brasil novo, puro... Psi - O senhor lava as mãos a toda hora? Não olha as próprias fezes? Sexo e beijo de boca aberta nem pensar, né? O Infeliz - Doutor, eu estou chorando assim porque minha vida é uma frustração... Ser a favor dos pobres nos leva ao fracasso. Eu poderia ter ganho dinheiro, mulheres, sucesso, mas sou de esquerda. Psi - O senhor fracassou porque é de esquerda ou é de esquerda porque fracassou? O Sonhador - Só amo as utopias, doutor... Este governo vive no administrativismo, na política do possível... Essas reformas podem funcionar na prática; na teoria não funcionam. Só amo o sonho... Sem sonho, não ganhamos nada e, se ganharmos, perdemos o sonho... Psi - O senhor ainda mora com sua mãe, não? O Paranóico - O mundo atual é um conto-do-vigário em que caímos. Há uma conspiração política aí fora para nos destruir... Tudo que parece ser, não é. Querem me pegar desprevenido pelas costas. Psi - O senhor é gay? - Se disser isso de novo, eu lhe mato!!!... E vocês?!... Estão me olhando por quê? (foge gritando). O Anal - Este país não tem jeito. Só uma grande catástrofe, uma tempestade de merda consertava isso aí... Só depois de uma grande cagada política, aí, sim, purificados, teríamos a bonança... Psi - Seu pai lhe batia muito, quando você se sujava nas calças? O Mártir Imaginário - Tiradentes foi esquartejado... Frei Caneca enforcado... Como é belo o martírio dos que morreram pela salvação do Brasil... Grandes heróis mortos... Psi - O senhor acha a vitória uma 'coisa de burguês'... Não é?... Se o senhor fizesse sucesso, seu pai falido lhe castraria? O Nostálgico - Ahhh... como era verde o meu vale!... Ai, como era bom antigamente... Vida mais simples, todos se amavam... Aí chegou o neoliberalismo e estragou tudo. Psi - O senhor ama a utopia em marcha à ré? Deve ter sido uma criança mimada, filho único... Aí, nasceram os irmãozinhos, não foi? O Imutável - Pode mudar o mundo. Eu não mudo um milímetro em minhas idéias... Há valores de que não abdico! Psi - O senhor tem medo de mudar de sexo? De virar mulher?... ("Arghh!" - mais um que foge gritando). O Militante do Ar - Avante povo! Para as barricadas! Revolução ou morte! Psi - O senhor já pegou em armas? Ahh, não? Fica em casa de pijama torcendo pelo 'povo' como quem torce pelo Palmeiras? É um caso de quixotismo preguiçoso ou militância imaginária... O 'Bode Preto' - Tudo é uma bosta... Tudo é cronicamente inviável... Beco sem saída... Não há luz no fim do túnel... Psi - O senhor é paulista? Se tudo é uma bosta, sobra apenas o senhor - o único que presta... Isso é narcisismo de paulista engarrafado no caos urbano da cidade... Tome Prozac e vá para a Bahia!... Eu estou aí dentro... E você, leitor intelectual e neurótico, 'meu semelhante e irmão', onde você se enquadra?
77. ARNALDO JABOR. O QUE AS MULHERES SERÃO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS? Acabo de voltar do carnaval na praia, onde fiz uma triste constatação: tá dominado, tá tudo dominado!!! Só dá funk! O "neo forró" tenta uma reação, mas suas letras não são cafajestes e não trazem a "alegria compulsória" que o brasileiro tanto gosta. Aí não dá, né, pô?! Como é que o cara quer fazer sucesso sem tratar mulher como lixo?! Esses forrozeiros, vou te contar... A indústria do CD pirata vai tratar de enfraquecer esse negócio, mas o jabá e a televisão devem insistir na onda por um bom tempo. Xuxa, Luciano Huck, Raul Gil, Gugu, enfim, toda essa gente boa vai se virar pra ganhar em cima. A Bandeirantes até já vai lançar um programa semanal com duas horas de duração dedicado ao funk. Isso, claro, até o "Tigrão", a mente por trás do "movimento", ser domesticado, o que, em termos mercadológicos, significa botar um terninho e gravar uma babinha pra novela das oito da Globo. O "Tigrão", aliás, deu uma elucidativa entrevista pra revista VIP de março. Eu digo elucidativa, pois ele dissipa a névoa de ignorância (por parte do público) que encobria alguns aspectos do "movimento". Vejamos: em determinado trecho da entrevista, "Tigrão" diz: "...As pessoas gostam desse erotismo. Mas, se você analisar, as letras nem são tão pesadas. Elas têm duplo sentido, até porque o público infantil ouve funk". Muitas coisas interessantes nessas sentenças! Então vamos por partes: "...se você analisar, as letras nem são tão pesadas". Eu analisei e ele está certo. Quem, em sã consciência, poderia achar pesada a letra do funk "Máquina de Sexo", que diz: "Máquina de sexo, eu transo igual a um animal / A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal / Chatuba come cu e depois come xereca / Ranca cabaço, é o bonde dos careca"? Nota-se a leveza de termos como "sexo anal", "cu", "xereca" (!) e "cabaço". "Elas têm duplo sentido...". Procurei demais e não achei o duplo sentido no funk "Barraco III": "Me chama de cachorra, que eu faço au-au / Me chama de gatinha, que eu faço miau / Goza na cara, goza na boca / Goza onde quiser". Ah, agora entendi! "Goza na cara" é porque o cara ficava tirando sarro da menina pelas costas. Aí ela diz "Goza na cara!". Que coisa... "...até porque o público infantil ouve funk". Eis uma verdade e a preocupação do "Tigrao" se justifica. Foi pensando nas crianças que o garoto Jonathan, de 7 anos (ele mal tem coordenação motora para reproduzir a coreografia) foi incentivado a gravar o funk "Jonathan II", de edificante letra: "De segunda a sexta, esporro na escola / Sábado e domingo, eu solto pipa e jogo bola / Mas eu já estou crescendo com muita emoção / E eu já vou pegar um filé com popozão". 7 anos!!! 7 anos!!! Pô, foi mal... A culpa é minha, gente grande, feia e besta, que não entendo. Então, vamos lá, repetir o discurso de dez em cada dez apresentadores de programas femininos e de auditório: todo mundo junto, um, dois, três e já: "A malícia está na cabeça do adulto, a criança só quer se divertir. Onde já se viu, se preocupar com uma coisa dessas. Das crianças que passam fome na rua ninguém fala nada...". Aplausos entusiasmados e urros de apoio, por parte do auditório. É bom que se diga que as crianças que passam fome nas ruas são um sério problema social, cuja resolução deve ser uma das prioridades máximas de qualquer governo (detalhe sem importância: os funks da moda não passam nem perto dessa questão. Mas, beleza, vamos lá...). Só que é um problema do governo, a gente não tem nada com isso, não é mesmo? Ao invés disso, vamos dar risada e incentivar o moleque de 7 anos (7 anos!!!) a "pegar um filé com popozão". Afinal, nunca é cedo demais pra mostrar pro papai que se é um garanhão, que não deixa passar nenhuma cachorra. Isso é que é uma infância saudável! E pensar que eu perdi tanto tempo assistindo "Bambalalão", "Sítio do Pica-Pau Amarelo" e ouvindo aqueles discos da "Turma do Balão Mágico". Ao invés disso podia estar por aí, transando umas cachorras... Enquanto a gente dá risada, a molecada vai crescendo com a certeza de que mulher não passa de uma bunda e um par de peitos siliconados, que gosta de ser chamada de cachorra e que acha que só um tapinha não dói. Se "só um tapinha não dói", o primeiro deveria ser dado no popozão dos tigrinhos e cachorrinhas que curtem essas coisas. Depois a gente não entende o motivo do aumento dos índices de violência contra a mulher e porque ela é tão desrespeitada na sociedade. Será que não é óbvio? Você, cadela... quero dizer, mulher que está lendo isso, levante-se e lute! Não seja uma cachorra! Um tapinha dói, sim! Exija respeito antes que nós, homens, acreditemos que é isso mesmo que vocês querem. Deponham as Xuxas, Carlas Perez, Feiticeiras, Tiazinhas, Enfermeiras, Internéticas,Vampiras, Fernandas Abreu e Vanessinhas Pikachu de seus reinados de miséria intelectual! Conto com vocês!!! E lembrem-se sempre da cada vez mais pertinente frase de Oscar Wilde: "Todo crime é vulgar, assim como toda vulgaridade é criminosa."
78. ARNALDO JABOR. O OCIDENTE ESQUECEU HIROSHIMA E NAGASAKI. Há 57 anos, no dia 8 de agosto de 1945, um piloto americano pintou na fuselagem de seu avião o nome de sua mãe querida: "Enola Gay." Depois, voando sobre o Japão, num belo dia de sol, despejou a bomba atômica que derreteu em 30 segundos cerca de 100 mil pessoas, em Hiroshima. Ele viu com prazer e espanto o cogumelo em chamas se erguendo ao céu e, contente da missão cumprida, voltou à base, sendo que, no dia seguinte, outro aviãozinho matou mais 100 mil e transformou também Nagasaki num deserto de metal derretido. Nunca esqueceremos o Holocausto que matou milhões de judeus, mas fugiu-nos da lembrança Hiroshima e Nagasaki, com seus fulminantes tornados de fogo. Por quê? - se a extinção em massa dos japoneses é tão apavorante quanto os fornos alemães, pois fez em um minuto o trabalho de anos dos nazistas? O que mais me choca na bomba de Hiroshima é a rapidez anglo-saxônica do feito, a eficiência tecnológica, sem trens de gado humano, sem prisioneiros magros sofrendo, sem a linearidade suja dos nazistas, sem pilhas de cadáveres capazes de nausear até o Himmler. A bomba americana foi um "feito tecnológico", uma "vitória" da ciência, o fruto sujo de Einstein. Hiroshima foi o início da pós-modernidade técnica, guerra limpinha, do alto, prefigurando a Guerra do Golfo. Os nazistas eram loucos, matavam em nome de um ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. A bomba americana foi lançada em nome da "Razão". Foi uma bomba de "democratas" do bem, raspando da face da Terra os últimos "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Trumam em seu diário secreto: "São animais cruéis, obstinados, traidores, fanáticos." Eram considerados inferiores seres de olhinho puxado, que podiam ser fritos como "shitakes" na frigideira. O Holocausto judeu nos horroriza pelo dia-a-dia burocrático do crime, pelo seu cotidiano "normal", com burocratas contabilizando pacientemente quantos óculos sobraram nas câmaras de gás, quantos dentes de ouro... A bomba A foi rápida e eficiente como uma nova forma de detergente, um potente "mata-baratas". Ainda hoje é fascinante ler a racionalização dos americanos para justificar a morte de dois "Maracanãs" cheios, como se desinfetassem um shopping center. A bomba de Hiroshima explodiu diante da humanidade já anestesiada pela banalização de 20 milhões de mortes na 2.ª Guerra e pelo massacre dos judeus - foi o coroamento pavoroso das trincheiras da 1.ª Guerra. A bomba explode quase como um alívio, como escreveu Truman: "Eu queria nossos garotos de volta ("our kids") e ordenei o ataque para acelerar essa volta." Outra "razão" era que Hitler estaria próximo de conseguir uma bomba A, argumentaram generais falcões e cientistas, como Einstein (antes, para Roosevelt) e Oppenheimer. A destruição de Hiroshima e Nagasaki não era "necessária". O mundo não estava em perigo diante da invasão de ETs, como era a opinião dos milicos sobre os "japs"; o Japão estava de joelhos, se rendendo, querendo apenas preservar o imperador Hiroito e a monarquia instituída. A "razão" real era que o presidente e os "falcões" queriam testar o brinquedo novo. Truman escreve em seu diário, depois do primeiro teste da Bomba, como um garoto entusiasmado com um "Lego": "É incrível! É o mais destruidor aparelho já construído pelo homem! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!" A outra grande "razão" americana para o ataque era a vingança. Os USA tinham de vingar Pearl Harbour. As duas bombas caíram "de surpresa", exatamente como fora o ataque japones, anos antes. Além disso, queriam intimidar a União Soviética e Stalin, pois a guerra fria já assomava no horizonte. E, por fim, queriam dar também um show de som e luz para o mundo todo, uma superprodução a cores que enfeitasse a marcha do império. Assim como os nazistas elaboraram uma "normalidade" burocrática para a "solução final", os americanos criaram uma lógica "científica" para seu crime. Por isso, Hiroshima não sujou o nome da América tanto quanto o Holocausto manchou para sempre o nome dos alemães. Até hoje, quando se fala em alemão, pensa-se em Hitler, enquanto Hiroshima quase soa como uma catástrofe "natural", inevitável, um brutal remédio no calor da guerra. O crime dos alemães justificou e absolveu o crime americano. E como os americanos saíram limpos dessa? Creio que, naquele momento infame do Ocidente, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime; o mundo pensante estava todo dentro de um grande lixo, numa vala comum de detritos humanistas. A época estava morta para as palavras, não havia mais sentido diante dos fatos. Só restou, na Europa, o desalento, a literatura do absurdo, o existencialismo, o suicídio filosófico, o niilismo em meio às ruínas. Enquanto, na América, longe de tudo, da Ásia e da Europa, só aconteceu a euforia do papel picado caindo na 5.ª Avenida, sobre os heróis da "vitória" da democracia. Era o início de uma era de prosperidade e esperança, dos musicais de Hollywood, pois o "eixo do mal" estava vencido e derretido. Alegria que durou até 1949, quando os comunas explodiram a bomba H, quando começou a guerra fria.
79. ARNALDO JABOR. O SAPO ENTRA SOZINHO NA BOCA DA COBRA. O Congresso americano acaba de aprovar o "fast track" para o Bush poder negociar com "independência" as regras da Alca. No entanto, no texto da TPA (o nome desta autorização) estão mantidos no texto mecanismos que permitem ao Congresso monitorar negociações para produtos considerados sensíveis, que são justamente os que mais interessam ao Brasil. Por isso, me pergunto: por que o Brasil tem de continuar aceitando a inevitabilidade da Alca? Claro... bem sei das injunções políticas e econômicas de um país que tem de negociar com o FMI e o Tesouro americano, sei de nossas fragilidades do momento, de nossa dependência de suas políticas imperiais e do medo por sanções não-explícitas que eles podem nos aplicar. Mas, isso não pode justificar a política do "sapinho e da cobra", como escrevi num artigo de um ano atrás: "A sensação que tenho é a estória do sapo e da cobra. Já viram como se alimentam as jibóias e jararacas? Joga-se um sapinho na jaula. O bichinho pula de pânico pra todo lado e a cobra fica imóvel, olhando. Ele pula daqui, pula pra lá e acaba hipnotizado, seduzido, entrando obediente na boca aberta da serpente. Tenho pavor de que isso nos aconteça." Acho que um "choque de capitalismo" pode nos arrancar do atraso, sim, acho que a "instantaneidade" do mundo de hoje podem fazer algum bem ao caos paralítico do Brasil patrimonialista. Mas, entre remédio e veneno há quase nada. A verdade óbvia, solar, é que o plano da Alca traz embutido o nosso destino - feito por eles. Isto é o fato histórico mais grave, mais assustador para nosso futuro. Por isso, cito aqui também um artigo antigo do embaixador Rubens ??Ricupero, onde ele diz: "É preciso vigilância reforçada na negociação de normas gerais de comércio, se queremos no futuro evitar sofrimentos como este que amargamos no momento. E jamais aceitar de novo sob qualquer pretexto delegar a organizações de que não fazemos parte a tarefa de definir para nós as regras que devemos seguir. (...) Com os subsídios proibidos hoje pela OMC, nem o Delfim Neto poderia ter estimulado a exportação de manufaturados ou, se JK ressuscitasse, não poderia mais implantar a indústria automobilística..." E repito um trecho de entrevista de outro embaixador corajoso, Samuel Pinheiro Guimarães, que o Itamaraty encostou por "inconveniência": "Com a Alca, os Estados Unidos realizariam seu desígnio histórico de incorporação subordinada da América Latina a seu território econômico e à sua área de influência político-militar.(...) Não há, na política e no direito internacional, nenhum processo de negociação, em nenhum foro, em nenhuma região, em nenhuma organização, que tenha de ser aceito passiva e de forma submissa pela sociedade como irreversível." Quando falo da "cobra e do sapinho", é porque me assusta a fragilidade tradicional dos brasileiros em negociações com os gringos, com sua tradição francesa de punhos de renda, sem a objtividade rude dos americanos quando querem conseguir uma concessão de algum emergente. Há algum tempo o diretor da CIA declarou que a agência existe hoje para fazer espionagem industrial e comercial. A meta atual dos Estados Unidos é fazer do Ocidente uma grande economia sem fronteiras, com excecão das fronteiras deles, claro. Para nós, a diplomacia é a arte do meneio; para eles, é uma linha reta, bruta, mercantil. Americano trabalha com a política do "bode na sala", como me disse o embaixador Pinheiro Guimarães. Eles colocam uma exigência absurda, lutam por ela, e quando recuam, apenas chegaram aonde queriam desde o início. Exemplo? Fingiram forçar a Alca para 2002 e acabaram "concordando" com a Alca em 2005, onde sempre esteve. Nós achamos que foi uma "conquista". É o "bode na sala". Quando tiram o bode, o alívio parece uma vitória. Por essas e outras, corremos o grave risco da "síndrome do sapinho", de morrer seduzidos pela boca da cobra, até vagamente honrados com a devoração. Para os americanos, protestantes, amantes do lucro e da riqueza, a vitória é orgulho. Para nós, a vitória traz culpa, medo. Eles amam o sucesso. Nós, católicos e ibéricos educados para a obediência e dependência ao Rei, cultivamos o fracasso. Os americanos inventaram o mito do pan-americanismo, da "boa vizinhança", de que estamos "no mesmo barco" do Ocidente, mas na verdade têm um grande desprezo por nós. Ocultam isso e sabem, como ninguém, cooptar nossas elites deslumbradas, tanto as comerciais como as intelectuais. Americano considera o comércio uma atividade militar. Na crise asiática, quando o Japão imaginou criar uma espécie de FMI regional, Robert Rubin e Larry Summers voaram correndo num jato militar para impedir esse ganho de poder para os japorongas. Eles trabalham como um time, e têm a coalizão de formigas. Para eles, o detalhe é tão importante quanto o todo. Mas, para nós, dividem as questões com grande formalismo jurídico, dividem sempre, para provocar dispersão. Ex.: "Abram o mercado", eles dizem. "Só se vocês acabarem com sobretaxas", dizemos. "Ah... uma coisa não tem nada a ver com a outra", retrucam... Dividem os temas para nos dividir. São craques. Como já escrevi: "Para negociar com os americanos, precisamos urgentemente aprender a negociar como os americanos." Nosso destino está em jogo. Podemos morrer na praia do século 21. E se me repito hoje, citando-me, é porque ninguém mudou. Nem eu (quem sou eu, pobre de mim?...) nem os USA nem o Brasil, que pode agir como o sapinho entrando na boca da cobra.
80. ARNALDO JABOR. O CRIME CRESCENTE É UM FRUTO DO PROGRESSO. Afinal de contas, o que está acontecendo? Parece que tudo se move a direção do abismo. De repente, a morna vida brasileira começa a correr em alta velocidade, como um grande ventilador de excrementos. O Brasil é assim: ou nada acontece ou tudo acontece. E diante da angústia do incontrolável, corremos em busca de "sentido". A mídia congrega e acentua nosso pânico, na esperança de uma explicação, nem que seja do apocalipse. Aí, sentimo-nos dentro de uma conspiração de demônios: dengue, seqüestros, assassinatos, escândalos, tudo se soma num grande esqueleto estruturado para nos apavorar. A consciência anda mais devagar que as coisas. Nosso entendimento vem sempre depois, quando já é tarde demais. É impossível entender o que está rolando no Brasil, se nos aferrarmos a pontos de vistas imutáveis. Os fatos estão além das interpretações. Há algo em comum entre a globalização desumana e a violência caótica: ninguém sabe o que fazer. Mudou tudo no País. Foram se acumulando décadas de desleixo e preguiça, pequenos crimes, pequenas loucuras administrativas, pequenos movimentos sísmicos e, de repente, o que era uma realidade vira outra. As quantidades viraram qualidade. Para pior. Houve no Brasil um "salto qualitativo" para baixo na defesa pública. O crime crescente não é fruto da miséria; é fruto do progresso. Do progresso tecnológico e empresarial de um país torto. O tráfico de cocaína é uma megaempresa e o contrabando de armas e os seqüestros são derivados dos bilhões de dólares que giram sob a lama das favelas. O tráfico capitalizou a miséria. Antigamente, havia três ou quatro marginais românticos: Zé da Ilha, Cara-de-Cavalo, Mineirinho. Hoje, populações inteiras vivem à custa do único emprego que pintou nas periferias: droga. Antes, havia corrupções de ninharias; hoje, que policiais ganhando merrecas agüentam ver passar intocados quilos dourados de pó? Que adianta prender pés-de-chinelo? Há que atacar os Conselhos de Administração globalizados da cocaína. Eles jantam nos Jardins. Não temos conceitos adequados para o país que explode à nossa frente, estamos desamparados com nossas velhas palavras, velhas idéias, velhas leis. Enquanto o ritmo do crime, da miséria, da loucura voam com imensa liberdade, nós nos arrastamos no passo preguiçoso dos políticos burgueses. O Executivo e o Congresso são incapazes da emergência. Resolveram analisar os 200 projetos contra o crime só a partir de abril. O ritmo do Judiciário também é feito pela protelação, pelo arreglo, sem instâncias terminativas, libertando assassinos e ladrões, atrasando mais ainda, do alto de seus palácios de mármore, as polícias sem armas e sem dinheiro. A primeira vontade diante do imprevisto é correr para trás, em busca de antigas certezas. Infelizmente, não há nada de útil nos velhos baús. Não há mais caminho racional em uma sociedade de mil camadas, de labirintos dentro de labirintos, se anulando, se bifurcando. A realidade brasileira (e os discursos sobre ela) se parece cada vez mais com as vielas das periferias. A favela com seus becos, buracos, armadilhas, socavões e desvãos é a cara da vida nacional. Os criminosos pensam e vivem assim: pela linguagem dos labirintos, das "quebradas", sem nenhuma esperança de solução, de futuro. E nós, os "limpinhos", diante desse quebra-cabeça, esperamos "soluções" lineares. Que "solução"? Não há mais solução. Chorem, esperançosos iluministas, chorem donas de casa sonhando com o aniversário de casamento, chore neoliberal acreditando na "mão" do mercado, uivem comunas empedernidos que acreditam em planejamento cnetral, berrem românticos clamando por uma era de grandezas, danem-se filósofos embrenhados em tautologias e ressentimentos. Ainda olhamos o presente através de um espelho retrovisor. Temos de esquecer a velha idéia do "conjunto", acabou a utopia de um mundo coerente. Temos de criar uma política em leque, em "rizomas", em muitas frentes, e os instrumentos são muito mais a imaginação, a invenção. Não há mais unidade a ser "re-feita" (se é que já existiu...); só há "unidades", módulos, favos de fel, ilhas do mal, buracos quentes, becos escuros, como nas favelas. A maneira de combater a violência, a corrupção policial, armas, todas essas "novidades" do crime global não será por grandes discursos nem por gestos totalizantes. Ao contrário, temos de quebrar correntes sucessivas, linhas contínuas, sucessividades. Temos de "quebrar" e não de "re-cobrar", salvar, recolar. Nunca vai-se restaurar o velho sonho de harmonia de classe média. Temos de quebrar os cinturões de miséria nas periferias pela invasão de núcleos de emprego e batalhões de saneamento e educação, invadir as periferias com bilhões de dólares subtraídos do FMI para criar ilhas de indústrias, de cooperativas, de centros de produção. É isso: custa bilhões de dólares sim - e daí? Bem menos que o roubo dos bancos. Não adianta mais a racionalidade sobre o óbvio. Chega, basta de diagnósticos perfeitos que não levam a nada. Todo mundo sabe da doença. Faltam os remédios. Temos de trabalhar com erros e tentativas, com riscos ideológicos, com imaginação, com alianças espúrias, até com mentiras estratégicas. Temos de derrubar nossos parnasos, esquecer ideologismos que consolam e levam à preguiça com boa consciência e ao nada. A eficiência e o pragmatismo dos criminosos nos ensinam o ritmo da ação. Se bobearmos, viramos Colômbia.
81. ARNALDO JABOR. TODOS NÓS QUEREMOS SER CANIBAIS. Eu ia escrever uma artigo sobre o atual canibalismo político no Brasil, sobre o campeonato de denúncias para saber quem é mais ladrão, ao som de procuradores sapateando em fitas como bailarinas espanholas mas... cansei e resolvi ir à real thing e escrever sobre o canibal Hannibal, criação luminosa do Anthony Hopkins, agora no filme de Ridley Scott. O filme é ruim, mas é bom de ver, se é que me entendem. Hoje, só me interessam as informações "filmológicas" das fitas; qualidade, se houver, é um brinde casual. Por "filmologia" refiro-me à disciplina dos anos 60, criada pela turminha do Gilbert Cohen-Séat (quem ainda se lembra?), de modo a entender tendências sociais que o cinema revela. O que me interessa nesse filme é a extraordinária personagem do canibal dr. Hannibal Lecter. Ele é uma rica metáfora da gelada ética que se instala no mundo. Hopkins criou uma figura que nos fascina como poucas no imaginário desta fronteira de milênios. Hannibal é um achado e a razão de seu sucesso não é somente a qualidade do ator. Os oscars recebidos, o estouro de bilheteria mostram que Hopkins acertou na mosca, trouxe à luz algum desejo difuso no ar do tempo. Hannibal é inteligentíssimo, amante do belo, com uma extrema elegância culta. E o grande achado é que a pessoa mais civilizada do mundo é também um canibal. Ninguém comete crimes com mais finesse que ele. Hannibal busca quase uma forma de arte, praticada com invenção e maestria na devoração e no assassinato. Há em Hannibal um eco da perversão iluminista de Sade, com a precisão dos cortes, a geometria da crueldade, o rigor estético do mal. Há, como em Sade, o desejo de refutar a moralidade de um "antigo regime", de ir além do permitido, de provar a mediocridade da piedade, da hipocrisia do bem. Há quase uma "bondade" na crueldade de Hannibal. Hopkins (alcoólatra e famoso perverso inglês) criou uma personagem exemplar e contemporânea. Diante de Hannibal, todos nos sentimos meio babacas, antigos, caretas. Na literatura do horror, Hannibal é um marco novo; vai além dos vampiros e "dráculas", figuras ilustres do romantismo. O vampiro era uma homenagem ao amor sublime, a uma sexualidade idealizada e agônica, quando os escravos da paixão ansiavam pelo êxtase da dentada no pescoço. Com Hannibal não há a nostalgia triste dos vampiros. Ele é um "reformador de costumes". Hannibal quer exterminar os medíocres e, espantosamente, sonha com um mundo belo. Ele despreza suas vítimas e o único perigo que corre é o de se apaixonar pela policial Clarice Starling, ex-Jodie Foster e atual Julienne Moore. A cândida policial o emociona e Hannibal vê em Clarice uma beleza que desejaria para o mundo todo. "Não te devoro porque o mundo fica mais bonito com você...", diz ele no "O silêncio dos inocentes". Hannibal é pós-moderno (arrghh!...). Ele nos acena com um delicioso futuro primitivo, com uma volta à animalidade perdida, depois de tantos séculos de ciência. É como se ele dissesse: "Nenhum saber, nenhuma ética, nenhuma religião vai apagar o animal feroz que há em nós. A humanidade é um caso perdido e eu sou a prova disso..." Cada vez somos mais como ele, no darwinismo social que se instala. Já somos mais sozinhos, mais avessos à compaixão, mais frios. Para sobreviver, precisamos "não ver" o sofrimento dos outros, a injustiça e a desigualdade. Queremos ser tocados pela graça da impiedade. Daí, o fascínio do assassino. Nada mais atraente que a psicopatia elegante. Todos queremos ser como Hannibal. Além disso, Hannibal nos dá a rara oportunidade de, no escurinho do cinema, torcer pela vitória do perverso, pelo triunfo do mal. Isso nos excita como a mais louca liberdade. A vitória do crime liberta secretamente nosso canibalismo secreto de milênios. Schwarzenegger, Van Damme, Mel Gibson estariam lutando "pelo Bem", pela sociedade civil. A violência nesses filmes é hipócrita, exibida como chamariz comercial, mas dissimulada pela boa ação dos heróis da lei. O sangue, as explosões de corpos são mostrados como os "horrores do mal" e assim faturam bilhões, pagos por nosso sadismo enrustido. Com Hannibal, podemos nos repastar na perversão, sem barretadas ao bem, feito sexo sem pecado... Na realidade, Hannibal é um ícone da guerra narcísica do mundo atual. Estamos cada vez mais sozinhos como Hannibal. O canibalismo social está por baixo de nossos desejos. Queremos amar sozinhos, vencer sozinhos, devorar o mundo como devoramos sushis em balcões yuppies, queremos nos apropriar da vida ferozmente, sem competidores. Em "American Psicho", o criminoso é uma anomalia. Hannibal é sofisticado e invejável em sua inteligentíssima frieza. Quando falamos em "comer" mulheres ou homens, sonhamos com uma sexualidade canibal livre dos problemas do amor. Acabamos de ver as escolas de samba, com mulheres se oferecendo completamente nuas e um grande supermercado de corpos, como pedaços de comida em prateleiras. Há dez anos, na estréia do "O silêncio dos inocentes", escrevi o seguinte: "Os crimes frios são o prenúncio dos futuros extermínios de massa. Como ficou arcaica a compaixão, queremos ser tocados pela graça da frieza. (...) O que nos fascina na personagem de Hopkins é que ela parece estar mais além de uma moral antiga e que ela contempla, do outro lado do Bem, uma nova realidade. Hannibal parece saber mais do que nós, que ainda vivemos mergulhados em dúvidas morais e culpas. O canibal e doutor Hannibal Lecter nos olha do futuro.
82. ARNALDO JABOR. REALITY SHOWS MATAM FOME DE VERDADE. Ah... é? Querem show de realidade, reality show? Pois aqui vai um artigo-realidade, com todas as suas dúvidas, informe rascunho, sujo texto, tudo que me passar pela cabeça enquanto escrevo. Será a verdade de minha mentira ou a mentira de minha verdade? Besteira, deixa de filosofias baratas... Deixa eu ver... Nelson Rodrigues dizia que a novela era importante para satisfazer nossa fome de mentiras. O show de realidade é para satisfazer nossa fome de verdade. O Paulo Emílio, o grande crítico de cinema, dizia que vamos ao cinema como ao bordel - em busca de ilusão. É isso aí... só que a televisão não é no escurinho do cinema, que tem algo de secreto, de fuga, algo que ficou no fundo dos anos 30-40. Não; a TV é com luz acesa, a TV é uma vitrine na tua sala, com ofertas de sabonete e de amores. TV não vende ilusão; vende desejos e os desejos crescem. A ficção, no cinema e na TV, não está dando conta do horror da realidade, do real-espetacular de hoje. Que filme teve mais impacto que o reality show do Osama Bin Laden no dia 11 de setembro? Nunca a ficção foi tão real. As notícias e a ilusão se uniram em quatro aviões caindo do céu americano, porque, como sabemos, a TV é dividida em dois mundos: "The news is bad, the ads are good", como disse alguém. (Quem? McLuhan, Daniel Bell? "As notícias são más, os anúncios são bons" - (NB: 'news' é singular mesmo...) Naquele dia, o sonho explodiu. Naquele dia, descobrimos que a realidade não estava morta e que ela se movia com o timing ideal dos filmes... e tudo num curta-metragem de 20 minutos. Portanto, depois do 11 de setembro, como 'entreter', como fazer um desgraçado esquecer do mundo que estoura lá fora, que ilusão se pode ter, quando o horror não te deixa dormir no sonho e na mentira? E não só os deliciosos horrores que te satisfazem o rancor, mas também que ilusão te aquecerá para você esquecer o que viu na TV, a maravilha que poderia ser tua vida, quando você é apenas um excluído, sem grana para pagar um reles tênis ou uma sórdida geladeira? (Misturo 'tu' com 'você', oh... gramáticos, como na vida real) Além disso, nos dias de hoje, você não se deixa mais enganar com musicais românticos, você não é mais amansado por Fred Astaire e Cid Charisse dançando no escuro, você está indócil, querendo existir. Aí, Hollywood saca isso e resolve te dar mais "entretenimento", aumenta a dose da droga, mais na veia, mais, e porradas a granel e efeitos especiais e mais sexo, sexo, sexo... Mas, não adianta muito, porque... até onde pode ir um filme pornográfico, até onde?Até o interior do corpo, até o intestino pelo olho do ânus, pelas vaginas a dentro para achar a alma? E você também não tem como comer aquelas gatas de seios siliconados, musas virtuais, e tuas punhetas se encerram num triste jato de nada na mão molhada. No meu delírio teórico, eu pensei: "Ahh... o reality show atende a um desejo do homem comum de ver a própria concepção, a 'cena primária', como dizem os psicanalistas, ver pelo buraco da fechadura, edipicamente, papai e mamãe transando na cama sagrada do drama burguês." Mas, não. É mais que isso, mermão. Isso apenas 'faz parte'. Você quer mesmo é invadir a TV como os assaltantes invadem uma casa. Você quer ver o que acontece no mundo dos que amam, dos que consomem, dos que existem. Você quer 'ver'; não sabe bem o quê ainda, mas quer ver o que te escondem, ver algo que te é negado. Você quer estar onde tem tudo: iogurte, carro do ano, Jade, cerveja com mulher boa, carros sport, luxo no shopping virtual da tela, você quer morar lá dentro como uma rosa púrpura do Cairo." Mas, aí, você bateu na tela de vidro e não entrou, na emissora o porteiro te barrou, e você viu que teu sonho era impossível. Foi então que as televisões do mundo perceberam tua desesperada vontade de existir e te disseram: "Você pode entrar se for selecionado e sair daqui com corpo e alma, com identidade, você pode nascer como o Bam Bam nasceu para a vida!" O reality show é o quebra-galho do sonho do socialismo que morreu, onde todos seríamos multidões cantantes. O reality show é democracia de massas cobrando ingresso. Mas, aí, nova surpresa. O SBT quis mostrar a verdade cotidiana de gente famosa, de personagens 'de ficção' da mídia. Enquanto isso, a Globo mostrou a aura que pode aflorar de anônimas e banalíssimas pessoas. E o ibope subiu ao avesso. Descobriu-se que você não quer ver famosos e gostosas, como a Tiazinha e a Feiticeira revelando aos poucos sua 'verdadeira' face ou mesmo sua verdadeira bunda. Você não quer ver a Tiazinha lavando roupa e a Feiticeira varrendo a casa. Não. Você quis ver os anônimos florindo e brilhando. Você quis ver uma beleza que vai aparecendo na convivência de gente boba como você, gente que chora sem motivo, gente que fala com boneco, gente que vomita. Mais do que ver 'sacanagem' ou 'cena primária', você descobre (e as TVs também) que quer ver o vazio, o nada do cotidiano, descobre que quer o alívio da informação e o vazio da verdade. A verdade é vazia, não-transcendental, a verdade está na pausa, no tédio, na falta de assunto, você quer o alívio do nada. O sucesso do Big Brother esteve na verdade que se infiltrou quando nada acontecia, entre os momentos em que mentirosamente eles fingiam sofrer ou amar. O sucesso se deveu ao nada, ao tempo morto. Ali, no irrelevante, arde uma verdade profunda, sem nome, sem efeitos. Naqueles instantes, nasce alguma coisa que se parece com tua vida. Você quer ver o que acontece quando nada acontece. Na verdade, você quer ver quem é você. Qual será tua próxima fome?
83. ARNALDO JABOR. MULHERES PENSAM E FALAM COM O CORPO. Afinal de contas, o que quer a mulher? - perguntou o Freud, segurando seu charuto fálico. Bem, a mulher não quer nada porque ela não existe, respondeu o Lacan. Tem razão - existem as mulheres, com data, geopolítica, classe social. E aqui na TV, janela virtual do Brasil, surgiram agora quatro mulheres falando do que "querem" na televisão. Elas estão no canal GNT, no programa Saia Justa: Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth e Monica Waldvogel. O programa está batendo todos os recordes da TV a cabo, comemoram Letícia Muhana, diretora da GNT, e Suzana Villas Boas, produtora-executiva do show das quatro meninas que, aliás, é ao vivo, quase um reality show. As razões do sucesso total? Acho que sei. O mundo masculino está cansando as pessoas; não é à toa que Roseana bateu alto nas pesquisas, que Rita Camata é chamada para vice, que Marina Silva, a corajosa e sensual seringueira, pode vir a ser vice de Lula. Ninguém agüenta mais aqueles sujeitos de terno, com seus bigodes e gravatas, decidindo os destinos mais finos da nação. A visão da mulher poderá ser mais democrática, mais tolerante, mais sutil nesta época tão dura de transição para uma democracia social - se é que ela virá... O que há de novo no Saia Justa é que, normalmente, se convocam as mulheres para mostrar que estão "integradas" no mundo atual. Nesse programa, ao contrário, as mulheres estão é "estranhando" o mundo. Essa é a diferença. As mulheres se integram no mercado, muitas imitam à perfeição os homens no trabalho, com seus tailleurs e invisíveis bigodes, mas em geral são vistas com uma curiosidade desdenhosa pelos machos oficiais da mídia. Saia Justa é um território livre. Rita Lee é aquele luxo. Faz um low profile defensivo, mas nós sabemos que São Paulo não seria a mesma cidade se ela não existisse. Sob a capa de roqueira, ela é uma mulher política, faz uma análise cultural do País, desde os Mutantes. A escritora Fernanda Young é a pós-modernidade se expressando, uma mistura de mãe punk com intelectual pop, ostentando uma autoparódia na cara da gente, como arma crítica. Marisa Orth, a anti-Magda, inteligentíssima, destrói a caretice e a peruíce, tanto como atriz quanto como personagem, e Monica Waldvogel, sensata e doce, com o crivo da razão jornalística, faz o copidesque que orquestra um sentido para as idéias que explodem no belo cenário de Carla Caffé, sob a luz de cinema de Rodolfo Sanchez. Em Saia Justa, as mulheres pensam com o corpo; suas reflexões são sempre repassadas de uma subjetividade emocionada de onde sai um pensamento não-fálico, não definitivo. Novalis escreveu que "a mulher é o ponto de transição do corpo para a alma". Nessa imprecisão está a sua riqueza, principalmente nestes tempos submissos a um "pensamento único". Às vezes, escrevo sobre as mulheres no Brasil de hoje. Mas sou um pobre macho perplexo. Por isso, aqui vão algumas perguntas às meninas do Saia Justa: Vocês não acham que as brasileiras comuns desconhecem a liberdade sonhada pelas feministas? O que vemos aqui é uma libertação da "mulher-objeto". Elas não estão virando "sujeitos" livres, mas querem ser mercadorias sedutoras, como um BMW, uma Ninja Kawasaki... O "objeto" é feliz, não sofre. As mulheres querem a felicidade das coisas. Querem ser disputadas, consumidas, como um bom eletrodoméstico. Verdade ou mentira? A gente viaja pelo mundo e vê que as européias ou americanas não ficam apregoando uma sexualidade berrante pelas ruas. Por que as brasileiras se exibem tanto como gostosas, peitos de silicone, coxas lipoaspiradas, bunda soerguida, vagina indomável, sorriso largo e debochado? Será isso prova de liberdade ou de fragilidade? Elas têm de oferecer sua carne nua o tempo todo porque são inseguras? Elas não prometem carinho; prometem "funcionamento". Não é por acaso que são chamadas de "avião" ou de "máquina"... As mulheres brasileiras são amigas ou inimigas dos homens? Por serem oprimidas, é válido que a brasileira use uma estratégia de controle sobre os machos, a sedução pela histeria, pela fragilidade fingida, pela dissimulação da competência? Pode a brasileira "viver sem mentir"? O que é a perua? A perua seria uma conseqüência disso? Quais as categorias de peruas? A perua malvada é o "outro" do machão?... E a bunda? Não merece uma reflexão? As bundas estão virando uma utopia. Não há mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil... Já mostraram o corpo todo, as vaginas, o interior delas... Só restará, um dia, os intestinos... O que mais? A revolução feminista no Brasil será apenas esse strip-tease geral, essa dança da garrafa? O sexo total que nossas gostosas prometem é impossível. Os peitos de silicone estão cada vez maiores, estão virando depósitos de leite venenoso. A libertação da mulher no Brasil de hoje é uma vingança conservadora? Sim ou não? Ou "sei lá"? Ou não é nada disso e minhas críticas não passam do medo de um machista metido a fino? Será que toda essa loucura feminina, essas capas de revista, essas roupas de mau gosto em coquetéis e Caras, esses falsos brilhantes, essas gargantilhas com nome de marido, essas "ladies" querendo ser prostitutas e vice-versa, essas multidões de meninas lindas querendo se salvar pela passarela ou bordel, será que tudo isso, no fim das contas, não vai adoçar uma ordem excludente e discriminatória de séculos, por uma doce miscigenação de costumes e loucuras? Será que isso tudo não é bom? Talvez esteja surgindo no País, com vices e danças do ventre, uma nova política através de olhos femininos. Os homens têm destroçado tudo. Só as mulheres podem nos responder. E salvar. Talvez.
84. ARNALDO JABOR. ENTRE O CELIBATO E O CASAMENTO, O CORAÇÃO BALANÇA. Outro dia, d. Paulo Evaristo Arns declarou-se a favor do celibato opcional para os padres. Mas, seria difícil a vida de um padre casado. Além de servir a Deus, ter de cuidar do lar. Imaginemos um padre casado. - Chegou tarde hoje, hein! - disse d. Silvaneide, mulher do padre, morena, seios fartos, fogosa, ex-dançarina de pagode, depois arrependida, depois beata, acendedora de velas do altar e amante do pároco, hoje casada com ele. - Meu anjo... esta época de Natal é difícil... mais de 30 confissões... - Confissão, o cacete!... Você fica ouvindo aquelas sacanagens ali no confessionário e depois vai se encostar naquela filhinha de Maria que ajuda na sacristia... a tal de Abigail, com aquela carinha de sonsa, beijando sua mão... Não sou cega não, meu filho... - Estava trabalhando por dinheiro... mulher... já entrei no cheque especial... o bispo me prometeu um extra por confissões em cascata... É incrível... os pecados estão mudando... o que tem de corrupção, de cheques sem fundo... Não há mais pureza ou arrependimento... só sexo sem culpa... - É aí que você gosta, não é?... Se excita mais com a "santinha" da sacristia... - Meu bem, nem tenho forças... só penso em você... e nas contas a pagar... - (Chorando) Você não me ama mais... (ela se ajoelha, lágrimas jorram). - Meu amor... nada disso... olha... vamos sair... se eu tivesse dinheiro te levava ao Crazy Love, aquele motel novo... mas... olha, vou mostrar que te adoro, agora!... Vai pro quarto! Prepara-te para receber o sagrado sacramento do matrimônio!... - (Debochada) Que milagre é esse? A gente não transa desde a Páscoa... Agora não quero. Nosso problema é dinheiro... Você podia pegar umas esmolas daquele cofrinho; o sacristão não fazia isso? - Eu sou um servo de Deus! Quer que eu seja ladrão? Acordo às 5 da manhã... às 6 já estou rezando missa. A igreja está quebrada; com a crise, ninguém dá mais esmola... Eu tenho de varrer a sacristia... Vou comprar as flores mais baratas lá no Jacarezinho, de ônibus, para enfeitar os casamentos e batizados, que são as únicas graninhas que eu descolo... e ainda tenho de ouvir os xingamentos do bispo, que está com mal de Alzheimer e pensa que eu sou o Satã... Vive me exorcizando...Você pensa que é fácil? Pensa? Me dá até vontade de voltar ao celibato, ficar trancado na clausura, vendo a Xuxa na TV e chorando pra Jesus... é melhor... Olha, Silvaneide, eu me orgulho de ser honesto!... - Você não é honesto, não... Você é burro. Vamos acabar na rua da amargura... Não estamos mais na época de São Francisco não... É mercado global, meu filho... Era do espetáculo... - Por que os evangélicos estão com esse sucesso todo?... Porque são espertos... descolam aqueles 10 por cento ali dos otários... numa boa... cantam... dançam... Show business! - Ontem mesmo, teu filho falou que... - aliás, ele anda com uns caras estranhos, cabeça rapada, tatuagem... - ele diz que é "anjo do inferno"... Sei lá o que é... Mas ele disse assim, na minha cara: "Papai é otário... Veja o bispo Macedo... tem TV... milhões... tudo... Eu vou entrar para a igreja evangélica... Dá um granão...!" A única pessoa que tem dinheiro aqui é a tua filha... que, aliás, vive em baile funk... diz que é popozuda... não sei onde ela arranja tanta grana... (O padre cai chorando na poltrona esfarrapada com a mola aparecendo). - Deus do céu!... Isto é um inferno!... (soluçando) Ontem cheguei... e a empregada estava cantando uns pontos de macumba com a cozinha cheia de velas... Umbanda na casa do padre? E a vizinhança ouvindo: "Evém, evém, Oxossi atravessando as matas!" Tem cabimento? Despede ela já! - Eu? Despedir?... Nunca!... Empregada boa é difícil de achar... Depois, sei lá, roga aí uma praga... (Ele chora mais alto; ela se condói). - Meu querido... não quero te humilhar não... mas, você tem de ter ambição... Quer ver uma idéia boa? Vamos abrir uma lojinha de objetos sacros... reliquiazinhas... água benta... a gente compra as garrafinhas e você benze... você não pode benzer? Ai, que lindo... a gente ganhava um dinheirão... santinhos... gravuras... CDs de música... - Minha filha... eu não sou comerciante... - Ahh... imagina, querido... uma lojinha linda, cheia de velinhas e, na porta, o nome: "Presentes de Deus". Ou então... o nome em inglês, mais moderno: "God's Gifts"... ahh... Você subiria na carreira; já imaginou você bispo ou... oh, sonho louco!... você, cardeal... Nós dois em Roma... Você todo de vermelho... chiquérrimo... Nós, íntimos do papa?... - Silvaneide... ouve... ouve bem... eu tenho um segredo para te contar... Eu pensei muito, passei noites em claro e resolvi... - Resolveu o quê, vai me largar?... - Não, querida, ouve! (O pobre sacerdote começa a dançar, com os braços para cima e dando pulinhos pela sala). - Que é isso? Enlouqueceu? - Silvaneide... minha filha... bata palmas para Jesus!!! (chorando e rindo) Palmas para o Senhor, Silvaneide... Aleluia!! Estou aprendendo a dancinha do padre Marcelo Rossi!... Olha só... (O pároco-marido pulava e batia palmas, berrando) "Palmas para Jesus... ôôôô... palmas pro Senhor!" A Abigail, que você odeia, está me ensinando... olha só... (E pulava feito uma perereca do Senhor) Palmas para Jesus!!! E, então, d. Silvaneide, ex-pagodeira arrependida e ex-beata apaixonada, viu de novo o seu amor ali, pulando e cantando e agarrou-se feliz ao corpo do padre amado. - Meu amor!... este é meu homem! Vamos vencer! Já te vejo pulando diante de milhares de fiéis... vou fazer uma batina dourada pra você, com uma capa de roqueiro... Meu Rossi, meu Ozzy Osbourne, meu Xandi, meu Zeca Pagodinhho... Deus é mais!!! É , d. Paulo, talvez o celibato seja mesmo melhor que o casamento.
85. ARNALDO JABOR. PEDOFILIA NA IGREJA É CONSEQÜÊNCIA DO CELIBATO. No velho colégio de padres onde estudei, a entrada dos alunos já era um desfile de velada pedofilia. O padre reitor - ah... tempos antigos de batinas negras, rosários nas mãos, panos roxos nos ombros, tristeza infinita nas clausuras - postava-se imóvel, na porta do colégio, numa pose paternal e severa, com os braços erguidos e as mãos oferecidas para os alunos que chegavam. Passavam por ele duas filas de dezenas de meninos, beijando servilmente suas mãos abençoadas. Havia algo de veadagem naquilo, aquela negra batina imóvel, divina, como um manequim, as mãos beijadas com chilreios e devoção por mais de 500 meninos de calças curtas. Eu ainda me lembro do vago cheiro de sabonete e cuspe no dorso cabeludo da mão do padre. Centenas de meninos de pernas nuas eram pastoreados por tristes noviços e "irmãos leigos". Só se pensava em sexo naquele colégio. Eu via as mães dos alunos, lindas, com seus penteados e decotes imitando a Jane Russel ou Ava Gardner, fazendo charme para os padres na força de seus verdes anos, enlouquecidos pela castidade obrigatória. E eu me perguntava: "Meu Deus... por que padre não pode casar?" Lembro-me do tremor dos jovens padres, excitados pelas madames pintadíssimas, indo se trancar em negras clausuras, entregues ao "vício solitário", indo depois bater no peito e chorar sua culpa diante das imagens silenciosas. E esses mesmos padres nos diziam: "Cada vez que você se masturba, morrem milhões de pessoas que iam nascer. É um genocídio!" E nós, além do pecado, sofríamos a vergonha de ser pequenos "Hitlers" de banheiro. Eu pensava: "Por que tanta onda sobre nossos pobres pintinhos, por que essa energia que sinto em minha carne é feia, criminosa?" Vivíamos ajoelhados em confessionários, ouvindo envergonhados a voz e o hálito do triste sacerdote nos sentenciando a dezenas de Ave-Marias e Padre-Nossos. Tudo era sexo no colégio; essa palavra terrível estava em toda parte, como uma ameaça vermelha; o Diabo nos espreitava até detrás das estatuas de Santa Tereza em êxtase, nas coxas dos anjinhos nus, nos seios fervorosos das beatas acendendo velas. A pedofilia na Igreja é conseqüência direta do celibato. É óbvio que se a força máxima da vida é esmagada, a Igreja vira uma máquina de perversões. Claro. E de homossexualismo, visível em qualquer internato religioso. Outro dia, o Contardo Calligaris escreveu com precisão que a pedofilia não está só na carne do jovem assediado; a pedofilia é mais geral, abstrata, no prazer do domínio sobre os mais fracos, na pedagogia infantilizante das jovens "ovelhas" - como nos chamam os pastores de Deus - imoladas em sua inocência. Eu vi o Diabo naquele colégio: rostos angustiados, berros severos e excessivos nas aulas, castigos sádicos, perseguições a uns e carinhos protetores a outros. Eu mesmo fui assediado por um padre famoso (que muitos colegas meus da época se lembram) que era notório comedor de menininhos; ele fazia mágicas e teatrinhos, para ser popular entre os meninos e, um dia, tentou me beijar num canto da clausura. Criado na malandragem das ruas, fugi em pânico. E falei disso em confissão com outro padre, que mudou de assunto, como se fosse uma impressão minha, como se a pedofilia fosse uma prática necessária à manutenção do celibato, exatamente como os cardeais americanos estão fazendo hoje. O problema da Igreja com o sexo leva-a a uma compreensão quebrada da vida, leva-a a aceitar a Aids, a condenar o aborto, o controle social da natalidade e a outros erros maiores - superestruturas dessa falência originária, desse vazio fundamental. Lembro-me da descrição da eternidade no inferno, onde queimaríamos para sempre, sob o garfo dos Diabos, condenados por uma reles punhetinha: "Imaginem que o planeta seja um grande diamante, o metal mais duro do universo. De cem em cem anos, um passarinho vem voando e dá uma bicadinha na Terra. O dia em que toda a Terra for esfarinhada pelas bicadinhas, esse é a duração da eternidade." E eu sofria, me esvaindo nos banheiros, pensando naquele passarinho que bicava o mundo, enquanto eu acariciava o outro medroso passarinho se preparando para uma vida de traumas e medos. O prazer era um crime. A partir daí, tudo ficava poluído, manchado de culpa; a alegria virava falta de seriedade, a liberdade era um erro, as meninas eram seres inatingíveis com seus peitinhos e bundinhas. Até hoje, vivo dividido entre as santas e as "impuras"; quantas dores senti na vida pelo cultivo desses ensinamentos, que transformava as mulheres em perigos horrendos, Liliths demoníacas, tão ameaçadoras quanto o imenso desejo que tínhamos por elas. A mulher, como Eva, era a origem de todos os males. Delas saíam a vida e a morte, delas saía o prazer pecaminoso, o mal do mundo. Esta base criminal gera desde a burca até o strip-tease, numa antítese simétrica. Hoje piorou. O mundo virou uma incessante paisagem de bundas e seios nus, de pornografia na publicidade, que nos espreita no trânsito, nas ruas, na TV. Já imaginaram esses padres vendo a Feiticeira e a Tiazinha, de terço na mão, trancados em escuras celas, sob o voto de castidade? Essa é a minha idéia de inferno. Uma das grandes desvantagens da Igreja Católica diante de outras religiões é o celibato. Daí, em cascata, surgem problemas que justificam a queda do prestígio da Igreja na era do espetáculo e da desconstrução de certezas. Rabinos casam, pastores protestantes casam. Budistas "do it", xintoístas "do it", hindus "do it", mesmo muçulmanos "do it". "Let's do it", pobres padres trêmulos de desejo, no meu remoto passado jesuíta e no presente do sexo massificado.
86. ARNALDO JABOR. EU JÁ FUI O INIMIGO PÚBLICO NÚMERO 1. Vocês já foram o inimigo público um do país? Não? Eu já fui. Em 97, meu chefe sempre presente, Evandro Carlos de Andrade, pediu-me para comentar a festa do Oscar, ao vivo. Fi-lo. E quase fui linchado, como contarei adiante. Em minha pobre vida, tive a experiência de ser cineasta. Passei anos lendo os Cahiers du Cinéma e o Positif, no tempo do "cinema de autor" dos anos 60, época em que criticávamos a linguagem careta de Hollywood e as ciladas que se escondiam por trás dela. Para nós, o cinema americano era o supremo inimigo, agente do imperialismo, correio de mensagens colonizadoras sobre nossa mente, vendedor de produtos de sua indústria, narrador superficial dos movimentos da alma, propagandista do sonho americano, sonegador da verdade da existência pelo happy end obrigatório, maniqueísta do sim e não, do bem e do mal, do bad guy e do good guy. Passaram os anos... e eu continuo pensando a mesma coisa. Apenas relativizei o lado "maligno ideológico" deles. O que eles sempre quiseram é dinheiro, do nosso mercado interno, claro. O resto eram fantasmas da guerra fria. De modo que, quando o Evandro me chamou para comentar o Oscar, eu disse: "Vou esculhambar... hein." E ele: "Fale o que quiser." Podem perguntar a ele pelo e-mail interestelar. E lá fui eu comentar o Oscar, para todo o território nacional. Ao vivo. Trancados numa salinha da TV Globo, íamos comentando, Renato Machado, Rubens Ewald e eu. Nossos únicos espectadores visíveis eram os técnicos, os cameramen nos olhando. Comecei dizendo que achava o Robin Williams um canastrão de quinta. Os técnicos riam e faziam sinais de "positivo" com o polegar. Pensei: "Estou agradando, estou conscientizando o povo brasileiro sobre as mentiras da linguagem de Hollywood." Aí, fui me animando e resolvi tacar fogo na festa das estrelas. Sentia-me onipotente, desconstruindo a maciça propaganda americana, vingando Glauber contra o monstro ianque. Debochado, falei que o Titanic, que estava ganhando todos os prêmios, era um abacaxi, que o filme só merecia o Oscar de melhor engenharia naval, falei que o Leonardo DiCaprio era meio babaca e afrescalhado, que aquela menina do filme era gordinha e chata. Os negões da técnica rolavam pelo chão e eu nem percebia a sombra de preocupação nos olhos de Renato Machado. E fui em frente, cada vez mais ousado. Falei que o único filme que merecia algo era o Kundum, do Scorcese, filme chatérrimo, mas "de arte", falei que o James Cameron era ridículo quando berrou "I am the king of the world", em suma, me embalei na função "revolucionária" de salvar a mente dos brasileiros que estavam em casa, tomando cerveja, de bermudas, com os amigos, deliciados com a festa máxima do luxo yuppie no dourado pavilhão Dorothy Chandler, o Olimpo do sucesso universal invejado por todos, onde as estrelas cintilam, diante das bocas abertas de fascinados brasileiros. E critiquei tudo, o Billy Cristal, as piadas felizes de um povo rico, enquanto o Ewald me olhava com a condescendência sombria que dedicamos a bêbados arruaceiros. Acabou o programa e eu, herói, me ergui, feliz de minha tarefa "desalienante". Eu estava vingado daqueles que tomavam nosso mercado e não compravam nossos filmes. Foi quando começaram a chegar os e-mails para a Globo. O mais respeitoso começava com "Ao canalha Jabor..." Ainda assim, me sentia um Sansão atacado por filisteus feridos de morte. "Os inteligentes me saudarão", pensei. Mas os e-mails, telefonemas, faxes aumentavam, todos numa assustadora unanimidade crítica. "Amanhã serei elogiado nos jornais...", pensei, enquanto Ewald e Renato se enfiavam pelos corredores, pálidos. Ainda assim, fui para casa na madrugada com a agridoce sensação de ser um polêmico artista dividindo as opiniões do povo. No dia seguinte, oscilavam torres de e-mails na redação, vindos do País inteiro, dirigidos até a família Marinho, todos pedindo minha cabeça: "Despeçam o sem-vergonha, ponham esse rato no olho da rua!" "Como pode ele chamar o grande Robin Williams de canastrão?" Esse era meu supremo crime. Parecia que eu tinha dito que Cristo não era filho de Deus. Eu era o inimigo do povo, de Ibsen, eu era Al Capone, o Cara de Cavalo, eu era o Collor no impeachment. Nas ruas, transido de vergonha, me esgueirava por becos e esquinas. Os mais tímidos apenas me apontavam de longe. Um sujeito grandão se aproximou, me segurou pelo braço: "Cara, eu tenho cara de burro?" "Não...", balbuciei. "Então tu vai me explicar por que o Titanic é uma bosta..." Descobri aterrado que o "espectador brasileiro" não existia mais. Todos eram americanos. Corro para casa e vejo no computador que tinham aberto um site chamado: "Eu odeio o Jabor." Corri a amigos meus, minhas filhas, mas percebia que, sob as palavras de consolo, rolava uma vaga hipocrisia, jazia a concordância com a opinião geral. Eu me consolava pensando: "Essa depressão é boa para diminuir meu narcisismo... Bem-feito, seu mascarado!..." Até hoje, de vez em quando, alguém toca nessa ferida aberta. Por isso, jamais comentarei o Oscar. Direi apenas, do fundo de minha miséria, meus favoritos do Oscar. Eu vos escrevo do passado. Hoje é sabado e vocês estão me lendo na terca-feira, aí no futuro. Vamos ver se eu acertei. Melhor filme: Moulin Rouge, apesar do clima de clipe. Melhor ator: Sean Penn, perverso, rico, profundo. Melhor atriz: Judy Dench. Melhor diretor: David Lynch, por Muholland Drive. Será que acertei algo? Acho difícil. Afinal, eu não passo de um invejoso cineasta comuna dos anos 60, de um pobre país importador de imagens e exportador de aço, laranjas e sapatos sobretaxados nos Estados Unidos.
87. ARNALDO JABOR. GLAUBER: A ROCHA QUE VOA NUM LABIRINTO. Há 21 anos, Glauber Rocha nos deixou, no dia 22 de agosto. Eu nunca tinha visto alguém morrendo, nunca vira o momento misterioso da passagem. Em volta da cama de sua agonia, os amigos se agarravam como náufragos nas bordas de um barco que ia partir. Estávamos assustados, porque o Glauber era o pulmão por onde respirávamos, o coração que batia por nós e que agora fraquejava. Ele estava ali, ignorando-nos, concentrado não sei em que filme interior, em que roteiro para as estrelas. Parecia mesmo um astronauta, coberto de fios e tubos de respiração. Subitamente, Glauber se ergueu, como se fosse acordar, ressuscitar, como num milagre. Mas era a última convulsão e ele se aquietou e flutuou para longe. Vocês, jovens que me lêem, podem pensar: "Deixe de idealizações com esse tal de Glauber... Afinal de contas, todo mundo morre..." Mas, não é literatura; morria ali a mais rica síntese das idéias de uma época brasileira: melancolia com esperança, a romântica fome de salvar o País, unindo poesia e política. Esta semana surgem dois filmes sobre o nosso "profeta alado": o filme de Silvio Tendler, O Labirinto Glauber, e o documentário de seu filho, Eryk, A Rocha Que Voa. Neles se vê muito dessa fome de entendimento e salvação, que os garotos de hoje não têm mais, por sabedoria e... ignorância. "O sujeito que morre fica logo desinformado...", pensei, ao sair da Clínica Bambina, quando ele morreu e eu vi que o "incessante e vasto universo" continuava mudando, ali em Botafogo, menos o Glauber, coitado. Glauber, desinformado como todo morto, não soube da democratização de 85, não soube de Tancredo, nem de Sarney, nem de Collor, nem daquele que Glauber apelidara de "nosso Errol Flynn", FHC, "o príncipe da sociologia", com uma ponta de ironia. Glauber preferiu morrer, porque sacou que seu desejo de absoluto era impossível. Ele percebeu que não ia suportar o mercadinho em que nos vendemos, não ia suportar a mediocridade anunciada em suas antenas de profeta. "Ahh... loucura..." - dirão os analistas -, "ele tinha um narcisismo patológico, fazia uma idealização da revolução..." Tudo bem... mas ele conseguiu momentos em seus filmes em que a arte parece tocar o real na tela. Em Deus e Diabo e Terra em Transe ele conseguiu explicar o Brasil. Há o momento seminal de Terra em Transe, onde ele sintetiza as forças brasileiras que estão além da mera luta de classes, as oligarquias com sua cobiça e sua estupidez. Ali, no clímax da zona geral, o povo dança e canta entre ladrões, pelegos , demagogos, polícia, Igreja, bacharéis, prostitutas, todos num emaranhado barroco que culmina com o Jardel Filho tapando a boca de um sindicalista burro e falando para a tela: "Vocês já imaginaram o 'povo' no poder?" Foi a maior porrada na sociologia simplista dos derrotados de 64, o que lhe valeu o ódio eterno daqueles que vêem os pobres como uma divindade intocável e não como destituídos e manipulados. Daquela seqüência, saíram o teatro de Zé Celso e o tropicalismo, se bem que Caetano já era um prenúncio pós-moderno e Glauber, o último dos torturados "modernistas". Naquela seqüência de Terra em Transe, estava o País de hoje, nessa suja orgia pré-eleitoral. Seus filmes trouxeram a idéia da complexidade contra os dualismos fáceis. Ele não era o guerreiro radical que pensam hoje. Ele trouxe a sobredeterminação, a dúvida para as certezas fáceis, o choque dos contrários. Quem fez isso antes? Ele foi o primeiro a apontar as razões da derrota em 64, ele foi o primeiro a falar em alianças, e teve a coragem de tentar (oh, ingênuo patriota...) cooptar o poder militar para um projeto nacional. Desesperado com a burrice das esquerdas, paralisadas por dogmas, tentou o saudável sacrilégio de imaginar uma adesão de militares para a abertura que vinha com Geisel, para além de qualquer vitimização rancorosa e masoquista. As patrulhas só faltaram empalá-lo como 'reacionário', 'adesista', logo ele, que buscava uma saída qualquer para a ditadura e o subdesenvolvimento. O que morreu com o Glauber? É difícil explicar para os jovens do mercado. Antes, lutávamos contra uma realidade complexa (que subestimávamos), sonhando com uma solução utópica e totalizante. Era o 'uno' contra o 'múltiplo'. Hoje, é o contrário; esboça-se entre neo-revolucionários uma luta que é diversificante, contra o totalitarismo das corporações capitalistas. Hoje, a luta é para dissolver, não para unir. Agora, os novos combatentes não sonham com o absoluto; sonham com o relativo. São defensores do vazio, da ecologia, da cultura não-descartável, do inútil, do que não é 'mercável'. Eles lutam contra inimigos sem rosto: a eficiência corporativa, a abolição do humano pela máquina (a máquina como o homem produtivo perfeito). Hoje, o inimigo principal não é mais a 'burguesia' gorda e fumando charuto; o inimigo é um método empresarial. Antes, as esquerdas pensavam em unidade. Hoje, o capitalismo corporativo é que almeja uma 'unidade'. Glauber não desejava uma revolução simpática, para dar comidinha aos pobres. Ele queria um terremoto épico, cheio de som e fúria, com explosões de tragédias e apoteoses, ele queria uma revolução que esmagasse a mediocridade, uma celebração do impossível e não a prudente organização social apenas. Hoje, o Brasil está parecidíssimo com Terra em Transe. Glauber era uma espécie de Rimbaud, buscava uma felicidade social imensa, queria, como ele, "olhar o céu e ver praias infinitas cobertas de brancas nações em júbilo!". Por isso, não havia lugar para ele no mundo. O protagonista de Terra em Transe diz: "A poesia e a política são demais para um homem só." Mas, mesmo sabendo disso, Glauber tentou até o fim. E morreu disso.
88. ARNALDO JABOR. GOLPISTAS QUEREM PROVAR QUE DEMOCRACIA É IMPOSSÍVEL. Diante do golpismo descarado que assola o país, eu te digo: se o projeto de reformas administrativas e técnicas que este governo tentou implantar não se concluir, se a sabotagem chamada "oposição" conseguir reverter a busca de um mínimo de racionalidade econômica, dentro de algum tempo, estaremos à beira de uma ruptura institucional, com a destruição dos fundamentos da economia e a volta da velha zona geral brasileira. Em psicanálise, sabe-se que a dificuldade de curar um neurótico é que ele "deseja" o mal que o aflige. Estamos assistindo a um caso de brutal "resistência" ao projeto do governo FHC, que quis fazer uma revolução possível nas estruturas absurdas do Estado brasileiro. O ódio vai mais além de FH. Odeiam a agenda que ele pretendeu e que, talvez, morra na praia. O precário imaginário político brasileiro, a soma de seus cacoetes, ilusões, preconceitos, esse imaginário feito de restos de getulismo, de um udenismo-leninista em coalizão com o fisiologismo das oligarquias, esse ensopadinho ideológico está deflagrado num vale-tudo contra a mudança de um país patrimonialista em um país mais moderno. É contra isso, contra seu programa, e não apenas contra o presidente, que se insurge o golpismo atual, com a opinião pública manipulada pelos líderes e a mídia espetaculosa. O símbolo dessa reação é ACM, que chega a ter a importância sociológica de ser a síntese viva da resistência patrimonialista. ACM comanda há meses (com sucesso) a transformação do país numa "chacrinha". Há meses, estamos paralisados, assistindo às diabruras desse delinquente tardio. E ele expressa com clareza o que desejam os seus seguidores: permanência do coronelismo, provocação à democracia, cooptação da ignorância do povo contra qualquer racionalidade reformista. É incrível, mas ele disse, há pouco, literalmente: "Esperem para ver o que vou fazer com esse país...". E, mesmo assim, é visível nas entrelinhas que vários jornalistas têm uma fascinação secreta pelo seu autoritarismo machista. O que eu acho assustador é que ninguém se toca para a delicadeza do momento histórico que vivemos. Ninguém pensa no fio de navalha econômica em que andamos, entre crises nossas e dos outros, como Argentina, Alca, Turquia... Falam de politica como se cuidássemos da substituição de um gabinete por outro, como se estivéssemos na Suécia. O grave é que os fundamentos de nossa economia é que estão em jogo. A desinformação popular, alimentada pelos golpistas, acha que o problema do governo é a "corrupção", existente há 400 anos e que só a democracia fez aparecer. Dizem que nosso problema é "moral", tudo "culpa do FHC", esquecendo-se do Congresso, do Judiciário e das burocracias. Fazem o alarmismo de bobagens, só apontam detalhes "micro" para impedir qualquer mudança "macro". O vexame simplista da menina presidente da Ubes, mostrando a bunda (provavelmente posará para "Playboy"), é emblemática: "Mostrei a bunda para mandar o governo para o espaço". A oposição está conseguindo isto: caçar o FHC, concentrar tudo nele, para esconder que o alvo é seu projeto. Entrementes, o cartola paulista e ex-secretário de Justiça do Quércia (!), este Approbato da OAB, usa o protocolo para insultar um homem decente, para aparecer e também porque os advogados estão irritados com as MPs, pois elas prejudicam os gordos honorários das desapropriações contra o Tesouro. Enquanto isso, o "Jeca Tatu" fascistóide Itamar avisa que vai pedir moratória de novo, para inviabilizar a economia; enquanto isso, o PT, numa "bandeira" explícita, mostra seu desejo e programa no horrendo filmete "ratos roendo o Brasil"; enquanto isso, os acadêmicos ressentidos vão saindo da toca para babujar truísmos sobre "neoliberalismo e correlação de forças", e um professor como Francisco de Oliveira, de pijama em casa, acusa José Serra de ser ligado a "esquemas internacionais", ele, que acaba de vencer batalha na ONU sobre o poder americano dos remédios, reconhecido como vitória pelos jornais do mundo todo. E, extraordinário: sabota-se durante anos o governo, infernizando-o com provocações sem fim, para fazer soçobrar qualquer tentativa de racionalidade e, quando o governo começa a soçobrar, acusam-no de "soçobrar"... Eu achava que o período Collor nos teria ilustrado para a necessidade de reformar estruturas que estimulam o caos, a loucura de um Estado falido e ineficiente. Não. Compreendem-no apenas como uma vitoria da "moralidade". As forças da "frente única oligarquias-ideologias" estão lutando para reconstruir o mesmo Brasil que permitiu o surgimento de Collor, que permitiu a anomia flácida com inflação de 80% ao mês do governo Sarney e, antes, o golpe de 64. Querem a volta do Brasil iludido, sem projeto, porque atraso e zona dão lucros ideológicos e fisiológicos. E melhor para roubar o Estado e propagar utopias ridículas. Há no golpismo instalado mais do que o ódio a FHC. Há o desejo de provar que a democracia é impossível aqui. Repito o que disse no início: se não houver adequação do Brasil à realidade econômica mundial, se a racionalidade que este governo tentou for substituída por um nacionalismo jeca ou pela burrice ideológica das oposições sem programa, em pouco tempo teremos a quebra do país e a volta de um autoritarismo de direita, como foi em 64. E, como ninguém segura a força da economia mundial, veremos que, fragilizados, falidos, nossa possível adaptação crítica ao mundo globalizado será substituída por uma dependência imposta, uma satelitização do país ao capital dominante e aí, sim, aí veremos (oh, babacas do meu Brasil!) o que é o neoliberalismo selvagem e a desconstrução de uma nação.
89. ARNALDO JABOR. O AMOR ATRAPALHA O SEXO. Sábado, fui andar na praia em busca de inspiração para meu artigo de jornal. Encontro duas amigas no calçadão do Leblon. "Teu artigo sobre amor deu o maior auê..." - me diz uma delas. "Aquele das mulheres raspadinhas também... Aliás, que que você tem contra as mulheres que 'barbeiam' as partes?" - questiona a outra. "Nada... - respondo - acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas 'partes' dessas moças um bigodinho sexy... não consigo evitar... Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney - lembram um sarneyzinho vertical nas mmodelos nuas... Por isso, acho que vou escrever ainda sobre sexo..." Uma delas (solteira e lírica) me diz: "Sexo e amor são a mesma coisa..." A outra (casada e prática) retruca: "Não são a mesma coisa não..." "Sim, não, sim, não" - nasceu a doce polêmica ali à beira-maar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo água-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo e amor. Comecei perguntando a amigos e amigas sua opinião. Ninguém sabe direito. As duas categorias se trepam, tendendo ou para a hipocrisia ou para o cinismo; ninguém sabe onde a galinha e onde o ovo. Percebo que os mais "sutis" defendem o amor, como algo "superior". Para os mais práticos, sexo é a única coisa concreta. Assim sendo, meto aqui minhas próprias colheres nesta sopa. O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo. Sexo é contra a lei, no fundo de tudo. O amor depende de nosso desejo, é uma construção que criamos. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre sem tesão. O sexo é um desejo de apaziguar o amor. O amor é uma espécie de gratidão à posteriori pelos prazeres do sexo. O amor vem depois. O sexo vem antes. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha; só as fantasias ajudam. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo só pensa em proibições; não há fantasias permitidas. O amor é um desejo de atingir a plenitude. Sexo é o desejo de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade sempre deslizante para a frente. O sexo é um desejo de acabar com a impossibilidade. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos. Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a lei; sexo é invasão de domicílio. Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é o MST. O amor é mais narcisista, mesmo quando fala em "doação". Sexo é mais democrático, mesmo vivendo no egoísmo. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno. Amor pode ser veneno ou remédio. Sexo também - tudo dependendo das posições adotadas. Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do "outro"; o sexo, no mínimo, precisa de uma "mãozinha". Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até mais sozinhos, na solidão e na loucura. Sexo, não - é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. Amor muitas vezes é uma masturbação. Sexo, não. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós. O sexo vem dos outros. Não somos vítimas do amor; só do sexo. "O sexo é uma selva de epilépticos" (Nelson Rodrigues) ou "o amor, se não for eterno, não era amor" (NR). O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral também do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói - quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: "Faça amor, não faça a guerra." Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas... O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu - das cavernas do paraíso até as saunas relax for men. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século 12 e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem - o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção, sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é programá-lo, como faz a indústria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias. Não há "saunas relax" para o amor, onde o sujeito entre e se apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um "amorzinho" para iniciar. O amor está virando um hors-d'oeuvre para o sexo. O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. Amor busca uma certa "grandeza". O sexo sonha com as partes baixas. O perigo do sexo é que você pode se apaixonar. O perigo do amor é virar amizade. Com camisinha, há "sexo seguro", mas não há camisinha para o amor. O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo o sonho dos casados. A (O) amante sacia nossa fome de verdade, mata nossa nostalgia da animalidade. Sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente no ciúme (Proust). O grande sexo sente-se como uma tomada de poder. Amor é de direita. Sexo de esquerda (ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta). E, por aí, vamos. Sexo e amor tentam mesmo é nos afastar da morte. Ou não; sei lá... e-mails de quem souber para a redação.
90. ARNALDO JABOR. OS CANIBAIS QUEREM SER RICOS E COMER BEM. Não agüentei e fui ver o filme Dragão Vermelho, com o meu querido canibal Anthony Hopkins. O filme é ruim, claro, bem pior que o ótimo Silêncio dos Inocentes. Mas o Hannibal Lecter é um ponto luminoso da moderna galeria de personagens; não só pela idéia de um canibal civilizado mas com o valor agregado pela personalidade de Hopkins, que conhece a milimétrica arte de parodiar a sofisticada frieza dos atores ingleses, da sinistra gentileza, do inquietante aristocratismo do mal. Fui ver o filme também porque sinto no ar uma moda de psicopatia, na onda de criminosos que está rolando no Brasil. E não falo dos crimes sujos, "explicados" pela miséria e ignorância; falo dos crimes "limpos", como os de Suzane e de Vilma ou dos rapazes que alegremente assassinaram o garçom ou dos outros que mataram o pataxó, ou dos cruéis Avelinos ou de tantos outros. O que nos fascina no Hannibal é o que nos exaspera em Suzane ou na Vilma do Pedrinho. Nos dois casos, o crime é praticado sem resquícios de sentimento de culpa, planejado com carinho e não conseguimos entender como agiram sem sofrer. Suzane não está chorando pela mãe e pai; está chorando por si mesma, chorando pela vida infernal que terá. Vilma, pelo que mostra a polícia, organizou uma família como se fosse ao supermercado, pegando bebês na prateleira, para conquistar um marido. Todos não hesitam em matar ou roubar para viver bem, conquistar filhos, maridos ou heranças. Os canibais querem viver bem. No Brasil, os psicopatas estão na moda, está na moda a gélida contemplação da morte, ignorando-se totalmente a existência do "outro". Por isso, Hannibal Lecter é uma rica metáfora da ética fria que se instala no mundo. Hopkins criou uma figura que nos fascina como poucas no imaginário neste século 21 que alvorece. Hannibal é inteligentíssimo, ninguém comete crimes com mais finesse que ele. Hannibal busca quase uma forma de arte, praticada com maestria na devoração e no assassinato. Diante de Hannibal, todos nos sentimos antigos, caretas. Ele tem algo de Sade, de sua perversão iluminista, a geometria da crueldade, o rigor estético com o mal. Há, como em Sade, o desejo de refutar a moralidade tradicional, de ir além do permitido, de provar a hipocrisia do bem. Os filmes violentos são em geral hipócritas na sua defesa do bem. Os brutamontes que lutam pela nossa moralidade, como Van Damme e outros, são hipócritas, pois seus filmes são oportunistas que, a pretexto de denunciar o mal, propagam-no com sangue jorrando, com o prazer americano pela violência, mas que, em geral, acaba em happy end moralizante. E o mal denunciado pelo bem acaba gerando milhões nas bilheterias do mundo. Hannibal ama o mal e, de certa forma, nos denuncia no escurinho do cinema, onde temos a rara oportunidade de torcer pela vitória do perverso. Há até mesmo um "reformismo" moral na crueldade de Hannibal. Hoje, não temos mais medo de fantasmas e múmias, nem o pavor fascinado pelos vampiros góticos, personagens do romantismo. O vampiro era uma homenagem ao amor sublime, a uma sexualidade agônica, quando os escravos da paixão ansiavam pelo êxtase da dentada no pescoço. Com Hannibal não há a nostalgia triste dos vampiros. Hannibal quer exterminar os medíocres e, espantosamente, sonha com um mundo belo. Ele despreza suas vítimas, em geral idiotas e sicofantas, mas Hannibal sempre corre o perigo de se apaixonar por alguém, que ele poupa por uma estranha "piedade" culta. A leve carícia que ele fez atrás das grades, na mão de Jodie Foster, no Silêncio dos Inocentes, é um brevíssimo e belo gesto de amor. Hannibal é terrivelmente contemporâneo; ele é como um prenúncio do homem que virá no século 21, como uma fresh mutation, a mutação de uma moralidade feita de impiedade e pragmatismo. Ele nos acena com um terrível futuro primitivo, que nos dá medo e desejo pela volta de uma animalidade perdida. É como se ele dissesse: "Nenhum saber, nenhuma ética, nenhuma religião vai apagar o animal feroz que há em nós. A humanidade é um caso perdido e eu sou a prova disso. E isso nos dá um alívio cínico." Estamos cada vez mais sozinhos, como Hannibal. Somos cada vez mais pequenos canibaizinhos light, na corrida desumana de devorar concorrentes e de consumir sem parar. O canibalismo social está por baixo de nossos desejos. Queremos amar sozinhos, vencer sozinhos, devorar o mundo como devoramos sushis em balcões yuppies, queremos nos apropriar da vida ferozmente, sem competidores. Quando falamos em "comer" mulheres ou homens, sonhamos com uma sexualidade canibal livre dos problemas do amor. Homens e mulheres só valem por seus corpos e não mais por seus sentimentos e ficam se oferecendo completamente nus como pedaços de comida em prateleiras. Cada vez somos mais como ele, no darwinismo social que se instala. Para sobreviver, precisamos "não ver" o sofrimento dos outros, a injustiça e a desigualdade. Queremos ser tocados pela graça da impiedade. Daí, o fascínio do assassino que Hopkins inventou. Nada mais atraente que a psicopatia elegante. Todos queremos ser como Hannibal, tocados pela graça da frieza, longe de uma arcaica compaixão. O que nos fascina no personagem de Hopkins é que ele parece estar mais além de uma moral antiga e que ele contempla, do outro lado do Bem, uma nova realidade. Hannibal parece saber mais do que nós, que ainda vivemos mergulhados em dúvidas morais e culpas. O canibal e doutor Hannibal Lecter nos olham do futuro. Os crimes frios são o prenúncio dos futuros extermínios de massa. Que estão a caminho.
91. ARNALDO JABOR. O APAGÃO PODERÁ NOS TRAZER ALGUMA LUZ. Nossa ilusão de Primeiro Mundo nos caiu por terra. Não tivemos guerra, não tivemos revolução, mas teremos o apagão. O apagão vai ser uma porrada na nossa auto-estima, mas terá suas vantagens. Com o apagão, ficaremos mais humildes, como os humildes. A grande onda narcisista da democracia liberal ficará mais cabreira, as gargalhadas das colunas sociais ficarão menos luminosas, nossas dentaduras menos brancas, nossos flashes menos gloriosos. Baixará o astral das estrelas globais, dos grandes comedores, as bundas ficarão mais tímidas, os peitos de silicone menos arrebitados, ficaremos menos arrogantes dentro da escuridão que se abaterá em nossas vidas de classe média. Há algo de castigo de Deus nesta porra toda, pois ficaremos mais parecidos com as periferias, para quem sempre houve o apagão de vidas e sonhos, haverá algo de becos escuros, de becos sem saída, de favelas tristes, haverá um baque em nosso egoísmo, nossas peruas e nossos cafajestes terão de maneirar um pouco. A euforia de Primeiro Mundo falsificado cairá por terra e dará lugar a uma belíssima e genuína infelicidade. O Brasil se lembrará do passado agropastoril que teve e que, escondidamente, ainda tem; teremos saudades do matão, do luar do sertão, da Rádio Nacional, do acendedor e lampiões de rua, dos candeeiros, das lâmpadas de carbureto dos carrinhos de pipoca, lembraremos das tristes noites dos anos 40, como das noites dos blackouts da Segunda Guerra, mesmo sem os submarinos, sem os navios alemães, apenas sinistros assaltantes nas esquinas apagadas. O apagão nos lembrará dos velhos carnavais: 'tomará que chova três dias sem parar' ou: 'Rio, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz!' Lembraremos dos velhos discos de 78 RPM, dos cantores com som precário, das TV's preto e branco, de um Brasil mais micha, mais pobre, cambaio, troncho, mas bem mais brasileiro em seu caminho da roça, que o Golpe de 64 interrompeu, que esta mania prostituída de Primeiro Mundo matou a tapa. Há algo de maldição nisso tudo, castigo pela destruição de Sete Quedas, o preço a pagar pelos demônios ecológicos de Itaipu, de Tucuruí, do tal "Brasil-Potência", das grandes hidrelétricas arcaicas já na época que se sabia da melhor utilidade das pequenas usinas e de outras fontes de energia. Lembraremos de Geisel, de Médici, dos milicos que nos marcam a vida até hoje, nos entregando uma democracia de caixa quebrada, nos lembraremos também dos canalhas que pilharam o Tesouro, com sua fome de 20 anos, dos corruptos, das instituições vagabundas que nos ajudaram a falir, nos obrigando a um ajuste fiscal desumano, nos obrigando a uma governança miserável, sem desenvolvimento, sem projeto, limitada a arrumar as contas da falência. O apagão nos mostra que somos subdesenvolvidos sim, que toda esta superestrutura de delírios modernizantes está em cimade pés de barro. O apagão é um upgrade nas periferias, nos "bondes do Tigrão", no mundo funk, nos lembrando da escuridão física e mental em que eles vivem, do lado de fora de nossas cercas e avenidas iluminadas. O apagão nos fará mais pensativos, mais metafísicos, mais conscientes de nossa pequenez no mundo. Não temos terremotos e vulcão, mas temos o apagão. Seremos mais poéticos, olharemos as noites estreladas e pensaremos: "a solidão dos espaços infinitos nos apavora", como disse Pascal ou ainda, se mais líricos, recitaremos Victor Hugo: "a hidra-universo torce seu corpo cravejado de estrelas..." O apagão nos fará pensar em Deus; não este "deus" das classes médias, da missa de domingo, sempre pedindo amor, saúde e dinheiro, nem do "deus" das universais dos 10% para os bispos da TV, mas o Deus-natureza que tem uma vida própria, um ritmo seu, o Deus-universo que despreza nosso progresso dependente. O apagão nos dará medo de um grande flagelo que poderá nos fazer migrar das grandes cidades, deixando para trás as avenidas paulistas secas e mortas. O apagão nos fará entender a vida dos flagelados do Nordeste, que sempre olharam o nosso lindo céu de anil como uma ameaça. O apagão nos fará contemplar o azul sem nuvens, pois aprendemos o que a natureza é quando não obedecida e respeitada. O apagão nos fará mais parcimoniosos, mais respeitosos, mais públicos, e acreditaremos menos nos arroubos de auto-suficiência. O apagão vai dividir nossas vidas de novo, em dia e noite. As noites e os dias serão nítidos, sem esta orgia de luzes que a modernidade celebra para nos fascinar como diamantes sobre o pano negro de sujeira, que nos fazem esquecer as cidades que, de perto, são feias e injustas. Vai diminuir a féerie do capitalismo enganador. Vamos dormir melhor com o apagão, talvez amemos mais a verdade dos dias e menos a mentira das noites. Acabará a ilusão de clubbers e plyaboys que terão medo dos "manos" em cruzamentos negros e talvez o amor fique mais recolhido, mais sussurrado, mais trêmulo e desamparado. Talvez o sexo se revalorize como prazer calmo e doce, talvez fique menos rebolante e varaz. Talvez aumente a população, com a diminuição das diversões eletrônicas noturnas. O apagão nos fará mais inseguros na rua mas, talvez, mais amigos dos lares e bares. Estaremos de volta a nossa Idade da Pedra, aos fundos de caverna onde nós, macacos, nos protegíamos, mais solidários, com pavor das grandes feras. Finalmente, o apagão nos fará masi perplexos, pois descobrimos que o Brasil é mais absurdo que pensávamos, pois nunca entenderemos como, com três agências cuidando da energia, o governo foi pego de surpresa por essas trevas tão longamente anunciadas. Só nos resta o consolo de saber que, no fim, o apagão vai nos trazer alguma luz sobre quem somos.
92. ARNALDO JABOR. O DIA EM QUE O RIO DE JANEIRO SE SUICIDOU. Agora, o mal já está feito. O Estado do Rio elegeu Rosinha para o governo, Sérgio Cabral e Mário Crivelllo para o Senado e na Assembléia Estadual pulularão os mesmos micróbios populistas e corruptos de sempre. Não adianta chorar pelo chopinho derramado, como fazem sempre os cariocas. Seremos governados por um casal "peronista" tardio, misturado a um Jesus político, enquanto em Brasília o neochaguismo nos representará no Senado. Assistiremos agora, reclamando do destino, à destruição do Rio. Por que esse tradicional "dedo podre" dos cariocas para o voto? Lembrem da lista de nossos governadores dos últimos 30 anos. Como explicar isso, se somos os "malandros", os bons de cintura, os "bambas do samba"? Por que, em São Paulo, o Maluf foi expelido, Quércia também, por que Íris Resende, Collor, Newtão, Gilberto Mestrinho, Augusto Farias e tantos outros foram jogados para correr e o Rio ficou com o atraso? Por que a elite pensante do Rio, os cientistas políticos que vivem com o olho grudado no Bobbio ou no Bourdieu não viram nada? Ninguém acionou o alarme? Acho que o Rio é uma "cidade partida" sim, também na consciência política. No mundo da periferia, o carioca vive mergulhado na ignorância e na pobreza. Coitados - como vão entender os demagogos que lhes dão esperanças, como vão saber dos fariseus? Como? Mas, a outra parte é a dos "inocentes do Leblon", dos garotos de Ipanema. Esses é que permitiram a "resistível ascensão de Rosinha", somados ao grande rebanho de uma classe média de gravata que vive clamando por um vago udenismo, trêmula de medo e de insegurança, com ideologias ralas que não vão além de "o governo é culpado" ou "tudo isso aí é uma vergonha..." Ninguém sabe nada de política que se resume aqui, no "sal céu sul", num vago Fla x Flu de botequim. Deve ser a velha tradição cartorial, de funcionários públicos da velha capital da República, onde a política se traçava nos balcões mercantilistas, nos interesses dos negreiros e cafeicultores, na simbiose patrimonialista dos donos do poder, criando esse desalento, esse desinteresse pela luta política, porque o clientelismo a tornava inglória. Ficou esse cacoete da República Velha, uma estirpe de burocratas oportunistas enrolando os cidadãos, ficou a visão de que política é atividade "deles", dos poderosos do "café com leite". Foi-se a capital da República e só ficou a pose de um antigo poder que se esvaiu, sem base concreta. A política como oposição de interesses em luta, como defesa social, não atrai a população. Os grandes gestos abstratos sim, as bandeiras utópicas, passeatas heróicas, tudo bem, isso fazemos, mas sempre a posteriori, depois das causas perdidas. No Rio, também, o capitalismo é ralo; não tem a seriedade produtiva e voraz de São Paulo, que gerou inclusive o PT, no seio das fábricas do ABC. Onde o nosso ABC? A resistência a Rosinha surgiu num botequim, o Bracarense (com bom chope e empadinhas, sem dúvida), num movimento tardio. Aí, não adiantava mais. Fazemos política de botequim, o que me lembra a frase de Oswald, que parafraseio por ser apropriada para nós: "No Rio, o contrário da burguesia é a boemia; em São Paulo, é o proletariado." Fomos a pátria da esquerda festiva, do intelectual de bar, dos assinantes de manifestos inúteis. Estamos sempre prontos para marchas pela paz, todos de branco, gritando "Viva Rio!", apelando para quem? Para Deus? Para Iemanjá? Quem? Para a cordialidade dos criminosos? Assim como temos uma visão idílica da cidade, temos uma visão pejorativa da política - "coisa do povo". Os homens espertos como Garotinho e, antes dele, como Chagas Freitas, vão se banhar nesse piscinão de votos desesperados das periferias. A desatenção do carioca com a política real é tanta que somos pegos de surpresa em golpes como fomos em 64, comemorando a "vitória" do socialismo meia hora antes da chegada dos tanques de direita de Minas. Aí, choramos. A facilidade com que a Rosinha foi eleita é igual à facilidade com que um boato fechou a cidade. De repente, nos descobrimos desamparados, medrosos, desunidos por um boato. O fato político surge como um acidente, um susto na paisagem. E, agora, estamos diante de um projeto de desconstrução da cidade, com a porta aberta para a entrada de um neopopulismo sórdido, que pode desestabilizar o resto do País no futuro. É inacreditável que os intelectuais, acadêmicos, artistas e formadores de opinião, preocupados apenas em manter limpas suas consciências ideológicas, tenham se esquecido de combater essa terceira via terrível do populismo carioca, essa grave anormalidade sociológica que nos acometeu. Esqueceram-se de ajudar a Benedita, essa mulher corajosa que fez as únicas ações eficazes contra o tráfico. A desconhecida Solange (que o PSDB apoiou de afogadilho para o Serra ter palanque) e o pálido Jorge Roberto se ocuparam em atacá-la, deixando o cabelo chapinha de Rosinha intocado. Agora, chegou a hora do lamento, dos porres pessimistas: "O Rio não tem mais jeito... Ahhh... Vamos beber!" Sempre vemos as tragédias "depois" , como só agora descobrimos as favelas, que eram "líricas" e esquecidas no passado, ao som do samba, sem armas. Agora, elas têm emprego: a cocaína. Tarde demais, doces malandros otários. A paisagem nos aliena, a praia nos aliena, a beleza cultural nos aliena. Nós nos achamos "acima" do País, donos de uma ginga superior. Só pensamos em polícia, nunca em política. E o tráfico é um caso de política. Beira-Mar sabe bem disso. Quem precisa de educação política não são os populares pobres que elegeram o neopopulismo; são os privilegiados da zona sul que nada fizeram para impedi-lo. Os alienados somos nós, gente boa...
93. ARNALDO JABOR. OSAMA DIZ: MANDEI O BUSH DESTRUIR O OCIDENTE. Meus queridos irmãos: aqui, reunidos nessa caverna, podemos conversar em paz, em nome de Alá, que nos deu a felicidade de travar essa guerra santa contra os cães infiéis do mundo todo. Estamos no caminho certo, queridos irmãos, pois Alá me deu a luz de uma grande idéia: lancei os aviões americanos contra a própria América e agora estou lançando o Bush para destruir o Ocidente. Alá seja louvado, pois o Bush está fazendo tudo que eu quero, de certo modo ele me obedece, pois, com a ajuda de Alá, ele segue direitinho o meu script, minha ordens. Obcecado por se vingar de mim, ele está, na verdade, hipnotizado por meus desejos. Bush é meu escravo. É meu homem-bomba. Ele vai atacar o Iraque e lançar o caos no mundo todo, abrindo as portas do inferno na Ásia e depois na Europa. Irmãos: com a ajuda de Alá, eu consegui jogar a nação mais poderosa do mundo, com 400 bilhões de dólares em armas, contra o nada. Eles vão atacar o vazio, assim como venceram "nada" no Afeganistão, pois nossos irmãos talebans estão em toda parte, se reorganizando e nós, felizes e seguros, estamos planejando novos ataques em nossas caverninhas com ar condicionado. De que vale tanto poder bélico contra nossos mártires? Se quisermos, nem precisamos nos aporrinhar em atacar de novo os USA. Basta nosso silêncio assustador. Eles não terão mais sossego. O silêncio será sinônimo de perigo. Por isso, não adianta atacar o Iraque. Digamos que ele mate Sadam. Novos Sadams e milhões de novos combatentes vão surgir no Oriente Médio, fortalecidos. Nunca uma nação humana será tão odiada como a América. Bush vai trazer o caos ao mundo. E não seremos nós os atingidos. Bush vai desorganizar todas as conquistas iluministas do Ocidente, do século 18 para cá: razão, tolerância, democracia. Bush vai apagar os últimos vestígios dos princípios democráticos que orientaram seus "pais fundadores". Bush está entregando o país para a indústria da guerra, que nunca faturou tanto como agora. Exatamente como eu quero, irmãos. A América é uma máquina desejante de guerra. Eu só fiz acirrar esse desejo. Há milhões de armas que "desejam" ser usadas. As bombas desejam explodir. Suas armas não foram feitas para serem usadas na guerra; eles farão uma guerra para usar as armas. Todas as finuras da transcendência, da beleza, do multilateralismo europeu, da "globalização democrática" que eles trombetearam pelo mundo, serão destruídas. Bush vai arrasar com a esperança da Europa que, depois de um século de brutalidades, de duas guerras mundiais, está no caminho de uma solução pacífica de convivência, de uma paz feita de comércio, diplomacia e tolerância. Os americanos sempre odiaram os europeus afrescalhados, que falam em coisas profundas, humanistas, metidos a "superiores". Fingiam que tinham ideais iguais à Europa, mas nada... América e Europa não têm nada em comum. A América republicana acha que esse papo de multiculturalismo é coisa de fracos, irmãos. Agora, a coisa está clara. Bush voltará aos tempos do faroeste, caubóis e xerifes mandando no mundo. Bush e sua turma é o que há de pior na América; eles só acreditam em mercado, domínio e porrada. Bush marca o início da era da estupidez, a vitória dos imbecis no poder. Forrest Gump, o idiota vencedor, já era um indício da "beleza da estupidez", como Bush declarou em Yale: "Eu sou a prova de que ninguém precisa estudar para ser presidente dos USA." Bush é um neurótico completo, como dizem lá no Ocidente. Julga-se impotente e desprezado pelo pai, e quer provar força, superando o velho que quebrou a cara com o Sadam. Ele é perfeito para meus planos. Nada mais perigoso que a estupidez com armas; o fascismo é a burrice no poder... Nada melhor para nós, irmãos, louvado seja Alá... Em 11 de setembro, eu dei à América o pretexto para se sentir vítima - tudo que o Bush precisava, assim como Hitler também era "vítima" da humilhação da Alemanha depois da Primeira Guerra. E, no fundo, Bush me ama pelo avesso, pois eu o salvei politicamente; o que seria dele sem o WTC? Eles caíram na minha isca e vão fazer tudo que eu quis, irmãos... Começa agora uma nova e longa "guerra fria", com o "terrorismo" no lugar do "comunismo". Com essa política, eles vão desmoralizar a ONU de uma vez por todas, vão acabar com a Otan, vão trair os acordos antinucleares como o ABM, vão ignorar o Tribunal Penal Internacional, seus aliados vão romper com eles, a guerra Israel-Palestina vai virar uma endemia para sempre, vão transformar a Europa num continente horrorizado e antiamericano, vão se meter em toda parte, da Ásia à Colômbia, para ódio de todos. A verdade é essa: a América jamais aceitará ser igual aos outros países; eles só disfarçavam, para não serem chamados de boçais. Agora, Bush poderá gritar, cercado daqueles idiotas "falcões": "Eu sou mais eu! Nós somos a nação indispensável, sim!" Eles acham que estão me combatendo, irmãos, mas nós somos invisíveis; eles estão combatendo e destruindo seus amigos e a si mesmos. Quando a máquina da boçalidade se desencadeia, ninguém segura mais a produção de erros. Eu despertei o Leviatã! Eu estou obrigando os USA a serem uma potência solitária, uma máquina guerreira isolada para sempre, pois eu vou obrigá-los a destruir a democracia a pretexto de defendê-la, com o apoio de 70% dos ignorantes do país. E a arrogância unilateral pedirá mais arrogância, mais força, mais confronto. A Europa vai se rearmar, a China e a Rússia vão relubrificar seus mísseis e uma grande nuvem atômica poderá destruir o mundo todo, irmãos!... Mas, não temam, irmãos, pois nós não vamos sofrer nem perder nada, pois, no martírio nuclear que virá, iremos todos para o paraíso em meio às nuvens de fogo, ao encontro de Alá, o único deus, sendo Maomé, e agora eu, os seus profetas!
94. ARNALDO JABOR. O AMOR IMPOSSÍVEL É O VERDADEIRO AMOR. Outro dia escrevi um artigo sobre o amor. Depois, escrevi outro sobre sexo. Os dois artigos mexeram com a cabeça de pessoas que encontro na rua e que me agarram, dizendo: "Mas... afinal, o que é o amor?" E esperam, de olho muito aberto, uma resposta "profunda". Sei apenas que há um amor mais comum, do dia-a-dia, que é nosso velho conhecido, um amor datado, um amor que muda com as décadas, o amor prático que rege o "eu te amo" ou "não te amo". Eu, branco, classe média, brasileiro, já vi esse amor mudar muito. Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico, um sonho político, contra o sistema, amor da liberdade, a busca de um "desregramento dos sentidos". Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado, uma progressiva apropriação indébita do "outro". O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar na produção. A cultura americana está criando um "desencantamento" insuportável na vida social. O amor é a recusa desse desencanto. O amor quer o encantamento que os bichos têm, naturalmente. Por isso, permitam-me hoje ser um falso "profundo" (tratar só de política me mata...) e falar de outro amor, mais metafísico, mais seminal, que transcende as décadas, as modas. Esse amor é como uma demanda da natureza ou, melhor, do nosso exílio da natureza. É um amor quase como um órgão físico que foi perdido. Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tento falar: o amor é algo "feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrás de dezenas de milhares de manhãs/ e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe". Pois, senhores, esse amor existe dentro de nós como uma fome quase que "celular". Não nasce nem morre das "condições históricas"; é um amor que está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, quase uma "lesão oculta" dos seres expulsos da natureza. Nós somos o único bicho "de fora", estrangeiro. Os bichos têm esse amor, mas nem sabem. (Estou sendo "filosófico", mas... tudo bem... não perguntaram?) Esse amor bate em nós como os frêmitos primordiais das células do corpo e como as fusões nucleares das galáxias; esse amor cria em nós a sensação do Ser, que só é perceptível nos breves instantes em que entramos em compasso com o universo. Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e óvulo se interpenetrando. Por obra do amor, saímos do ventre e queremos voltar, queremos uma "reintegração de posse" de nossa origem celular, indo até a dança primitiva das moléculas. Somos grandes células que querem se re-unir, separados pelo sexo, que as dividiu. ("Sexo" vem de "secare" em latim: separar, cortar.) O amor cria momentos em que temos a sensação de que a "máquina do mundo" ou a máquina da vida se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrança remota. Como disse Artaud, o louco, sobre a arte (ou o amor) : "A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de algo transcendental com que a arte nos põe em contato." E a arte não é a linguagem do amor? E não falo aqui dos grandes momentos de paixão, dos grandes orgasmos, dos grande beijos - eles podem ser enganosos. Falo de brevíssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistério que subitamente parece revelado. Há, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das árvores ou entre as tranças da mulher amada e tudo parece decifrado. Mas, não se decifra nunca, como a poesia. Como disse alguém: a poesia é um desejo de retorno a uma língua primitiva. O amor também. Melhor dizendo: o amor é essa tentativa de atingir o impossível, se bem que o "impossível" é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love. Escrevi outro dia que "o amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes". Mas, o fundo e inexplicável amor acontece quando você "cessa", por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de "compaixão" pelo nosso desamparo. Esperamos do amor essa sensação de eternidade. Queremos nos enganar e achar que haverá juventude para sempre, queremos que haja sentido para a vida, que o mistério da "falha" humana se revele, queremos esquecer, melhor, queremos "não-saber" que vamos morrer, como só os animais não sabem. O amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Como os relâmpagos, o amor nos liga entre a Terra e o céu. Mas, como souberam os grandes poetas como Cabral e Donne, a plenitude do amor não nos faz virar "anjos", não. O amor não é da ordem do céu, do espírito. O amor é uma demanda da terra, é o profundo desejo de vivermos sem linguagem, sem fala, como os animais em sua paz absoluta. Queremos atingir esse "absoluto", que está na calma felicidade dos animais.
95. ARNALDO JABOR. VIVA A CATÁSTROFE! OS BONS TEMPOS VOLTARAM. Sempre que há uma catástrofe nacional, irrompe uma euforia de cabeça para baixo. É como se a opinião pública dissesse: "Eu não avisei? Bem que eu falei, não adianta tentar que sempre dá tudo errado...". Há um grande amor brasileiro pelo fracasso. Quando ele acontece, é um alívio. O fracasso é bom porque nos tira a ansiedade da luta. Já perdemos, pra que lutar? A plataforma afundando suavemente nos dá uma sensação de realidade. Parece o Brasil indo a pique - o grande desejo oculto da sociedade alijada dos podres poderes políticos, que giram sozinhos como parafusos espanados. Não é uma ameaça de CPI, não é um perigo de crash na Bolsa. É morte, gás e fogo. E nossa vida fica mais real e podemos então, aliviados, botar a culpa em alguém. Chovem cartas de leitores nos jornais. Todas exultam de indignação moral, todas denotam incompreensão para com o programa do governo de reformar o sistema, programa muito "macro", mal explicado, "muito cabeça" para a população. Nada como um desastre ou escândalo para acalmar a platéia. E a oposição, aliada à oligarquia, usa bem isso. Danem-se as questões importantes, dane-se a crise externa, dane-se tudo. Bom é fofoca e denúncia. A finalidade da política é impedir o país de fazer Política. Nada acontece, dando a impressão de que muito está acontecendo. Há uma tradição colonial de que nossa vida é um conto-do-vigário em que caímos. Somos sempre vítimas de alguém. Nunca somos nós mesmos. Ninguém se sente vigarista. O fracasso nos enobrece. O culto português à impossibilidade é famoso. Numa sociedade patrimonialista como Portugal do século XVI, onde só o Estado-Rei valia, a sociedade era uma massa sem vida própria. Suas derrotas eram vistas com bons olhos, pois legitimavam a dependência ao Rei. Fomos educados para o fracasso. Até hoje somos assim; só nos resta xingar e desejar o mal do país. Quem tem coragem de ir à TV e dizer: "O Brasil está melhorando!", mesmo que esteja? Ninguém diz. É feio. Falar mal do pais é uma forma de se limpar. Sentimo-nos fora do poder, logo é normal sabotar. A plataforma da Petrobras afundando derreteu feito bala de açúcar na boca dos golpistas. O fracasso é uma vitória para muitos. Não fui eu que fracassei; foi o governo, o neoliberalismo. O maior inimigo da democracia é a aliança entre o ideologismo regressista e a oligarquia vingativa. Nossos heróis todos fracassaram. Enforcados, esquartejados, revoltas abortadas, revoluções perdidas. Peguem um herói norte-americano: Paul Revere, por exemplo. Cavalgou 24 horas e conseguiu salvar tropas americanas na Guerra da Independência. Foi o herói da eficiência. Aqui, só os fracassados verão Deus. "Seja marginal, seja herói". O fracasso é legal, a vitória é careta. A vitória dá culpa; o fracasso é um alívio. A vitória é burguesa. A crise, a catástrofe, o bode preto têm um sabor de "revolução". É como se a explosão "revelasse" algo, uma tempestade de merda purificadora. Além disso, para os carbonários, depois de tudo arrasado, a pureza renasceria do zero. Assim pensava Pol Pot. A crise brasileira atual começou com um procurador maluco, uma fita mal gravada e tudo foi coroado com a plataforma afundando. O que moveu Luiz Francisco e ACM foi a esperança do caos. Luiz Francisco se acha o missionário da catástrofe. Ele é o ideólogo da explosão de furúnculos. Ele acredita no pus revelador. ACM quer levar em seu declínio o país todo com ele, cair destruindo, numa espécie de triunfo ao avesso. Ele é o último bastião do patrimonialismo tradicional, resistindo ao capitalismo impessoal. Espalhou-se a teoria de que o problema do Brasil é "moral". Este "bonde" funk de neo-udenismo psicótico, este lacerdismo tardio, este trenzinho de "janismo" com "collorismo" visam impedir a modernização do país, sob a capa do "amor". São a favor da moralidade, mas contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Esta onda de moralismo delirante busca impedir a reforma das instituições que estimulam a imoralidade. ACM, tocando trombone sob um telhado de vidro, é o grande exemplo. Luiz Francisco, com boquinha de ânus e vozinha de padre, outro. Nossos intelectuais se deliciam numa teoria barroca da "zona" geral. O Brasil é visto como um grande "bode" sem solução, o paraíso dos militantes imaginários. Quem quiser positividade é traidor. A miséria tem de ser mantida in vitro, para justificar teorias e absolver inações. A Academia cultiva o "insolúvel" como uma flor. Quanto mais improvável um objetivo, mais "nobre" continuar tentando. O masoquista se obstina com fé no impossível. Há um negativismo crônico no pensamento brasileiro. Paulo Prado contra Gilberto Freyre. Para eles, a esperança é sórdida; a desconfiança é sábia: "Aí tem dente-de-coelho, alguma ele fez...". Jamais perdoarão ao FHC ter abandonado a utopia tradicional e aderido à real politik. Quase nenhum "progressista" tentou ajudá-lo nesta estratégia. Quem tentou foi queimado como áulico ou traidor, pela plêiade dos canalhas e ignorantes. Talvez tenha sido um dos maiores erros da chamada "esquerda", talvez a maior perda de oportunidade da história. Agora, os corruptos com quem FHC se aliou para poder governar querem afogá-lo na lama. A real politik virou shit politics. Assim como o atraso sempre foi uma escolha consciente no século XIX, o abismo para nós é um desejo secreto. Há a esperança de que no fundo do caos surja uma solução divina... "Qual a solução para o Brasil?", perguntam. Mas a própria idéia de "solução" é um culto ao fracasso. Não lhes ocorre que a vida seja um processo, vicioso ou virtuoso, e que só a morte é solução. Vejam como o Brasil se animou com a crise atual. Dólar alto, plataforma afundando, Jader x ACM, tudo parado. Oba! É o velho Brasil descendo a ladeira! Viva! Os bons tempos voltaram!
96. ARNALDO JABOR. O GRANDE SUCESSO DO HERÓI SEM CORAÇÃO. "Eu quero, eu desejo, eu preciso, eu não me conformo de ficar olhando a vida de fora, feito um espectador de TV, eu quero tênis, eu quero Rolex, eu quero carrão, eu quero lancha, eu quero cartões de crédito e aqueles smokings lindos que o James Bond usava debaixo do neoprene mesmo quando mergulhava, eu quero a elegância total, sorriso nos lábios, pisando em mármores de hotéis, tomando drinques à beira da piscina ou nos pianos-bares, com uma louraça a meu lado ouvindo eu tocar, eu, campeão mundial de piano, como todos sabem... Eu quero poder escolher entre a Mercedes da hora e o Jaguar do ano, eu quero ter o corpo perfeito, malho muito e de noite eu fico horas pensando em mudar meu corpo, como se eu fosse nascer de novo, como se eu fosse fazer o parto de mim mesmo. Eu me imagino inteiramente liso para iniciar o parto, como alguém raspado antes de uma cirurgia e, de dentro de meus membros, começa a surgir um outro corpo, como a borboleta saindo de dentro da crisálida, meus pés, úmidos e novos, saem de dentro de meus velhos pés, minhas pantorrilhas rompem a casca da pele e aparecem fortes para jogar um futebol de campeão, eu, que sempre era barrado nas peladas de rua, mas que hoje já tenho os braços fortes como os de Charles Bronson, me preparando para o grande momento que vai chegar. Eu sonho há anos com esse dia, pois sempre soube que viria um bonde legal, uma parada legal que eu não sabia qual era, mas que viria... Aproxima-se a hora da liberdade, a hora em que eu vou quebrar todos os recordes e pular para uma outra vida. Depois disso, ninguém me segura mais... Como segurar um homem como eu, com minha macheza gloriosa, meu pênis campeão que tem uma tatuagem de seta para lembrar à minha mulher qual é o caminho da adoração religiosa, quando eu fico em pé na cama e ela reza, olhando para mim como o seu Deus? Ela está entranhada em mim como uma tatuagem e nem que arranque a pele ela se livra do meu amor. Parece que somos um só. Ela me disse um dia: "Eu sou você!..." Pois, está chegando a hora H, quando eu terei tudo a que tenho direito, como motocas Electra Glide ou Kawasaki, terei um apartamento em cima de uma pedra em frente do mar, em frente das altas ondas que eu, campeão havaiano de surfe em maremotos, cavalgarei e meu apartamento vai ser todo de mármore, cheio de controles remotos, de onde eu vou comandar os garçons que servem caviar e champanhe nas noites de festa que eu vou dar, com pagodes e com a Ivete Sangalo ou a Daniela Mercury cantando para meus amigos da revista Caras, eu vou mandar em tudo porque serei o mais poderoso, o mais forte, o mais rico, falando inglês, francês, russo, alemão, latim, e todo mundo vai me respeitar e gostar de mim, porque eu vou ser legal com quem for legal comigo, mas se não for legal comigo será esculachado, porque eu não vou dar colher de chá para traidor e porque nunca mais vou ser humilhado por aquele patrão que me expulsou da loja dizendo que eu era ladrão de camiseta e de tênis, só porque eu fui ao show da Negritude Jr. com o tênis fosforescente que chegou do Paraguai e com a camiseta do Robocop. Nunca mais vou ser fraco de alma, inclusive porque eu estou fazendo musculação por dentro do corpo; por fora, eu já estou com uma potência de soco de um Volks a 80 km por hora, mas, por dentro, meus músculos da alma estão cada vez mais duros, meu coração mais seco, único caminho para o sucesso, como nos ensina a cara dos políticos na TV. Esta é a receita do sucesso: coração duro, nem um pisco, nem um tremor de mão, nem um olho aguado, nada. Eu quero mesmo é ser de pedra, aliás, eu quero ser uma "coisa", eu queria ser uma "12" de cano serrado ou uma espada de samurai. Já pensou se o Beira-Mar fosse bonzinho? Ele seria um joão-ninguém. Eu sou duro, até já treinei outro dia com o gato no microondas, os miados e os olhos de pavor na janelinha. Quero coração duro para satisfazer todos os meus desejos, como manda o meu amigo secreto que conversa comigo de noite, o "Velho", que aparece quando vou começando a dormir e me diz: "Vai fundo, bota para quebrar, não vai morrer pobre feito eu!" Como eu vou explicar para ele, se eu amarelar? Eu já estou pronto para a ação. No bolso, o meu discurso de posse, prontinho para o dia em que vou receber o Grande Prêmio na Academia dos Heróis. Já sei até de cor, vou repetindo baixinho enquanto subo a escada: "Eu queria agradecer inicialmente ao Bruce Willis, ao Chuck Norris, ao Escadinha e a todos os heróis do cinema e da barra-pesada o muito que me ensinaram. Só eu sei quanto lutei para chegar até aqui, para ganhar este prêmio. Quero agradecer também aos olhos azuis de minha amada, que tanto me incentivaram a ter coragem de ser feliz"... Acho superlegal o meu discurso de posse na Academia e já vejo os super-heróis me aplaudindo. Bem, eu já estou pronto. Cabelo raspado feito o Ronaldinho, músculos desenhados e duros feito o Bruce Lee. Meu corpo está tremendo por dentro, mas sei que não é medo não; é tesão, é a alegria de conquistar a vida nova. Parece que tem outro homem dentro de mim, eu, o chefe da equipe mundial de caratê, eu, maior sucesso em breve nas revistas dos chiques e famosos, eu, que quebro 20 telhas com um soco, eu que serei o novo ídolo dos jornais, eu sinto que o mundo vai se abrir para mim feito um shopping center e eu só irei pegando as mercadorias e colocando na Ferrari vermelha onde minha mulher me espera para fugirmos. A chave da vida nova já está aqui na minha mão: esta barra de ferro que mata em silêncio, enquanto subo a escada, na maior adrenalina, com meu irmão atrás de mim, feito um ninja de máscara negra, agora que vamos abrir o quarto e começar a festa. Eles dois estão dormindo. Se a barra de ferro não resolver logo, estrangulo."
97. ARNALDO JABOR. AS FORÇAS ARMADAS TÊM DE ESTAR PERTO DE NÓS. Eu sou um pobre aspirante a oficial-da-reserva, de segunda classe, do Exército brasileiro, da heróica arma da Cavalaria. Apesar das agruras do serviço militar, não nego que, muita vez, vibrei com minha arma, como no dia em que cavalguei, com a lança embandeirada, na orgulhosa escolta do general-comandante Justino Alves Bastos, não tendo, infelizmente, desfilado depois na parada de 7 de Setembro pela maldade de um tenente que me fez montar a égua negra Epopéia, muito temida no regimento, pois empinava e se jogava para trás ("boleava") , tendo assim quebrado meu braço - eu, um desastrado e trêmulo calouro. Mas, lembro com emoção dos tambores e clarins, do passo firme dos batalhões, da sensação de unidade, de ser um soldado num mar verde-oliva, o que apaga a solidão e consola a alma. Escrevo estas coisas remotas como réplica a uma carta do general Luiz Cesário da Silveira Filho, chefe do Centro de Comunicação Social do Exército, a propósito de meu artigo da semana passada, na qual ele me aponta como "denegridor" da boa imagem do Exército. Ao contrário, general, considero o Exército uma das poucas instituições decentes do País e meu artigo, ao imaginar uma eventual participação militar na luta contra o tráfico, visava um pouco (confesso-o) a provocar nossos "milicos" e a suscitar respostas e explicações. E fico orgulhoso de poder, hoje, até questionar o Exército sem sentir medo. Sei das dificuldades da instituição num país semiquebrado por séculos de oligarquias e dependência, talvez até por ser filho de um brigadeiro-do-ar que morreu duro num apartamento de dois quartos em Copacabana. Ademais, quem sou eu para criticar o Exército? No entanto, penso que talvez o Exército devesse ter mais contato com a opinião pública brasileira. Há uma curiosidade, que não é só minha, que se pergunta qual é o papel dos militares brasileiros no mundo da globalização e das mudanças no velho Estado-Nação, da democracia de massas e suas mazelas. Muita gente diz: "Tem de botar o Exército na rua contra o tráfico!" Outros: "Pra que serve o Exército?" Fique claro que não acho que o Exército tem de "sair e botar para quebrar". Não sou o homem mais burro deste país (meus inimigos dirão: "Olha a modéstia..."); por isso, me pergunto: não seria oportuna uma atuação das Forças Armadas, em alto nível estratégico, coordenada com a experiência concreta e "suja" das polícias, de modo a romper essa cadeia de pó e armas, que começa lá fora, invade fronteiras, sobe favelas e acaba no nariz da burguesia? Não podemos continuar considerando esses crimes apenas como um "desvio da norma" ou como um pecado diante do "Bem". O crime do tráfico e da miséria armada já tem outros nomes, já é uma "mutação social", já é uma forma de vida, um mercado de trabalho, um desafio aos poderes públicos. Esse neocrime não se combate mais com castigo e prisão; trata-se de uma Outra Sociedade, criada na lama e na fome, e só será vencido por uma conjunção de instrumentos que vão desde a repressão até o saneamento, que vão desde a guerra explícita até uma reeducação das comunidades periféricas. O tráfico no Rio e em São Paulo não é só um problema de polícia, pois não nasce cocaína na favela nem lá se fabricam metralhadoras, como disse o Zuenir; tudo começa como uma invasão do território nacional. Por que as Forças Armadas não podem agir, em nível de Estado maior, da ESG, etc.? Sabemos que, no Rio, grande parte do pó entra pela Baía de Guanabara. Por que a Marinha não pode policiar essas águas? Outro dia, li a entrevista muito lúcida de um brigadeiro que reclamava da ausência da "Lei do Abate" na Amazônia. Os jatos da Aeronáutica perseguem os aviões cheios de cocaína, dão ordem de descida, mas eles nem ligam, pois é proibido abatê-los. Os pilotos clandestinos chegam a fazer gestos obscenos para os militares e continuam seus vôos impunes, em direção aos "cafungueiros" do País. Como leigo, pergunto se as Forças Armadas não devem se repensar em função das mudanças econômicas e políticas do País, se "enxugando", ficando mais eficazes, com melhores armas e homens bem pagos. Se alguma crítica posso fazer a imagem do Exército, é em relação a uma mentalidade meio "napoleônica", de "forças maiores", acima do cotidiano nacional, defendendo abstrações como "civismo", "renúncias", "anseios patrióticos". Hoje, o inimigo mudou e não podemos continuar a combatê-lo com formações do século19. Agora, o inimigo vem de dentro do atraso nacional, de dentro da tecnologia veloz, vem do fanatismo, da loucura, da miséria armada. Acho que um dos erros de comunicação das Forças Armadas é um ocultamento diante da população. Por quê? Será que ficaram com complexo de culpa por terem cedido à tentação autoritária , há 30 anos? Isso já passou. O Exército não pode aparecer muito ou sumir muito, à espera de um "grande acontecimento" histórico. Não há mais "grandes acontecimentos". A guerra hoje é minimalista, tática, misturada à vida social, até invisível. Os americanos amam seu Exército. Quantos filmes já fizeram louvando seus soldados? Por que ignoramos os nossos? Será que é só culpa de nosso ibérico e colonial medo do "poder"? Ou não haveria também da parte do Exército uma fobia, uma timidez em se assumir como importante instituição nacional? Gostaria de ver o Serviço de Comunicação, prezado general, aparecendo "antes", nos informando e não reclamando de injustiças. O Exército é grande demais para isso e eu sou pequeno demais. Sou apenas um aspirante de segunda classe, mas minhas dúvidas são de brasileiro e patriota pois, como diz o nosso hino da Cavalaria, no evento de uma guerra contra a Pátria, quero que "o Sol, sem eflúvios, sem luz e sem calor, me encontre no solo a morrer, do que vivo sem te defender..."
98. ARNALDO JABOR. SUZANE, 19 ANOS, BELA E RICA, MATOU POR AMOR. Quando os irmãos entrarem em cana, provavelmente serão mortos, pois matador de pai e mãe eles não perdoam. Mesmo no mundo do crime há uma ética a preservar, mesmo o pior criminoso tem um interdito moral. Nesse caso, não. O crime de parricídio e matricídio premeditado durante o sono é mais que um crime; é uma viagem ao desconhecido, é o desejo de atingir um recorde supremo. Não há nada pior. Nenhuma ética se salva, nada pode atenuar o feito. O quê? Que delito Suzane e seus cúmplices poderiam considerar mais hediondo? Suzane está no topo, nada há além dela. Ela nos aterroriza com sua crueldade brutal. Os dois monstros boçais ainda dá para entender: queriam grana, motocas e tatuagens, filhos desta geração de shoppings e violência. Ela, não. Precisamos encontrar explicações para ela, senão ficamos ameaçadíssimos. O crime sem motivo nos desorganiza, pois nos coloca nas mãos da loucura. Se ela, jovem, bela e rica, matou, que será de nós? O crime sujo da favela apenas nos dá medo. O crime limpo e rico nos desampara, nos dá vertigem, pois perdemos o balizamento da ética e da razão. Suzane nos leva à beira da loucura, mas ela não é louca. Então, ela matou por quê?, perguntamo-nos. Isso é que fascina e apavora no psicopata: ela toca num mistério que tentamos esquecer. Vizinhos e amigos sempre dizem deles: "Eram doces, educados, tímidos..." Até a hora em que metralham espectadores num cinema ou matam pai e mãe dormindo. Por isso, os psiquiatras buscam "causas", como se a vida social fosse um contrato de bom senso, como se fôssemos animais racionais e a loucura um "desvio". É o contrário; a sociedade é que é um desvio. Não adianta ter ódio dela; não há punição que apague o seu crime, não há como pagar sua dívida. O inferno cotidiano que ela terá não explica aquele momento metafísico, sempre além de qualquer entendimento. Mas, mesmo os psicopatas precisam de uma razão maior para justificar o crime. "Matei por amor...", diz a menina de 19 anos, fina, linda, universitária. No entanto, esse amor que a menina invoca é outro "amor". Ela e todos nós precisamos "justificar" esse crime, para não ressuscitarmos a célebre manchete do jornal carioca O Dia: "Matou a mãe sem motivo" - ou seja, deve haver um motivo para se matar a mãe. Ela precisa de um motivo, pois ela não sente culpa porque matou. Ela matou para preencher um grande vazio em seu mundo interno, matou para atravessar um deserto afetivo, matou porque não sentia culpa, matou por vingança de não sentir culpa, matou até para tentar sentir alguma culpa, sentir até algum... amor. Por isso, sua declaração nos apavora: "Matei por amor!" Matou, sim, por amor, para conseguir um pavoroso amor por que ela ansiava. Que estranho amor é esse? Eu acho que ela buscava o "amor" da hora. É o amor que nos grita de dentro do comércio, de dentro do consumo, que nos chama de dentro de um narcisismo impossível que todos proclamam, é o amor imaginário feito do desejo de posse exclusiva sobre a liberdade, sobre o corpo do outro, um amor que consome tudo, querendo uma felicidade quantitativa, uma infinita conquista para abolir todos os vínculos, todas as barreiras do Édipo, todos os deveres sociais. Suzane quis fazer um gesto imperdoável para sempre, absoluto, livre para sempre da condição humana, quis o sangrento incesto invertido com os pais deitados na cama onde ela foi (talvez?) feita. Depois do crime cometido, ela poderia se livrar da origem, do passado, da horrenda obrigação de conviver e, então, se dedicar a um amor sem "outro", sem objeto, uma espécie de conquista de Poder, sim, um poder de estar acima dos sentimentos, da Justiça, um poder de viver sem sociedade em volta, um poder maluco que vemos anunciado nas entrelinhas das ideologias de hoje, nas gargalhadas sem remorso nas revistas, na abolição descarada da compaixão. Esse crime me lembra o mistério fúnebre da peça de Shakespeare Macbeth, o poder de liberdade crua que Suzane almejou me lembra o poder que os Macbeth conquistariam, depois de "assassinarem o sono", como grita o poeta. A frase da peça que mais me aterroriza é quando lady Macbeth, preparando-se para o crime, grita a Deus (ou ao Demônio): "Unsex me!" (Dessexualize-me!!) Ou seja: "Tire de mim a bondade feminina, transforme-me não num homem, mas tire o sexo de mim, para que eu seja um homem-mulher, um ser livre da diferença, livre da condição humana dividida, sexed, e me transforme num ser monobloco, com um desejo só." Como seria o amor de Daniel e Suzane, Romeu e Julieta ao contrário, se tudo tivesse "dado certo"? Com os pais mortos, grana no bolso, garupa de motocicleta, os dois teriam uma espécie de fusão, de orgasmo contínuo, acima da vida, acima do cotidiano, pois ninguém mais poderia existir - só eles. A única explicação que pode vagamente explicar o acontecido é sabermos que a sociedade está tão narcísica, tão excludente de qualquer solidariedade, tão brutal no seu desejo de satisfação total, que contamina até os privilegiados. A pulsão de morte anda solta. Vivemos atacados pela brutalidade do noticiário, pelos homens-bomba, pela estupidez da cultura que gera batalhões de rapazes criminais, sem camisa, obcecados por uma felicidade de consumo impossível. A violência das periferias influencia a classe média até com gestos, gírias e armas. Estamos pagando o preço por nosso descaso com a miséria durante décadas, nosso desinteresse pela desumanização da vida. Não somente as balas nos atingem, mas também a imensa boçalidade da cultura. Suzane é psicopata, mas nossa sociedade também o é. Não há explicação para esse crime. Não adianta procurar causas, traumas. Esse crime ficará sempre em aberto. Misterioso, como nosso destino.
99. ARNALDO JABOR. O AMOR DEIXA MUITO A DESEJAR... Fui ver o lindíssimo filme do Pedro Almodóvar, o Fale com Ela, e saí pensando num conto da Carson McCullers, em que um homem conta que, antes de amar de novo uma mulher, ele estava aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens... Nesse grande filme de Almodóvar, vemos amores raros, feitos de entrega, feitos de compaixão, como uma "doação ilimitada a uma completa ingratidão", como escreveu Drummond, aliás, o poeta do amor impossível, que é o único e verdadeiro amor. A vitória do Lula também foi uma fome de amor política contra a era da técnica racionalista. Seu governo pode virar até um crime passional ou um folhetim melodramático, mas, hoje, é um grande desejo de happy end para todo o povo. Por isso, pergunto: onde anda o amor? Até isso o mercado estragou? Sim. O amor já teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, já foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum. Hoje, o amor, como tudo, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, não existe mais a simbiose que nos transportava a uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de bondade, de compaixão pelo outro, de proteção à pessoa amada. Isso está acabando. O amor já foi analisado por todas as ciências, a psicanálise mapeou as loucuras que estão sob sua poética, o ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção. Por isso, o filme de Almodóvar é tão belo e oportuno. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denúncias. Se eu, um dia, filmar de novo, será para celebrar o silêncio dos amantes ou a beleza do inútil. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que não sentem mais. O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar, não tem mais a utilidade do sacrifício pelo "outro". O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de "olhos de ressaca", nem nas "pernas de Fulana", nem temos as bocas beijadas por amantes "tutti tremanti", nem o formicida com guaraná. Não se diz mais: "Deus sabe quanto amei!...", mas "Deus nem sabe quantos (as) amei..." A publicidade devastou o amor, falando na "gasolina que eu amo" ("Shell que j'aime"), no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade total, por si só, levaria a uma assexualização desértica. A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor, não... O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes. Amor e sexo. Mas, hoje o mercado exige a satisfação total no amor ou o dinheiro de volta. Como isso é impossível, deriva para o sexo ou para a sedução. O amor passa a buscar não mais uma entrega, mas um domínio. O amor vira um objeto de consumo, fast-love, com obsolescência programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espécie de adoçante para justificar, legitimar uma tesão ou uma conquista. Os amores duram três edições de Caras. Os casais se permutam num troca-troca rápido e quantitativo. As próprias mulheres estão virando dom-juans. Vejam o périplo de jovens atrizes que vão comendo, um por um, os modelos que surgem nas revistas, elas, que deviam se manter damas inatingíveis para pálidos quixotes românticos. Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu aura. O terrível bombardeio que a cultura americana está fazendo nos sentimentos é invisível, mas é pior que as bombas contra o Iraque. A cultura americana está criando um desencantamento insuportável na vida social. Tudo é tolerável, num arrasamento de mistérios. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com números - basta clicar e chamar. Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na política, no sexo. Por isso, o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, apoiada na trêmula beleza dos balés de Pina Bausch e no Caetano cantando um pranto dolorido, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicável de alguma coisa que existe aquém, antes da vida. Nos anos 60, liberdade sexual foi uma questão política. Hoje, podemos tudo, podemos casar até com jacarés ou macacas, sem escândalos, desde que não prejudique a produção. Mas, o que invisivelmente está virando uma nova necessidade política é o amor e seus subprodutos: compaixão, paz, justiça. Aposto que virá aí um novo "desbunde", um novo movimento hippie, sem utilidade, mas sem melancolia autodestrutiva, vêm aí marchas pelo amor, porque ninguém está agüentando mais somente "utilidade" e "desempenho", poder e sucesso. Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos... E acho que isso vai surgir na América, como foi nos anos 60 - a luta pelos direitos civis será agora a luta pela beleza da inutilidade.
100. ARNALDO JABOR. CONFISSÕES SINCERAS DE UM LADRÃO BRASILEIRO. "Gosto de ser ladrão, doutor. Esta palavra tem uma conotação feia, mas a origem dela é 'laterones', os sujeitos que ficavam na 'lateral', ao lado dos reis e príncipes. Minha origem é, portanto, ilustre. Não sou um ladrão de galinhas, mas confesso que roubava galinhas do vizinho e até hoje sinto o cheiro das penosas que eu agarrava, prendendo-lhes o bico para evitar cacarejos e ficou-me o gosto do terror do vizinho aparecer e acho que virei ladrão pelo prazer desse medo. Já fui dono da CAG Ltda., que era da viúva de meu ex-sócio que, em circunstâncias misteriosas, apareceu assassinado no Motel Crazy Love e que, antes de morrer, que Deus o tenha, já tinha transformado a CAG em subsidiárias com sede em Miami, a ASS & HOLE Inc., a COCK & DICK participações, geridas por uma 'holding' em Barbados. Hoje, não roubo por necessidade, doutor; é prazer mesmo. Nunca fui pobre, mas preciso da adrenalina que me acende o sangue na hora em que a mala preta voa em minha direção, cheia de dólares, quando vejo os olhos covardes do empresário me pagando a propina, sua mãos trêmulas me passando o tutu, ou quando o juiz me dá ganho de causa, ostentando honestidade, e finge não perceber minha piscadela cúmplice na hora da emissão da liminar, todos sabujos diante de meu poder burocrático. Adoro a sensação de me sentir superior aos otários que me 'compram', eles se humilhando em vez de mim. Roubar é sexy, doutor. Dá tesão. Semelhante um pouco às brincadeiras no porão onde eu e menininhos 'troca-trocávamos' com pânico de um pai aparecer; roubar também me liberta, eu explico, me tira do mundo dos obedientes e me traz quase um orgasmo quando embolso uma bolada, o senhor já conheceu a alegria de andar com 300 mil dólares distraidamente dentro de uma ingênua pastinha e deixá-la de propósito ali no balcão da lanchonete, tomando um cafezinho sob a ignorância de transeuntes e pedintes que mal suspeitam que a salvação de suas vidas estaria ali, ao lado do açucareiro? E o prazer de sentir o espanto de uma prostituta, se você lhe arroja mil dólares entre as coxas, e vê sua gratidão imediatamente acesa, fazendo-a caprichar em carícias mais sacanas? Conhece, doutor, a delícia de rolar em notas de 100 dólares na cama de um hotel vagabundo, de madrugada, sozinho, comendo castanhas e chocolatinhos do frigobar, em uma cidade remota, onde rolou mais um financiamento de grana pública? Conhece a delícia de ostentar honestidade em salões, para caretas inconscientes que te xingam pelas costas, mas que te invejam secretamente pelas experiências que imaginam que você teve? Sabe do deleite de ver suas mulheres te olhando como um James Bond ao contrário, excitadas, pensando nos colares de brilhantes que poderiam ganhar de mim, o Arsène Lupin, 'charmeur', sorridente, pois todo bom ladrão é feliz e delicado, principalmente com as damas? O senhor não tem idéia, nessa sua obstinada integridade, do orgulho que temos, mesmo quando roubamos verbas de remédios para criancinhas, de agüentar o sentimento de culpa que bate em nossa consciência como mariposas numa janela e conseguir dominar a vergonha e transformá-la na bela frieza que faz o grande homem? O honesto é triste, doutor, a virtude dá úlcera, o honesto anda de cabeça baixa com baixos proventos, com uma vida limitada, sem conhecer o coração disparado, o gosto ácido da aventura, o honesto não sabe da santidade da sordidez, de onde contemplamos o mundo careta com desprezo. Eu sou especializado em bens públicos, doutor, é o que me dá mais tesão, saber que estou roubando todo mundo e ninguém, um dinheiro tradicional que já foi de tantas oligarquias. No Brasil, há dois tipos de ladrões, na elite é claro, não falo de 'carandirus'. Há o ladrão extensivo e o intensivo. O primeiro é aquele que vai roubando ao longo da vida política e ao fim de 30 anos já tem Renoirs, lanchões, helicópteros, esposas infelizes e adquire uma respeitabilidade por seu roubo difuso, ganha uma espécie de título de barão ou conde e que, depois, pode se limpar nas artes ou na filantropia. Eu prefiro ser 'intensivo', doutor, me dá mais adrenalina, mais pá-pum, mais relâmpago, uma delícia, doutor, roubar como vingança contra passadas humilhações, dores de corno, porradas na cara não revidadas. E o prazer da lealdade entre criminosos, doutor, conhece? A telepatia das piscadas, dos códigos, a delícia do conto-do-vigário em dupla, quando um diz 'mata' e o outro 'esfola'? Já viu, doutor, um capanga seu, um 'armário' mau quebrando o dedo de um devedor dentro da sala, sob teu olhar, proibindo-o de gritar, enquanto o dedo estala sob a manopla do crioulão? E o diálogo oblíquo com algum assassino de aluguel, acertando os detalhes de um prefeito ou empresário a apagar? E o êxtase maior de ver uma execução, ver as súplicas de pavor, enquanto os matadores passam o fio de náilon em volta da garganta do boneco e puxam até ele cair, eu confesso que tive uma ereção vendo essa cena num terreno baldio, debaixo de uma placa de financiamento público, e depois tive a maravilhosa sensação de liberdade de chegar em casa no absoluto segredo do crime e beijar meus filhos vendo desenho animado na TV, indo depois tomar um grande banho na Jacuzzi, protegido de tudo. Olhe para mim, doutor. Eu estou no lugar da verdade. Este país foi feito assim, na vala entre o público e o privado. Há uma grandeza insuspeitada na apropriação indébita, florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias. A bosta não produz flores magníficas? O que vocês chamam de 'roubalheira', eu chamo de 'progresso', um progresso português, nada da frieza anglo-saxônica. São Paulo foi construída com esse combustível, Brasília foi feita de lindas ladroagens. Tudo que é belo e bom nasceu da merda. Esta é a tradição do Brasil, doutor..."
101. ARNALDO JABOR. ADORO SEPULCROS CAIADOS E LÁGRIMAS DE CROCODILO. Eu adoro a estética da corrupção. Adoro a semiologia dos casos cabeludos sob suspeita, adoro a reação dos implicados, adoro o vocabulário das defesas, das dissimulações, as carinhas franzidas dos acusados na TV, ostentando dignidade, adoro ver ladrões de olhos em brasa, dedos espetados, uivos de falsas virtudes e, mais que tudo, lágrimas de crocodilo. Todos alegam que são sérios, donos de empresas "impecáveis". Vai-se olhar as empresas, e nunca nada rola normal, como numa padaria. As empresas sempre são "em sanfona", uma dentro da outra, "en abîme", sempre têm "holdings", subsidiárias, são firmas sem dono, sem dinheiro, sem obras, todas vagando num labirinto jurídico e contábil que leva a um precioso caos proposital, pois o emaranhado de ladrões dificulta apurações. Me emociona a amizade dentro das famílias corruptas, principalmente no Nordeste. Ohh, Deus! Lá, creio eu, há mais amor do que entre picaretas paulistas ou cariocas. Lá existe uma simbiose maior no parentesco, mais calor humano, mais "fio de bigode". São inúmeros os primos, tios, ex-sócios, ex-mulheres que assumem os contratos de gaveta, os recibos falsos, todos labutando unidos, como Ali-Babás sincronizados. Baixa-me imensa nostalgia de uma família que não tenho e fico imaginando os cálidos abraços, os sussurros de segredo nos cantos das casas avarandadas, o piscar de olhos matreiros, as cotoveladas cúmplices quando uma verba é liberada pela Sudam em 24 horas, os charutos comemorativos; tenho inveja dos vastos jantares nordestinos, repletos de moquecas e gargalhadas, piadas, dichotes, sacanagens tão jucundas, tão "coisas nossas", tão "alagoas", que me despertam ternura pela preciosidade antropológica de imagens como a piscina verde em Canapi, a barriga de Joãozinho Malta (lembram?), a careca do PC Farias e as sobrancelhas de Jader. Esses signos e símbolos muito nos ensinaram sobre o Brasil real. Adoro também ver as caras dos canalhas. Muitos são bochechudos, muitos têm cachaços grossos, contrastando com o "style" dos populares magros de sEca, de fome, proletários chics, elegantérrimos pela dieta da misÉria. Todos acumulam as mesmas riquezas: piscinas, fazendas, lanchões, Miamis, todos têm amantes, todos têm mulheres desprezadas e tristes, com filhos oligofrênicos, deformados pelas doenças atávicas dos pais e avós. Aprecio muito os bigodões e bigodinhos. Nas oligarquias, êles não usam a bigodeira severa de um Olívio Dutra, babando severidade, com um eco de stalinismo e machismo gaúcho, não. Os bigodes corruptos são matreiros, bigodes que ocultam origens humildes criadas à farinha d'água e batata-de-umbu, na clara ocultação de um racismo contra si mesmos, camuflando os ancestrais brancos cruzados com índios e negros, raquíticos por séculos de patrimonialismo. Também gosto muito do vocabulário dos velhacos e tartufos. É delicioso ver a ciranda das caras indignadas na TV, as juras de honestidade, é delicioso ouvir as interjeições e adjetivos raros : "ilibado", "estarrecido", "despautério", "infâmias", 'aleivosias"... São palavras que ficam dormindo em estado de dicionário e só despertam na hora de negar as roubalheiras. São termos solenes, ao contrário das gravações em telefone, onde só rolam palavrões: "Manda a grana logo para o F.d.p. do banco, que é um grande #@, senão eu vou #@ a mãe deste #&@." Outra coisa maravilhosa nos canalhas é a falta de memória. Ninguém se lembra de nada nunca: "Como? D. Sirleide, aquela mulher ali, loura, popozuda, de minissaia? Não me lembro se foi minha secretária ou não." E o aparente descaso com o dinheiro? Na vida real, eles cheiram a grana como perdigueiros e, no entanto, se justificam: "Ihhh... como será que apareceu um milhão de reais na minha gaveta? Nem reparei. Ahhh... essa minha memória!..." Adoro também ver as fotos das placas da Sudam. Sempre aparece um terreno baldio com a placa da Sudam e o nome pomposo da empresa fantasma, onde, às vezes, ao longe, um burro pensativo pasta... E o objetivo "social" dos financiamentos da Sudam, Sudene? Nunca é uma empresa para desenvolver algo; são ranários de 10 milhões, fábricas de componentes para piscinas, empresas de ursinhos de pelúcia, ou essa maravilhosa Usimar, que ia custar 1 bilhão de reais para fazer peças de carro, mais cara que três Generais Motors na caatinga. Amo também ver o balé jurídico da impunidade. Assim que se pega o gatuno, ali, na boca da cumbuca, ali, na hora da "mão grande", surgem logo os advogados, com ternos brilhantes, sisudos semblantes, liminares na cinta, cínica serenidade de cafajestes e, por trás deles, vemos as faculdades malfeitas, as chicaninhas decoradas, os diplomas comprados. E logo acorrem os juízes das comarcas amigas, que dão liminares e mandados de segurança de madrugada, de pijama, no sólido apadrinhamento oligárquico, na cordialidade forense e freguesa, feita de protelações, dasaforamentos, instâncias infinitas, até o momento em que surge um juiz decente e jovem, que condena alguém e é logo chamado de "exibicionista"... Adoro as imposturas, as perfídias, as tretas, as burlarias, os sepulcros caiados, os cantos de sereia, as carícias de gato, os beijos de Judas, os abraços de tamanduá. Adoro tudo, adoro a paisagem vagabunda de nossa vida brasileira, adoro esses exemplos de sordidez descarada, que tanto nos ensinam sobre o nosso Brasil. Sou-lhes grato pelas sujas lições de antropologia, verdadeiros "Gilbertos Freyres" da endêmica sem-vergonhice nacional. Só um sentimento me atormenta o coração: não sei por que, também me passa pela cabeça a imagem dos corruptos chineses condenados e ajoelhados no chão, com o soldado alojando-lhes uma bala de fuzil na nuca. Penso nessas cenas e sinto uma grande inveja da China? Por que será?
102. ARNALDO JABOR. AMOR DOS ANOS 60 DEIXAVA MUITO A DESEJAR. Eu sou do tempo em que as namoradas não davam. É. Estou enojado dos dias de hoje, nesta torpe função de comentarista, em que as notícias batem-me na cara como pedras. Estou cansado. Volto ao passado, sugado por um túnel de flash-backs. Pois é; as namoradas não davam. A pílula foi a maior revolução cultural dos anos 60, pois as meninas, com pavor de engravidar, deixavam quase tudo menos o principal e os rapazes iam para casa com dor nos rins e perpetravam masturbações feéricas, ejaculando nos banheiros como foguetes à Lua. Os meninos de hoje vivem em haréns. Estes "pequenos canalhas" que eu tanto invejo torcem o nariz para deusas de 18 anos, entediados, enquanto, no meu tempo, quantas meninas eu tentei empurrar para dentro de apartamentos emprestados, ficando elas empacadas na porta, quantas unhas quebradas em soutiens inacessíveis, quantas palavras gastas em cantadas intermináveis, apelando para Deus, para Marx, para tudo, desde que as saias caíssem, as blusas se abrissem, as calcinhas voassem. Não havia motéis, então. Namorávamos em qualquer buraco: terrenos baldios, cantos da praia de noite; eu confesso que já "amassei" uma namorada dentro de uma grossa manilha encalhada na Praia de Ipanema. Os carros eram poucos e deixavam um rastro de silêncio depois que passavam. Havia menos gente. Aconteciam menos coisas. As pessoas eram mais individualizadas - fulano, sicrano, rua tal, número tal, bar tal, comida tal, um dia depois do outro... Havia tempo para o tempo passar. Mas, deixemos de filosofias e fiquemos na sacanagem. Minha primeira namorada não era mais virgem. Era uma raridade. Era uma morena febril, agressiva que dirigia uma Rural Willis do pai. Eu, que vivera até então na horrenda divisão entre puteiros e romances líricos, entre lágrimas e baldes de despejo, achei que ia começar meu primeiro amor adulto. Mas, acontece que minha namorada resolvera reconstituir sua virgindade, recusando-se a perpetuar comigo seu "erro" do passado. Arrependera-se de ter cedido uma única e sangrenta vez ao "canalha" que me antecedera e, depois de lágrimas em confessionários, resolvera manter sua pureza intacta. Para mim, foi um calvário de desejo insatisfeito. Na Rural Willis do pai dela, quase tudo era permitido, mas tudo sôfrego, apavorado, desespero e gozos no ar, ejaculações no painel - nada terminava. O apartamento era a grande esperança; se a menina entrasse, depois era mole. O problema era entrar. "Não, não adianta, Arnaldo, aí eu não entro!..." Eu, jovem comuna, tinha a chave de um "aparelho" secreto do Partidão, ali na Rua Djalma Ulrich, com um sofá-cama rasgado com o algodão aparecendo, para onde eu, da "base" cultural da UNE, tentava levar, sem sucesso, menininhas de esquerda, com triplo medo: sentimento de culpa, medo de broxar e de ser apanhado pelos comunistas "caxias". "Não. Aí eu não entro!", gemia minha namorada. Eu tentava argumentos que iam de Sartre e Simone até a revolução. "Mas, meu bem... deixa de ser 'alienada'... A sexualidade é um ato de liberdade contra a direita..." E ela: "Não entro! Isso seria também uma indisciplina pequeno-burguesa." "Mas, meu anjo - eu suplicava -, não há essência, só existência... Inclusive - disparei - você tem que assumir que não é mais virgem!" E ela, com boca de nojo: "Eu sabia que você ainda ia jogar isso na minha cara!!!" E fugia pelas escadas. O medo era a barriga, medo que a pílula matou anos depois, mas era medo também de um labirinto de liberdades assustadoras, de apego a vestidos de debutantes, organdi branco, a véus de noiva esvoaçando nas almas românticas. Ninguém dava. As poucas que o faziam eram apontadas pelos rapazes, com fascínio e suspeita, um respeito desconfiado. Quantos teriam coragem de casar com elas? Lembro de uma menina da universidade que entrava num transe meio epiléptico, de olho virado em alvo, que "dava" num sacrifício ritual de gritos e choros do qual acordava sem lembrar de nada... Era um sucesso entre comunas caretas, uma espécie de "louca da aldeia". Por isso, homens falando em "liberdade" viviam em "rendez-vous" e em aventuras com mulheres casadas, infelizes matronas (uma que levei ao "aparelho" chorava pelo marido militar e gemia de vingança: "Ele odeia comunistas... ahh... se ele soubesse..."). Ou então eram pobres empregadas carentes, "lúmpens" de rua (como se dizia); um companheiro nosso papou até uma cega do Instituto Benjamim Constant. E havia também o recurso a mulheres turistas e estrangeiras. Um comuna amigo meu "traçou" uma funcionária do consulado americano, a quem ele obrigava a chamá-lo de "Fidel Castro" (esse já foi até ministro...). Tudo era complicado, proibido, ao som do rock e bossa nova. Éramos assim em 1962. Aos poucos, melhorou... Em 63, conheci minha primeira grande paixão, minha vertigem e cegueira, pois, antes da pílula e sem recuos, ela tinha adentrado gloriosamente o "aparelho" secreto do Partidão na Rua Djalma Ulrich e, em meio a livros da Academia de Ciências da União Soviética, sob um pôster de Lenin e uma reprodução dos Girassóis de Van Gogh, "dera" para mim com amor e coragem. Foi um raio de triunfo em minha juventude. Lembro até hoje que, lá embaixo, na loja de discos, tocava o sucesso da época, "Chove Chuva Chove sem parar...", com Jorge Ben (ou seria Bicho do Mato?) Não sei. Mas, até hoje guardo na alma aquela tarde mágica e revolucionária de 63, com música do Jorge ao fundo, com a mulher com quem vivi até 69, ano em que ela resolveu me abandonar por outro, quando o grande sucesso musical era também de Jorge Ben: "Sou flamengo e tenho uma nega chamada Thereza...", o que fazia esse jovem comuna chorar pelas ruas, ao ouvir seu nome nos rádios e nas esquinas...
103. ARNALDO JABOR. VIOLÊNCIA VIROU PROBLEMA DE ESTADO-MAIOR. Sempre que escrevo sobre a violência me dá uma sensação de inutilidade. Quando vejo os movimentos de solidariedade, bandeiras brancas, pombas da paz, atores nas ruas, burgueses falando em cidadania, me dá uma sensação de perda de tempo. Nós tratamos os criminosos como se fossem "desviantes" de nossa moral, como gente que se "perdeu" da virtude e caiu no "pecado", no "mundo do crime". Não é nada disso. Eles são os novos empregados de uma multinacional. O único emprego que lhes foi oferecido no último século: a megaempresa da cocaína. Ela trouxe o poder sobre as comunidades que, somado à ignorância e à miséria, criou a crueldade sem limites, a bruta guerra animalesca. Os bandidos violentos são quase uma mutação da "espécie social", fungos de um grande erro sujo do qual nós somos cúmplices. Hoje, nós é que ficamos caretas diante deste mundo periférico que não se explica, gerando outra ética, funérea, sangrenta. A miséria armada é uma outra nação, no centro do Insolúvel. Essa gente era anônima; estão ganhando notoriedade na mídia. São vazios objetos de uma corrente de pó; nós, pequeno-burgueses, é que víamos neles até uma vaga consciência "política" de marginais. Achamos até que eles querem calar a imprensa. Nada. Mataram por matar, chamaram o Tim de X-9 e "já era" - disseram eles. Nós é que estamos lhes fornecendo uma "ideologia". Mas, não quero ficar deitando sociologia barata sobre a violência. Quem sou eu? Mas, vejo com um mínimo de bom senso que os vilões também somos nós. Eles são a prova de nosso despreparo. Os incapazes somos nós, ainda crentes de leis inúteis, de coerções superadas, de polícias falidas. Nós não fizemos nada quando as favelas eram pequenas. A miséria era dócil - podia ser ignorada. Agora, se não agirmos, isso vai virar uma endemia eterna. A lei não consegue nem instalar anticelulares nas cadeias e fica encenando comboios para a mídia, com cem policiais pra levar o Beira Mar para outra cadeia. Ninguém consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa pública estão engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência "pós-moderna" dos bandidos, diretamente ligados ao ato, ao fato, à instantaneidade do mal, e sem freios éticos. Eles têm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, ciência, democracia e, aí, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o "shopping center". Eles são uma empresa moderna. Nós somos o Estado ineficiente. Eles agilizam métodos de gestão. Eles são rápidos e criativos. Nós somos lentos e burocráticos. Eles lutam em terreno próprio. Nós, em terra estranha. Eles não temem a morte. Nós morremos de medo. Eles são bem armados. Nós, de "três-oitão". Eles ganham muita grana. (Um "aviãozinho" de 15 anos ganha mais por semana que um PM por mês). Eles estão no ataque. Nós, na defesa... Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós. Nós os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaços. Eles são protegidos pela população dos morros, por medo ou vizinhança. Nossas polícias são humilhadas e ofendidas por nós. Ninguém suborna bandido. Eles compram policiais mal pagos. Um cara que ganha 700 paus por mês não tem ânimo para combater ninguém. Eles não esquecem da gente nunca, pois somos seus fregueses. Nós esquecemos deles logo que passa uma crise de violência. A droga e as armas vêm de fora. Eles são globais. Nós somos regionais. Alguma vitória só poderá vir se desistirmos de defender a "normalidade" de nosso sistema, pois não há mais normalidade nenhuma; precisamos de uma urgente autocrítica de nossa ineficiência. O combate ao crime passa pelo combate ao nosso descaso e incompetência. A luta contra o tráfico, é óbvio, começa lá longe, nas fronteiras. Por lá entram as armas e o pó. Não adianta subir e descer de morros. Temos de fechar fronteiras. A luta contra o crime não é mais uma luta policial; não é mais a Lei contra o Pecado. Não. O crime cresceu tanto que se tornou um problema de Estado-Maior. Sim. Trata-se de uma luta política e, mais que isso, uma luta policial militar. Acho que tem de haver sim uma séria articulação das Forças Armadas com as polícias. Tem de haver generais estudando estratégias e logísticas de cercos e ataques. Meses de estudo, planos secretos, dinheiro, muito dinheiro e milhares de homens com armas modernas. E tudo isso coordenado com campanhas de esclarecimento e de proteção às comunidades que eles "protegem". "Ahh... - alguns vão gritar - o Exército não foi treinado para isso!" Pois, que seja treinado. Trata-se de uma guerra. Ou não? Não combateram a guerrilha urbana, com implacável ferocidade e competência? Aposto que outros dirão: "O Exército não é para crimes comuns; é para guerras maiores..." Para quê? A invasão da Argentina? A guerra que se anuncia é subversiva no pior sentido. Não aspira a uma ordem nova. Só quer uma vingança obtusa e a manutenção da miséria como refúgio. No fundo, muitos não admitem a ação das Forças Armadas, porque desejam ocultar a derrota de um sistema legal e policial. A guerra é reconhecimento do fracasso da política. Pois que seja. Nosso fracasso tem de ser assumido. Do contrário, continuaremos atrás das grades de nossos condomínios, dizendo: "Que horror!" para sempre. Crime hediondo é que isto não seja uma prioridade nacional. A tragédia das periferias brasileiras me lembra um terremoto ignorado, para o qual ninguém enviou patrulhas de salvamento. Já houve a catástrofe e todos nós tentamos esquecê-la, trêmulos de medo, blindados, com os "socialites" cheirando o pó malhado de otários, perpetuando esse poder paralelo, que tende a crescer.
104. ARNALDO JABOR. NAS PERIFERIAS, A 'PÓS-MISÉRIA' CRIA OUTRO PAÍS. Você já foi à periferia? Já pisou na lama - não nas poças-d'água dos Jardins - mas nas avenidas de lama, casas de lama, já visitou um buraco quente de noite, quando as luzes mortiças não iluminam teus passos trêmulos, em ruas onde não há um resquício de beleza ou esperança? Não falo tanto das favelas cariocas, barra-pesada, sem dúvida; mas, no Rio, ainda temos a música, uma cultura popular, uma ginga, uma tradição de malandragem, há a paisagem que te coopta, há o crack, o terror, tudo, mas há o mar ao longe, há um certo orgulho de se ver temido nos sinais de trânsito, há um certo charme na desgraça. Falo mais da periferia de São Paulo, onde nada mitiga o horror da mesma paisagem se estendendo por vilas e bairros, a mesma cor, a mesma casa, a mesma merda, os mesmos tijolos sem caliça, o mesmo infinito labirinto sem cultura ou amor. Há quatro filmes importantes saindo agora, sobre a mesma tragédia social das periferias: O Invasor, de Beto Brant, Estação Carandiru, de Hector Babenco, Cidade de Deus, de Fernando Meireles e Katia Lund, e O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca. Os quatro filmes mostram esse novo mundo que cresce como um câncer à nossa volta e do qual só queremos distância e segurança. Mas os cineastas estão esfregando em nossa cara estas 'cisjordânias do lixo', estas faixas de Gaza mortas, estes 'talibans' que surgem de suas frestas. No filme O Invasor já dá para sentir seu impacto raiando como um sol negro sobre nós. O Invasor é excepcional pela maneira de ver esse mundo 'sujo' que subitamente invade a tranqüila sordidez de uns burgueses criminosos. Neste filme não se retratam mais os pobres como uma espécie de 'decadência' dos ricos, como se os excluídos fossem seres 'aquém' de nosso conforto. Não há mais a idéia de 'proletários' ou de 'infelizes' ou de 'explorados'. Eles nos mostram o Insolúvel, perplexos com o mistério da miséria. Eles não sabem o que fazer com isso, eles não se comprazem mais na denúncia de uma injustiça. Eles estão diante de uma espécie de Pós-Miséria. Isso. A 'pós-miséria' está gerando uma nova cultura, se é que esta palavra se aplica à vida esmagada tentando existir. Na minha geração, a miséria era um contradição do capitalismo, a ser minorada pela justiça social. Românticos, nós sofríamos com a miséria... dos outros, claro. Nós viríamos com a 'revolução' (ahh bons tempos...). Mas, a miséria era 'lá', nos morros, na seca, longe e gerava o crime como um desvio do comportamento 'normal'. O crime casual legitimava nosso mundinho 'bom'. Hoje, o crime nos envolve, nos incrimina. Não há mais inocentes. Hoje, nós é que ficamos caretas diante deste mundo periférico que não se explica, gerando outra ética, funérea, sangrenta, muito diferente da nossa 'bondade' de privilegiados. A miséria era nosso problema existencial. Hoje, a miséria é uma outra nação, no centro do Insolúvel, intocada pela salvação e pela esperança política. Voe de helicóptero durante meia hora sobre um mundo de lama e atraso e me diga como resolver esse problema, como acabar com isso? Como? Como, PT? Como, tucanos? 'Isso' ficou tanto tempo ignorado, que já virou 'aquilo'. Isso não está mais no campo de nossos poderes. E não falo da violência. Falo da 'normalidade' , de uma cultura bruta e nova. Antigamente, pobres e assassinos pareciam não ter vida interior. A TV, a comunicação democratizante do consumo, fez surgir uma massa miserável, mas desejante. Pulsa nos bailes funk uma brutal corrente de desejo, a violência como fome de expressão. Não é mais inferioridade; é diferença. Na época do Cinema Novo, a causa era a 'estrutura social'; depois, na contracultura dos anos 70, havia uma atração fatal pelos marginais-heróis e, hoje, temos o mistério da 'anomia', do nada. Deus morre ali, Marx morre; eles é que estão elaborando a própria 'teoria'. No filme de Beto Brant, há uma cena antológica, quando o 'rapper' negro Sabotage - que existe de verdade - faz o papel dele mesmo e canta um 'rap' num escritório de burgueses perplexos. Ali, o documento invade a ficção. É um ET contra os 'brancos' e, se há desamparo ali, é dos branquelos. Antes havia uma 'esperança' teórica; hoje há o absoluto impasse. Há 40 anos talvez houvesse uma solução higiênica, assistencialista. Hoje não adianta mais o papo de luta de classes, de conscientização, cidadania... Eles se conscientizaram sozinhos, em outra direção. Tarde demais, políticos egoístas, trata-se de um muro de chumbo, com raízes fundas. Quem resolve? Com que verbas, com que direito, com que poderes? E quem disse que eles ainda querem que nós os 'salvemos'? Já virou 'science fiction' de miséria, já é um Blade Runner de lama. Eles ainda têm muito a tirar de nosso mundo: granas, assaltos, vinganças. Nós somos a riqueza deles, sua mina. E nós, o que temos a tirar deles? O trabalho mal pago de empregadas e biscateiros? Bem... não vale mais a pena. Nosso prejuízo é maior; o trade off nos é desfavorável. Restam-nos coisinhas existenciais; eles nos ensinam a convivência com a tragédia do mundo, com opacidade da vida, um existencialismo emergencial, sangrento. Assusta-me o ódio difuso que eles nos dedicam; vocês já repararam que não há um só muro, uma reles parede em São Paulo e no Rio sem um grafite imundo e ilegível? Assusta-me a perda de energia de milhares de jovens na madrugada, dedicados a se vingar da cidade, emporcalhando-a. As pichações são a literatura da periferia que nos denuncia. Para entender o Brasil de hoje, para qualquer ação de governo, o fundamental é entender as periferias. É nosso problema mais profundo e urgente. Que vamos fazer, burgueses escravistas de 500 anos? Estes novos filmes são importantíssimos. Não para nos fornecer certezas nem consolos de boa consciência. Mas para nos mostrar que nós somos os 'excluídos' deles. Eles não são nosso problema; nós é que somos o problema deles.
105. ARNALDO JABOR. ÔNIBUS 174 É UM FILME GENIAL SOBRE NOSSO DESTINO. O Lula tem de ver este filme: Ônibus 174, um documentário de José Padilha, montado com os fragmentos assustadores da TV, no dia em que o Ônibus 174 foi seqüestrado no Rio por um rapaz muito doido, sobrevivente da chacina da Candelária. É o filme mais importante dos últimos tempos! Mais que um filme: é uma aula de Brasil para todos os que querem mudança. O pobre-diabo não ia matar ninguém mas, triturado nos dentes da miséria carioca, entre prisões e cola cheirada, entre crack e porrada e sangue e bosta, viajou até o clímax do seqüestro, fechando um roteiro de filme trágico, com princípio e fim. Ele gritava o tempo todo na janela do ônibus, (lembram-se?): "Isto não é filme não! É pra valer!!!" Era. Um filme sobre ele mesmo em que ele atuou, visto por 60 milhões de brasileiros. Todos, jovens, velhos, donas de casa, chefes de família, todo mundo tem de ver esse filme. Já. Lá está escrito o nosso destino. Todos têm de vê-lo para entender por que somos inocentes e culpados. Trata-se do retrato do Brasil de hoje, com todas as conexões do horror que se montou nas periferias do Rio e São Paulo: a falta de preparo da polícia, a miséria dos equipamentos, a estupidez política que impede a eficiência pública, a massa imunda de egoísmo, desatenção, escravismo e capitalismo selvagem que criaram a insolúvel encruzilhada em que nos encontramos. Como deixamos isso acontecer? Qualquer governo estadual ou federal tem de criar um programa para acabar com isso. E não tem mais papo de "prioridades orçamentárias"... A ópera sangrenta de miséria e crime tem de ser prioridade nacional. Os filmes como o extraordinário Notícias de uma Guerra Particular, Cidade de Deus ou Carandiru (que vem aí) mostram que a realidade no Brasil é muito mais incrível que qualquer ficção. Não vou fazer literatura aqui não. Dane-se este artigo, este meu texto inútil, mas esse bode das periferias é mais urgente que a dívida externa, que o superávit primário, é mais urgente que petróleo, produto interno. Tem de haver um urgente pacto social, seminários de especialistas para se encontrar uma solução, com muita verba. É vergonha demais que não haja um Congresso sério liderado por gente como Yvonne Bezerra e cientistas políticos para tirar as crianças da morte em vida na rua, impedir que uma mãe grávida de gêmeos seja degolada na frente do menino, como foi a mãe de Sandro, o seqüestrador do Ônibus 174. Tentem qualquer coisa, qualquer plano serve, mesmo que errado. Alguma coisa tem de ser tentada. É sujo demais o que acontece debaixo de nossos olhos fechados de medo. O governo federal tem de imediatamente alocar verbas para isso. Arrocho fiscal? Dane-se. Tem de arranjar grana, não pode continuar o horror de nossas prisões, masmorras pré-medievais, como mostra uma das mais espantosas cenas do nosso cinema, quando os presos gritam que morrer seria melhor que ficar naqueles calabouços. Nossa infância pobre não pode continuar sendo tratada como um caso de polícia ou como um "desvio da norma", como fala a linguagem jurídica pomposa, como se eles fossem cidadãos que "escolheram" o "pecado", o "crime". Não. Eles não são cidadãos, pois só são tratados assim na hora do julgamento; são pobres animais feridos e loucos, são aberrações que nós criamos, são nossos filhos com o demônio, nossos dejetos que criamos por 400 anos. É cruel demais que não haja nem que seja uma solução assistencialista, qualquer coisa para proteger essas crianças de rua. Esse filme mostra um terremoto ignorado para o qual não mandamos patrulhas de salvamento. Eu escrevi no dia do seqüestro: "A verdade é que estamos impotentes diante dos fatos, não só no crime como na política, pois as coisas passaram a mandar nos homens e os governos ficaram ficcionais. O seqüestro-pastelão foi um exemplo claro dessa impotência. Os fatos estão muito além das interpretações. Só dispomos de adjetivos e a realidade se move com duros substantivos." Só temos protestos éticos, expressões de horror e nojo diante de um labirinto de coisas concretas que, como uma favela de substantivos, se estende insoluvelmente pelo País. Esta tal "violência" não tem solução. Só seria resolvida por uma conjugação de mudanças sociais, políticas, que nenhum governo tem condições de efetuar. Esse pobre-diabo quis nos chocar com sua miséria insuportável, sua bravata pobre, com a ilógica de seu comportamento. Ele quis nos ensinar alguma coisa, mostrar que era um estorvo sim, um trambolho, um "bode preto" em nosso sossego. Tão ridículo era aquele menino seqüestrando um ônibus sem motivo que todos ansiávamos por vê-lo morto, como uma barata, um rato que estragava a linda tarde carioca, para que acabassem logo com aquela chateação, aquela zoada, e restaurassem o nosso sentimento de "normalidade". Assistimos a um show de peripécias sangrentas: marginal muito louco contra policiais babacas sem equipamento, sem comando, sem treinamento. Tudo formal, tudo adjetivo, tudo de mentira - polícia de mentira, criminoso de mentira e mulher morta de verdade. Só isto aconteceu: um nada com final sangrento. Esta é nossa angústia; mais que medo, estamos com vergonha do absurdo de nossa mentirosa e fracassada organização social. Em tudo fica provado que o principal defeito brasileiro é a ineficiência, é deixar as coisas pela metade, errar o alvo constantemente. Nunca nos importamos com as favelas. Agora, com o medo, pouco a pouco ao menos, está crescendo a consciência de nossa miséria insuportável. Ônibus 174, além de ser um dos melhores filmes de nosso cinema, é um crescimento para nossa consciência política. Vejam esse filme, vejam esse filme, chorem com ele! Falem para todos que não dá mais pé vermos o show da miséria que começa com menininhos fazendo malabarismos nos sinais de trânsito e termina tratando-os como ratos mortos à nossa frente.
106. ARNALDO JABOR. OS TERRORISTAS QUEREM MATAR O AMOR E A ALEGRIA. A discoteca explodiu em sangue em Bali e eu pensei, com ódio, por um segundo: "Por que não jogamos logo uma bomba atômica em Meca e torramos aqueles milhões de árabes sujos?" É assim que começa a avalanche do irracionalismo. O 11 de setembro foi um ataque ao mercado e ao trabalho; Bali foi um ataque ao prazer, foi um ataque a tudo que amamos: a alegria, o sexo, a música, a liberdade, a beleza. Para eles, nós somos uns cães infiéis a destruir. E não tem negócio, não tem papo-vaselina nem diplomacia, estamos condenados. Isso muda nossa vida, cultura, política, porque agora o mundo não se vê diante de um problema; o mundo se vê diante do Insolúvel. Um problema pressupõe solução; mas, não há mais solução. O problema somos nós, os demônios que impedem o Califado eterno de Alá. E não só o terrorismo que não tem solução. A migração de excluídos na Europa não tem solução, não há solução para o Iraque, para o duelo Sharon-Arafat, não há solução para Índia-Paquistão nem para a África nem para o tráfico, não há solução nem no Rio nem na Colômbia, não há solução para a miséria, para a imbecilização pela cultura de mercado para as massas. A própria idéia de "solução" é Ocidental, do século 18. Para o Islã, não há nem problema - tudo estava escrito. Os americanos, que vivem em função de "resolver" as coisas, estão desesperados, pois terão de viver sem solução - é o inferno dos obsessivos... E daí? Bem, amigos leitores, vamos encarar: o mundo sempre foi uma bosta. Só que, agora, parece que todos os tumores estão vindo a furo, todos os conflitos estão explodindo. E tudo, de repente, como um ataque epilético. De uma forma repugnante, a verdade atual apareceu, pois nem lembrávamos da existência do Islã. O terror insolúvel talvez nos torne mais humildes diante da vida. Teremos de ficar mais "orientais", mais "fatalistas", mais conformados com o erro do mundo. Acaba a idéia de que, um dia, chegaremos "lá". Lá, aonde? A uma sociedade boa, justa, pacífica? "Nonada", jamais. Acabou a idéia de uma grande "pátria" ocidental-americana, organizando a sociedade como um parque temático, um supermercado ou uma disneylândia. A globalização só conseguiu "globalizar" o terrorismo, emprestando tecnologia à miséria. Mandamos os McDonald's; eles nos mandam homens-bomba. O terror trouxe de volta uma neoguerra fria: o medo, a face da morte que andava escondida, sublimada nos filmes, na gargalhada infinita do "entertainment". O terror acabou com nossa idéia de "finalidade", de "projeto". Nosso projeto foi reduzido a controlar os fanáticos da Al-Qaeda, os bodes pretos da miséria e da superstição. Nosso projeto é localizar bueiros com bombas e cartas venenosas. Esvaziou-se nosso desejo de tudo controlar, a busca do destino sem acontecimentos, sem sustos, sem morte súbita. Acabou o happy end, a lógica, o princípio, o meio e o fim. A cultura de massas tenta controlar a morte por sua transformação em espetáculo. A ficção dos filmes catástrofe sublimava nosso medo. Agora, a morte não mais estará num leito burguês com extrema-unção e família chorando, a morte será um cachorro pelas ruas, atacando de repente. Como o filme realista que Osama fez. Vai acabar aos poucos o sentimento ocidental de superioridade, acaba a fleugma, a displicência "debonnaire", acaba a "coolness", pois o homem-bomba desbancou o homem-cool; surgiu o horrendo "outro", sujo e mortífero, suicidando-se às gargalhadas. O terror está nos fazendo viajar no tempo. Em 30 minutos, fomos jogados de volta à Idade Média, terminando com o ritmo veloz do progresso e instalando a paciência oriental, a lentidão da vingança fria. Acabou o drama, esse "banho-maria" da infelicidade. Agora, ou teremos tragédia ou chanchada. A arte ficou inútil, quase ridícula diante das "instalações" terroristas, os defensores dos direitos humanos ficaram de mãos abanando, acaba a melancolia diante da realidade bruta, o surrealismo virou piada diante das ondas de antrax, o mito do indivíduo livre e indivisível dará lugar ao indivíduo esfacelado por bomba, coberto de pizzas sangrentas, os mortos caídos sob a música "tecno" em Bali, no mais belo lugar do mundo, assassinados por um DJ suicida. Acabaram os frutos produtivos da reforma protestante do século 16. Osama nos joga de volta ao ano 700, quando surge o guerreiro Maomé para iniciar uma guerra desigual que rola há 2 de mil anos, sem quer percebêssemos - uma guerra desigual: o Deus ocidental passivo diante do violento Maomé, armado até os dentes. Os fanáticos do Islã não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o Demônio - que somos nós. A guerra é assimétrica não só pelos absurdos exércitos caríssimos contra um só homem invisível, mas também porque só a América tem uma ideologia. Eles têm a teologia. Tanto o socialismo como o capitalismo surgiram do racionalismo ocidental. O Islã chega e acaba com a filosofia; fica só vida contra morte. O Islã transcendeu o político há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria felizes, conformados, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano que os libertou da dúvida e do medo. Sua obediência ao Corão lhes ensina tudo, desde como cortar as unhas até como matar "cães infiéis". Os miseráveis amam a própria miséria. Sua fé sem limites é a grande alegria e sossego das classes dominantes teocráticas e petrolíferas. Albert Camus disse: "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo" e não sabia que estava sendo profético. Descreveu também o mito de Sísifo, o homem condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra morro acima. É o nosso novo destino. O único jeito é sermos felizes assim mesmo. Como ele escreveu: "É preciso imaginar Sísifo feliz..." Nossa felicidade terá a morte sempre do lado. "Il faut imaginer Sysiphe heureux..."
107. ARNALDO JABOR. OS HOMENS DESEJAM AS MULHERES QUE NÃO EXISTEM. Está na moda - muitas mulheres ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler. Silicone, pêlos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depressão, me sinto mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer. A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há muito mais mulher que homens na praça (e-mails indignados virão...) Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulher nua e só vejo paisagens; não vejo pessoas com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, ânus. O que falta? Órgãos internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carícias, de romance!..." Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem. Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com chateações os homens que as consomem. A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens? Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. Vocês já viram essa moça? É a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isso?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia..." Queremos percorrer as mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas? Com quem? Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos provocando desejo para me vender satisfação. É pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar seus reais desejos, não estariam nas revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia - foi uma decepção quando a Tiazinha se revelou ótima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo numa faxina compulsiva. Infelizmente, é impossível tê-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real. Por isso, com a crise econômica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma ilusão. Vi um anúncio de boneca inflável que sintetizava o desejo impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... O anúncio tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou realidade. A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". É isso aí. E ao fechar este texto, me assalta a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século 21? Será que fui apenas barrado do baile?
108. ARNALDO JABOR. ESTÁ ROLANDO O CORO DESAFINADO DOS CANDIDATOS. Lula curvou a cabeça sobre o prato e orou: "Que Jesus nos dê sempre o pão..." - sob o olhar paternal do bispo Rodrigues, do PL e da Igreja Universal. Enquanto rezava, Lula pensava: "É dura a vida de um revolucionário. Terei de me aliar a estes exploradores da fé para ser eleito. Oh... que contradição... deve ser a tal 'contradição secundária' de que falava Mao e que o Genoíno cita tanto. Tudo bem. Eu me uno ao PL e, depois, no poder, eles que se danem..." Enquanto ele orava, o bispo Rodrigues do PL pensava: "Esse comuna acha que nos enrola. Ele está fazendo essa cara de bonzinho, mas nos acha um 'mal necessário'. Mas, no poder, ele vai ter de nos dar, no mínimo, o Ministério das Comunicações, algo assim, para a gente ferrar o Roberto Marinho e ampliar a Igreja Universal. Lula nem pense que somos uns babacas religiosos. Somos empresários ateus que resolvemos industrializar Deus. Nada mais lucrativo do que a miséria e a ignorância, inventamos o imenso mercado da miséria e dos 10 por cento. Se ele bobear, a gente chama ele de 'Satanás' de novo. E Lula falava com seus botões: "Quando eu surgi na política, eu não queria saber desses intelectuais babacas, dessas professoras da USP que queriam dar para mim, porque eu era um símbolo sexual operário. Eu era a renovação ideológica, a crítica da crítica velha. Hoje, esses ideólogos que me paparicam me achavam 'primitivo', 'um simplista que precisava ser educado pelos marxistas'. Mas agora, chega. Não vou perder pela quarta vez. Preciso desses bispos da Igreja Universal e dane-se que o PL apoie no Acre a turminha do esquartejador Hildebrando e em Alagoas, a gang do Collor..." E o d. Marcelo da CNBB soube e reagiu: "Virgem Maria!... O Lula nos enrascou. Como vou fazer propaganda do PT com ele agarrado nos bispos Macedo e Rodrigues? O Lula está criando uma situação cheia de complexidades, como se fosse um tucano... Para nós, da igreja política, os simplismos do PT caíam-nos como uma luva: 'a justiça é injusta'; 'o pobre é pobre...' A sagrada ignorância política da Igreja não pode se ater a meros detalhes como 'realpolitik', 'condições objetivas', etc... Somos o bem contra o mal, Deus contra o Diabo na terra dos desinformados. Lula está com Jesus do Macedo ou o nosso?" E o filósofo do PT meditou: "Ohhh... o Lula quer estragar meu sonho... passei os últimos 30 anos de minha vida estudando Marx, Lenin e Gramsci; há décadas eu cultivo a beleza das impossibilidades, vivo com o doce 'frisson' da 'boa consciência'. Eu que sempre amei a utopia impossível como um Espírito Santo das esquerdas. Eu, aqui no meu cardigã de cashmere, sonhando com um mundo irreal, uma república imaginária, onde o Zé Dirceu distribuiria bens a todos 'segundo suas necessidades e capacidades', e vem o Lula sujar minha lucidez dialética? Que vou dizer na pizzaria utópica?" E os sectários do PT choraram: "Meu Deus... eu sou do PT e sempre me agarrei na 'pureza' para justificar meus fracassos. E eu sempre pude erguer a fronte suada de dignidade e bradar nos bares e churrascarias: 'Eu sou puro! Eu sou ético!' Sou a favor do Povo, mesmo que eu nunca tenha feito nada para o 'povo', esta entidade mística que adoramos... Agora, estou sem rumo... Eu que sempre quis perder eleições pois só o fracasso enobrece, o doce fracassso, a surra, a sova, a santificação da derrota, o manto sagrado do naufrágio. Eu, que sempre vivi de meu radicalismo, agora sou obrigado a me defrontar com essas manobras do Lula..." E o Garotinho esperneou - "E eu? Eu... que teci uma ideologia populista de direita disfarçada de centro-esquerda, eu que finjo há anos que acredito em Deus e que sou 'evangélico' para captar os votos desses idiotas, eu que consegui enganar os cariocas, que se pensam malandros mas que são otários deslavados, eu que refundei um neo-chaguismo, eu que nunca parei para administrar nada e que só penso na Presidência como um 'Oscar' para minha mediocridade, eu que transformei minha Rosinha na Evita Peron dos descamisados de Campos, e vem agora esse sapo barbudo querer comer na minha horta, rebolando para meus evangélicos? Vingança!" E o cientista político amargurado pensou: "Santo Weber!... As gafes que o Lula tem aprontado são o retrato da atual mixórdia ideológica do PT. As gafes são exemplares: elogiou o boçal do Hugo Chávez que tem algo de Guevara misturado a leão-de-chácara de bordel. No imaginário de Lula, ele é um 'macho bolivariano'. Depois, Lula baba diante de Fidel e elogia os agricultores franceses que nos destroem, só porque eles têm uma aura nacionalista. O rocambole ideológico do Lula vai de um vago terceiro mundismo da guerra fria variando para um arremedo grosso de 'realpolitik' tucana, com as barretadas ao PL, ao Quércia, a tudo. A visão aliancista do PT é apenas um 'noivado com traição'. Eles nunca entenderão que a aliança é necessária não só para ganhar, mas para dar conta da complexidade dos desejos do País. Nunca entenderão que o Brasil é uma frágil máquina formada em séculos oligárquicos e que não pode ser desativada apenas com um elã de ruptura, um machismo 'revolucionário' porque, aí, a máquina se quebra e nada mais funcionará. Se isso acontecer, seremos a Argentina de amanhã." Roseana - "Sinto-me fraca... por quê? Sou legal, estudei História, mas sinto atrás de mim uma corte de oligarcas, uma multidão de interesses nordestinos se acotovelando, com a fome de mil sudenes, mil sudams; sinto-me uma Joana d'Arc na frente de um exército que quer se vingar de São Paulo." Serra - "Meu Deus... Passei 14 anos no exílio estudando; todo mundo diz que eu sou o melhor candidato, preparado para o governo e me boicotam. Acabo tendo de ir ao programa do Ratinho..." Ciro - "Sou bonito, fui bom governador e agora estou ao lado de Roberto Jefferson e no colo do Brizola... Devia ter ficado no PSDB..." Itamar - "Arrrghhhhh....babb buub....buá..."
109. ARNALDO JABOR. BRASIL SEMPRE TEVE A CULTURA DO DESRESPEITO. Agora, todo mundo entende de violência. É o que vejo nos jornais, revistas e nos papos de bêbados em bares. Todo mundo que tem o privilégio de ter projetos de vida, de construir futuro e família, acha que é diplomado em violência. É o chamado 'bom senso de gravata'. Por outro lado, quem vive além da segura fronteira entre a morte e a vida (única fronteira) fica mais quieto, descrente. Daqui a pouco, como uma explosão se perdendo no horizonte, o clamor público deve amainar. O Brasil é assim - maníaco e depressivo; depois da grita, vem o lamento, depois o esquecimento. Vamos ver se agora muda. Ninguém consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa pública estão engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência 'pós-moderna' dos traficantes e seqüestradores, diretamente ligados ao ato, ao fato, à instantaneidade do mal, favorecida pela ausência de freios éticos ou piedosos. A mesma instantaneidade narcísica do consumismo moderno atingiu os criminosos. 'Fast food, fast buy, fast fuck, fast love, (e, agora) fast crime'. Eles têm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, cultura, ciência, democracia e, aí, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o 'shopping center'. Quanto mais complicada a democracia e suas redes de proteção, mais protegido estará o criminoso. Quanto mais estrangeiro a nossos pudores, mais rápido o bandido - bastam a 'mão grande', a raiva acumulada, a ausência de esperança, de virtudes. E continuamos a achar que há uma 'solução' que não é aplicada por falta de vontade, apenas. Continuamos a sonhar com um futuro de harmonia - um dia, conquistaremos uma harmonia funcional liberal: pobres em seus barraquinhos, riquinhos em seus barquinhos, virtudes de um lado e vícios do outro, 'playboys' nos Jardins e 'manos' na periferia, talvez ajardinada para ficar mais legalzinha, mais palatável, com casinhas pintadas. Basta dar uma voadinha de helicóptero pela periferia de São Paulo ou pelo Complexo do Alemão, no Rio, e ver que não há 'solução'. O labirinto de impossibilidades se soma ao labirinto de incapacidades, à falta de dinheiro, ao inferno dos interesses e tudo se paralisa, se aniquila diante da singeleza minimalista do crime, que sempre encontra uma brecha para entrar. A verdade é que o Brasil sempre teve a 'cultura do desrespeito' à Lei. Nossa sociedade foi montada na transgressão à ordem, no horror à coisa pública, horror aos direitos da maioria; somos uma sociedade de contraventores, de maus pagadores, de sonegadores de impostos, de pequenos psicopatas 'light' do dia-a-dia, uma sociedade de malandros cariocas ou bigodudos paulistas espertos. Nossa violência é difusa, herdeira do escravismo, está nos quartos de empregada, no trato com os pobres, no egoísmo endêmico dos burgueses. Nossa violência simbólica também é visível em toda parte; basta ligar a TV com controle remoto: clic, pastor evangélico sórdido engana desesperados, clic, jovem anda de quatro com biquíni fio dental, clic, feiticeiras rebolam as bundas, clic, ratinhos humilham aleijados, clic, mau gosto geral, grossura geral, clic, tudo cercado pelas maravilhosas mercadorias nos comerciais. Este é o caldo de cultura onde nasce a prática do desejo criminoso. Horror à lei A verdade é que nunca tivemos amor à nossa polícia. Nunca amamos nossos policiais como os ingleses que se orgulham dos 'bobbies' e da Scotland Yard, como os americanos que louvam os heróis policiais em seus filmes. A polícia sempre foi tratada aos pontapés em nossa cultura. Houve mesmo um tempo em que os marginais e criminosos eram vistos pela 'cultura crítica' como primos da 'revolução', como heróis coadjuvantes de Guevara ou então como galãs de um 'desbunde politizado', na base do 'seja marginal, seja herói'. Eram primitivos contestadores do 'sistema'. Vingadores da miséria. O 'mal' lutava pelo 'bem'. Enquanto isso, os policiais eram os 'agentes do mal', agentes das elites, da propriedade privada. Assim, eram vistos pelos intelectuais: como fascistas e vendidos. E, pelos burgueses eram considerados incompetentes e inúteis cães de guarda, que não cumpriam seus deveres do extermínio de sangue. Até hoje vemos esta divisão: os exigentes brutais e os delicados. Os 'malufinhos' e 'afanásios' que berram: "ROTA na rua!" E os que falam em 'causas sociais'. Claro que ganhando merrecas entre nuvens de pó e sangue, partiram para a simbiose com bandidos... Agora, surge uma nova sociedade feita de fome e 'funk', de rancor e desejo de consumo. E são estranhos frutos do desenvolvimento e da democracia. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, como um monstro Alien que se esconde nas brechas da tecnologia e da prosperidade. Não podem mais ser chamados de 'marginais', pois se constituem com contratos sociais, siglas e bandeiras. Surge um sujo país sangrento ao nosso lado, que pode levar à zonas dominadas, como na Colômbia. O paradoxo do progresso excludente gera essa violência, antes invisível. Há pouca inteligência objetiva na enxurrada de opiniões na imprensa. Uma exceção é o texto do coronel reformado da PM de São Paulo, hoje pesquisador do Instituto Fernand Braudel, José Vicente da Silva Filho: "Não podemos enfrentar o crime do século 21 com uma polícia do século 19. (...) Os governos consideram o policial como um funcionário qualquer, esquecendo que nenhuma função pública reúne tantos fatores estressantes como o trabalho policial. Sem investir na capacitação, em condições de trabalho, em salários decentes, direitos especiais como aposentadoria diferenciada, não se pode ter combatentes aptos contra o crime" (Veja). Gente como ele, criada na linha de fogo, enxerga o óbvio: "É preciso se orgulhar da polícia, fortalecer a polícia." Esse cara devia ser chamado para consultas.
110. ARNALDO JABOR. FHC E BUSH FALAM E PENSAM DE OLHOS NOS OLHOS. Vou tirar os óculos para você ver melhor meus olhos - disse FHC para Bush. (Será que eu devia dizer isso? No Brasil, minhas piadas viram gafes... mas essa é boa pra relaxar e marcar posição...) - Ha... ha... ha... - gargalhou Bush... (Será que esse brasileiro veio aqui pra me gozar? Ontem eu disse que ia olhar nos olhos dele para intimidá-lo, mas ele é hábil...) Entre mim e o presidente... (Como se pronuncia o nome dele, my God?) entre mim e... aqui... o nosso amigo do Brasil... há um diálogo proveitoso...Teremos relações frutíferas!... (Esse brasileiro me encabulou... não consigo parar de olhar nos olhos dele... será que ele vai pensar que eu sou bicha?...) - Conheci seu pai, presidente Bush, e estou muito feliz de ver como o senhor é... (Olhos tristes, boquinha carente...) - (Pronto, já começou a falar do papai... Quando serei eu mesmo?) É uma honra dar as boas-vindas ao chefe de um país tão importante e que também é um bom homem - balbuciou Bush. - Obrigado... Mr. Bush. (Como sabe ele se eu sou um "bom homem"? Bem "texano", isso. "Bom homem" é o cacete!) O senhor também é um homem bom e eu acho que os EUA e o Brasil têm de estar próximos, e não apenas em termos de comércio (É a única porra que importa, cacete...) mas também pela segurança no hemisfério. - Isso mesmo, mr. Hendrik Cardoso: democracia na América do Sul. ( Eu devia era falar da Alca, mas o Colin Powell e a Condolezza mandaram eu ficar calado - por que botei esses crioulos na Casa Branca?) Mais importante que negócios é a defesa dos direitos humanos! (Ohh... bullshit!) - É... mas, para o senhor, primeiro vem o interesse americano, claro... Para mim, primeiro vem o interesse brasileiro... ( Ha ha... xeque-mate!) - Claro... mr. Cardoso, temos de unir nossos interesses... (Esse latino é bem folgado... Parece estar me fazendo um favor...) - As discordâncias são normais, mas saberemos resolvê-las... (Dá-lhe, Fernandinho... Ha ha... é a primeira vez que não estamos lhe lambendo o saco!... O Bush é que está pedindo nossa cooperação para a Alca sair!) - Claro, mr. Cardoso, com um mercado aberto e frutífero, o futuro do Brasil será glorioso! (Tenho que dobrar esse cara para a Alca...) - Claro, mr. Bush... Nossas relações serão sempre fruitful, frutíferas!... (Será que ele sacou a "indireta"? "Frutíferas" são nossas laranjas que vocês vetam, seus sacanas, com suas sobretaxas hipócritas... Eu não sou babaca não, estudei "O Capital" com o Gianotti em 58. Pensa o quê?) - Há um belo futuro em nossas relações, mr. Cardoso... (Ai, que saco! Bons tempos do big stick, do "belo sorriso na boca e um porrete na mão". Esses latinos têm mais é que abrir esse mercado e parar com esse papo de indústria, de informática... Exportem matéria-prima, porra... Ele não presta atenção no que eu falo... Esse sorriso tem uma ponta de mofa... Ele deve preferir o Clinton...) - Quando eu estive aqui, mr. Bush, nesta mesma cadeira, com mr. Clinton... - (Viu, eu não disse? Ninguém me ama...) Sim, eu me lembro... Vocês foram para Camp David... ( disseram-me que ele também fumou maconha, mas não tragou... São dois narcocriptocomunas!) - ... pois eu falei ao Bill (ai, que intimidade...) que as Américas teriam um futuro sólido e um projeto... - "Frutífero"!... (My God,... só me ocorre esta palavra...) O Brasil, mr. Cardoso, é um país muito bom e seguro para se investir dinheiro... (Ihhh, cacete!... Por que a Condolezza me fuzilou com os olhos? Ihh... acho que amanhã as ações brasileiras vão estourar na Bolsa mundial! O Cardoso está deliciado com este marketing gratuito que fiz!...) - É isso aí, Bush! O Brasil é ótimo pra investimentos... Nós pagamos mais de 15 por cento ao ano em renda fixa... quem dá isso? Ninguém. E com uma boa carteira de ações... (Ihhh! Cala-te, boca! O Celso Lafer já me olhou... Eu não posso fazer propaganda, não sou corretor, porra...) Nossa economia está consolidada... Com os EUA e o mundo teremos relações comerciais maduras e... - ..."Frutíferas", Mr. Cardoso. (Shit! De novo!... Vou mudar de assunto) Precisamos combater o narcotráfico, pois a Colômbia está perto do Brasil... - É... mas são mais de mil quilômetros de distância... mr. Bush... Se os narcotraficantes ousarem atravessar nossa fronteiras, terão o tratamento que merecem (Cruzes! Como estou corajoso! Mas, que Colômbia o cacete... eles querem é criar um bafafá armado, um incômodo estratégico na região... Querem gerar turbulência capaz de atrasar nossa integração política e o Mercosul...). - Isso, mr. Cardoso! As drogas são terríveis!... Temos de combater o Narcosul... isto é, o narcotráfico... (Ihhh, cacete, fiz um "ato falho". É Mercosul, sucker... Ainda bem que a Argentina come na nossa mão e vai trair... o Chile está no papo. Com a Colômbia, eu encurralo de tabela aquele escroto do Chavez e acabo com a mania de independência desta putada, que quer negociar com a UE.) - Nosso secretario para América Latina... o Otto Rich... está atento para o problema.... - Ahh... o Otto Rich... legal... (Eis a idéia que esse cara faz da gente, nomeando aquele verme de direita. E aí?... Esse cara não vai falar da Alca? É a única coisa que eles querem...) - Nosso encontro é muito importante... Somos dos amigos... mi mujer es mejicana... (Por que não posso falar da Alca, das patentes, da indústria farmacêutica que pagou minha eleição? O Colin Powell não quer... Diz que minha função hoje é só sorrir... OK, depois eu mando a tropa de choque dos negociadores de elite.) - Si... yo sé... usted habla espanol muy bien, mr. Bush... (Espero que os itamaratecas depois não abram as pernas para os negociadores deles...) - La lengua brasileña, el español... es muy linda... - Claro, mr. Bush... (Que besta!... Não digo nada... minha função é apenas sorrir). Tenho certeza, mr. Bush, que nossas relações serão muito amigas, duradouras e... - Frutíferas, mr. Cardoso... (oh... shit!) - Frutíferas, mr. Bush... (ha... ha...).
111. ARNALDO JABOR. VALE A PENA VER DE NOVO A ZONA GERAL DO PAÍS? Meninos, eu vi... Eu vi as empregadas gritando, a cozinheira chorando, o rádio dando a notícia: "Getúlio deu um tiro no peito!"; eu, pequeno, imaginava o peito sangrando - como é que um homem sai da Presidência para o nada? Meninos, eu ouvi, anos depois, no estribo de um bonde: "O Jânio renunciou!" Como? Tomou um porre e foi embora depois de proibir o biquíni, briga de galo e de dar uma medalha para o Che, eu vi a história andando em marcha à ré e eu entendi ali, com o Jânio saindo, que os bons tempos da utopia de JK tinham acabado, que alguma coisa suja e negra estava a caminho como um trem fantasma andando pra trás; depois, meninos, eu vi o fogo queimar a UNE, onde chegaria o "socialismo tropical", em abril de 64, quando fugi pela janela dos fundos, enquanto o general Mourão Filho tomava a cidade, dizendo: "Não sei nada. Sou apenas uma vaca fardada!" Eu vi, meninos, como num pesadelo, a população festejando a vitória do fascismo, com velas na janela e rosários na mão ; vi a capa do O Cruzeiro com o novo presidente da República de boné verde, baixinho, feio, quem era? Era o Castelo Branco e senti que surgia ali um outro Brasil desconhecido e, aí, eu vi as pedras, os anúncios, os ônibus, os postes, o meio-fio, os pneus dos carros, como um filme de horror; eu, que vivera até então de palavras utópicas, estava sendo humilhado pela invasão do terrível mundo das coisas reais. Depois, vi a tristeza dos dias militares, Brasil ame-o ou deixe-o, a Transamazônica arrombando a floresta, vi o rosto patético de Costa e Silva, a gargalhada da primeira perua Yolanda, mandando o marido fechar o Congresso, vi e ouvi Jorge Curi na TV, numa noite imunda e ventosa de dezembro lendo o AI-5, o fim de todas as liberdades, a morte espreitando nas esquinas, a gente enlouquecendo e fugindo pela rua em câmera lenta, criminosos na própria terra; depois, vi o rosto terrível do Medici, frio como um vampiro, com sua mulher do lado, muito magra, infeliz, vi tudo misturado com a Copa do mundo de 70, Pelé, Tostão, Rivelino e porrada, tortura, sangue dos amigos guerrilheiros heróicos e loucos, eu sentindo por eles respeito e desprezo, pela coragem e pela burrice de querer vencer o Exército com estilingues; não vi, mas muitos viram meu amigo Stuart Angel morrendo com a boca no cano de descarga de um jipe, dentro de um quartel, na frente dos pelotões, enquanto, em São Paulo, Herzog era pendurado numa corda e os publicitários enchiam o rabo de dinheiro com as migalhas do "milagre" brasileiro, enquanto as cachoeiras de Sete Quedas desapareciam de repente; depois eu vi os órgãos genitais do general Figueiredo, sobressaindo em sua sunguinha preta, ele fazendo ginástica, nu, para a nação contemplar, era nauseante ver o presidente pulando a cavalo, truculento, devolvendo o País falido aos paisanos, para nós pagarmos a conta da dívida externa, vi as grandes marchas pelas "diretas" e vi, estarrecido, um micróbio chegando para mudar nossa história, um micróbio andando pela rua, de galochas e chapéu, entrando na barriga do Tancredo na hora da posse e matando o homem, diante de nosso desespero, e eu vi então a democracia restaurada pelo bigodão de Sarney, o homem da ditadura, de jaquetão, posando de oligarca esclarecido; vi o fracasso do Plano Cruzado, depois eu vi a volta de todos os vícios nacionais, o clientelismo, a corrupção, a impossibilidade de governar o País, a inflação chegando a 80 por cento num único mês, meninos, eu vi as maquininhas do supermercado fazendo tlec tlec tlec como matracas fúnebres de nossa tragédia, eu vi tanta coisa, meninos, eu vi a inflação comer salários dos mais pobres a 2% ao dia, eu vi o massacre de miseráveis pela fome, ou melhor, eu não vi os milhões de mortos pela correção monetária, não vi porque eles morriam silenciosamente, longe da burguesia e da mídia, mas vi os bancos ganhando bilhões no over e no spread, dólares no colchão, a sensação de perda diária de valor da vida, eu vi a decepção com a democracia, pois tudo tinha piorado, eu vi de repente o Collor vindo de longe, fazendo um cooper em direção a nosso destino, bonito, jovem, fascinando os otários da nação, que entraram numa onda política "aveadada", dizendo: "Ele é macho, bonito e vai nos salvar...", eu vi o Collor tascar a grana do País todo e depois a nação passar dois anos "de quatro", olhando pelo buraco da fechadura da Casa da Dinda, para saber o que nos esperava, eu vi Rosane Collor chorando porque o presidente tirara a aliança, eu vi a barriga de Joãozino Malta, irmão da primeira dama, dando tiros nas pessoas, eu vi a piscina azul no meio da caatinga, eu vi depois a sinistra careca de PC juntando o bilhão do butim, eu vi Zélia dançando o bolero com Cabral em cima de nossa cara, eu vi a guerra dos irmãos Collor, Fernando contra Pedro e, depois, como numa saga grega, eu vi o câncer corroendo-lhe a cabeça, eu vi o impeachment, eu vi tanta coisa, meninos, e depois eu vi, por acaso, por mero acaso, por uma paixão de Itamar, eu vi o FHC chegar ao poder, com a única tentativa de racionalidade política de nossa história num antro de fisiológicos e ignorantes e, aí, eu vi a maior campanha de oposição de nossa época, implacável, sabotadora, eu vi a inveja repulsiva da Academia contra ele, eu vi a traição de seus aliados, todos unidos contra as reformas, uns agarrados na corrupção e outros na sobrevida de suas doenças ideológicas infantis. E agora eu vejo o estranho desejo de regresso ao mundo do atraso, do erro e das velhas utopias. Vejo a direita se organizando para cooptar a oposição, comendo-a , vejo um exército de oligarcas se preparando para a vingança, vejo ACM, Barbalhos e Sarneys prontos para tomar o Congresso de assalto, para impedir qualquer mudança e voltar aos bons tempos da zona geral. Meninos, vocês viram também, mas acho que esqueceram.
112. ARNALDO JABOR. CIDADE DE DEUS DESMASCARA NOSSA CRUELDADE. Não. Cidade de Deus não é um filme, apenas. É um fato importante, é um acontecimento crucial, um furo na consciência nacional. Fui ver o filme e saí modificado. Tenho a impressão de que esse filme não se diluirá como um espetáculo digerível. Nós não vemos esse filme; esse filme nos vê. Com essa epopéia da guerra dos miseráveis que nasceram no livro de Paulo Lins, sentimo-nos desamparados na platéia. Nossa vida de espectadores, com roupas e comidas, com namorada do lado, com pizza depois, ficou ridícula. Cidade de Deus faz balançar nossa sensação de "normalidade". Não dá mais para acreditarmos apenas que o crime tem de ser combatido para que a "ordem" seja mantida. Destrói-se nosso "ponto de vista" e viramos uma platéia de culpados. Esse filme agrega uma descoberta à opinião pública do País que nunca mais poderá ser ignorada. Enquanto a miséria era dócil, ninguém se preocupava com ela. Nossas empregadas surgiam de manhã, sumiam de noite, nossos faxineiros, copeiros e engraxates eram seres abstratos. Os pobres pareciam não ter vida interior. Podíamos romantizá-los, rir deles, paternalizá-los, tudo. Mas, a TV, a comunicação democratizante do consumo fez surgir uma massa miserável, mas desejante. Pulsa nos bailes funk uma brutal corrente de expressão, a violência como fome e linguagem. A indústria cultural estimulou o desejo e a cocaína e o tráfico de armas trouxeram os meios para sua possível realização. Depois que a cocaína despejou milhões de dólares sobre o mundo da miséria, o contentamento letárgico da exclusão virou fome de consumo, a aceitação da escravidão disfarçada de "emprego" virou uma invasão do país "branco". Não é mais inferioridade; é diferença. Agora, é pau a pau. Existimos nós e eles. Um outro mundo está aparecendo, não como decadência ou ameaça, mas como sinistra cultura, pavorosos valores, tudo sob o manto sombrio da morte. Estamos enfrentando agora a morte no olho. A tragédia das periferias brasileiras sempre foi um terremoto ignorado, para o qual ninguém enviou patrulhas de salvamento. Já houve um terremoto e todos nós tentamos esquecê-lo, subindo grades em nossas casas, com os socialites cheirando o pó malhado de otários e perpetuando essa miséria. Sempre tivemos uma consciência epidérmica dos problemas do crime. E só sabíamos dizer "que horror!", mas esse filme nos faz entrar dentro dos lamaçais, dentro das chacinas, dentro de tudo que sempre detestamos ver. Cidade de Deus não é o retrato condoído das favelas; não tem um só traço de sentimentalismo. Ele é também o nosso retrato, a 24 quadros por segundo, com nossos rostos aparecendo por trás dos meninos de 10 anos se matando com metralhadoras e fuzis. Ali estão visíveis todas as pistas de nosso caos, que levam à sordidez de nossas classes dominantes, às mentiras políticas, às falsas bondades, aos retóricos ideais nacionais. O filme prova nosso despreparo para resolver as tragédias sociais, mesmo que houvesse vontade política. O filme não conta o que aconteceu; o filme mostra o que está acontecendo agora, sem parar, enquanto o assistimos ou lemos estas linhas. O filme nos revela que houve uma "mutação social", ética, física. Ao sair do cinema, tive vontade de gritar nas ruas: "E aí? Ninguém vai fazer nada? Há milhares de crianças se matando e vamos continuar falando em criminalidade como um caso de polícia?" E logo depois penso: "Fazer o quê? Com que verbas, com que bilhões de dólares, com que vontade política, com que aparelhos do Estado, se o Estado está sendo tragado para dentro da miséria armada? Os fatos estão mais adiantados que a lei. Não adianta esta eterna guerra triste de policiais mal pagos e corrompidos (justamente) contra miseráveis lutando por existir. Aquelas crianças armadas estão acima do bem e do mal, sim. Precisamos de novos conceitos para entender este problema de Estado e da sociedade. Filme e fato são um retrato da sinuca de bico em que está o País todo. Em Cidade de Deus, o documento invade a ficção. Antes, havia uma "esperança" teórica; hoje há o absoluto impasse. Há 40 anos talvez houvesse uma solução higiênica, assistencialista. Hoje, não adianta mais o papo de luta de classes, de conscientização, cidadania. Eles já se "conscientizaram" sozinhos, em outra direção. Tarde demais, políticos egoístas; trata-se agora de um muro de chumbo, com raízes fundas. Quem vai resolver? Com que verbas, com que direito, com que poderes? E quem disse que eles ainda querem que nós os "salvemos"? O filme de Fernando Meirelles, co-dirigido por Katia Lund, é extraordinariamente bem produzido, bem dirigido, bem fotografado. Uma obra-prima; mas, não se trata de dizer na saída: "Gostei ou não gostei." Não se qualifica a descoberta de uma doença. Cidade de Deus fura as leis do espetáculo normal, trai a indústria cultural e joga em nossa cara não uma "mensagem", mas uma sentença. Estamos condenados a viver com essa tragédia, ela vai continuar crescendo como um tumor e não estamos preparados para curá-lo, porque fazemos parte dele, com a polícia vendida, a lei vendida, os negociantes envolvidos, aqui e nas fronteiras. Esse filme vai ser visto pelo País todo, num terror fascinado. Creio que vai provocar mudanças na conduta política, pois faz parte de um processo de conscientização que ninguém pode mais deter, dentro e fora do cinturão da miséria. Qualquer projeto nacional teria de passar prioritariamente pela salvação das periferias. Infelizmente, os "projetos nacionais" chegam sempre depois. Cidade de Deus já foi vendido para o mundo todo. Será um sucesso planetário e vai revelar para sempre nosso segredo: somos um dos países mais cruéis do mundo. Cidade de Deus mostra que o inferno é aqui, atrás de Ipanema ou dos Jardins. Esse filme nos desmascara para sempre.
113. ARNALDO JABOR. UM ESPERMATOZÓIDE QUE MUDOU A HISTÓRIA. A História tem, de vez em quando, uns ataques epilépticos - me disse outro dia o Cacá Diegues. Aquilo me tocou como uma faísca. Estamos em pleno ataque epiléptico, desde que Bill Clinton saiu do poder. Me dirão os cientistas políticos: isso é babaquice; não há conjunção astral na História. Mas, há. Eu estava nos Estados Unidos durante o governo de Clinton e eu vi, vi as coisas se armarem para culminar nesse caos que vemos agora. Tudo começou com um "blow job" de Monica Lewinsky no Bill Clinton. Um fato isolado, idiota, irrelevante, se for casado com o momento certo (ou errado), pode deflagrar uma mutação na política e na vida de todos. Como Pandora, a mulher mítica que abriu a caixa maldita de onde saíram os males do mundo, o amor "tiete" de Monica canalizou todos os ódios da direita fascista americana contra o primeiro presidente "cool" da História. Clinton sempre foi uma bofetada nos velhos puritanos da velha América seca e dura, aqueles rostos terríveis saídos do célebre quadro do Grant Wood, American Gothic. Clinton era tudo o que eles odiavam. Era bonito, sorria demais, tocava sax, gostava de mulheres, pecava, era um "baby boomer", foi contra o Vietnã e, com uma vitalidade tolerante e agradável, tinha uma visão ampla da responsabilidade da liderança da América com o mundo. Clinton era sexy. Eu vi uma entrevista coletiva em que mulheres perguntavam se ele usava cuequinha zazá ou "samba-canção". Ele disse que era zazá, para gáudio das jornalistas. Havia em torno dele uma euforia de astro, de ator de cinema... Clinton tinha seu lado filisteu, claro, mas era bacana e exercia um poder de calmante sobre a humanidade. Me dirão os cientistas de novo: ele apenas cavalgava uma fase positiva da economia. Tudo bem, mas Clinton também "animava" essa tendência, não era um puro objeto da prosperidade - dava um rosto a ela. Clinton foi o Gorbachev de uma pretensa "perestroika" americana e, do mesmo modo que o bom russo foi expelido e substituído pelo bêbado do Yeltsin, tivemos o filhote do Bushão, aquele que vomitou no banquete japonês, aquele que armou o Talibã no Afeganistão; ganhamos o menino-problema Bushinho que idealizava o pai e que tentava curar-se da castração enchendo a cara torturadamente. Os canalhas estavam só esperando um "vacilo" do Clinton para destruí-lo e, mais que isso, toda a idéia de liberdade e alegria que ele encarnava. Aí, chegou a Pandora Lewinsky, gordinha, republicana, histérica moradora no edifício Watergate (!) em Washington, com os lábios que iam deflagrar uma revoluçãoo mundial. Já havia outras denúncias de sacanagem de Bill, como a horrenda Paula Jones, em Arkansas, mas Monica foi a musa da desgraça. Muitos dirão que isso é astrologia política, mas há detalhes assustadores nos fatos que começaram a rolar como uma locomotiva golpista a partir da descoberta de que o presidente tinha uma amante dentro da Casa Branca. Tudo virou um relógio perfeito com todas as peças em sincronismo, para derrubá-lo. O lider era o procurador da república Kenneth Starr (lembram-se?), a figura mais óbvia do reacionário e puritano, boneca enrustida rancorosa. Todos diziam que o que incomodava a América de direita era a mentira que ele pregou, negando tudo. Não foi. Foi o sexo, foi a imagem do presidente de calças arriadas no Salão Oval, de madrugada. A conspiração foi perfeita: as fitas gravadas pela terrível mocréia Linda Tripp, com as conversas telefônicas de Monica e, suprema armadilha previdente de Linda, o vestido manchado de esperma que ela mandou Monica guardar, pois "ela poderia precisar dele, um dia..." O vestido ficou dentro de um plástico até o dia em que o Ken Starr conseguiu o exame de DNA e Clinton foi pego em mentira flagrante. Eu nunca vira um calvário tão humilhante. Ser apanhado pela esposa na cama já é um bode, imaginem pela nação toda... Esse espermatozóide mudou a História. Clinton resistiu ao impeachment, mas o estrago estava feito. O Watergate sexual dos democratas desmoralizou a América. As eleições foram perdidas porque o Al Gore, babaca e careta, teve medo de defender o Clinton em sua campanha. Sexo - o grande bode americano que ou é idealizado ou aparece em torturados sadomasoquismos. O crime de Clinton deu gás à direita cristã. Diante de democratas fragilizados pelo escândalo, Bush e seus asseclas tiveram o arrojo cínicio de partir para a fraude na apuração dos votos. E a imprensa democrática, que sabia dos escândalos de Bush na Harkem, ficou caladinha, acoelhada, muito mais leniente do que fora com o caso Whitewater que infernizou Clinton por cinco anos. A vingança de Nixon começou ali, 25 anos depois do Watergate, ali cresceu com precisão sinistra a vingança dos falcões contra o filho dos direitos civis e da revolução sexual. E, no mundo, tudo começou a andar para trás... Qualquer esperança de paz no Oriente Médio acabou, com o apoio explícito de Bush ao assassino Sharon, a recessão econômica que estava no horizonte chegou, as corporações aceleraram a roubalheira em seus balanços, a América Latina e África foram deixadas de lado, gafes vieram em sucessão, até que o Bin Laden veio salvá-lo com o ataque às torres, virando-o no caubói do "bem" contra o Oriente, que agora o odeia e a todos nós, os "kafir", cães infiéis. Acabou a época da esperança e começaram os impasses insolúveis. Eu, idiota, achei que a porrada das torres ia trazer para os americanos uma humildade dolorida; mas, ao contrário, Bush se sentiu livre para soltar todos os cachorros da direita tradicional. A América descobriu a guerra sem o contraponto soviético e agora está pronta para atacar o Iraque, obsessão de filho onde o pai falhou. A América resolveu assumir a unipolaridade, uma guerra quente contra todos, contrariando a frase do presidente Madison de que a "América tinha de ser tolerante e se ver pelos olhos dos outros países". Agora, ao contrário, todos teremos de viver pelo único olho do cíclope americano, burro e violento.
114.ARNALDO JABOR. A DEMOCRACIA ABRIU NOSSOS OLHOS SOBRE O BRASIL. O bode está virando moda. Nosso destino é manipulado por agências estrangeiras que nos dão nota como no colégio, olhamos o dólar e a bolsa como um jogo de búzios, para ver quando iremos para o buraco. Falamos do Brasil como de um doente terminal. E como a gente confunde governo com Estado, com nação, tudo que aconteceu de bom nos últimos anos virou pó-de-mico, nada, zero. O pessimismo na cultura brasileira virou uma espécie de "sabedoria" triste, uma vacina contra a decepção. E, no entanto - eu devo estar maluco -, eu vejo que muita coisa boa rolou depois da democracia instalada. Muita coisa melhorou sim no Brasil, ó filhos do bode, ó cegos ideológicos, com a democracia, que permitiu que inúmeras verdades viessem à tona. Desculpem meu otimismo - que eu sei que é visto com desconfiança ("ahhh... alguma coisa ele está querendo...") -, mas aqui vai uma lista de coisas boas que nos aconteceram. A quebra do Estado brasileiro, no meio dos anos 80, foi ruim e boa. Deu-nos uma "orfandade" diante do gigante quebrado, mas despertou mais vontade de autonomia na sociedade. Deixou claro que o Estado tem de existir para a sociedade e não o contrário, como ainda é hoje. A sociedade civil, na falta de nome melhor, ganhou consciência de sua importância. A sociedade já pensa em "nós" e não em "eles" apenas, os remotos donos do poder. Apesar dos populismos, já deixamos de ser "vítimas" e passamos a ser "cúmplices". Já está na consciência da população a diferença entre estatal e público. O "apagão", a crise de energia foi causada por um descuido estatal, que foi consertado por uma ação pública. Já raiou a noção de responsabilidade civil e fiscal. Já entrou em nossa consciência de coloniais "exilados em sua própria terra" a idéia de que não se gasta mais do que se tem, em finanças. O mesmo vale para a vida social e política: não se pode projetar um país para além de suas possibilidades concretas. A idéia do "possível", em vez da velha bravata das utopias. E muitos já entenderam que isso não é covardia ou omissão; é sabedoria e prudência. A globalização da economia é um bonde carregado de problemas novos? Sim. Pode nos jogar num vazio de excluídos, sem nichos lá fora? Pode. Mas, teve a vantagem de nos colocar mais perto da verdade nacional, rompendo as paredes da "taba imaginária", uma ilha ibérica de esperança vã e futuro maravilhoso. A globalização nos trouxe o contato com métodos de gestão e administração mais anglo-saxônicos, trouxe dinamismo para empresas, trouxe nova ética empresarial, contábil. Hoje, já podemos pensar em um novo nacionalismo sem cairmos nos antigos esquematismos. Ao contrário do simplismo de ver tudo por uma ótica "macro", ideológica, generalizante, as mudanças na economia mundial nos fizeram ver a importância dos detalhes "micros", das pequenas causas que podem derrubar um universo inteiro. Trouxe a idéia de "eficiência" contra o delírio ideológico, que dispensa estudo e viabilidade. Muito mais importante que apontar causas para a pobreza é descobrir formas de combatê-la. A tal "mão invisível do mercado" pode nos dar bananas, claro. Sabemos como é hipócrita a visão americana de nos recomendar aberturas, enquanto eles se protegem. Contudo, o conceito de "mercado" dinamiza a auto-regulação da vida social e econômica do País, sim. "Mercado" como termômetro dos perigos da injustica, mas também como sensor dos desejos sociais, "mercado" como amenizador de certezas burras, "mercado" como relativizador de um poder público totalitário. No imaginário político do País, "herói" ou "amigo do povo" sempre foi o sujeito que arrebenta com as dificuldades pela adoção de um simplismo que corte caminhos e ampute variáveis e epifenômenos. Já sabemos hoje que "parte" e "todo" se imbricam. Isso desmonta a velha idéia de acharmos uma "solução". Em lugar disso, temos o "processo". Isso diminui nosso amor ao voluntarismo salvacionista. A democracia dos últimos anos nos ensinou sobre a idéia de "aliança" para governar. Aliança, não como oportunismo nem com aliados sendo "otários cooptados", mas sim como necessidade para o bom governo. Já sabemos que o Brasil é esse país que está aí, com suas deficiências e com políticos atrasados. Não há um outra nação over the rainbow. Mudar o País tem de ser por dentro e não uma intervenção mágica, ditatorial ou golpista. Vimos encantados que a democracia, em sua prática, vai expelindo os micróbios que a atacam. A democracia tem anticorpos, glóbulos vermelhos que vão limpando seu organismo contra os inimigos autocráticos. Uma das grandes vitórias dos últimos tempos foi o enfraquecimento das resistências oligárquicas de gente como ACM, Sarney, Jader, que perderam energia diante da força modernizadora da liberdade. Populistas como Maluf já foram expelidos também. Faltam alguns, mas já é um começo. Ficou visível como nunca o absurdo do atual "poder judiciário", arcaico, corrupto e lento. Por outro lado, houve um maior império da lei. O advento de corajosos e modernos procuradores da República, de juízes jovens e honestos, com um Ministério Público ativo, conseguiu encurralar gente que, há pouco tempo, era invulnerável. Ninguém vai em cana, ainda, mas, ao menos, já sofrem um vexame público, um descrédito político, com suas vergonhas estampadas na mídia. Podemos esperar que, um dia, haverá uma reforma no Judiciário e teremos uma lei para todos. Ainda não entendemos direito, mas já percebemos que os problemas do Brasil são muito mais complicados do que uma mera questão de injustiça social, a ser resolvida apenas pela dinâmica de uma "luta de classes". A injustiça é endêmica e de tal modo paralisante que inviabiliza até um embate de classes. A má distribuição de renda não é causa; é conseqüência de uma secular estrutura autocrática, de um Estado patrimonialista que tem de ser reformado. A democracia melhorou muito nossos olhos. Estamos vendo mais. Espero que não nos ceguem de novo... Feliz futuro!
115. ARNALDO JABOR. SOMOS MILHARES DE HOMENS-BOMBA NAS PERIFERIAS. - Você é traficante? - Sou. Mas sou também um sinal de novos tempos. Como sou sujo e pobre, vocês nunca me olharam durante décadas. Eu era inofensivo, uns roubos, uns assaltos mas, tudo bem... Vocês até me romantizavam... o Mineirinho, o Cara de Cavalo... Na época, era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, seca, desnível de renda... A solução é que nunca vinha... Os Mendes de Morais, os Lacerdas, os Negrões de Lima, os Chagas, os Brizolas... que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós éramos invisíveis... Quando havia um desabamento, algo assim, éramos, no máximo, manchete de jornal e motivo de angústia para uns intelectuaisinhos como você. Agora, arranjamos emprego na multinacional do pó... E vocês estão morrendo de medo... Danem-se... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Há, há... - Mas... a solução seria... - Solução? A idéia de "solução" já é um erro. Não há mais solução, cara... Já olhou o tamanho das 450 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? O máximo que vocês podem fazer são esses movimentosinhos pela cidadania... Cadê os bilhões de dólares para uma "solução" profunda? Só que, agora, vocês não têm mais a grana... Está tudo reservado para manter a estabilidade fiscal, que pode ir para o brejo a qualquer momento... Vocês estão com um bode por fora e outro bode por dentro. O capital financeiro fora e nós dentro. E os bodes vão se encontrar no infinito sujo de vosso destino... Gostou da frase? Sou culto; ouve outra: "Capitalismo selvagem gera revolta primitiva." Aliás, tomara que quebre tudo... Vai ser mais fácil pra nós pilharmos vossas ruínas... há, há... - Você não tem medo de morrer? - Estamos no centro do Insolúvel, "mermão"... Vocês no "bem" e eu no "mal" e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Vocês têm medo de morrer, eu não. Nós somos homens-bomba. Na favela tem 100 mil homens-bomba... É... Já somos uma outra "espécie", já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o "presunto" diário, desovado numa vala... Vocês, intelectuais, não falavam em "luta de classes", em "seja marginal seja herói?" Há, há... aí está... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Esse "parangolé" todo, né? Vocês deviam era expor a gente na Bienal, como "instalação"... - O que mudou nas periferias? - A gente hoje tem uma coisa chamada Poder... Por que transferiram o Beira-Mar para a Bangu 1? Pois é... lá ele manda... Você acha que quem tem 40 milhões de dólares não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro? Pelo amor de Deus... nego chama ele até de "doutor", tá ligado? - Se você fosse polícia, agia como? - Quer um "toque"? A burocracia policial segura tudo, por desorganização e de propósito. Nós somos uma empresa moderna. A gente não tem de arranjar ordem judicial, a gente não é dividido em municipal, estadual e federal; é tudo rápido, enxuto... Se funcionário bobeia, é despedido no "microondas"... Há, há... estamos ligados na tecnologia, na internet, nos armamentos sofisticados... E tem mais: se vocês tentarem acabar com a burocracia, com os atrasos administrativos, até se quiserem informatizar uma reles delegacia, vão dançar... sabe por quê? Porque a polícia "quer" o atraso... o atraso dá lucro... A polícia é feita de feudos, corporativa, delegados donos de pedaços da cidade... ninguém quer se modernizar, tá ligado?... É bom aquele clima de 1930, de carros quebrados, sem arquivos eletrônicos... Se impessoalizar, modernizar estraga a muamba... Além disso, estamos virando superstars da mídia. A imprensa dá idéias, sugestões, enche nossa bola do crime... Vocês estão nos dando uma ideologia, sem perceber... Já tem nego aí querendo armar esquema com a Al-Qaeda, podes crer... Outro toque: por que não pegam os "barões" do pó? Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidente do Paraguai nessa parada de armas e cocaína... Essa é que é a mina de ouro, nas fronteiras... Mas, não tem polícia pra enfrentar esse poder internacional, não... A gente é mixaria... A verdadeira Guerra do Paraguai vocês estão perdendo agora, tá ligado? - Estão pensando no Exército... - Ah... cara... Você acha que os generais vão querer acabar com aquele dia-a-dia dos quartéis, pra subir em morros de lama? Que isso, meu? Eles ficam jogando aquele basquete de tarde, marcham, tocam os clarins, cantam hinos... Mas, ir à luta com o PCC e o CV? Com risco de darem vexame? Pra quê? Eles dizem que são treinados para causas maiores, guerra profundas... Só se for com a Argentina... E também a gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Já imaginou a gente daqui a uns dez anos? Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também umazinha, daquelas sujas mesmas... Já pensou? Ipanema radioativa? Bomba atômica é uma boa... Vocês arrasam tudo e depois as favelas se valorizam, viram bons terrenos para vender pros ricos... belas vistas... bons ares... podem até fazer Centros Culturais no Complexo do Alemão e na Maré... legal? Se não, a gente vai virar países estrangeiros... Vou fazer frase: "A miséria armada é uma outra nação, no centro do Insolúvel!" Gostou? Olha, meu chapa, só generais saídos da favela, da lama, com a mesma fome de vida e morte, com o mesmo ódio que nós temos, poderiam nos vencer... Nós saímos do lixo, não temos nada a perder... Pra vencer, vocês tinham de começar reconhecendo sua derrota policial e administrativa. A guerra é o reconhecimento do fracasso da política... É isso aí.... A bandidagem perdeu o respeito pela polícia... Agora, não tem mais jeito... Pra ganhar esta guerra, vocês têm de começar o Brasil de novo... Falei? - Falou...
116. ARNALDO JABOR. MEU PAI FOI UM MISTÉRIO EM MINHA VIDA. Já escrevi sobre meu avô. Semana passada, escrevi sobre minha mãe. E as pessoas me dizem: "E seu pai? E seu pai?" Meu pai foi um mistério em minha vida; não nos comunicávamos bem, inibidos um com o outro. Meu pai era o perigo de castigos, o Supremo Tribunal que julgava meus erros. Por isso, ao escrever este artigo, sinto seu olhar por cima de meu ombro. Sempre quis ser aprovado por ele, receber um elogio, um beijo espontâneo que nunca vinha. Ele parecia saber de algum crime que eu cometera, mas não dizia qual era. Eu sofria: "O que foi que eu fiz?" Meu pai não ria, como se o riso fosse um luxo, mas eu me empolgava quando ele chegava num avião de combate, coberto de dragonas douradas no uniforme da Aeronáutica, ele, meu herói que conquistara o Pico do Papagaio como jovem alpinista e que fazia acrobacias de cabeça pra baixo nos aviõezinhos do Correio Aéreo. Quando peguei coqueluche, ele me levou num avião bimotor a quatro mil metros de altura, pois diziam que isso curava a tosse renitente. O avião subiu com meu pai pilotando, um sargento e minha mãe num casaco de pele com o cabelo preso num "coque" alto chamado "bomba atômica", cruel homenagem da moda à destruição de Hiroshima. De repente, a porta do avião se abriu a quatro mil metros e eu quase fui chupado para fora, não fosse a rápida ação do sargento. Até hoje, não sei se isso realmente aconteceu, mas meu pai sempre me trazia fantasias de extinção. Ele era um árabe alto, nariz de águia, bigodinho ralo, cabelo luzente de Glostora, óculos Rayban, sapatos de borracha da Polar. Hoje, entendo que ele queria fazer de mim um homem pela severidade implacável, silêncios indecifrados, olhares acusadores (de quê, Deus?), hoje sei que ele queria de mim um homem, dando-me um exemplo de espartana resistência, de chorar sem lágrimas. Claro que virei artista, por "formação reativa", claro que enquanto ele me deu um livro nunca aberto sobre mineração de carvão eu ia ler Rimbaud e escrever poesias. Se eu bobeasse, podia estar hoje cantando boleros, com codinome Neide Suely. Minha vida foi se pautando para ser tudo aquilo que ele não era - uma maneira de obedecê-lo em revolta, de competir com ele sem arriscar a castração, o pau cortado. Ele era moralista? Eu defendia sacanagens e palavrões. Ele era da UDN? Entrei para o PCB aos 18 anos. Então, comecei a despertá-lo da letargia desatenta a mim, provocando-o, esculhambando americanos e militares, culpando a Aeronáutica pelo suicídio do Getúlio. Aí, eu conseguia berros na mesa de jantar, com minha mãe pálida sussurando: "Olha os vizinhos!..." Isso era uma forma de tê-lo vivo diante de mim. Queriam-me diplomata? Ah... hoje eu poderia ser um pobre itamarateca alcoólatra... Fui ser nada, maluco, comuna da UNE; depois, por acaso, acabei cineasta... O tempo foi passando. Papai aposentou-se cedo demais e aquele projeto de "picos de papagaio", de aviões em parafusos, de um heroísmo guerreiro virou um silêncio aterrador no apartamentozinho de Copacabana, onde o tempo parecia parar. Entre as poltronas dos anos 40, entre os vasos de flores de minha mãe, a presença de meu pai era quase abstrata, lendo revistas, vendo TV de tarde, de pijama, em meio a minhas visitas, quando eu tentava alguma coisa que mudasse aquela paralítica tragédia, aquele relógio do avô que batia o pêndulo em vão. Todos os dias eram iguais; só minha mãe mudava, cada vez mais perto da senilidade, visitando a médium "linha branca" que lhe dava conselhos com voz grossa de caboclo. Eu queria que alguma coisa acontecesse, queria vê-los dentro da vida da cidade, mas só saíam para comer num sinistro restaurante a quilo, de fórmica rosa e amarela. Um dia, nasceu-me a primeira filha. Foi um momento de vida e luz mas, logo depois, meu pai caiu doente, com uma enigmática infecção pulmonar, que não passava. Médicos se sucediam: tuberculose, enfisema? O quê? Foi uma revolução cultural no apartamentinho de Copacabana: aquele rei silencioso, de repente, estava caído no divã, cuspilhando, febre permanente, precisando de ajuda. Então, a força estava fraca? O pai virara filho? Minha mãe pirou mais ainda, sem saber lidar com tanto poder que ganhara, tanta liberdade súbita. Eu também estranhava aquele titã caído. Um dia, o médico decretou: "Está muito anêmico... Precisa de transfusão de sangue." Fui levá-lo à Casa de Saúde S. José, onde minha primeira filha tinha nascido, pouco antes. Deixo meu pai na cama de um quarto, com a bolsa de sangue pingando-lhe nas veias e, para evitar o silêncio triste diante da lenta transfusão, saí pelos corredores, para dar uma volta sem rumo. De repente, ouço dois tiros. Sim, dois tiros de revólver. E foi aí que minha vida começou a mudar. Pela porta do quarto ao lado, olho e vejo dois homens caídos no chão branco de fórmica, boiando em duas imensas poças de sangue. Um já estava morto e o outro agonizava de boca aberta, emitindo um soluço com um assobio assustador, como um peixe morrendo fora d'água. Enfermeiros acorreram e eu soube que tinha sido um crime passional. Um médico matara o outro e suicidara-se em seguida. Nada mais fora de lugar que um assassinato no hospital. Tudo se juntava, meus fantasmas acorriam todos, num clímax de vida e morte. Vi, espantado, que um deles era o ginecologista que tratava de minha mãe e que estava ali, boiando no próprio sangue, no hospital onde acabara de nascer minha filha. A transfusão acabou, as ambulâncias levaram os corpos e ficamos eu e meu pai assustados, sozinhos ali no quarto. O mundo tinha mudado. Então, não sei por que, comecei a sentir um imenso carinho por meu pai, ali, fraquinho, cabelo branco. Ajudei-o a se arrumar, fechei-lhe o paletó e voltamos para casa, como cúmplices mudos de um crime, de um jorro de morte que destruiu nossa melancolia, e nos uniu de uma forma misteriosa. Nunca entendi bem o que aconteceu, mas só sei que não houve mais silêncios tristes entre nós dois.
117. ARNALDO JABOR. A CASA DE MINHA MÃE NUNCA FICOU PRONTA. Ando com vontade de ligar para minha mãe. Mas, minha mãe já morreu. Meu filhinho me perguntou hoje: "Cadê sua mãe, aquela que mandou seu mico embora porque ele mordeu seu dedo?" "Ela já foi para o céu..." - respondi-lhe com o velho lugar-comum. "E seu papai, aquele que andava no aviãozinho que ia até a Lua?" "Também foi para o céu...", repito pensando que um dia ele vai descobrir que vamos para baixo e não para cima. Mas, tenho mesmo vontade de ligar, pois, talvez, no telefone, possa haver um milagre e sua voz soar em meu ouvido: "Alô? 28-4858?" "Mamãe?" Na época desse número remoto do Méier, sua voz era jovem e feliz. Depois, foi enfraquecendo por outros números, até o tempo em que, já velhinha, atendia triste e doente o 47-8378: "E aí, meu filho, tudo bem?..." Como seria bom o telefone me salvar e alguém me chamar de "meu filho..." Seria bom entrar pelos fios do passado e fugir das dores que sinto com o País, o mundo e comigo mesmo. Confesso que, em momentos de desespero, eu já liguei escondido para números antigos. Ouvia a voz anônima e falava: "Desculpe, é engano...", com a sensação de, por instantes, ter visitado minha velha casa. Minha mãe era linda. Parecia a Greta Garbo. Um dia, meu avô bateu nuns vagabundos que mexeram com ela, ainda mocinha, na base do "Tem garbo mas não tem greta" e outras sacanagens de época... Meu avô, malandro e macho, pegou a bengala e cobriu-os de porrada. A vida de minha mãe foi a tentativa de uma alegria. Sorria muito, trêmula, insegura e, nela, eu vi a história de tantas mulheres de seu tempo tentando uma felicidade sufocada pelas leis do casamento, pela loucura repressiva dos maridos. Meu pai, que era um homem bom e amava-a, nunca conseguiu sair do espírito autoritário da época e, inconscientemente, se enrolou numa infelicidade que oprimia os dois. Na classe média carioca dos anos 50, cercados de preconceitos, medos e ciúmes nas casas sombrias, os casais estavam programados para tristezas indecifradas. Eram cenários estreitos para o amor: a casa do subúrbio, o apartamento micha de Copacabana, onde vi minha mãe enlouquecer pouco a pouco, tentando manter um sonho de família, tentando manter a cortina de veludo, a poltrona coberta de plástico para não gastar, os quadros de rosas e marinhas e a eterna desculpa para os raros visitantes: "Não reparem que a casa não está pronta ainda..." (isso, com 50 anos de casada). A casa nunca ficou pronta, como ela, Greta Garbo do subúrbio, sonhou: a casa feliz, com bolos decorativos nas festas, seu orgulho, a única coisa que ela sabia fazer; eram bolos em fôrma de avião, para homenagear meu pai piloto, em fôrma de livro, para me fazer estudar, ou em fôrma de piano para minha irmã tocar, naqueles aniversários em que os sofás de cetim marron e branco eram descobertos com discreta vaidade. Na juventude, minha mãe era infeliz e não sabia, pois todas as suas forças eram convocadas para esquecer isso. Cantava foxes, para desgosto de meu pai e ria com medo - se bem que ninguém era feliz naquela época. Não havia essa infelicidade esquizofrênica de hoje, mas era uma infelicidade tristinha, com lâmpada fraca, uma infelicidade de novela de rádio, de lágrimas furtivas, de incompreensões, de conceitos pobres para a liberdade. Eu via as famílias; sempre havia uma ponta de silêncio, olhos sem luz, depois dos casamentos esperançosos com buquês arrojados para o futuro que ia morrendo aos poucos. Não era a tristeza da pobreza; dava para viver, com o Ford 48 sendo consertado permanentemente por meu pai sujo de graxa nos domingos com o rádio narrando o futebol, dava para viver com uma empregadinha mal paga, dava, mas era uma tristeza obrigatória, quase uma "virtude" que as famílias cultivavam, sem horizontes. Toda minha vida consistiu em fugir daquela depressão e em tentar salvá-los. Eu queria dizer: "Saiam dessa, há outras vidas, outras coisas!" - logo eu, que achava que ia descobrir mundos luminosos feitos de revoluções e de prazeres, eu que achava que viveria numa vertigem de alegrias modernas, do sexo que se libertava, da bossa nova, da arte, ilusões que foram logo apagadas pelo golpe de 64 que, com apoio do meu pai, restaurou a luz mortiça das famílias, das esposas conformadas em seus cativeiros. Minha geração se achava o "sal da terra", tocada pela luz da modernidade. Mal sabíamos do outro desamparo que viria; não a melancolia do rádio aceso no escuro, não a televisão Tupi ainda trêmula, não as esquinas cheias de mistério, não o apito do guarda-noturno, mas a nossa impotência diante do excesso de acontecimentos, do inferno das expectativas, das informações sem conhecimento. Hoje, vivemos essa liberdade desagregadora, com a esperança de paz da classe média destruída, vivemos o medo das ruas, das balas perdidas, que não havia, quando mamãe ia visitar a médium de "linha branca" que lhe prometia progresso e alegria nas cartas. Antes, minha mãe e meu pai tinham a ilusão de uma "normalidade". Hoje, todos nos sentimos sem pai nem mãe, perdidos no espaço virtual, dos e-mails, dos contatos breves, da vida rasa sem calma. O que vai nos acontecer neste mundo de Bush e Osama, neste país de crimes e de riscos-Brasil, onde nada se soluciona, onde tudo é impasse e encrenca? Será que nunca mais teremos sossego? Sinto imensa saudade da linearidade, do princípio, do meio e do fim das vidas, e tenho medo de ter morrido e de não perceber. Por isso, me dá essa vontade profunda de pegar o telefone e discar, não num celular volúvel, mas num aparelho preto, velho, de ebonite, discar e ouvir a voz de minha mãe, entrar pelo fio e aparecer na salinha de móveis "chippendale" e Luís XV falso e vê-la sempre querendo ser feliz, mas com vergonha das visitas: "Não reparem que a casa não está pronta..." Na verdade, tenho vontade de discar, mas é para saber quem sou eu. E quando disserem: 'Quem fala?" pensarei: "É o que me pergunto..." Mas, sei que vou desligar, dizendo: "Desculpe, é engano..."
118. ARNALDO JABOR. ENFIM SÓS, CLINTON E FHC ABREM O CORAÇÃO. - Poxa, Fernando Henrique, enfim sós... Agora, podemos conversar em paz, aqui nesta salinha do Alvorada... - Seems like old times , hein, Clinton? Desde de Camp David.. Parece que foi há muito tempo... Como o mundo se caretizou depressa! Mas você tá com a vida que pediu a Deus: 200 paus por palestra... E eu, aqui... com baixos índices de popularidade.... - É... Fernando... Mas acho que vamos terminar iguais: nenhum de nós elegendo um sucessor... - Somos muito parecidos, Bill... - É... Somos símbolos da "terceira via"... Você, eu, o Tony Blair... somos a tal de "globalização com justiça"... - É... Somos bonitinhos, com sorrisos democráticos... - É... mas a "terceira via" ninguém achou até hoje... Fernando... - A única "terceira via" é a boca da Monica Lewinsky... - Quá, quá, quá!! Essa é boa! Vou contar pro Vernon Jordan... - Quá, quá, quá!... Somos iguais... ambos fumamos maconha... - Mas sem tragar!... Somos iguais... Eu amei em você o presidente latino culto, fino... Mas eu te seduzi mais do que você a mim, Fernando... - Poxa, Clinton, você quer o quê? Você era presidente dos USA, é impossível não ser tiete de uma superpotência...Você podia tomar um porre e destruir o mundo... - Tem razão... Eu tentei humanizar a globalização da economia, tentei fazer da América uma potência hegemônica, mas benevolente... buscando uma política interdependente... - Oh... cut the bullshit, Bill! (Corta essa, Bill). Estamos a sós... - Tem razão... quá... quá... Interdependência, my ass !... Capitalismo quer domínio e era a pílula dourada... - "Interdependência"... Ninguém sabe que porra é essa, Clinton! Americano não entende, latino não confia... Capitalismo não é mole... como você convence a IBM ou a Ford a ter "meio lucro", "meia voracidade"? - É... Fernando... Minha obra é que eu era sexy numa América reprimida, eu era cool num país careta... Eu sou a Madonna da política, quá, quá, quá... Minha única obra foi esta: eu questionei o puritanismo com minha fama de sem-vergonha... Eu fui o salvador charmoso depois da era Bush Pai... Eu toco sax, gosto de jazz, de negros... eu dei aos USA a consciência de que havia mundo lá fora... Eu só errei com aquela histérica da Monica... É inacreditável! O presidente tendo de fazer sexo em pé, no Oval Office, de madrugada... - Você podia ter uma garçonnière... - Como? A Hillary comprou os seguranças... Era ali ou nada... Poucas pessoas no mundo foram humilhadas como eu... Ser flagrado em adultério já é uma bosta; imagine todo o planeta te pegar... Eu fui o Cristo do blow job ! - Quá, quá, quá!...Te pegaram com a "botija na boca"! Quá, quá! - A minha salvação foi bombardear o Iraque... Se não, eu morria castrado... Cada foguete era uma afirmação fálica... - Saddam salvou tua sexualidade...Agora, cá entre nós, Bill... ela é "boa" mesmo? - Ela é o maior "serviço de sopro" da capital... Entre os políticos, ela era o "consenso de Washington"... Quá, quá, quá!... Mas não foi mole... O sistema puritano e republicano caiu de pau em cima de mim. Aquela bicha do Kenneth Starr... meu Deus, tudo isso é tão remoto... Mas minha grande obra é que eu fiz o país falar em "esperma", em pênis... E isso foi uma revolução moral... Eu também inaugurei a mentira pública... Menti, sim - por que não? Mentir nos USA é revolucionário... O único bode é que talvez minha didática sem-vergonhice tenha legitimado a roubalheira na eleição do Bush, tipo "ladrão que rouba ladrão"... Mas eu relativizei a infalibilidade do presidente dos USA, para o mundo todo. Pensando bem, eu era um utópico, com a utopia dos anos 60 revisitada... - É isso aí, Bill! E, no Brasil, meu discurso foi desconstrutivo, anti-utópico... - Eu dei esperança aos Estados Unidos... - E eu... tirei esperança do Brasil... Foi o que eu fiz de melhor. Vocês, americanos, precisam da utopia. Mercado só não dá. Vocês têm fome de "transcendência", de "futuro". Já os brasileiros precisam é de "presente", de desilusão para parar de acreditar em "salvadores". Minha melhor obra é a decepção dos brasileiros... Eu sou o anti-Messias... O problema é que são tão burros que agora estão famintos de populismo: Itamar, Garotinho... - Quem? - Little Boy, mais uma caricatura nacional... Mas eu espero ter deixado algum contraveneno, um hábito democrático qualquer... Eu ensinei ao povo que não há solução - só processo. Eu fui frio, mas educativo sobre o desinteresse dos governantes. Eu devolvi as queixas à sociedade civil, que tem de depender menos do governo... Minha ironia e meu descaso foram minha melhor aula. Outro grande feito meu foi me aliar à escoria política do país... Nunca entenderam minha grandeza em assumir o Brasil real, nossa imunda verdade política... Meu patriotismo foi agüentar o Jader, o ACM... - E eu, que agüentei o Trent Lott, o Newt Gingrich... - É... mas eu sou um nefelibata (ver Aurélio)... Tenho horror de me comunicar com caipiras... Meu amor ao progresso é muito mais pela beleza da razão que por compaixão pela miséria... Sou vaselina, sim, que eu chamo de realpolitik. A verdade política de hoje está na vaselina... - Quá, quá, quá, Fernando, you¹re the top, you¹re Mickey Mouse!... - Tenho volúpia de decepcionar os românticos. Eu desconstruí certezas. Cá entre nós, Bill, a política acabou; nós somos atores... - Quá, quá, quá! Mas não espalha... Eu, ao menos, mostrei ao mundo que o poder americano é ridículo, que uma vagininha histérica muda o mundo... Quá, quá, quá... E você, Fernando, a tua Monica Lewinsky foi a Argentina e o "apagão"... - Quá, quá, quá! Bill, estou sentindo um alívio!... Descobri minha importância histórica! Eu sou a desconstrução das expectativas voluntaristas... Eu sou o Derrida dos trópicos!... - Quem? - Derrida... um francês veado... - Ah... - E você, hein, Bill, faturando 200 mil por palestra!... E aí? - me diz - tem comido muita gente? - Chove mulher... - E este baseado? Gostou, Bill? Esse é do bom, paraguaio... - Quá, quá, quá!... - Podes crer, Bill, "do bom", do Mercosul... - Awesome, Fernando!... - Quá, quá, quá!!!
119. ARNALDO JABOR. O CHATO É ANTES DE TUDO UM FORTE. Está tudo tão chato no Brasil, que vou escrever sobre os chatos. Você é chato? Nunca saberá. O chato não se sabe como tal, ou melhor, sabe sim, mas sempre tem a esperança de sair da categoria e ser aceito como não-chato. Por isso, chateia todo mundo. O chato é, antes de tudo, um carente. Ele vive do sangue dos outros, do ar dos outros, o chato precisa de você para viver. Sozinho, o chato não existe. Existem vários tipos de chatos. O mais famoso é o chato de galochas, que eu pesquisei e descobri que a origem do termo. Fala do cara que sai de casa com chuva torrencial, põe as galochas e vai na tua casa para te chatear. Há chatos masoquistas e sádicos. O primeiro é aquele que gosta de chatear para ser maltratado: “Porra, não enche, cara!” Adora ouvir essa frase, para remoer um rancor delicioso que valoriza sua solidão: “Não me entendem, logo sou especial!” O chato sádico, não. Ele quer ver teu desespero e escolhe os piores momentos para te azucrinar: “Poxa... sua mãe morreu ontem, mas ouve meu problema com minha mulher...” Eu não vou fazer aqui um tratado geral dos chatos, como já fez o Guilherme Figueiredo, aliás um livro chato. Como lutar contra eles? Por exemplo, o Tom Jobim, uma das maiores vítimas de chatos, ensinou-me um truque: “Use óculos escuros. O chato fica desorientado quando não vê teus olhos. O chato adora ver o próprio rosto refletido em teus olhos desesperados. Com você de óculos escuros, ele desiste e vai embora”. O chato gosta de ver teu sofrimento, por isso não adiantam as respostas malcriadas, resmungos. Ele gruda mais. Nem adianta fingir simpatia, na esperança de que ele parta. Não há solução. Se bem que a reza ajuda. O chato está falando e você ali lembrando a “Ave Maria”. Te acalma como um mantra e Deus pode vir em tua ajuda. Outra técnica que funciona muito é chatear o chato. Seja o chato do chato. Ele pergunta: “Por que você não volta a fazer cinema?” E você retruca: “Que você está achando do PMDB?” Faça-o falar, como o Freud agia com as histéricas. O chato falador é mais suportável do que o chato perguntador. Depois que eu comecei a falar na TV, virei um papel-de-mosca para chatos. Não quero bancar o famosinho mas, veja bem (como dizem os chatos), o sujeito te vê na TV, no quarto onde ele está transando com a mulher e você na tela, falando sobre o Chavez... O cara fica íntimo teu e te agarra na rua, no shopping e gruda, como um colega conjugal. Uma vez, tinha um chato no celular (grande tipo novo, o chato do celular) e eu tomando um cafezinho no aeroporto, oito da manhã, indo para Porto Velho, com conexões. “Ihh... meu amor... sabe quem está aqui ao meu lado?... O Jabor... éé... quer ver?” Se vira para mim e: “Fala aqui com minha namorada... o nome dela é Eliette”. Esse é primo do chato-corno: “Minha mulher te ama; dá um autógrafo pra ela... Escreve: Te amo, Marilu...” (O chato-mala nunca tem caneta ou papel): “Escreve aqui mesmo neste guardanapo molhado...” Temos também o chato do elevador. Estou num elevador vazio, indo para o 20. Entra um cara e me olha. Eu, precavido, já estou de cabeça baixa. Há uns momentos tensos de dúvida: “Ele ousará falar?” — eu penso. “Falo com ele?” — ele pensa. Passam uns andares. “Ele não vai agüentar” — eu penso. Não dá outra. “Você não é aquele cara da TV?” “Sou... ha ha...” — digo, pálido, fingindo-me deliciado. “Só que eu esqueci teu nome... Como é teu nome mesmo?” “É Arnaldo”, digo eu, querendo enforcá-lo na gravata de bolinhas. “Não... é outro nome... ah... é... Jabor... isso... porra, claro... E é você mesmo que escreve aquelas coisas...?” E eu penso, sorrindo simpático: “Não; é a tua mãe que me manda lá da zona”. Tem o chato-mala, sempre no ataque. Outro dia, também no aeroporto, eu subindo uma escada, com duas malas e o cara berrou: “Eiii, me dá um autógrafo!” Todo mundo olhando e eu com duas malas. “Não me leve a mal, mas estou pegando o avião...” E ele: “Poxa... tu tá ficando é muito mascarado, cara!” Um dia, houve o clímax, a apoteose do chato do autógrafo. Fazia eu um modesto xixi num banheiro de cinema, aquele xixi triste e pensativo, quando o cara chegou: “Me dá um autógrafo?” Fiquei uma arara: “Estou fazendo xixi... porra... tu quer o quê?” E ele: “Qual é a tua? Tá pensando que eu sou viado? Enfia esse autógrafo...” Tem muitos tipos. Tem o chato crítico. Ele te agarra na rua e começa com elogios rasgados: “Você é o máximo; aquele teu artigo foi demais, mas... (trata-se do chato do ‘mas’...)...mas, você disse uma besteira horrível, outro dia — o PIB da China não é aquele que você falou...” Um chato muito encontradiço é o chato da Ponte Aérea... Ele fica à espreita na sala, atrás de uma coluna. Você entra... ele te vê de longe... Você pensa: “Será que ele me viu?”. Você finca os olhos no jornal, trêmulo de medo e esperança. Dali a pouco, passos a teu lado, uma maleta pousando no chão e ele gruda: “Posso lhe dizer uma coisa...?” E pela lei de Murphy, em geral ele estará na poltrona ao lado no avião. Tem o chato da foto: “Posso tirar uma foto com você?” Pronto. Lá estou eu na rua, abraçado a um idiota de bigode, com todo mundo olhando. Flash! E o cara some num segundo, com um rápido “obrigado”. Esses só querem nos roubar a imagem... O chato da foto sempre me deixa carente... Há muitos tipos. O chato-altissonante, por exemplo. Grita no bar, de longe: “Ei, Jabor, que que tu tá achando da guerra Israel-Árabe?” Um altissonante uma vez me berrou na saída de um teatro: “Adoro você... (eu sorri, rubro de modéstia)... mas tu precisa parar de falar besteira sobre o Lula, hein...! Olha, por isso o Ferreirinha aqui te odeia!” (Ao lado dele, está o “ajudante de chato”, rindo com deboche). Tem todo tipo. E agora tem os “e-chatos” na internet que, aliás, botaram na rede artigos boçais e maniqueístas, que eu nunca escrevi, assinados com meu nome. Já puseram um em que “eu” esculhambava a Adriane Galisteu. E agora tem outro rolando, chamado “Faz parte”, onde o falso “eu” humilha aquele rapaz que ganhou o “Big Brother”. Além de e-chatos, esses são canalhas e burros.
120. ARNALDO JABOR. AS CARAS DOS POLÍTICOS EXPLICAM NOSSO DESTINO. Podemos ler a história do Brasil na cara dos políticos. Meu Deus, como são feios nossos políticos, como são inatuais, de mau gosto, seus rostos e caretas mostram como será difícil modernizar esta terra. Darwin tem um livro chamado "A expressão das emoções no homem e nos animais". Ali estão catalogadas as expressões fisionômicas dos chimpanzés, dos cachorros e dos homens. São baseadas no "princípio de antítese", nome que Darwin criou, explicando, por exemplo, que um cachorro expressa amor ao dono por uma mutação corporal, facial e rabeal absolutamente negadora de qualquer agressividade, amolecendo as costas, abanando o rabo, babando-o na mão, etc. Mas Darwin não previu a cara dos políticos brasileiros. O "princípio de antítese" dos nossos políticos, ao contrário, visa a esconder o que sentem, pela negação de seus reais motivos. Assim, o canalha ostenta bondade, o ladrão apregoa honradez, o assassino, delicadeza. Era assim, mas até isso está mudando. Assistindo ao show de horrores da política recente, concluo que não só se perdeu a idéia de vergonha na cara, como ela foi substituída por um certo orgulho, um certo enlevo em ostentar a própria sordidez como um galardão. Antigamente, o canalha se escondia pelos cantos, roído de vergonha; hoje, ele apregoa, com uma tabuleta na testa: "Roubei, sim. E daí?!" A alma do negócio era o segredo. Hoje, espanta-nos a visibilidade dos estelionatos, conjugada à sublime ejaculação das mentiras. Penso, claro, na fascinante fisionomia de Barbalho, que é um verdadeiro mapa da politicada do Pará, esse Barbalho sublime que nos seduz com suas sobrancelhas a la diable, com sua boquinha devoradora de tartarugas, cheques e TDA's, com sua resistência impávida diante das provas cabais de suas malfeitorias. Barbalho impressiona pela limpidez de seu cinismo, pela cara lavada, intocada pela dúvida e pelo sentimento de culpa. Olhando bem, veremos que suas bochechas são até banhadas por um tênue, mas impudente sorriso. É fascinante a confiança que esta gente tem na leniência da Justiça. Como eles navegam bem nos foros e nos arquivos, fazendo sumir processo como no caso do Banpará! É maravilhoso vê-los em "retidão", "pátria", enquanto as rãs coaxam no campo de concentração da mulher de Barbalho. Sim, eu já fui fascinado pelo queixinho de Maluf, erguido a la Mussolini, capaz de falar em "honra" com a evidência de desvios nas obras superfaturadas, já fui hipnotizado pela tranqüilidade carismática de Quércia, cantando Carinhoso num programa de TV, enquanto ele quebrava o Banespa, aplaudido pela sua gang de sociólogos "progressistas", já sofri, no passado, com as carrancas da ditadura, quando surgiu o anão verde-oliva Castelo Branco, menor que o próprio quepe, depois com a car de bulldog de Costa e Silva, iluminado pelo sorriso deslumbrado de Yolanda, a Lady MacBeth brega que mandou baixar o AI-5, depois com a cara de Drácula de Garrastazu Médici, silencioso vampiro, sofri também com a visão das coxas e da barriga de Figueiredo, fazendo ginástica de sunguinha para a nação ver, num strip-tease populista. Depois, lembro-me com pavor do surgimento do único bonito (por fora), o Collor, eleito num clima "gay" que se apossou dos eleitores ("Ele é macho!" - diziam - "ele é lindo, comeu fulana, luta caratê..."), mas agora estou maravilhado diante do Gilberto Mestrinho. Chego a pensar que o Senado está nos sacaneando, acho que Renan Calheiros quis fazer um gesto revolucionário, nos horrorizando para conscientizar a nação da própria desgraça. Porque o Mestrinho no Conselho de Ética do Senado, arrastando um rabo sujo de processos e evidência de assaltos a cofres, com o sambódromo de Manaus superfaturado e desabando, me traz um sentimento de pesadelo cômico. Na cara de Mestrinho mora o impasse nacional. Mestrinho declarou em entrevista que nunca distribuiu uma moto-serra, que nunca desmatou, nunca matou jacaré, chegando ao inefável de dizer que não pinta o cabelo, ali na fotografia, com sua franjinha asa de graúna. Sua carinha maquilada, seu bigodinho lustroso, seus olhinhos vorazes lembram-me Akim Tamiroff em "A marca da maldade". Já vivíamos com a conformada aceitação da nossa desgraça, mas Mestrinho é a apoteose de nosso horror. Outros políticos, com seu visual didático, já nos ensinaram muito sobre nosso destino. ACM, por exemplo, tem um rosto até bonito, com seu bigodinho branco e um passado de sensualidade. Seu corpo é que conta a história: lento, pesado, marchando como um orichá entre baianas e puxa-sacos, com um vago rebolado de poder que é (ou era) o símbolo puro do coronelismo secular. Itamar Franco tem o carisma da vítima, um eco mineiro de Jânio Quadros, o caspento, o vesgo, o despenteado no poder. O povão excluído, humilhado, pode vir a se impressionar com seu rostinho de injustiçado, sua bobeira, sua caipirice populista. Itamar encarna a nostalgia de um povo pela própria ignorância, Itamar pode vir a ser a vingança contra os "intelectuais pernósticos" como FH, na mesma raia onde corre o rosto gordinho e infantil de Garotinho, que mal aparece no palácio para despachar e viaja aplaudido por milhões de pirados evangélicos. Santo Deus... é uma fartura de tipos: os olhos verdes de Requião, o charme epileptóide de Pedro Simon, a gordura truculenta de Eurico Miranda, a fria elegância yuppie de Luís Estevão, a alma gordurosa de Newtão, o teatro de Lalau, amparado por policiais, indo para casa comer pizza, todos, sem falar no inesquecível rosto pétreo de José Osmar Borges, o sócio de Barbalho, que, preso, algemado, no camburão, exalava tranqüilidade total, ignorando as câmeras, olhando para o lado, como se dissesse: "Vocês, a imprensa, vocês não existem..." E foi solto, como o grande Naya. Talvez não existamos mesmo... Sinto que, ao apagar das luzes do governo FH - que, apesar dos pesares, trouxe-nos um charme francês, com sorrisos sociológicos e uma aristocrática tolerância com nossa breguice - estamos voltando para trás. Assanha-se o velho museu de cera da escrotidão nacional. Mestrinho e Jader são os vanguardeiros desta grande marcha à ré.
121. ARNALDO JABOR. ESPELHO MEU, QUEM É O IMPERADOR DO MUNDO? Não sei por que mas, sempre que desejo meditar, venho aqui para esse banheiro da Casa Branca, com espelhos em paralelo, que me multiplicam ao infinito. Preciso me ver refletido, milhões de 'bushes', como um exército de 'eus'. Aqui me sinto calmo. Gosto de ficar nu, olhando-me de todos os ângulos. Ergo a mão, milhões de mãos...Viro de bunda, milhões... Gosto de gritar: "Kiss my asses!" ("Danem-se!") Ha ha... Estou vivendo os melhores momentos de minha vida... Sinto-me potente. Vou derrotar meus inimigos. Eles não são somente o Bin Laden, nem o Sadam. Meus inimigos são também aqueles que me humilhavam quando eu era o 'Little Bush', o burrinho, que só tirava zero na faculdade... Eu queria ser livre, leve e solto, feito meus colegas dos anos 60, doidões, que fumavam maconha contra o Vietnã. Eles gostavam de Rolling Stones e eu do Ray Conniff, qual o problema? Eu queria desbundar feito eles, mas meu pai não deixava e, aí, eu só enchia a cara de 'Jack Daniels' e atropelava latas de lixo no Texas, onde fui detido por alcoolismo. Eu bebia para diminuir a angústia, pois papai sempre preferiu o Jed... Meus inimigos são também aqueles intelectuais de bosta que riam de meus planos para a política da América, só porque eu pertencia à 'Skull and Bones Fraternity', uma espécie 'light' da gloriosa 'Ku Klux Klan'. Eram uns intelectuais babacas, puxa-sacos dos europeus, fascinadinhos pela França e Itália. Eu nunca fui a esses lugares na juventude... Para quê? Para enfraquecer minha fé na América? Diziam que eu era burro... Por isso, uso sempre essa expressão de seriedade, como se eu estivesse pensando em coisas profundas sobre o mundo. Cara 1: preocupação com o 'mundo livre'. Cara 2: 'cowboy vingativo'. Chamam-me de 'Forrest Gump', mas só eu sei da grandeza insuspeitada do homem médio. Há um bom senso profundo no republicano radical como eu. Um amor às coisas óbvias, à família gordinha, mamãe e filhinhos de olhares inocentes, mas atentos ao 'Mal', com seus hambúrgueres, o bacon, a 'root beer', o 'barbecue', o futebol americano, o charme da 'old religion', a 'country music', o horror ao estrangeiro, o amor à linha reta, ao princípio, o meio e o fim de tudo, a valentia em resolver problemas, sem atentar para complexidades afrescalhadas, resolver, arrasar, desde os índios até o Noriega. Assim, fizemos a maior nação do mundo - e não foi com dúvidas européias não; foi com a crueldade em nome da bondade, com a pureza do 'self interest', da conquista de mercados; assim, criamos esse grande país, com fé em Deus, na fidelidade à pátria de Cristo e na fidelidade conjugal, e não nos 'blowjobs' daquele canalha do Clinton. Tenho orgulho de ser um 'Forrest Gump', pois ele tem a sabedoria da estupidez, a pureza dos imbecis, a santidade da burrice. Os 'gumps' é que fizeram a maior nação do mundo, sem se dobrar a multilateralismos de bosta dos europeus; isso é coisa de quem não tem exércitos. Querem nos controlar com papos de ecologia, de ONU, de Tribunal Penal Internacional para nos julgar... Ninguém vai nos julgar mais. Esses intelectuais de quinta querem que eu deixe as maiores reservas de petróleo do mundo com o Sadam? Tenho de atender o Dick Cheney, velho petroleiro amigo dos que nos financiaram... Tenho de atender também nossos gênios militares, que nos fazem invencíveis... Há coisa mais bela que um avião 'Stealth', bombas inteligentes, a aerodinâmica dos jatos no céu, balas tracejantes, nuvens de fogo? Eu não lutei no Vietnã, papai arranjou-me um pistolão na Guarda Costeira, mas eu acho bela a guerra... Ahh... a beleza do heroísmo, até mesmo a beleza do martírio dos jovens que voltarão mortos, com funerais sob salvas de canhão. Eu sou o verdadeiro americano, sem frescuras importadas. A Europa nos despreza, e eu vou ficar puxando o saco daqueles babacas? Museuzinhos, catedraizinhas, filosofias, artezinhas, um papo de transcendência, de tradição milenar? É tudo 'bullshit'; eu acredito é no mercado, preço, lucro, utilidade. Humanismozinho é coisa da veados; humanismo é mercado... Tem cabimento a maior nação do mundo se igualando àqueles idiota da ONU: Nigéria, Costa Rica, Brazil? Ora, 'give me a break'. Não existe essa tal de 'política internacional'; só interesses internos e privados, como disse aquela crioula, a Condoleeza Rice. A crioulinha é fera... ha ha... tenho até de segurar ela... senão taca fogo em tudo... E ainda tenho de aturar aquele Colin Powell, metido a pombinha... Tudo bem, tive de botar esses afro-negões no poder para mostrar que não sou racista, apesar de ter torrado vários na cadeira elétrica do Texas... ah ah... um crioulo falcão e um pombinha; um lambe e o outro esfola. Mas, eu vou criar um mundo maravilhoso, tenho certeza. Já vejo os árabes tremendo de medo de mim, o petróleo jorrando nos postos de gasolina barata, abastecendo o ritmo do sonho americano, a Europa toda mudada, os Estados sem exércitos fortes, os Estados sem iniciativa, simbólicos, como monumentos vazios de outros tempos. Já vejo uma grande economia sem governos, todas dominadas por nós, a América Latina dominada, tudo dominado com a grande Alca regendo aqueles macacos. Só restará um grande mercado, limpo, sem países reais. Quero voltar a América para trás, antes dos hippies, dos negros, dos direitos civis... Então, nossa pátria sera a nação indispensável, com nossos céus cobertos por um grande guarda-chuva de satélites da 'guerra das estrelas', mísseis batendo no teto, com estrelas chinesas e russas, com nosso povo comendo hambúrgueres e olhando para cima, rindo dos foguetes domados. E, se a barra pesar muito, pau nos chineses que virão e nos russos e árabes também! Será o Juízo Final, mas só para eles. Nós ficaremos sozinhos na América, como eu aqui nesse banheiro de espelhos... Já imagino Meca derretendo, com aquela praça cheia de árabes sujos... Ha... ha... eu posso apertar um botão e acabar com essa porra! Viva eu! Sempre que penso nisso, tenho uma ereção... Meu Deus... o melhor afrodisíaco é a nuvem atômica! God! São milhões de pintinhos de 'bushinhos' se erguendo gloriosamente nos espelhos infinitos!... Aleluia! Finalmente, eu sou feliz!...
122. ARNALDO JABOR. O BRASIL ESTÁ FICANDO COM SAUDADES DA BURRICE. FHC cometeu a burrice de não ser burro. Acreditou demais na razão, achou que a inteligência lhe abriria um caminho fácil, tanto aqui como no coração do Primeiro Mundo. Lá fora, ele achou que a complexidade do processo seria entendida e que os donos do Poder Ocidental seriam razoáveis com sua terceira via tropical. Na prática, FHC aprendeu que a globalização é de mão-única, que os estrangeiros lhe dão títulos honoris causa, mas mantêm suas implacáveis regras comerciais. Aqui dentro, ele não esperava a bruta resistência da estupidez e da corrupção a seu projeto iluminista. Conseguiram virar sua “complexidade” em ininteligível “complicação”. E a era FHC pode passar à História como o governo que “desmoralizou a inteligência”. Dentro de um mundo que glorifica o fragmentário, o parcial, só as grandes corporações têm o direito à lógica linear dos seus interesses; no mundo da “democracia”, só elas podem ser autoritárias. Aqui e lá fora, a sociedade está faminta de simplismo. Surge na política a restauração alegre da burrice, com a sombra da “direita” por trás. Forrest Gump, o herói-babaca, foi o precursor; Bush é seu efeito. Ele se orgulha de sua burrice. Outro dia, em Yale, disse: “Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidente dos EUA”. É a vitoria da testa curta, o triunfo das toupeiras. Aqui, vemos também esse cansaço, depois das trapalhadas (e da urucubaca) deste governo, aqui vemos uma grande fome de simplismo “de resultados” (leia-se autoritarismo) de “dois e dois são quatro”, de “o vovô viu a uva”. Inteligência é chato; traz angústia, com seus labirintos. Inteligência nos desampara; burrice consola, explica. Os tucanos foram bichos hesitantes, cheios de “se” e de “talvez”. Os candidatos no horizonte vão trazer a mensagem tranqüilizadora do pão-pão-queijo-queijo, desde o populismo de direita ao populismo de esquerda, do obreirismo iluminado ao voluntarismo de classe média, todos buscando bandeiras fáceis de engolir. Temos infinita saudade da burrice. SÓ OS POBRES VERÃO DEUS. Existe na base do populismo brasileiro uma crença, de raiz lusitana, contra-reformista, de que o simplismo é a moradia da verdade. Em nossa cultura, achamos que há algo de sagrado na ignorância dos pobres, uma sabedoria que pode desmascarar a mentira “inteligente” do mundo. “Só os pobres de espírito verão Deus”, reza nossa tradição. A cultura lusitana estimulou a derrota social. Cada fracasso da sociedade fortalecia o Rei, tranqüilizava a Igreja e mantinha em pé a coluna hierárquica que ia dos servos até Deus-Pai, logo acima da Coroa. O bom asno é bem-vindo, enquanto o pernóstico inteligente é olhado de esguelha. A burrice é “sim” ou “não”. Na burrice, não há dúvidas. A burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice não tem fraturas. A burrice alivia — o erro é sempre do outro. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice até dá mais dinheiro; é mais “comercial”. Neste Brasil “apagado”, pré-eleitoral, pinta uma fome de regressismo, de voltar para a “taba”, para o casebre com farinha, paçoca e violinha. Da simplicidade viria a solidariedade, a paz, num doce rebanho ideológico que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz, das pestes, da violência do poder. É a utopia de cabeça para baixo, o culto populista da marcha a ré. Outro dia, vi na TV um daqueles “bispos” de Jesus de terno-e-gravata clamando para uma multidão de fiéis: “Não tenham pensamentos livres; o Diabo é que os inventa!”. Fiquei chocado, mas entendi que a liberdade é uma tortura para esses homens desamparados pela falta de cultura. Claro que o povo não é burro; tem sensibilidade para perceber o erro de um governo que, em nome da “razão”, ignorou a comunicação com ele. Sente um enorme vazio com a democracia, difícil de entender com suas ambivalências. O perigo é que os espertos vão manipular a ignorância da população para transformá-la em burrice. A burrice é a ignorância ativa, a militância dos desamparados sem informações. A burrice é a ignorância com fome de sentido. A DEMOCRACIA É CHATA. Populismos de vários matizes rondam as eleições de 2002. Itamar quer ser a cara do povo “traído”, do povo “vítima”. Como já escrevi, Itamar passa, em caricatura, o mesmo clima de Hitler, que dava a sensação de que sofrera alguma injustiça, ele e a Alemanha, ambos clamando por vingança. Itamar também. Com seu beicinho choroso e seu topete ao vento, ele nos faz sentir culpados, insinuando que estamos em dívida com ele. Ele é o símbolo do bom otário, do mineiro que comprou o bonde, do Jeca que caiu no conto-do-vigário e foi humilhado pelos intelectuais. Ele se diz “traído” por Collor, por FHC, por Lilian Ramos, em sua ingenuidade de bonzinho. Itamar é “de época”; ele é o “defensor” de nossas velhas convicções erradas, de nossa incompetência quase doce. Itamar é a classe média com saudades do passado medíocre. Ciro Gomes é inteligente, é bonito, com mulher bonita. Ciro deve abordar a massa pelo seu lado “macho”, tudo que FHC não deu (pelo que, acusam-no de Collor 2). Ciro faz um discurso moderno, mas ainda está dividido entre si mesmo e seu guru, o Mangabeira, um “professor Pardal” com sotaque, que faz ardentes conclamações a uma “mobilização” da classe média, onde se sente o sabor de um voluntarismo vagamente totalitário. Ciro ainda está dividido entre uma agenda moderna e uma prática messiânica. Lula tenta se modernizar, mas tem o rabo preso com a choldra burra do PT, que não consegue se livrar da idéia de “revolução” clássica, como um tumor inoperável. Ainda acham que vão “tomar” o poder, não ser “eleitos”. A classe média ainda teme os petistas. Só lhes resta virar PSDB hard ou adotar um populismo à esquerda de Itamar. O extraordinário Garotinho, nosso Tony Blair evangélico, quer ser um juscelininho dos idiotas, um sub-brizolinha pentecostal, um “Quércia honesto”, todos os populismos avalizados por Jesus. Seu apelido passa uma aura de menino maluquinho realizador, mas sua bochecha nos lembra mesmo é a moleza dos bombons “Garoto”. Não tem a menor chance, mas é uma caricatura didática do perigo que nos ronda. A verdade é que a democracia está decepcionando as massas. A liberdade é chata, dá angústia. A burrice tem a “vantagem” de simplificar o mundo. O diabo que burrice no poder chama-se fascismo.
123. ARNALDO JABOR. A história de minha vida política sempre oscilou entre dois sentimentos: esperança e desilusão. Cresci ouvindo duas teses divergentes, uma “dupla mensagem”: ou o Brasil era o país do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nesta encruzilhada, eu cresci. Além disso, dentro desta dúvida, havia outra: UDN ou PTB? Reacionários da elite ou “povão”? Brigadeiro ou Getúlio, finesse ou “sujeira”? Comecei a me interessar por política quando votei em Jânio. Confesso. Eu tinha 18 anos e não consegui me interessar por Lott, aquele general com cara de burro, pescoço duro. Jânio me fascinava com sua figura dramática, era uma caricatura vesga, cheia de caspa e dava a impressão de que ele, sim, era “de esquerda”, doidão, off . Meses depois, estou no estribo de um bonde quando ouço: “Jânio tomou um porre e renunciou!”. Foi minha primeira desilusão. Tinha sido eleito esmagadoramente, e largou o governo como se sai de um botequim. Ali, no estribo do Praia Vermelha, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da política, mais forte que slogans e programas “racionais”. Já na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice Jango, que a direita queria impedir. O exército do Sul, com Brizola à frente, garantiu a posse de Jango e botei na cabeça que, com uns militares legalistas e com heróis de esquerda, finalmente o Brasil iria ascender a seu grande futuro. Nos dois anos seguintes, vivi a esperança de um paraíso vermelho que iria tomar o país todo, numa réplica da rumba socialista de Cuba, a revolução alegre e tropical que iria acabar com a miséria e instalar a cultura popular, a grande arte, a beleza, sem entraves, sem inimigos visíveis, com o presidente e sua linda mulher fundando a “Roma tropical” como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia. Um velho mundo iria cair sem resistência. No dia 31 de marco de 64, estou na UNE comemorando a vitória de tudo. Havia um show com Grande Otelo, Elza Soares, comemorando a vitória do socialismo. Um amigo me abraçou, gritando: “Vencemos o imperialismo americano; agora, só falta a burguesia nacional!” Horas depois, a UNE pegava fogo e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de direita. Diante de mim, materializou-se a figura absurda de Castelo Branco, como um ET verde-oliva. Acho que virei adulto naquela manhã, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu tinha acordado de um sonho para um pesadelo. No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrático mínimo, que até serviu para virilizar nossa luta política. Agora, o inimigo tinha rosto e uniforme e contra ele se organizou uma resistência cultural rica e fértil, que se refinou pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingênuo pré-64. As idéias e as artes se engrandeceram na maldição. Com muita esperança, as passeatas foram enchendo as ruas, num heroísmo democrático que acreditava que os militares cederiam à pressão das multidões. Era ilusão. Ventava muito em Ipanema, dezembro de 68, enquanto o Gama e Silva lia o texto do Ato 5 na TV, virando o país num sinistro campo de concentração. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca lady Macbrega Yolanda, fechou o país por mais 15 anos. Esperança-desilusão. Vieram os batalhões suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do “milagre brasileiro”, os jovens românticos ou foram massacrados à bala ou caíram no desespero da contracultura mística, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos “milagres” de São Paulo. O bode durou 15 anos e a democracia virou uma obsessão. “Quando vier a liberdade, tudo estará bem!”, dizíamos. Só pensávamos na democracia e ninguém reparou que ela foi voltando menos pelos comícios das “diretas”, e mais pelas duas crises do petróleo que criaram a recessão mundial, acabando com a grana que sustentava os militares no poder. Os milicos e a banca internacional nos devolveram a “liberdade” na hora de pagar a conta da dívida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falência do Estado e entregaram-no aos paisanos eufóricos com a vitória de Tancredo. Nova esperança! Pois, justo aí, veio um micróbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa história. E aí começa a grande desilusão. Com a volta da democracia, no período Sarney, tudo piora. Apavorado, vi que a democracia só existia de boca, não estava entranhada nas instituições, que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos e políticos que tomaram o poder, todos nobres “vítimas da ditadura”. Daí para frente, só desilusão e dor: inflação a 80% ao mês (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da República, vergonha e horror. Depois, nova esperança com o impeachment; depois, mais esperança com o Plano Real, vitória da razão reformista com FHC, logo depois do Brasil no “tetra”, céu azul, esperança sem inflação. Nunca acreditei tanto na vida. Mas, hoje, estou aqui, com medo e com tristes pressentimentos. Temos o mistério Ciro, um maverick em busca de partidos, voz no deserto, com tintas voluntaristas inquietantes. Temos a oligofrenia oportunista de seres sinistros como Itamar agarrado em Quércia e Newtão, e temos este “flagelo de Deus” que é o Garotinho, apoiado pela superstição e pela miséria popular. Há a esperança de que o PT , se chegar ao poder, não caia no delírio leninista desconstrutivo e regressista. (Oh, Deus, mostre-lhes o mundo real!...) O trágico é que, para além das ideologias, existe no Brasil a maldição do “Mesmo”, uma grande empada de detritos que clama pelo atraso, que deseja a geléia geral, que odeia projetos racionais sejam do PT ou do PSDB, que quer um destino sem rumo, por ser mais lucrativo para corrupção e privilégios. É uma fome de amor ao atraso, à paralisia, que seis anos de FHC não conseguiram apagar. A grande chance histórica da razão pode ter sido perdida. Toda tentativa de racionalidade naufraga sistematicamente em nossa vocação para toupeiras e ratos. Vem aí “país do futuro” ou uma zorra? Mistério. Nem esquerda, nem UDN nem PTB. Ganha sempre o Partido do Mesmo.
124. ARNALDO JABOR. Se você acordou mal hoje, é melhor não ler este artigo. Está um bode preto. Sei que a tristeza não é “comercial”, como me disse um deprimido que ria o tempo todo para não ficar impopular. Mas, fazer o “quê”? — o artigo é sobre a loucura de hoje. (Não falo da loucura dos miseráveis; falo dos que vivem o “luxo” de ter projetos existenciais). Já vivi vários tipos de loucura. Conheci o delírio esperançoso pré-64, quando achávamos que o Brasil ia virar magicamente uma grande Ipanema, o que culminou com a porrada de 64 e 68, quando a repressão da ditadura disparou a psicose como ideologia na pequena-burguesia jovem que pensava o país. Ninguém sabe o que foi a porrada de 68. Você podia morrer, se risse alto de militares num cinema, você podia ser torturado se um síndico general cismasse com sua cara. O desespero da juventude nesses anos é irreproduzível. Só quem viveu. A mistura de angústia, drogas, misticismo, contracultura sem flores hippies, perigo de morte gerou ao menos uns sete anos de horror. Outro dia vi um filme underground da época que se passava todo dentro de um chiqueiro, com o ator comendo excrementos. Esse era o espírito do tempo... o zeitgeist de merda. Aí, a ditadura acabou, voltou a democracia, venceu o mercado, somos todos livres e, no entanto, qual é a loucura de hoje? A loucura de hoje é imperceptível. Este clima geral dispersivo, pagodeiro, gargalhante, desreprimido parece liberdade, mas não é. Depois da ditadura, chegamos a uma liberdade para desejar o quê? Bagatelas, micharias. Uma liberdade vagabunda, para nada, para rebolar o rabo nas revistas, para a ilusão de um narcisismo sem peias, uma liberdade “fetichizada”, transformada em produto de mercado e até mesmo disfarçada de revoltas “de festim”, êxtases volúveis, visíveis em clubbers e punks de butique, em raves sem rumo. Temos liberdade para escolher besteiras, somos livres dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, recordes sexuais, próteses de silicone, sucesso sem trabalho, substituição do mérito pela fama. Não precisa fazer nada; basta aparecer. Se antes havia excesso de ideologias, hoje somos todos um bando de ignorantes e frívolos, patetas, como crianças brincando dentro de um shopping. O amor está deixando muito a desejar. As paixões passaram a durar o tempo entre duas reportagens de “Caras”. Está desidealizado, isolado, um pretexto para a orgia de troca-trocas narcisistas. O casamento virou um arcaísmo careta. O sexo, uma competição de eficiência. Onde está a sutileza calma dos erotismos delicados? Onde, o refinamento poético do êxtase? Nada. No sexo e no sucesso, o desejo é virar máquina e atingir o desempenho perfeito, na busca do orgasmo definitivo e de um paraíso automático e sem sofrimento. Até criticar o erro do mundo ficou ridículo. A arte ficou ridícula, inócua, pregando num deserto de instalações melancólicas que ninguém vê. O cinema virou um “titanic”, um video game, com guetos de “independentes” queixosos. Os artistas não têm mais nem o consolo do pessimismo clarividente, do absurdismo iluminista de um Beckett ou Camus. Não há esperança nem na desesperança crítica.O absurdo ficou óbvio demais para ser condenado. A democracia em país analfabeto trouxe a fabulosa ascensão livre da cretinice nacional; viramos um grande pagodão e não adianta racionalizar e dizer que é legal. Não é. É uma bosta. A literatura está dividida em best-sellers e tediosos bisnetos de Joyce, patéticos e ignorados. Tudo fica gratuito, diante da irrelevância de qualquer ação humana sobre a sociedade. A razão cínica do “pode tudo” é um disfarce para o consumo indiscriminado de produtos. As coisas já mandam em tudo. A invasão das salsichas gigantes tomou conta de nosso destino, como um mau filme B de terror. Não temos mais futuro. O futuro virou uma promessa de aperfeiçoamento de produtos, com uma velocidade que fez do presente um arcaísmo em processo, uma espécie de passado “ao vivo” em decomposição. O velho passado é um museu de inúteis curiosidades históricas. Tudo tem de ser “novo”, sem tempo de envelhecer. Tudo morre jovem. A isso, soma-se a sensação de que a nação não controla mais seu destino, de que somos barquinhos à deriva no mar das corporações, de que a vida é um subproduto do balanço das companhias. E, ainda por cima, aqui no Brasil, temos a brutal resistência do atraso, do Mesmo. Há seis meses, o Senado discute o ACM e o Barbalhão, para que as grandes questões nacionais continuem intocadas, com a permanência da miséria. Estamos nos acostumando a isso. Pior que a violência é o acostumamento com a violência. O mal ficou banalizado e o bem, um luxo ridículo, quase uma vaidade, um hobby. Não é nem cinismo; é tédio. Há um sentimento difuso de que não somos participantes de nada, o que gera o sucesso dos evangélicos e o perigo de populismos fascistóides. Itamar e Garotinho estão por aí, rondando. E todos acham tudo normal. Todos rindo, dançando, felizes. A racionalização da boçalidade, da “peruíce”, do cafajestismo, é sólida. Não nos sabemos loucos. Somos “livres”. Em meu delírio, chego a desejar que alguma catástrofe aconteça, para nos despertar desta suja esperança, desta sórdida alegria. Por exemplo: se os países emergentes fizessem uma reunião e decidissem não pagar mais as dívidas externas, aí sim o mundo mudaria realmente e o capitalismo teria de repensar sua arrogância. Mas não adianta; “venceu o sistema da Babilônia e o garçom de costeleta...” — como escreveu Oswald. E se algum leitor zeloso chegou até aqui, eu pergunto: e aí, “meu semelhante e irmão”, preferes cianureto no champanhe ou formicida no guaraná?
125. ARNALDO JABOR. Meu avô foi um belo retrato do malandro carioca. Meu artigo de hoje é sobre ninguém. Meu avô não foi ninguém. No entanto, que grande homem ele foi para mim. Meu pai era severo e triste, mal o via, chegava de aviões de guerra e nem me olhava. Meu avô, não. Me pegava pela mão e me levava para o Jockey, para ver os cavalinhos. Foi uma figura masculina carinhosa em minha vida. Se não fosse ele, talvez eu estivesse hoje cantando boleros no Crazy Love, com o codinome Neide Suely. Mas por que escrevo sobre meu avô? Porque, há pouco, bateu o telefone e meu primo dr. Claudio Acylino de Lima me disse de cara: “Você está me devendo um artigo sobre vovô”. Escrevo sobre vovô porque esta política suja, girando em torno de Barbalhões, está me corroendo as entranhas. Literalmente. Estou internado com uma doença histórica, a diverticulite, que levou Tancredo para o beleléu e mudou o curso da história. Aliás, acabo de saber que serei operado hoje. Não farei história, mas se eu não voltar, leitores amigos, tomem cuidado com o populismo que ameaça o Brasil. Meu avô, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 40/50. Era um malandro carioca — em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de pérola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex, o chapéu-palheta, o relógio de corrente, seu Patek Phillipe tão invejado, em volta dele ressoava a língua carioca mais pura e linda, com velhas gírias (“Essa matula do Flamengo é turuna!”...). Meu avô era orgulhoso de viver nesta cidade baldia e amada, o Rio que soava nos discos de 78 RPM, nas ondas do rádio, o Rio precário e poético, dos esfomeados malandros da Lapa, das mulheres sem malho e de seus sofrimentos românticos, entre varizes e celulite. Antes de morrer, ele me olhou, já meio lelé, e disse a frase mais linda: “É chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu nunca mais vou à Avenida Rio Branco”. Ali, onde ele me levava para tomar refresco na Casa Simpatia, era o centro de seu mundo. Os políticos canalhas populistas que estão hoje aí querem a volta do passado apenas pelo lado “sujo” do atraso. Mas havia também uma poética do atraso — na Lapa, no Mangue, havia um Rio que, com poucas migalhas, fabricava uma urbanidade pobre, bela e democrática. Ele também me dava aulas de sexo. Contou-me uma vez que a melhor mulher que ele teve na vida tinha sido um “joão”. Que era “joão”? Esse termo, ainda escravista, designava as pretinhas tão pretinhas que tinham o pixaim da cabeça ralo, quase carecas. Eram as “joão”. Pois ele me disse: “Foi no terreno baldio, ali na General Belfort... foi o melhor nick fostene que eu tive...” (inventara esse nome de falso inglês de cinema americano para designar a cópula, sendo a palavra acompanhada pelo gesto vaivém de bomba de ”Flit“: Nick Fostene ...) Contava isso a um menino de 10 anos, a quem ele dava cigarros e ensinava (a mim e ao Claudio Acylino) a pegar bonde no estribo, andando. Me apresentou sua amante, uma mulher ruiva chamada Celeste, que me beijava trêmula e carente como uma avó postiça e que, sendo de “boa família” (ele me falava disso com uma ponta de orgulho), “nunca se metera em sua vida familiar oficial”. Isso ele dizia com os olhos machistas molhados de gratidão. Ou seja, ele me ensinava tudo errado e com isso me salvou. Quase analfabeto, vivera grudado com a turma dos intelectuais da Colombo, babando com os trocadilhos de Emilio de Menezes, Olavo Bilac, Agripino Grieco nos anos 20, o que lhe deu um fascinado amor às letras que não lia, mas que lhe fez trazer-me sempre um livro novo, da Rio Branco, junto com a goiabada cascão e o catupiry. Uma vez, já mais tarde, eu namorava uma moça lindíssima e virgem (claro) mas burrinha. Reclamei com ele. Resposta: “Ah, é burrinha? Você quer inteligência? Então vai namorar o Santiago Dantas!” Quando fomos aos sinistros “rendevus”, de onde nos floresceram as primeiras gonorréias, nossos pais severos bronquearam: “Vocês são uns porcos!” Já nosso vovô riu, sacaneando: “Poxa... boas mulheres hein...?” Vovô nos ensinava a conversar com as pessoas, olho no olho. Na minha família de classe média, celebravam-se as meias palavras, o fingimento de uma elegância falsa, de uma finesse irreal. Só meu avô falava com os vagabundos da rua, com os botequineiros, com os mata-mosquitos. Enquanto minha família toda votava histericamente na UDN, em pleno delírio golpista, meu avô pegou o chapéu, e foi votar. Eu fui atrás dele... “Votar em quem?” “No Getúlio, seu Arnaldinho... ele gosta do povo e eu sou povo”. “E eu sou ‘povo’ também, vovô?” — perguntei. Ele riu: “Você não; você tem velocípede...” Ele me levava ao Maracanã, ele me levava em seu ombro para ver a estrela de néon da cervejaria Black Princess (até hoje me brilha esta supernova na alma), ele, uma vez, deixou-me ver um morto na calçada, navalhado no peito (“Parecia a fita do Vasco da Gama”, ele disse) — não me escondeu a tragédia. Me ensinou tudo errado e me salvou... Meu avô adorava a vida e usava sempre o adjetivo “esplêndido”, tão lindo e estrelado. A laranja chupada na feira estava “esplêndida”, a jabuticaba, a manga-carlotinha, tudo era “esplêndido” para ele, pobrezinho, que nunca viu nada; sua única viagem foi de trem a Curitiba, de onde trouxe mudas de pinheiros. “Esplêndidos...” No fim da vida, já gagá, eu o levava ao Jockey para ele conversar com o Ernani de Freitas, o amigo tratador de cavalos, que lhe dava um carinho condescendente com sua gagazice , falando de cavalos que já haviam morrido. “Hoje corre a Tiroleza ou a Garboza?”, perguntava. “A Tiroleza está machucada, Arnaldo...” Velho gagá, deu para dizer coisas profundíssimas. Uma vez, já nos anos 70, celebrei para ele as maravilhas lisérgicas do LSD que eu tomara. Ele me ouviu falar em “delírio de cores”, “lucy in the skies” e comentou: “Cuidado, Arnaldinho, pois nada é só bom...” Outra vez, vendo passar um super -ripongão sujo, “bicho-grilo brabo”, comentou: “Olha lá. Um sujeito fingindo de mendigo para esconder que realmente é...!” Há dois anos, na exumação de um parente, o coveiro colocou várias caixas de ossos em cima do túmulo. Numa delas, estava escrito a giz: “Arnaldo Hess”. Não resisti e levantei de leve a tampa de zinco. Estavam lá os ossos de vovô. Vi um fêmur, tíbias, que eu toquei com a mão. Vocês não imaginam a infinita alegria de, por segundos, encostar em meu avô querido. Eu estava com ele de novo em 1952, sob o céu azul do Rio. Meu avô não era ninguém. Mas nunca houve ninguém como ele.
126. ARNALDO JABOR. Não me esqueço do ataque de riso que tive, muitos anos atrás, quando vi a autocrítica de um alto dirigente do PC da China, durante a Revolução Cultural. Quem foi? Lin Piao? Não me lembro. A “autocrítica” é um dos velhos hábitos dos comunas, uma espécie de confissão católico-vermelha, só que aos berros diante das massas. O dirigente começou sua autocrítica assim: “Eu sou um cão imperialista, eu sou o verme dos arrozais da China, eu sou a vergonha do comandante Mao...” Eu adorava ver essas manifestações da auto-anulação individual dos comunas pois, como me diziam os marxistas, o “individuo é uma ilusão”. Hoje, a “autocrítica”, para o PT no poder, se transformou na prática cotidiana, usual, do “desmentido”. Todo mundo dando gafe e depois desmentindo. O “desmentido” é o arrependimento do “se colar, colou”. Exemplo: Dirceu diz que vai “arrombar as portas e aprovar PPPs” ou diz que o Ministério Público é a “gestapo” de Hitler, ou que vai “dar um tiro no peito de Tasso”. Aí, desmente no dia seguinte. O Lula diz que jornalistas são covardes e depois desmente. Mas a verdade é a gafe do primeiro dia. É o que lhes vai pela cabeça, tão reprimidamente que pinta o ato falho. Aí, o sujeito “desmente”, numa fingida autopenitência, e todos aceitam. Eu, não, eu quero é que voltem as autocríticas do tempo de Mao. Quero ver o Gushiken bater no peito e berrar: “Eu sou a praga do cerrado, eu sou um cão bolchevista fingindo de democrata...” Muitas vezes o elemento petista não se sente obrigado a desmentir nem a fazer autocrítica, pelo uso matreiro de outro vício capital: a “mentira revolucionária”. A Secom do Planalto acaba de fazer isso com o trecho do discurso do Lula apoiando Marta que foi cortado por “pegar mal” ou o trecho atribuído a Gilberto Gil, por uma “companheira” já demitida, sem nome, que teria distorcido as palavras do ministro cantante. Quem é essa irresponsável burocrata do povo? Já terá sido estrangulada ou só está em “desgraça” num “gulag” qualquer das cidades-satélites? Ou não houve moça nenhuma? Stalin apagava das fotos os membros do partido que ele expurgava; portanto, nunca existiram. Tudo é absolvido pela “mentira revolucionária”, porque ela vem por uma “boa causa”. Outro vício capital dos comunas velhos é a sagrada prática da “luta interna”. Ah... como eles se refocilam nesse embate. A “luta interna” com base ideológica é exercida deliciosamente, pois todas as maldades, traições, intrigas, tapetes puxados, cascas de banana, tudo é “válido”, pois são agruras justificadas pelo “bem” do Partido. Ninguém estaria brigando por inveja, rancor, paranóia ou por problemas sexuais. Esses seriam vícios “pequeno-burgueses”. Eles brigam por motivos maiores, “revolucionários”: aventureirismo, sectarismo, revisionismo... Os perdedores se aquietam, quase felizes, pois foram esmagados pelo bem de todos, contra o “inimigo principal”, ou seja, quem não é do PT. Quando o Palocci saiu na capa da “Veja”, elogiado “pela burguesia”, eu pensei: “Tá frito...” Semana seguinte, começou a ciumeira disfarçada de desenvolvimentismo. Outro vício típico do anedotário petista é o “que saudades da KGB ou como era doce meu DIP”. Como os petistas não sabem sair da encruzilhada infernal entre responsabilidade fiscal e monetária e “desenvolvimento” (como aliás ninguém sabe ainda...), eles se dedicam à parte “espiritual” da velha ideologia: controle, fiscalização, tutela, espionagem e censura. Agora, estamos assistindo ao vício do baixo clero do PT: “a porrada revolucionária”, com os “militantes” atacando os comícios do José Serra para a prefeitura. Todo jogo tem porrada, sabemos. Mas ali é diferente. Há o zelo dos peões, dos pés-de-poeira da Marta, há uma missão bélica para impedir que os burgueses do PSDB ganhem a prefeitura. Os brutamontes da militância se acham imbuídos de uma missão sagrada: “Eu taquei um pé nos cornos daquele tucano filho de uma égua, esfreguei a cara dele no chão até ele gritar ‘Viva a Marta!’”. “E eu arrebentei a cara daquele ali! É isso que chamam de golpe de esquerda, Manelão?” Quase todos esses cacoetes derivam de um sentimento: “Somos superiores”. Quando eu era estudante, um dirigente do PC dizia sempre: “Não estamos com a doutrina certa? Então... é só aplicá-la”. Discutíamos infinitamente para chegar a uma conclusão da qual partíamos. Ideologia é isso. Essa “certeza superior” é encontradiça em homens-bomba, em bispos vermelhos, em padres de passeata como o Frei Betto, e encontramos também em Bush e seus fascistas... em muita gente. O autoritarismo e a truculência não são privilégio de radicais de direita. Entre os vícios do PT eu adoro um deles especialmente: o “militante imaginário”. Essa expressão é do pf. Gianotti. Perfeita: o sujeito nunca fez nada, nada pelo povo, nada pelo país, mas se considera um militante pelo bem da tal esquerda imaginária que ele cultiva dentro da cabeça, como um canteiro de “marias vagabundas”. O sujeito é de esquerda como se é Flamengo ou Corinthians. São contra “tudo isso que está aí”. São freqüentadores de bares do Rio e de universidades paulistas. Todo partido tem a turminha do “trabalho sujo”, interface entre o partido e o mundo torpe dos conchavos. No PT também: são os “canalhas revolucionários”, mas suas ações são toleradas por serem um mal “necessário” para a revolução. Os “canalhas revolucionários” agiram em Santo André, no próprio Planalto, como foi o caso do inefável Waldomiro. Recentemente, temos os milhares de sigilos quebrados pela CPI, feito atribuído ao Jose Mentor, para compor um belo arquivo para o futuro, talvez para os dias do justiciamento . “Canalhas revolucionários” são protegidos pelo Sistema. Não posso afirmar nada contra a honestidade de pessoas como o amigo de Lula, Roberto Teixeira, nem sobre o Sr. Cipriani, da Transbrasil. Mas as cortinas de fumaça impedem qualquer aprofundamento. E tudo em nome do socialismo que virá, pois como recomendou Stédile a seus sem-terra: “Tenham filhos; eles vão conhecer o socialismo...”.
127. ARNALDO JABOR. Croc croc croc — coaxam as rãs.Rãs do meu querido Brasil!... Não reparem em minhas lágrimas... Fugi da mídia e vim para o mato. Com vocês eu posso ser sincero, pois, afinal, vocês são as rãs mais caras do mundo, vocês já custaram mais de R$ 9 milhões aos cofres públicos... Oh, doces rãzinhas!... Vocês não me entendem, mas me olham, empilhadas nos tanques, com as patinhas prontas para me aplaudir... Ha ha... Vocês estão mais famosas que as rãs do Aristófanes... Vocês são as rãs do Barbalho, as minhas últimas correligionárias... Rãs: — Croc croc croc... Eu nunca quis ser uma rã, como vocês. Esta é a história de minha vida. Um homem ambicioso como eu, nascido na Amazônia, está perdido, pode ter vida de rã. Tudo que eu sempre quis foi fugir da condição desses bichos escondidos na lama. A floresta come tudo, come nossos raros ideais... É a síndrome de Belém e Manaus... Há uma estranha metempsicose na floresta. Se a gente bobeia, a alma dos bichos entra na gente. Eu nunca quis ser rã. Queria ser um bicho mais prestigiado como as sucuris ou as piranhas... As piranhas foram meu ideal-de-eu! Aqui as pessoas ficam com cara de bicho. Meu sócio José Osmar Borges parece um jacaré cínico, impassível, prestes a dar o bote. Minha mulher (que ela não me ouça...) tem cara de rã. Aliás, foi por isso que eu tive a idéia de financiar-lhe um ranário. Ha!... ha!... Meus suplentes e sucessores têm alma e cara de bicho. O Mestrinho parece uma tartaruga maquilada; meu vice, o Edson Lobão, é um bicho mais do seco do Maranhão, parece um calango faminto... É a metamorfose amazônica... Rãs: — Croc croc... Mas eu venci, senhoras rãs... Eu consegui fugir da vossa gosma! Em pouco tempo eu saí de um “fusca” velho e de um casebre da periferia e hoje... bem... hoje eu sou... era... uma potência! Comecei com discurso de esquerda, de vereador populista... Era moda na época... Foi um sucesso. Daí para frente, o poder me veio comer na mão. Prefeito, governador, ministro da reforma agrária... ahhh... foi um show de bola...TDAs vendidas... desapropriação de fazendas imaginárias... Que lindo!... Eu era um fazendeiro do ar... Ahhh... a volúpia de dispor da coisa pública, que não é de ninguém, esse dinheiro abstrato, sem dono... ahhh... E quanto mais perigoso o trambique, mais tesão... Eu tinha tanta paixão pelas tranquibérnias, pelas tramóias, que até deixei pistas, o “rabo de fora” de propósito, por tara mesmo... Ahh... cheques voando, “fantasmas”, “laranjas”, contas secretas... ahhh... que gozo quase sexual... E tem mais! Estes hipócritas que me perseguem não falam, mas sabem que sem trapaças, sem velhacarias, sem os doces superfaturamentos não há obras, não há nada... O Brasil se move pela mola dos interesses sujos... Esta é a verdade, no Sul, no Leste. Só os bisbórrias e os pilantras alavancam o progresso!! E eu não pensava só em mim... pensava no bem do Pará! Eu lutei por esta floresta de tesouros... Tanta gente veio de fora para roubar aqui, na Zona Franca, nas superintendências... E eu ficava revoltado: “Isso aqui é terra nossa! Viram, seus paulistinhas peculatários e ladrõezinhos do Sul, isso aqui tem dono!” Eu fui a defesa da Amazônia, eu, Mestrinho, Amazonino, tantos heróis, tão grandes como Plácido de Castro... Eu sou um exemplo, um ícone da tradição fisiológica florestal!... Eu devia ser preservado como uma ararinha azul e não caçado como uma ratazana grávida!... aiii, aiii... uhhhhh!... Croc croc croc. Ai... ai... uhhh!... Este Brindeiro que me denunciou parece um sagüi assustado, piscando de medo e me acusando aos urubus de capa preta do STF... Todos são bichos, ou bichas... ha ha... No Sul-Maravilha, todos falam da Amazônia com orgulho: “Nosso pulmão verde!” Não sabem do baixo-astral que é a vida na selva: piranha comendo jacaré, jacaré comendo bezerro, sapo comendo minhoca, jibóia comendo sapo... A política toda aqui é assim... mais que em Brasília... Em nossa tradição escravista e patrimonialista, a coisa pública é um prato de comida... Se um não comer, o outro come... E estes hipócritas me fizeram um símbolo da “imoralidade nacional”... E o resto do Congresso? Tirando meia dúzia de bobos, o Congresso é um “inferno verde”... Estes canalhas querem me extinguir... Eu sou um mico-leão-dourado e querem me substituir por novas formas de corrupção “global”, anglo-saxônica... Aí, em vez de rãs, teremos grandes insetos falando inglês... Eu sou a preservação da grande linhagem do espertalhão folclórico... Eu sou Macunaíma contra o Mr. Smith... Luis da Câmara Cascudo me defenderia... Eu sou material de cultura popular... Eu sou um pirarucu... uma piranha vencedora!! Croc... Ohh... minhas rãzinhas... coitadinhas... Graças a Deus, vocês não entendem meu discurso, porque vocês são umas desgraçadas... Vocês me lembram um campo de concentração, onde são mortas por choque e decapitação, o massacre mais caro da história, 9 milhões... ha ha!... É horrível, mas confesso que me dá um certo tesão... Vocês mortas parecem pequenas mulheres de perna aberta... Aquela fila de mulherzinhas nuas... E esse holocausto acaba em restaurantes finos... Oh, ironia... Esses grã-finos que vão comer vocês, à provençal, nada sabem da vossa tragédia amazônica, nem da minha... Ai, aiiii, uhhhh... Eu sempre vivi na lama dos rios, na beira dos alagados e, hoje, eu tenho orgulho de mim: eu tenho piscinas, fazendas, helicóptero, barrigão, eu tenho Mercedes, jatinhos... eu... eu croc eu... eu... eu croc eu... minha honra... croc... croc... urghhhht... que é isso? Sinto uma gelada gosma me cobrindo... Meus braços estão mais finos... meu Deus... meu corpo está oleoso, minhas sobrancelhas caíram... Estou ficando verde.. meu... arghhh... croc croc... Senhoras rãs... vocês... me salvem... eu não quero... sou gente... eu sou o senador... croc... croc... o senad... croc... Rãs: — Idiota! Rã não fala!... Croc.
128. ARNALDO JABOR. Vinte e cinco anos atrás, o cinema brasileiro estava decolando: filmes com dez milhões de espectadores — “D. Flor”, “Xica da Silva”, “Lucio Flávio” — dando tanto lucro quanto os “tubarões” e “exorcistas”. O público abarrotava as salas com filmes brasileiros. Por isso, alarmado, mr. Jack Valenti, o capo do cinema americano, voou correndo para o Brasil, para impedir nosso progresso. Veio falar com Geisel, fazer ameaças. Hoje, quando estamos melhorando, com a criação do Gedic (Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica), um novo programa de regulamentação para o cinema, Jack Valenti volta a ameaçar. Ele e seu funcionário local, Steve Solot, estão despachando arrogantes “cartas-bomba” para o governo, com ameaças de retaliação comercial e preparando lobbies para intimidar e comprar deputados, de modo a destruir nosso projeto de ter um mercado interno. Há 25 anos, escrevi um poema-protesto contra Valenti. Hoje, com 79 anos, ele não mudou nada; nem ele nem os americanos, que falam em “mercado aberto” para enganar otários. Meu poema, enxugado, continua atual. “O sangrento coquetel de Hollywood”. “Hoje, quando já se fecha a pálpebra do “american dream”/ e começa a grande noite de perigo no Sunset Boulevard, hoje,/ quando a “democracia global” já é motivo de ironia nos bares/ elegantes de Nova York — se bem que todos suportam a miséria do mundo como um mal necessário à delícia de viver/ e ninguém joga fora, com sentimento de culpa, seus rubros bloody maries / — neste instante,/ Jack Valenti, com seu sorriso republicano,/ gravata de estrelas/ e sólido rosto com/ traços de Dick Tracy/ George Wallace, Liberace e Billy Graham,/ e tantos outros robôs da gargalhada infinita,/ neste momento,/ com a sólida valise dos objetivos indestrutíveis/ com o topete que nossa Dívida Externa deu aos executivos internacionais,/ Jack Valenti descerá do seu avião de guerra/ no país das promissórias vencidas. Em Brasília,/ Mr. Valenti dará entrevistas sobre “livre mercado”,/ e nos fará veladas ameaças, com/ seus dentes brancos, seu shake hands , sua água-de-colônia envenenada,/ que intimidarão nossos chefes-de-gabinete/ hipnotizados pelas luzes da Broadway,/ e então,/ sob os sapatos não-brasileiros de Valenti,/ os tapetes rubros de nossa cordialidade deslizarão sob seus pés/ e ninguém verá no ar os crimes do cinema americano,/ ninguém verá os corpos de nossas pobres mentes mortas/ ninguém reconhecerá as lesões,/ não há legista que descubra as marcas de livores em nossa alma,/ ferida roxa, ferida rosa, ferida de arco-íris,/ poeira de estrelas em nossos olhos,/ homens tatuados que nós somos/ pelas mil aventuras de Hollywood,/ queimaduras de Eastmancolor/ amarelo-kodak de nossa fome. Então, Mr. Valenti tirará da mala de desígnios indestrutíveis/ os valores mais sagrados do Império ocidental: a simetria, a continuidade,/ o princípio, o meio, o fim, o happy end ,/ e sua visão mercantil de liberdade./ Nós fugiremos,/ mas, de sua pasta de desígnios indestrutíveis/ sairá o King Kong de nosso Inconsciente/ e ele crescerá/ a cada ruflar de dedos/ ele crescerá/ ele, o monstro de papier maché de nosso desejo colonizado,/ esse gênio da lâmpada com pernas de Ben Hur,/ cara de Estátua da Liberdade/ seios de Marilyn Monroe/ lábios de Las Vegas/ olhos de Las Vegas/ vaginas luminosas de Las Vegas,/ bocas de beijos infinitos/ na tela do sonho paranóico de Hollywood. E, como um leite venenoso do grande seio da Califórnia,/ nossas antenas de TV mamarão para sempre/ a mais infernal mentira já montada pelo homem,/ e eles virão/ com seus dentes de celulóide,/ eles virão com coxas de Rachel Welch,/ eles virão com seus olhos de “Carrie, a estranha” espalhando morte nas salas/ eles virão ao coquetel sangrento de Jack Valenti/ eles virão com seus figurantes sonâmbulos,/ mas não trarão as aves-do-paraíso de Busby Berkeley,/ nem as asas de Fred Astaire/ nem a doce cicatriz de Gene Kelly.../ eles virão e virá o chumbo grosso das metralhadoras de Tom/ e o fino punhal de Jerry/ e virá o grande tubarão branco/ com as sedas de Jean Harlow sangrando entre os dentes/ eles virão ao funeral de nossa cultura/ e virão os seus cineastas covardes, obedientes,/ caminhando com as muletas roubadas/ dos velhos Hawks, Ford, Hitchcock e Vidor,/ enquanto Nicholas Ray cai de porre numa viela de Carmel/ e Orson Welles faz comercial de uísque em Amsterdã,/ eles virão nos vender seus últimos peixes/ eles virão no fim do sonho americano/ na última bobina do sonho americano/ eles virão vender os últimos retalhos de seus mitos remendados/ os manequins rotos, olhos caídos,/ a paina esfiapada de seus bonecos falsoso ferro-velho dos estúdios,/ eles virão para o Baile da Ilha Fiscal da nacionalidade/ e farão seus “titanics” explodir nas piscinas dos milionários,/ e Linda Blair virá rodando a cabeça aos quatro ventos/ e virão todos maquilados/ brancos de gesso, sorridentes/ casacas fosforescentes, porrete na mão,/ para nos vender os últimos resquícios da esperança/ de Carmen Miranda,/ mas não trarão Carmen Miranda caída morta/ nem Judy Garland drogada pelos executivos/ nem Marilyn flutuando na piscina envenenada do seu último teste/ nem as cenas cortadas de “Greed” de Stroheim,/ nem o cadáver de James Dean,/ nem nada,/ quem vem é a última geração biônica,/ Jack biônico/ coração de celulóide,/ brilhantina de napalm/ unhas de Nixon. E, quando a orquestra dos cubancheros brasileños / tocar em suas maracas “That’s entertainement”,/ todas as colunas sociais vão dançar/ capas de “Vogue” vão dançar,/ modelos magros jorrando marshmallow pelas bocas/ esqueletos com rosas entre as vértebras/ todos vão dançar com deputados comprados/ grã-finas deslumbradas,/ enquanto do lado de fora, o avião de Valenti, flutuando nos céus do Brasil,/ leva para o Norte os bilhões de dólares de ingressos vendidos aqui/ sob o olhar dos brasileiros cegos para o própio rosto.” (Imperialismo americano não muda; os cineastas sabem disso...)
129. ARNALDO JABOR. A história de minha vida política sempre oscilou entre dois sentimentos: esperança e desilusão. Cresci ouvindo duas teses divergentes, uma “dupla mensagem”: ou o Brasil era o país do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nesta encruzilhada, eu cresci. Além disso, dentro desta dúvida, havia outra: UDN ou PTB? Reacionários da elite ou “povão”? Brigadeiro ou Getúlio, finesse ou “sujeira”? Comecei a me interessar por política quando votei em Jânio. Confesso. Eu tinha 18 anos e não consegui me interessar por Lott, aquele general com cara de burro, pescoço duro. Jânio me fascinava com sua figura dramática, era uma caricatura vesga, cheia de caspa e dava a impressão de que ele, sim, era “de esquerda”, doidão, off . Meses depois, estou no estribo de um bonde quando ouço: “Jânio tomou um porre e renunciou!”. Foi minha primeira desilusão. Tinha sido eleito esmagadoramente, e largou o governo como se sai de um botequim. Ali, no estribo do Praia Vermelha, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da política, mais forte que slogans e programas “racionais”. Já na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice Jango, que a direita queria impedir. O exército do Sul, com Brizola à frente, garantiu a posse de Jango e botei na cabeça que, com uns militares legalistas e com heróis de esquerda, finalmente o Brasil iria ascender a seu grande futuro. Nos dois anos seguintes, vivi a esperança de um paraíso vermelho que iria tomar o país todo, numa réplica da rumba socialista de Cuba, a revolução alegre e tropical que iria acabar com a miséria e instalar a cultura popular, a grande arte, a beleza, sem entraves, sem inimigos visíveis, com o presidente e sua linda mulher fundando a “Roma tropical” como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia. Um velho mundo iria cair sem resistência. No dia 31 de marco de 64, estou na UNE comemorando a vitória de tudo. Havia um show com Grande Otelo, Elza Soares, comemorando a vitória do socialismo. Um amigo me abraçou, gritando: “Vencemos o imperialismo americano; agora, só falta a burguesia nacional!” Horas depois, a UNE pegava fogo e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de direita. Diante de mim, materializou-se a figura absurda de Castelo Branco, como um ET verde-oliva. Acho que virei adulto naquela manhã, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu tinha acordado de um sonho para um pesadelo. No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrático mínimo, que até serviu para virilizar nossa luta política. Agora, o inimigo tinha rosto e uniforme e contra ele se organizou uma resistência cultural rica e fértil, que se refinou pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingênuo pré-64. As idéias e as artes se engrandeceram na maldição. Com muita esperança, as passeatas foram enchendo as ruas, num heroísmo democrático que acreditava que os militares cederiam à pressão das multidões. Era ilusão. Ventava muito em Ipanema, dezembro de 68, enquanto o Gama e Silva lia o texto do Ato 5 na TV, virando o país num sinistro campo de concentração. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca lady Macbrega Yolanda, fechou o país por mais 15 anos. Esperança-desilusão. Vieram os batalhões suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do “milagre brasileiro”, os jovens românticos ou foram massacrados à bala ou caíram no desespero da contracultura mística, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos “milagres” de São Paulo. O bode durou 15 anos e a democracia virou uma obsessão. “Quando vier a liberdade, tudo estará bem!”, dizíamos. Só pensávamos na democracia e ninguém reparou que ela foi voltando menos pelos comícios das “diretas”, e mais pelas duas crises do petróleo que criaram a recessão mundial, acabando com a grana que sustentava os militares no poder. Os milicos e a banca internacional nos devolveram a “liberdade” na hora de pagar a conta da dívida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falência do Estado e entregaram-no aos paisanos eufóricos com a vitória de Tancredo. Nova esperança! Pois, justo aí, veio um micróbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa história. E aí começa a grande desilusão. Com a volta da democracia, no período Sarney, tudo piora. Apavorado, vi que a democracia só existia de boca, não estava entranhada nas instituições, que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos e políticos que tomaram o poder, todos nobres “vítimas da ditadura”. Daí para frente, só desilusão e dor: inflação a 80% ao mês (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da República, vergonha e horror. Depois, nova esperança com o impeachment; depois, mais esperança com o Plano Real, vitória da razão reformista com FHC, logo depois do Brasil no “tetra”, céu azul, esperança sem inflação. Nunca acreditei tanto na vida. Mas, hoje, estou aqui, com medo e com tristes pressentimentos. Temos o mistério Ciro, um maverick em busca de partidos, voz no deserto, com tintas voluntaristas inquietantes. Temos a oligofrenia oportunista de seres sinistros como Itamar agarrado em Quércia e Newtão, e temos este “flagelo de Deus” que é o Garotinho, apoiado pela superstição e pela miséria popular. Há a esperança de que o PT , se chegar ao poder, não caia no delírio leninista desconstrutivo e regressista. (Oh, Deus, mostre-lhes o mundo real!...) O trágico é que, para além das ideologias, existe no Brasil a maldição do “Mesmo”, uma grande empada de detritos que clama pelo atraso, que deseja a geléia geral, que odeia projetos racionais sejam do PT ou do PSDB, que quer um destino sem rumo, por ser mais lucrativo para corrupção e privilégios. É uma fome de amor ao atraso, à paralisia, que seis anos de FHC não conseguiram apagar. A grande chance histórica da razão pode ter sido perdida. Toda tentativa de racionalidade naufraga sistematicamente em nossa vocação para toupeiras e ratos. Vem aí “país do futuro” ou uma zorra? Mistério. Nem esquerda, nem UDN nem PTB. Ganha sempre o Partido do Mesmo.
130. ARTHUR AZEVEDO. DE CIMA PARA BAIXO. Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete, e imediatamente mandou chamar o diretor-geral da Secretaria. Este, como se movido fosse por uma pilha elétrica, estava, poucos instantes depois, em presença de Sua Excelência, que o recebeu com duas pedras na mão. — Estou furioso! — exclamou o conselheiro; — por sua causa passei por uma vergonha diante de Sua Majestade o Imperador. — Por minha causa? — perguntou o diretor—geral, abrindo muito os olhos e batendo nos peitos. — 0 senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado! — Que me está dizendo, Excelentíssimo?... E o diretor-geral, que era tão passivo e humilde com os superiores, quão arrogante e autoritário com os subalternos, apanhou rapidamente no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara, e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida: — É verdade! Passou-me! Não sei como isto foi... — É imperdoável esta falta de cuidado! Deveriam merecer-lhe um pouco mais de atenção os atos que têm de ser submetidos à assinatura de Sua Majestade, principalmente agora que, como sabe, está doente o seu oficial-de-gabinete! E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu: — Por sua causa esteve iminente uma crise ministerial: ouvi palavras tão desagradáveis proferidas pelos augustos lábios de Sua Majestade, que dei a minha demissão!... — 0h!... — Sua Majestade não o aceitou... — Naturalmente; fez Sua Majestade muito bem. — Não a aceitou porque me considera muito, e sabe que a um ministro ocupado como eu é fácil escapar um decreto mal copiado. — Peço mil perdões a Vossa Excelência — protestou o diretor-geral, terrivelmente impressionado pela palavra demissão. — 0 acúmulo de serviço fez com que me escapasse tão grave lacuna; mas afirmo a Vossa Excelência que de agora em diante hei de ter o maior cuidado em que se não reproduzam fatos desta natureza. 0 ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo: — Bom! Mande reformar essa porcaria! 0 diretor-geral saiu, fazendo muitas mesuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe da 3a seção, que o encontrou fulo de cólera. — Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. Ministro! — Por minha causa? — 0 senhor mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcionário nomeado! E atirou-lhe o papel, que caiu no chão. 0 chefe da 3a seção apanhou-o, atônito, e, depois de se certificar do erro, balbuciou: — Queira Vossa Senhoria desculpar-me, Sr. Diretor... são coisas que acontecem... havia tanto serviço... e todo tão urgente!... — 0 Sr. Ministro ficou, e com razão, exasperado! Tratou-me com toda a consideração, com toda a afabilidade, mas notei que estava fora de si! — Não era caso para tanto. — Não era caso para tanto? Pois olhe, Sua Excelência disse-me que eu devia suspender o chefe de seção que me mandou isto na pasta! — Eu... Vossa Senhoria... — Não o suspendo; limito-me a fazer-lhe uma simples advertência, de acordo com o regulamento. — Eu... Vossa Senhoria.— Não me responda! Não faça a menor observação! Retire-se, e mande reformar essa porcaria! 0 chefe da 3a seção retirou-se confundido, e foi ter à mesa do amanuense que tão mal copiara o decreto: — Estou furioso, Sr. Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante do sr. diretor-geral! — Por minha causa? — 0 senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível! Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado! E atirou o papel, que bateu no peito do amanuense. — Eu devia propor a sua suspensão por 15 dias ou um mês: limito-me a repreendê-lo, na forma do regulamento! 0 que eu teria ouvido, se o sr. diretor-geral me não tratasse com tanto respeito e consideração! — 0 expediente foi tanto, que não tive tempo de reler o que escrevi... — Ainda o confessa! — Fiei-me em que o sr. chefe passasse os olhos... — Cale-se!... Quem sabe se o senhor pretende ensinar-me quais sejam as minhas atribuições?!... — Não, senhor, e peço-lhe que me perdoe esta falta... — Cale-se, já lhe disse, e trate de reformar essa porcaria!... 0 amanuense obedeceu. Acabado o serviço, tocou a campainha. Apareceu um contínuo. — Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da seção! — Por minha causa? — Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado! — Foi porque... — Não se desculpe: você é um contínuo muito relaxado! Se o chefe não me considerasse tanto, eu estava suspenso, e a culpa seria sua! Retire-se! — Mas... — Retire-se, já lhe disse! E deve dar-se por muito feliz: eu poderia queixar-me de você!... 0 contínuo saiu dali, e foi vingar-se num servente preto, que cochilava num corredor da Secretaria. — Estou furioso! Por sua causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas! — Por minha causa? — Sim. Quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que te demoraste tanto? — Porque... — Cala a boca! Isto aqui é andar muito direitinho, entendes? — Porque, no dia em que eu me queixar de ti ao porteiro estás no olho da rua. Serventes não faltam!... 0 preto não redargüiu. 0 pobre diabo não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois do jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão. 0 mísero animal, que vinha, alegre, dar-lhe as boas-vindas, grunhiu, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés. 0 cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe da seção, pelo diretor-geral e pelo ministro!...
131. ARTHUR AZEVEDO. AS BARBAS DO ROMUALDO. O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altos destinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educá-lo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exército, e, depois de obtida a sua baixa, contínuo de secretaria. Releva dizer que o Romualdo só deixou crescer as barbas depois de contínuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capitão pelo menos. Mas que contínuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suíças brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um júri sensacional, e essa ilusão só se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prosápia do "povo da lira". Calado era um juiz; falando, um capadócio. Os praticantes amanuenses e mais funcionários do chefe de secção para baixo envergonhavam-se de o chamar a toque de campainha, que naquele tempo as campainhas burocráticas ainda não eram elétricas. As de hoje são menos humilhantes, não sei se devido à eletricidade, se à ausência do badalo. O badalo foi sempre impertinente e autoritário. Era, em verdade, pelo menos desagradável para um funcionário rapazola ver diante da sua mesa de trabalho aquele homem solene, a dizer-lhe, por exemplo: — Leve este ofício à portaria. O Romualdo não ignorava o respeito que infundia ao pessoal da repartição, e abusava da respeitabilidade das suas barbas. Muitas vezes estava sentado no saguão da secretaria, de óculos, entretido a ler o seu jornal, quando o retintim de uma campainha tímida lhe entrava pelos ouvidos, chamando-o à realidade da sua situação de subalterno. Era o mesmo que se não tivesse ouvido. Quando o som argentino retinia pela terceira vez, ele murmurava sem interromper a leitura e não tão baixo que o não ouvissem: — Pois sim!...toca p'r'aí!...súcia de vadios!...não têm mais que fazer senão dar ao badalo!...— Tlin! tlin! tlin!... — Toca, toca, meu menino!...estou bem aqui!... Afinal, abria-se um reposteiro, para deixar passar a cabeça do funcionário incipiente...e impaciente: — Então, seu Romualdo? Há uma hora que estou a tocar! O contínuo erguia a cabeça, tirava os óculos, guardava-os na algibeira, dobrava com lentidão o jornal, erguia-se majestosamente, e perguntava do alto das suas barbas: — Que temos? Nem uma palavra de desculpa, nem a sombra de uma explicação! O amanuense não se atrevia a protestar: intimidava-o aquele aspecto de pessoa grada ou cidadão conspícuo. Em casa, depois que deixara crescer as suíças, o Romualdo poderia dizer-se oráculo. A mulher e os filhos admiravam-no; os parentes diziam todos à uma que era clamoroso estar ali um simples contínuo, quando tinha capacidade para dirigir uma repartição de primeira ordem. Nos penates ele falava pelas tripas do Judas, discorrendo sobre todos os assuntos sociais ou políticos, e dando sobre cada um a sua opinião individual. Nessas ocasiões só dizia parvoices, mas a família ouvia-o embevecida e assombrada diante de tanto saber. Era um efeito das barbas. Nas ruas, o Romualdo era cumprimentado por muita gente que o não conhecia, porque a sua figura solicitava a consideração e o respeito dos estranhos. Alguns, depois de passar por ele, olhavam para traz e perguntavam a si mesmos: Quem será aquele figurão? Quando o deputado foi nomeado ministro e pela primeira vez entrou na secretaria, impressionaram-no aquelas barbas, e indagou a quem pertenciam. Quando lhe responderam que o Romualdo era um simples contínuo, imediatamente ordenou que ele fosse servir no gabinete. Achou-o decorativo. Ao lado do ministro, o Romualdo, sem que para isso concorresse outra coisa mais que não fosse a exibição das suas barbas, captou a confiança e até certo ponto, a familiaridade de s. ex., e isso o tornou ainda mais solene e majestático. Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o ministro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secretaria, rapidamente, qualquer ordem de s. ex. Naquele tempo ainda não havia telefone. No anunciar visitas e dar recados, o nosso homem, que era positivamente um mau contínuo, revelou qualidades excepcionais, e de uma vez até pôs as suas gloriosas suíças ao serviço da boa harmonia administrativa. O caso conto como o caso foi. O ministro andava, não sei porque, às turras com o diretor da Estrada de Ferro, e já o teria demitido, ou por outra apresentado em conselho o respectivo decreto, se não soubesse que o homem era protegido pelo imperador, e ele, ministro, não fosse tão agarrado à pasta. Um dia o alto funcionário precisou falar ao ministro sobre matéria urgente de serviço, e, não o achando na secretaria, foi ter à sua casa. Encontrou na ante-sala as barbas do Romualdo, que cochilava sentado numa cadeira. — O ministro está? — Está, sim, senhor. — Vá dizer a esse idiota que o diretor da Estrada de Ferro precisa falar-lhe com urgência. O Romualdo, que já se havia erguido, inclinou-se, penetrou no gabinete do ministro, e disse-lhe: — Está aí o sr. diretor da Estrada de Ferro que pede a v. ex. o obséquio de lhe conceder alguns minutos de atenção para assunto urgente. O ministro, sem levantar os olhos do seu trabalho, respondeu: — Diga a essa besta que não estou para o aturar, e que não me amole! O Romualdo inclinou-se, saiu, e veio dizer ao funcionário: — O sr. conselheiro manda pedir a v. ex. o obséquio de procurá-lo noutra ocasião, porque neste momento está muito ocupado, e sente não poder prestar a v. ex. toda a atenção que v. ex. merece. O diretor da Estrada de Ferro saiu arrebatadamente, gritando: — Pois diga—lhe que vá para o diabo que o carregue! O Romualdo voltou ao gabinete, e assim falou : — O sr. diretor da Estrada de Ferro manda agradecer a bondade com que v. ex. o tratou, e diz que mais tarde procurará v. ex. na secretaria. Com aquelas suíças, quem poderia supor que o Romualdo mentisse?
132. AUGUSTO NUNES. Enfrentemos os nostálgicos da escuridão. Lula parece não saber quem é o chefe supremo das Forças Armadas. Viegas é um ministro sem coragem para esmagar o ovo da serpente. Embora seja necessário esclarecer a origem das fotos e os motivos da divulgação inesperada, tem importância secundária a identificação do ser humano que aparece naquelas imagens ultrajantes. Seja o jornalista Wladimir Herzog, seja o padre Léopold D'Astous, ali está um homem - um homem brutalizado por torturadores a serviço da ditadura militar. No Brasil de 2004, já distante da noite autoritária, iluminado pela restauração da democracia republicana, afiguram-se bem mais graves certos desdobramentos do episódio, sobretudo duas notas subscritas por autoridades militares. A primeira morde, a segunda sopra. Ambas esbofeteiam a Constituição. A primeira foi atribuída ao general Antônio Gabriel Esper, chefe do Centro de Comunicação do Exército. Na forma e no conteúdo, lembra a arrogância enfurecida dos velhos senhores dos porões ao longo dos anos de chumbo. A segunda, subscrita pelo general Francisco Albuquerque, comandante do Exército, desautoriza a anterior no tom indulgente de quem recomenda cautela ao filho brigão. Mas o ministro da Defesa, José Viegas, gostou. "O caso está encerrado", decidiu. Não está. Só estará depois de punidos os subversivos fardados. A Constituição informa que o presidente é o chefe supremo das Forças Armadas. É Lula o nº 1 também nos quartéis. Na ordem hierárquica vigente, ao presidente se seguem o ministro da Defesa e o comandante do Exército, também agredidos pelos subversivos. Viegas é considerado por dezenas de oficiais uma flor de pusilanimidade. Merece. O Brasil é que não merece esse ministro incapaz de impor-se a supostos subordinados, começando pelo general Albuquerque. Induzido por recordações de tempos que não voltarão, Lula comportou-se com o tipo de prudência que se confunde com o medo. Um erro grave. Ele precisa, e com urgência, demitir Viegas, trocar o chefe do Exército e enquadrar todos os envolvidos no motim. Os remanescentes do serpentário têm de aprender que a era das quarteladas acabou. Informado de que os soldados brasileiros em serviço no Haiti, incorporados à força de paz formada pela ONU, também estão cuidando do controle de favelas conflagradas em algumas cidades daquele país exposto a ondas sucessivas de violência, o Cabôco Perguntadô ficou bastante confuso. Quando alguém ressuscita a idéia de engajar tropas militares no esforço conjunto para pacificar os morros do Rio de Janeiro, generais, políticos e juristas argumentam que não é esse o papel das Forças Armadas. O Cabôco Perguntadô quer saber: se pode no Haiti, então por que não pode aqui? A taça está com Pudim. Entusiasmado com o tamanho da fila de eleitores em busca do sonho prometido pela governadora Rosinha - distribuir casas ao preço de R$ 1 se o novo prefeito de Campos for Geraldo Pudim -, o candidato apoiado pelo casal Garotinho já ganhou ao menos a taça da semana. A frase premiada: "Na ordem dos escolhidos, é claro que terá preferência quem votar em mim". Os jurados do Yolhesman Crisbelles particularmente impressionados com a esperteza da inversão: em Campos, o prato principal só será servido ao populacho depois de engolida a sobremesa. Garganta à prova de quedas. Reprodução de TV. Nem mesmo quedas espetaculares afetam a loquacidade de Fidel Castro. Antes mesmo de erguer-se da calçada em Santa Clara, ainda empapado de suor, o ditador cubano empunhou o microfone para dirigir-se à nação estremecida. Reprodução de TV. “Eu lhes peço perdão por ter caído”, discursou. “Tenho uma fratura no joelho e talvez uma no braço, mas estou inteiro”. Maravilha. Falta agoraz encontrar o agente da CIA que infiltrou aquele degrau traiçoeiro no caminho do Comandante. Falta um Duda a Duda. Marqueteiro-mor do governo federal, Duda Mendonça talvez contrate alguém para melhorar a própria imagem. O arranhão mais recente acabou por afastá-lo da chefia da campanha de Marta Suplicy. Na quinta-feira, preso pela Polícia Federal numa rinha do Rio da qual é sócio, o criador de galos de briga apaixonado pelos combates ferozes entre as aves deixou a cadeia, horas depois, no papel de indiciado. "O Brasil inteiro sabe que meu hobby é esse", alegou. Certo. "Não estou fazendo nada de errado". Engano. O que Duda chama de hobby é um crime ambiental que pode dar cadeia. Pelo menos é o que diz a lei. Foi Maluf quem fez. A última do Maluf superou todas as proezas do velho recordista: ele acaba de materializar o "caminhão de acusações", hipérbole que até agora só existia na retórica agressiva dos palanques eleitorais. As pilhas de papel na carroceria do veículo amontoam documentos com denúncias e acusações envolvendo Maluf, que teve bens bloqueados. Nem Marta Suplicy nem José Serra trataram do que a foto mostra. De olho nos votos de malufistas irredutíveis, os candidatos a prefeito de São Paulo optaram por cruzar o segundo turno em silêncio esperto. Daqui por diante, estão ambos proibidos de fazer críticas ao campeão. O QUE VAI POR AÍ. Frase pinçada do discurso feito por Lula no Rio, ao abrir uma reunião da Associação Brasileira de Agentes de Viagem (Abav): "Problemas existem e têm que ser tratados com seriedade, mas o que não serve para a promoção do turismo não deve ser tratado com displicência". Ninguém entendeu, mas todos aplaudiram. Se o presidente continuar decidido a produzir discursos de improviso, o governo terá de nomear um tipo de assessor ainda por ser inventado: o "explicador simultâneo". Pare, Romário. Continue, Schumacher. Alarmadas com sucessivas ameaças anônimas, viúvas dos quatro fiscais do Ministério do Trabalho assassinados em Unaí no começo do ano pedem socorro ao governo federal. Os mandantes do crime devem ter achado pouco. Oficiais das Forças Armadas vivem reivindicando a substituição do ministro da Defesa, José Viegas, por algum integrante do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Os motivos não são claros, mas entre eles decerto não está o interesse na divulgação dos documentos sobre a guerrilha do Araguaia. O movimento foi organizado pelo PCdoB, que tampouco pretende reabrir a questão. Os motivos também não são claros. John Kerry, como notou Arnaldo Jabor, tem cara de dúvida. Já George Bush não é homem de hesitar: vai logo tomando a decisão errada. Esqueça essa história de reeleição e volte para o plenário, João Paulo Cunha. Para quem chegou de Osasco nem faz tanto tempo, dois anos na presidência da Câmara dos Deputados já estão de bom tamanho.
133. AUGUSTO NUNES. A arrogância é irmã da impunidade. Norberto Mânica, o "rei do feijão", lidera o grupo dos acusados de planejar o massacre dos fiscais em Unaí. Animados com o triunfo do candidato a prefeito Antério Mânica, suspeito de integrar o grupo de mandantes do massacre de quatro funcionários do Ministério do Trabalho ocorrido no começo do ano, alguns nativos de Unaí passaram a exibir a arrogância dos impunes frente a cobranças reiteradas por homens de bem. O pretexto é a preservação da imagem de um celeiro de trabalhadores exemplares, fustigada por jornalistas irresponsáveis. Conversa fiada. Querem mesmo é impedir que as investigações avancem até o completo esclarecimento de um crime especialmente torpe. Consumou-se em 28 de janeiro de 2004, com a execução de quatro funcionários do Ministério do Trabalho. Numa estrada do município, foram assassinados a tiros os fiscais Nelson José da Silva, João Baptista Lages e Erastótenes de Almeida Gonçalves, além do motorista Ailton Pereira de Oliveira. Morreram por acreditar que a lei vale para todos. Em 27 de julho, a Polícia Federal divulgou a captura de seis indivíduos envolvidos no episódio. Todos haviam participado diretamente da ação de extermínio, apertando gatilhos ou manobrando veículos mobilizados para o cerco mortal. "O crime foi quase desvendado", ressalvou um delegado. Era essencial a ressalva: sobravam evidências de que o massacre fora encomendado por fazendeiros irritados com a teimosia dos fiscais em multá-los por agressões à lei. Entre os possíveis mandantes reluzia Norberto Mânica, o "rei do feijão", chefe de uma família muito influente e líder do bando de poderosos inconformados. Desde o fim da década de 90, o fiscal Nelson José da Silva vinha punindo Mânica com multas que somavam, em janeiro de 2004, quase R$ 2 milhões. Quase todas decorriam de violações da legislação trabalhista, ignorada com histórico desembaraço pelos donos das terras. Eles decidiram acabar com a audácia dos fiscais. A entrada em cena da família Mânica, se ajudou a iluminar a história, também provocou a subida ao palco de personagens decididos a embaralhar o enredo e confundir a platéia. A mobilização amiga aumentou quando as investigações chegaram a Antério Mânica. Lançado pelo PSDB do governador Aécio Neves, o candidato a prefeito tinha o apoio ostensivo do vice-presidente José Alencar, de deputados bem votados na região e até do PT de Unaí. Estava bem no retrato. Preso em setembro, o favorito se tornou imbatível. Vitorioso com mais de 72% dos votos, virou herói municipal. Um mártir, crucificado por jornalistas inescrupulosos vinculados à esquerda radical. Na segunda-feira passada, um certo José Nieto enviou à coluna a nota, incluída no site que explora, inspirada no texto publicado na véspera pelo JB. Segue-se, transcrito sem correções, um trecho bastante revelador: "O senhor Augusto Nunes tem o raro poder de clarevidência, sendo capaz de substituir as polícias investigativas, o Judiciário da República e os eleitores. Pelo menos tem sua vaga certa no comitern literário tupiniquim. Onde será que anda se informando? Ou será que é capaz de publicar textos digitados por espíritos?" Sosseguem os vassalos a serviço de assassinos: não são necessárias fontes misteriosas. Basta o acesso às investigações da Polícia Federal. Mas mensagens psicografadas seriam bem-vindas. Se os mortos falassem, Unaí demoraria a dormir.Ao receber no Vaticano a nova embaixadora do Brasil, Vera Machado, o papa abençoou o Fome Zero, que não conhece. Em nome dos evangélicos, a ex-governadora Benedita da Silva abençoou a candidatura a prefeito de Nova Iguaçu do petista Lindberg Farias, ateu de carteirinha. Até por ser brasileiro, Deus merecia ser poupado do vale-tudo por um voto. O QUE VAI POR AÍ.O vice-presidente José Alencar foi até Moscou só para ouvir das autoridades russas que será mantido o embargo à importação de carne bovina do Brasil. Os antigos fregueses invocam razões de ordem sanitária, como testemunharam os quase 30 integrantes da comitiva. Em compensação, porções do caviar do Báltico continuarão ausentes das cestas básicas distribuídas pelos programas sociais do governo Lula. O senador Heráclito Fortes (PFL-PI) foi com cinco amigos passar o feriadão de 12 de outubro em Barreirinhas, na região dos Lençóis Maranhenses. Às margens do Rio Preguiça, recepcionou-o Fernando Barbosa de Oliveira Júnior, juiz da comarca e disposto a conferir o boato: o grupo levava na bagagem dinheiro para a campanha do adversário do candidato à prefeitura pelo PT, Miltinho. Agressivo e beligerante, o juiz estava acompanhado não de policiais, mas do próprio Miltinho e oito companheiros armados. Constataram que nas malas não havia dinheiro nenhum. O senador exigiu do juiz um atestado formalizando a ocorrência e detalhando seu desfecho. Documento prometido, o doutor achou mais sensato sumir. Heráclito pediu providências ao Senado presidido por José Sarney, cujo clã dá as cartas na região. Melhor esperar sentado. Fale menos, Gilberto Gil. E cante mais. O jornal americano The Washington Post informou que o MR-8, grupo brasileiro que posou de esquerdista até cair na vida, pegou parte dos US$ 11 bilhões usados por Saddam Hussein para conseguir cúmplices dispostos a ajudá-lo a driblar o bloqueio comercial. Até agora, ninguém se moveu para investigar o tamanho da negociata. Não deixem de ler Getúlio, romance do excelente Juremir Machado da Silva lançado há pouco pela Editora Record. É um grande livro. Articule menos, José Dirceu. Com um beijo e uma lágrima, a coluna registra a partida do ótimo Fernando Sabino. Grande escritor, grande figura. Lula da Silva ainda cuida de selecionar os eleitos para o vôo de estréia do avião presidencial. Na viagem para o Japão, todos poderão desfrutar das comodidades do aparelho, pronto para decolar. Permanece num hangar nos EUA para evitar que, na brigalhada do segundo turno, os ressentidos de sempre afirmem bastar uma escala no Palácio do Planalto para que toda humildade se desmancha nos ares. Rosinha leva taça. A frase campeã, pinçada do Informe JB de sexta-feira, garantiu a taça da semana à governadora Rosinha Garotinho. No discurso que celebrou a inauguração de obras de asfaltamento custeadas pelo Estado, Rosinha incluiu críticas ao candidato do PT à Prefeitura de Niterói e uma ousada comparação: "Sou como Jesus Cristo, que veio à Terra para ajudar os doentes". Os jurados do Yolhesman Crisbelles acham que Rosinha merece o prêmio tanto pelo que disse como pelo que evitou dizer. Não fez nenhuma alusão, por exemplo, a mercadores dos templos. Desafinação na parceria.Ao indicar o deputado Gilberto Kassab para completar como vice a chapa de José Serra, o PFL estava querendo ajudar ou atrapalhar o candidato a prefeito? A pergunta é muito pertinente. Entre tantos nomes, o partido escolheu justamente um ex-secretário de Planejamento do inesquecível Celso Pitta. O PT acusa Kassab, que ficou um ano no cargo, de ter planejado todos os erros de Pitta. Resta a Serra repetir a frase usada por Rui Falcão, vice de Marta Suplicy, para explicar a aliança com Maluf: "Acusado ou indiciado não é culpado". Espontâneo e espantoso. À saída do prédio da Polícia Federal, no feriado do dia 12, o incomparável Paulo Maluf irritou-se com a inesperada presença de jornalistas. Mas partiu para o drible: "Vim aqui para depor espontaneamente". Apesar da boa vontade, avisou ao delegado, de saída, que não responderia a pergunta nenhuma. Também achou melhor fingir que nem ficou sabendo do comentário pesadamente irônico do senador do PFL (e ex-policial federal) Romeu Tuma: "Nunca vi ninguém aparecer espontaneamente em qualquer delegacia só para ser indiciado". No ano passado, quando o presidente Lula autorizou o plantio de sementes de soja transgênica, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, passou um tempão amuada. Consumiu algumas horas chorando no gabinete. Agora, indignada com a reincidência do chefe, que assinou medida provisória favorecendo a turma do transgênico, Marina abriu o berreiro outra vez. Mas preferiu, de novo, chorar no Planalto. O Cabôco Perguntadô, que vive ouvindo histórias sobre a coragem da ministra acreana, anda intrigado. Quer saber por que Marina não renuncia ao cargo e troca a choradeira pela crítica aberta.
134. AUGUSTO NUNES. Ancorada há quase 30 anos no município de Una