Alimentação Saudável e Nutritiva

JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO

Ex-Funcionário do Banco do Brasil. Ex-Professor de Matemática e do Curso Pitágoras. Escritor. Funcionário aposentado da Justiça do Trabalho, BA.

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Este arquivo foi pesquisado em dezenas de SITES da Rede Mundial de Computadores-Internet, condensado ou ampliado, revisado (inclusive gramaticalmente), atualizado, elaborado e organizado por JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO.

Contém, ainda, 53 e-mails de Nutricionistas e Endocrinologistas de todo o Brasil e 29 textos do Programa Globo-Repórter, relacionados às áreas de saúde e nutrição, e mais outros capítulos sumamente importantes.

Você está a fim de emagrecer, sem sacrifícios nem traumas, ou de melhorar, consideravelmente, a qualidade de sua alimentação?

Nos textos integrais do arquivo encontrará as respostas para todas as suas dúvidas relativas à área de nutrição.


CAPÍTULO I.

E-mails que recebi de Nutricionistas e Endocrinologistas de todo o Brasil que tiraram minhas inúmeras dúvidas com presteza, carinho e muita competência. São criaturas fantásticas e maravilhosas, extremamente sensíveis, humanas e solidárias. Estejam certas de que as guardarei bem no “fundo” do coração até os últimos dias de minha vida.

1. Sua dieta está excelente. Continue assim. Atenciosamente, Alberto. albertofilho@mail.cultura.com.br

2. Prezado amigo, nada tenho a ensiná-lo. Ao contrário, está me dando uma lição de vida.  Sua dieta e estilo de vida são perfeitos. Só estou lhe escrevendo para dar-lhe parabéns.  Que DEUS o abençoe e a seus familiares. Um abraço, Wesley. NOTA. Recebo centenas de e-mails diariamente, sendo-me impossível responder todos, mas você merece .

3. Meu caro José Carlos, parabéns, não só pelo seu cardápio, mas pelo seu estilo de vida. Você faz o que a grande maioria, infelizmente, é covarde bastante para fazer: reconhecer que um estilo de vida saudável é a chave do bem-estar. Siga em frente. Que Deus o ilumine e passe seu exemplo a todos que puder. Um fraternal abraço. Durval Damiani, MD, PhD. Pediatric Endocrinology, São Paulo, SP.

4. Prezado José Carlos, acho que seu plano está muito bom. O que de fato importa no controle é a disciplina, e isso você prova que tem. Como sugestão, a cada 3-4 meses devem ser realizados os seguintes exames: glicemia em jejum, glicemia pós-prandial (2h), hemoglobina glicosilada, lipidograma, hemograma e sumário de urina. Anualmente, realize fundo de olho e microalbuminúria. Boa sorte, Ana Márcia, jmcls@uol.com.br 

5. Prezado JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO, sua dieta contém todos os nutrientes necessários a uma alimentação saudável. Uma observação seria a concentração de pão à noite; poderia comer uma parte do pão pela manhã. Mas, como pratica exercícios físicos a partir das 18h, talvez fique com mais apetite depois. Se for o caso, continue assim. Não volte a usar bebida alcoólica, e que Deus o mantenha com saúde e alegria. Grato pelas mensagens. ABRAM.

6. Prezado José Carlos, parece-me que leva uma vida saudável e tem uma alimentação adequada. É importante, sem dúvida, fazer exames de rotina para acompanhamento do seu caso clínico, como, por exemplo: glicemia de jejum e pós prandial, hemoglobina glicada, amilase, tgo, tgp, uréia, creatinina, Na, K, Ca, Hemograma, etc. Obrigado pela mensagem. Atenciosamente, www.ezequiel.med.br ,falecomigo@ezequiel.med.br 

7. Tudo bem? Sou diabético tipo I, diferente do seu. Sua dieta, a princípio, é boa. Para saber se seu controle é bom mesmo peça a seu médico o exame de hemoglobina glicosilada, para saber como anda seu controle nos últimos dois meses. Esse exame vai avaliar se está tudo bem com você. Suas mensagens me caíram muito bem e trouxeram-me uma luz, pois ando muito ansioso ultimamente devido a um caminho que terei de escolher na vida profissional. Obrigado. Escreva-me. Sem açúcar, Nélson.

8. Bom dia, José Carlos. Meu nome é Leon e sou pai de uma diabética. Minha filha tem 11 anos e é diabética há 7 anos. A dieta dela não lhe serve. Quanto aos exames, o que vai lhe dar mais segurança é o da HEMOGLOBINA GLICOSILADA, que lhe dará a informação de como andou sua taxa nos últimos três meses. Aconselho-o a acessar o Site da APDJ-ASSOCIAÇÃO DOS DIABÉTICOS JOVENS, que é muito bom. Sem mais nada a acrescentar no momento, estarei disposto a tirar qualquer dúvida que estiver ao meu alcance. Leon.

9. Prezado José Carlos. Desculpe-me pela demora em responder-lhe, mas o excesso de trabalho muitas vezes impede-me de manter as correspondências em dia. Seu plano alimentar está muito bom. Li-o em todos os seus detalhes. A única ressalva seria com relação às seis tangerinas às 22h que consome. Poderiam ser reduzidas para três unidades, sem problemas. No resto, pareceu-me uma pessoa muito disciplinada e consciente de que saúde e bem-estar passam pela alimentação, atividade física e bem-estar mental. Continue assim. Parabéns! Um abraço, Josefina.

10. Caro José Carlos, desculpe-me pela demora em responder-lhe. É que estava viajando. Seu cardápio está muito bom e bastante saudável e equilibrado! Acho que não tenho nada a acrescentar nele, pois cuida muito bem do seu corpo (alimentação e atividade física) e da sua alma (paz de espírito). Parabéns. Dra. Adriane. NOTA. Obrigada pelas mensagens. Aproveito e também envio-lhe uma: "Não são os fatos, considerados pelas pessoas que estão ao seu redor, que o farão feliz ou infeliz. Ao contrário, é você que, sendo feliz ou infeliz, construirá circunstâncias felizes ou infelizes. Quando entender isso, terá a felicidade ao seu redor." Dr. Celso Charuri (Pró-Vida). adrianerodrigues@uol.com.br

11. Caro José Carlos, não sou nutricionista, logo não poderei responder todas as suas questões de maneira completa e precisa, mas algumas delas são interessantes para se observar. Arroz, macarrão, lentilha, pão,  mesmo integrais, são ricos em açúcar, logo o seu consumo é desaconselhado. Chá de erva-doce e cidreira ajudam o funcionamento do rim, mas não a eliminação do açúcar. O melhor óleo é o de Canola.  Alimentos ricos em gorduras também são prejudiciais.  Sorvetes “lights” são mais doces porque são fabricados com uma grande quantidade de adoçantes e aumentam a quantidade de gorduras nesses produtos. Não existem (cientificamente comprovado) alimentos que diminuam a absorção de açúcar. André Luiz, Toxicologista, Fundação Oswaldo Cruz, andrebio@fiocruz.br   

12. José Carlos, sua dieta poderia sofrer pequenas modificações, mas de forma geral está muito boa. Deveria tomar suco de laranja natural até 30min depois de preparado para não perder vitamina C. Nunca aqueça o azeite de oliva: ele perde todo o efeito benéfico e se torna óleo de cozinha. Na hora de comprá-lo, prefira o extra-virgem, extraído a frio. Não coloque raízes na salada, pois contêm carboidratos. Não coma muitas frutas de uma só vez, porque possuem pequena quantidade de carboidrato e podem elevar a glicemia. Seu jantar tem pão em excesso. Carboidrato e refrigerante diet de boa qualidade podem ser consumidos moderadamente, mesmo por diabéticos, já que não contêm açúcar (exemplos: coca, antártica). Espero ter colaborado em alguma coisa. Atenciosamente, Dra. Adriana.

13. José Carlos, não sou médica nem nutricionista, mas tenho diabete do tipo I, insulino-dependente desde os 15 anos de idade (hoje estou com 45 anos) e ao longo de todos esses anos sofri bastante, mas também adquiri muito conhecimento com relação ao diabetes. Com tudo que já vivi e pelas dietas que me foram prescritas por nutricionistas, acredito que seu cardápio precisa de um ajuste o mais rápido possível, para que não venha comprometer o controle de sua glicemia e originar complicações ao longo do tempo. Sugiro que acesse os seguintes sites e tente contato com o pessoal da área médica ou nutricional: www.adj.org.br www.diabetesnoscuidamos.com.br Espero tê-lo ajudado e qualquer dúvida ou se quiser trocar idéias sobre o assunto pode mandar-me um e-mail francimello@terra.com.br Um sorriso, Franci.

14. Caro José Carlos, sua mensagem não constitui importúnio. Sua dieta me pareceu adequada tanto do ponto de vista quantitativo (quantidade total de calorias) quanto qualitativo. Aliada à sua atividade física (realmente intensa) e a uma vida pouco estressada, caracteriza um estilo de vida invejável e que deveria ser imitado por todos os indivíduos, mesmo os aparentemente saudáveis. Todavia, gostaria de fazer-lhe algumas observações. Não conheço estudo científico que comprove as propriedades medicinais do suco morno. Trata-se, como diz, de crendice popular. Se não tem colesterol elevado, até duas gemas de ovo por semana não lhe fará mal. A ingestão de líquidos durante as refeições não é benéfico nem maléfico para a saúde. Deveria substituir o carboidrato da noite (pães) por proteína de origem animal. Obrigado pelas mensagens finais e lembre-se de que um prazer eventual à mesa não lhe fará mal. Parabéns. Dr. Augusto Costa.

15. Caro José Carlos, avaliei seu cardápio e de forma geral possui bons hábitos alimentares e um bom estilo de vida, porém algumas modificações podem ser feitas. Pode acrescentar às saladas de frutas farelo de aveia, pois possui muita fibra auxiliando na absorção. O azeite não deve ser levado ao fogo. Torna-se uma gordura ruim quando aquecido. Use-o somente em saladas. Para preparar os alimentos utilize um bom óleo: milho, girassol, canola. Deve-se evitar o caldo de cana. Ele possui alta quantidade de carboidrato, elevando, assim, a glicemia. Quanto à ingestão de água não tem importância se for logo após as refeições. Não deve ingeri-la durante as refeições. Bom, para um ajuste nas quantidades e horários seria necessário uma consulta personalizada com a presença da pessoa. Estou à disposição em meu consultório. sac@diabetesbrasil.com.br  ivaniacatia@bol.com.br

16. Prezado José Carlos, agradecemos-lhe pelas mensagens enviadas. Em relação às suas dúvidas, gostaríamos de esclarecer que por questões éticas não fazemos consultas via Internet. Em nosso arquivo de notícias e na seção do dia-a-dia, poderá encontrar diversos artigos sobre os mais variados alimentos, onde poderá esclarecer muitas das suas dúvidas. Sugerimos-lhe, também, que leia o artigo sobre alimentação saudável, coma um pouco de tudo e de tudo um pouco: http://www.emedix.com.br/dia/nut001_1f_comadetudo.shtml As barras de cereais são encontradas nas farmácias, supermercados e lojas de produtos naturais. O azeite extra virgem é um tipo de azeite e pode achá-lo nos grandes supermercados. O ideal é que consulte um médico de sua confiança, que é a pessoa indicada para avaliar sua dieta e fazer as sugestões necessárias. Contamos com sua compreensão. Boa Sorte. Cordialmente, Emedix contato@emedix.com.br

17. Boa Noite, José Carlos. Desculpe-me a demora em responder-lhe, mas não tive tempo de avaliar seus dados com calma. Pelo que calculei, seu peso está ideal (índice de massa corporal normal). O controle do seu diabetes, pelo que entendi, é apenas com dieta, certo? O importante é manter a glicemia de jejum entre 70-110 e a pós-prandial (2h após o almoço) abaixo de 140 e a hemoglobina glicosilada (HbG) dentro da faixa normal. Peça para seu médico acrescentar estes exames junto à glicemia de jejum, que devem ser feitos de três em três meses. Dosagem de colesterol total e frações e triglicerídeos a cada 6 meses/1 ano. Se conseguir manter sua HbG normal, a chance de complicação do diabetes diminui muito (esta é a meta). Sua alimentação está saudável e ficará adequada desde que mantenha o peso. Faça atividade física regular, que é indispensável para uma boa saúde. Parabéns pela força de vontade. Um abraço. Ana Tereza de A. Oliveira, anaterezaoliveira@hotmail.com 

18. Olá, Dutra, está no caminho certo, preocupa-se com a alimentação e faz atividade física. Assim, só ganha benefícios. Sua dieta está adequada. No entanto, poderia fazer a refeição da manhã mais ou menos como a do jantar (com pão, queijo, leite, etc ). Está usando muita fruta, que é rica em açúcar! Usada isoladamente, acarreta aumento da glicemia após a digestão. O ideal é não consumir fruta ou outras fontes de carboidratos simples sozinhos. Quando comer fruta, inclua uma proteína como iogurte ou leite. Se consumir pão, faça-o com proteína ou gordura, como queijo ou manteiga. Se comer doce, use-o na sobremesa, nunca isoladamente. Assim, a digestão fica mais lenta e a glicemia não aumenta de repente no sangue. Quanto aos exames, é sempre aconselhável medir a glicemia, mas o exame mais importante é a CURVA GLICÊMICA. Faça, também, exames de urina (24h) e sangue básicos. Bebidas alcoólicas, elimine-as para sempre de sua vida. Espero tê-lo ajudado. Um abraço, Fabiana.

19. Olá, José Carlos. Bom, não sou endocrinologista nem nutricionista, ainda. Afinal, é a carreira que pretendo seguir. Tenho 18 anos e diabetes há 9 anos. Gostaria de parabenizá-lo pela dedicação em manter sua saúde, cuidando da alimentação, fazendo atividades físicas... É uma lição de vida. Sempre fui muito cuidadosa com a alimentação, muito responsável, mas com o tempo fui deixando os cuidados de lado, tomando a insulina em horários desregulados, comendo o que tivesse vontade e isso só me fez mal. Não vale mesmo a pena. Agora voltei à rotina dos meus cuidados diários e estou bem melhor. Com relação a sua alimentação, não posso dizer-lhe muito. Só o fato de tomar caldo de cana é que me deixou em dúvida, afinal ele contém muito açúcar. Como seu diabetes é do tipo 2 pode ser que não tenha problema. A banana também é uma fruta bastante doce e calórica, mas para você que pratica atividades físicas não deve fazer mal, afinal tem o potássio que combate as famosas cãibras. As mensagens são lindas. Bom dia. Carolina.

20. José Carlos, sou diabético há 14 anos, insulina dependente, problema renal e já tive 2 AVC (derrame cerebral), pesava 105 kg, 1,80 m altura. Há seis meses conheci um produto natural que venho tomando diariamente. Emagreci 14 kg e hoje tenho meus exames todos normais, inclusive a glicose. Tomo esse produto no café da manhã e na janta, pois preciso emagrecer (o que não é o seu caso). Minha vida mudou por completo, hoje tenho mais saúde, não me sinto cansado e não tenho fome. Vendo esse produto, mas não estou querendo ganhar nada sobre isso. Se quiser, procure um distribuidor da Herbalife na sua cidade e experiente-o. Vai ver sua vida mudar. O produto não cura nada, mas previne inúmeras doenças e controla todo o seu organismo para trabalhar bem em todos os sentidos. Isso é apenas uma ajuda. Se quiser conhecer os produtos, acesse http://www.sucec.com.br/net/clovis/herbalife Repito-lhe: não estou querendo vender-lhe nada, mas se quiser o produto procure algum representante na sua cidade. Abraços, Clovis Trizzine. ctrizzine@ig.com.br 

21. BEM, “ZÉ” CARLOS, INFELIZMENTE NAO SOU NUTRICIONISTA, MAS, SIM, BIÓLOGA. TENTAREI RESPONDER SEU E-MAIL NA MEDIDA DO POSSÍVEL. ACONSELHO-O PROCURAR OS VIGILANTES DO PESO MAIS PRÓXIMO DE SUA CASA. PRECISA FAZER UMA RE-EDUCAÇÃO ALIMENTAR. COM OS VIGILANTES DO PESO OBTERÁ UMA DIETA BALANCEADA, SEM  A DITADURA IMPOSTA POR ALGUMAS DIETAS. O ALHO É UM PODEROSO ANTI-INFLAMATÓRIO. QUANTO À BERINJELA, AINDA NÃO ESTÁ PROVADA, CIENTIFICAMENTE, A SUA EFICIÊNCIA. MAS OS RESULTADOS EMPÍRICOS SÃO PROMISSORES. ATÉ ÁGUA EM EXCESSO PODE CAUSAR DANOS À SAUDE. OS ADOÇANTES ARTIFICIAIS SÃO MALÉFICOS À SAÚDE. O MELHOR É INGERIR SUA BEBIDA SEM AÇÚCAR BRANCO OU UTILIZAR  O MASCAVO. PREFIRA OS CHÁS BIORGÂNICOS. ACREDITO QUE OS CHÁS NÃO ELIMINAM O AÇÚCAR EM EXCESSO QUANDO TEM OS SEUS RINS FUCIONANDO COM DEBILIDADES, COMO NO CASO DA DIABETE. Ana Paula de Amorim, Curitiba, PR.

22. Prezado José Carlos. Analisei atentamente seus registros nutricionais e atividade física. Seu estilo de vida está dentro dos preceitos de boa saúde para a qual a alimentação saudável associada à atividade física são essenciais. Não há nada que poderia sugerir-lhe, a não ser alguns conselhos. Livre-se em absoluto de qualquer alimento industrializado parcial ou inteiramente processado (por exemplo, guloseimas, frangos de granja - resfriados ou congelados, todos os embutidos, inclusive salsichas e lingüiças, etc.). Enquanto mantiver atividade física não mude em nada sua dieta. Se, por algum motivo, deixar de se exercitar por longos períodos, diminua pela metade a ingestão de grãos, farináceos, raízes e açúcar livre. Não se prive, jamais, das folhas verdes (claras ou escuras) e frutas, principalmente mamão formosa, melão, morango, melancia, maracujá, kiwi, ameixa preta fresca, etc. O importante é manter seu peso no mesmo patamar por um longo período sem alteração apreciável do seu estilo de vida. Atenciosamente, Prof. Dr. Daniel Giannella Neto. Lab. Endocrinologia Molecular e Celular. Equipe Médica de Diabetes. Hospital das Clínicas-FMU, SP.

23. José Carlos, desculpe-me a demora para responder-lhe. Analisando seu cardápio diário percebo que deve ter realmente feito uma boa reeducação alimentar. Mas pode, ainda, acertar algumas coisas. No café da manhã mantenha um potinho da salada de frutas. No entanto, seria importante acrescentar-lhe uma fatia de pão integral com uma fatia média de queijo branco, por exemplo. O chá pode mantê-lo pela manhã e durante o dia também. Entre o café da manhã e o almoço ingira mais um potinho de salada de frutas ou uma banana. O almoço está certinho, assim como o lanche da tarde. O jantar também está correto, podendo ser inserida nele uma salada variada, retirando-lhe, assim, um pão de sal, dando preferência às fatias de pão integral. Com relação às frutas no jantar, prefira de uma a duas frutas apenas, não mais que isso. Lembre-se de que antes do exercício deve comer alguma coisa, como, por exemplo, frutas, sucos de frutas, pão integral. Após 1h da atividade física, precisa alimentar-se: leite com uma fruta, iogurte desnatado com cereais, etc. Qualquer dúvida, escreva-me novamente. Atenciosamente, Raquel Dammous, Nutricionista CRN 15152/p.

24. Prezado “Zé” Carlos, meu nome é Marlete Pereira da Silva e atualmente respondo pela Chefia do Serviço de Nutrição e Dietética do HUCFF e sou Conselheira do CRN-4 (Conselho Regional de Nutricionistas da 4ª Região). Terei o maior prazer em atendê-lo. Como não disponho de tempo, no momento, responderei um pouco agora. Comprometo-me a tirar todas as suas dúvidas. Gostaria da sua colaboração no sentido de cobrar das autoridades da sua cidade um concurso para nutricionista, um profissional muito necessário. Infelizmente, muitos desconhecem o nosso papel na prevenção e na promoção à saúde. É importante fazer de 4 a 6 refeições diárias, a fim de não sobrecarregar o sistema digestivo. Comer em demasia causa gastrite. Os alimentos que possuem propriedades "medicinais" são chamados funcionais; tanto o alho quanto a berinjela estão entre eles. Segue as suas funções: Alho: é um antibiótico natural, rico em vitaminas e minerais, protege contra a arteriosclerose, combate doenças cardíacas, é anticoagulante, potencializa as funções mentais  e o sistema imunológico, diminui a pressão arterial; Berinjela: é antioxidante, calmante, depurativo do sangue, diurético e laxante suave, diminui o colesterol do sangue. Até breve! Marlete. marlete@hucff.ufrj.br

25. José Carlos, desculpe-me pela demora em responder-lhe. É que tenho muitos e-mails para responder diariamente e isso ocupa bastante meu tempo. Quanto ao seu cardápio, o consumo de carne branca, vegetais e frutas está excelente. Todavia, em razão do seu diabetes, o consumo de frutas está um pouco acima do adequado. Não ingira mais de seis porções diárias e evite consumi-las separadamente, sem usar um alimento proteico ou rico em gordura, como, por exemplo, frutas oleaginosas. Consuma castanhas, nozes ou amêndoas em pequena quantidade junto com a salada de frutas. Ou prepare uma vitamina contendo semente de linhaça, farelo de aveia, fruta e leite de soja. Esta é uma boa opção de café da manhã. Inclua, também, azeite de oliva extra-virgem na salada do almoço. São alimentos ricos em ômega 3, um ácido graxo essencial que nosso corpo não produz e lhe é indispensável. Consuma duas a três colheres de sopa de farelo de aveia por dia, pois ele é excelente para retardar a liberação de glicose dos alimentos. Quanto ao consumo de chá, inclua jambolão ou chapéu de couro no seu chá branco e ingira, ainda, duas xícaras de chá verde por dia, porque é um excelente antioxidante. Um abraço e continue acompanhando meu site, que sempre traz informações úteis. Maribel. Nutricionista.

26. Oi, amigo, boa tarde. Não sou nutricionista nem endocrinologista, mas apenas um diabético que chegou ao máximo do que não podia e teve conseqüências graves por isso, como a perda dos rins e da visão e má circulação nas pernas. Cada organismo reage de uma maneira, mas se fizesse sua dieta estaria morto com uma alta glicêmica enorme. Cana de açúcar e água de coco, esta última um pouco menos, são um veneno para o diabético. O açúcar natural das frutas e dos legumes também é açúcar como outro qualquer! Você come inúmeras bananas por dia..., prato fundo com carne, frutas... Depois de pouco tempo de comer banana, toma água de coco! Quem lhe passou essa dieta?! Tomar um copo de cana de açúcar ou consumir três colheres médias de açúcar branco puro é a mesma coisa. Será que o paladar doce da cana e o próprio nome da cana, sendo cana de açúcar, não lhe diz nada? Bem, qualquer médico do diabetes responsável lhe diria o mal que sua dieta poderá fazer-lhe. Por essa razão, penso que deve consultar um médico, apesar de que minha experiência poder nos dizer algo, mas é muito traumática, pois todas as canas-de-açúcar que tomei ficaram nos rins e na vista! Bem, como lhe disse antes, e repito-lhe, não sou médico. Só não entendo um diabético comendo tanto açúcar diariamente. Abraços preocupados do MAQ. maq@esc.microlink.com.br 

27. Boa noite, José Carlos! Meu nome é Juliana, faço Gastro-Pediatria e sou especialista em Nutrição Enteral e Parenteral. Antes de mais nada, gostaria de agradecer-lhe pelas mensagens e parabenizá-lo pela "revolução" que conseguiu fazer em seu cardápio, sem que isso trouxesse alterações nas taxas de glicose, mantendo um peso aceitável para sua estatura. O que tenho a dizer-lhe é que, se esse cardápio lhe dá prazer, embora em algumas refeições cometa excessos, continue com ele. Talvez pudesse variar um pouco as frutas, ou, quem sabe, um dia na semana, em vez de comer três tipos de proteína em uma refeição (ovo, frango e peixe), poderia substituí-los por sua paixão: carne de porco (de preferência sem gordura). Um dos exames indispensáveis para o real controle da glicemia é a HEMOGLOBINA GLICOSILADA (mostrará o controle glicêmico não só do dia do exame), triglicerídeos, colesterol total, LDL, HDL, creatinina, EQU. Acredito que a elaboração mais adequada de seu cardápio fique a critério de uma nutricionista, visto que essa é sua especialidade. Em relação aos exames, são algumas sugestões, mas é indispensável uma avaliação médica e exame físico por um profissional de sua confiança. Estou à sua disposição. Espero ter toda essa disposição com a sua idade, melhor, estar de bem com a vida como aparenta estar. Um abraço! Juliana. jceloi@hotmail.com

28. Boa tarde, José Carlos. Meu nome é Fernanda e sou nurtricionista do HASP. Analisando seu cardápio, notei algumas coisas: consumo muito alto de frutas. É importante que realmente se alimente de uma forma fracionada, mas poderia espaçar mais os horários. Os diabéticos podem comer de tudo, isto é, normocalórica, normoproteica e normo lipídica. Alimentos proibidos: açúcar simples, demerara e mascavo, mel, refrigerantes, sucos com açúcar tipo Tang, doces de colher, cocada, doce de banana, doce de mamão, pão doce, bolacha recheada, bebidas isotônicas: tipo Gatorade, leite condensado, sorvete. Proposta de cardápio. Desjejum. Duas fatias de pão integral com requeijão, um copo de leite com achocolatado diet (não é light), uma fruta. 10horas. Um copo de iogurte. Almoço. Uma porção grande de salada temperada com limão, sal e azeite, cinco colheres de arroz, cinco colheres de feijão, um bife médio (frango, peixe ou bovino), legumes refogados, uma fruta. Merenda. Uma xícara de chá com adoçante, três bolachas cream craker e queijo branco. Jantar. Duas fatias de pão integral com queijo, alface e tomate, uma fruta, um copo de leite ou sopa de legumes e uma fruta. Ceia. Um copo de leite e duas bolachas cream craker. Como não o conheço pessoalmente, esta seria uma orientação geral. Qualquer dúvida, entre em contato comigo. Fernanda Lina Torihara.

29. Prezado José Carlos, infelizmente não estou qualificado para prestar-lhe orientações profissionalmente, pois não sou nutricionista. O pouco que pude saber é que o medicamento Daonil, conforme consta nas informações do fabricante, não tem a obesidade como efeito colateral. O limite máximo de peso em relação à sua altura seria 72 kg; portanto, o excesso é de 16 kg. O chá pode ajudar no funcionamento do rim no sentido de que contribui para evitar a formação de cálculos renais, pois é diurético. Café, chá ou limonada, se estiverem com adoçante, não há problemas. A beterraba possui bastante açúcar, mas pode ser consumida na medida de meia beterraba média por dia. A berinjela também deve ser limitada à meia berinjela média por dia. Couve, quiabo e repolho não têm problemas. A substituição do pão francês pelo integral é vantajosa pelas fibras que a pessoa passa a ingerir. O leite deve ser limitado a um copo por dia. Se for desnatado, 1 copo e meio diariamente. Como não pude responder às dúvidas, recomendo-o entrar em contato com o Dr. George Guimarães, que é um nutricionista profissional conhecido. Emails: nutriveg@iname.com  e nutriveg@terra.com.br Telefones: 031-11-3884-1731/3884-4575/5533-3861. Sua página: http://www.nutriveq.com.br/   Atenciosamente, Fernando. fmendes@email.com 

30. Caro José Carlos, desculpe-me pela demora em responder-lhe. À primeira vista, seu cardápio e seu estilo de vida (não beber, não fumar, praticar regularmente atividade física), estão ótimos. É provável que baste isso para seu controle. No entanto, é bom lembrá-lo de que o bom controle do diabético não é apenas o da glicemia de jejum e pós-prandial. Faz-se necessário, também, a dosagem da Hemoglobina A1c, que reflete a média das glicemias em todos os horários do dia. De preferência, use a metodologia que mede a HbA1c (normal até 6,2%). Existem outros métodos para a hemoglobina glicada que não mede apenas a A1c. São menos precisas mas, por conta do preço, são as utilizadas pela maioria dos laboratórios (valor normal geralmente até 8%). Além disso, é importante manter a pressão arterial abaixo de 125 x 85 mmHg, colesterol total abaixo de 200, LDL abaixo de 100, HDL acima de 45 e triglicérides abaixo de 150. Se não conseguir estes índices com as mudanças de estilo de vida, é obrigatório o uso de medicamentos. Além disso, deve ser feita a dosagem da microalbuminúria, avaliações cardiológica e oftálmica pelo menos uma vez por ano. Na ausência de endocrinologista em sua cidade um clínico ou cardiologista pode acompanhá-lo. É importante que ele conheça os consensos mais recentes para o tratamento do diabetes (www.diabetes.com.br) da hipertensão (VII JOINT) e da dislipidemia (NCEP III). Atenciosamente, Alberto Ramos, ajsr@uol.com.br

31. Bom dia, José Carlos. Seguem-lhe, abaixo, algumas colocações que lhe seriam importantes, de acordo com seu quadro estável de diabetes e dados antropométricos. 8h30min. Acrescente um alimento que contenha carboidrato complexo (de absorção lenta), que vai manter sua glicemia estável durante toda a manhã: 1 biscoito água e sal ou uma fatia de pão integral de forma. Comece a refeição pela MASTIGAÇÃO dos alimentos ricos em fibras, pois eles lhe dão saciedade prolongada e reduzem a assimilação dos carboidratos, estabilizando, assim, a glicemia por mais tempo. 20h. Antecipe um pouco esse horário para as 19h ou 19h30min, bem como o horário do lanche da tarde para as 16h, no máximo. Use alimento rico em fibras: uma laranja com bagaço, ou uma maçã com casca, ou uma pêra, ou outra fruta, exceto manga, banana e caqui, ANTES de comer o pão, porque a absorção dos carboidratos será mais lenta e gradativa, não provocando "picos" glicêmicos e se estabilizando por mais tempo. 22h. Coma apenas duas frutas ou, como opção, alimentos proteicos: leite, ou iogurte light, ou queijos brancos. Nunca faça exercícios em jejum. Seria conveniente fazer, a cada seis meses, uma avaliação da composição corporal, realizada com freqüência em academias de ginástica. A finalidade é aferir as massas gorda e magra, para verificar se não está perdendo massa muscular, muito comum nos diabéticos descompensados. Um fraterno abraço e que Deus o ilumine e o guarde. Luiz Sinicio.

32. A pedido da Dra. Hermelinda, estou enviando os comentários a respeito do seu cardápio. Suco de laranja natural esquentado: crendice popular. O suco de laranja é rico em vitamina C. Perde parte dessa vitamina quando é aquecido. Lembre-se de que um copo de suco puro de laranja contém cinco laranjas. A fruta, quando consumida em maior quantidade, eleva a glicemia pós-prandial. Café da manhã. Consumo excessivo de frutas. O ideal é uma unidade ou uma porção pequena por refeição. É bom conter leite ou derivados, desnatados, pois são alimentos ricos em cálcio. Estão faltando carboidratos complexos (pão integral, aveia, cereais sem açúcar, tapioca, cuscuz, biscoito integral), que devem ser controlados e não usados à vontade. Lanche da manhã. Faça uso de um lanche no intervalo da manhã (fruta, suco de fruta ou água de coco), sendo uma unidade ou uma porção pequena. Almoço. O almoço está correto e bem equilibrado. No entanto, use mais feijão e menos arroz. Carnes de frango e de peixe, coma-as moderadamente. Saladas à vontade, sempre variadas, com temperos naturais. O azeite de oliva puro é interessante consumi-lo cru. Lanche da tarde. Suco de frutas, em pouca quantidade. Jantar: 19h. Sugestões. Igual ao almoço ou saladas completas com frango, carnes magras ou peixe. Sopa de legumes com frango, carne ou peixe. Suco de fruta e sanduíche natural. Lanche Leve: 21h ou 22h. Sugestões. Leite desnatado e fruta. Leite desnatado e cereais sem açúcar. Mingau de aveia com leite desnatado, canela e adoçante (ralo). Iogurte desnatado e fruta. Iogurte desnatado e três unidades de biscoito integral. Leite desnatado e uma fatia de pão integral. Queijo magro e fruta. OBSERVAÇÃO. Produtos lácteos, use-os sempre desnatados ou magros (leite, requeijão, iogurtes e queijos). Fruta, sempre uma unidade pequena. Grata. Nilza.

33. Boa Tarde, José. Fiz uma análise QUALITATIVA de sua dieta. Veja as observações a seguir. Exames laboratoriais que deve fazer: teste de tolerância a glicose, triglicérides, colesterol e cálcio. Tem pancreatite aguda ou crônica? Se sua glicemia está dentro do normal, até além para um diabético, PARABÉNS! Qual diabetes tem: tipo I ou II? Seu IMC (Índice de Massa Corporal), que é a altura ao quadrado dividida pelo peso, deu limítrofe para sua idade (24,9). Não sei se tem bastante massa magra, pois para esse método isso influencia, ou seja, superestima o resultado. Com relação à sua dieta, faça as seguintes modificações. Tome chá verde em vez desses que está tomando. Ele tem ação efetiva na saciedade e ajuda na perda de peso. Coloque uma colher de sopa cheia para um litro de água e tome o chá o dia todo. Está comendo muita fruta. A recomendação é de 3/4 porções/dia. Mesmo que sua glicemia esteja ótima, o açúcar das frutas pode alterar esse valor. Às 10h30min passe a comer somente salada de fruta. No almoço, coma as duas bananas que estavam no lanche da tarde. No desjejum falta o consumo de leite desnatado para atender as necessidades de Cálcio. Duas fatias de pão ou um pão francês de manhã lhe proporcionará quantidade suficiente de energia para suas atividades. Também diminuirá sua fome no lanche da manhã. No lanche da tarde, coma somente salada de fruta e uma bolacha cream cracker, torrada com requeijão ou geléia diet. Na ceia, deve comer a menor quantidade possível, como, por exemplo, uma porção de fruta e um copo de leite desnatado. Com relação ao azeite, prepare sua refeição com uma colher e meia de sopa em cada uma (jantar e ceia) e o total deve ser de três colheres de sopa.  Bom, José Carlos, quanto ao resto, está tudo muito bem equilibrado. Se incorporar essas pequenas modificações tenho certeza de que irão fazer uma grande diferença. Espero que o tenha ajudado. Um grande abraço. Andressa Penteado Fantinatto, CRN 13562, afantinatto@hotmail.com

34. Santos, 22 de maio de 2003. Prezado José Carlos, em resposta a seu e-mail, primeiramente sugiro-lhe que consulte um profissional especializado, nutricionista ou médico endocrinologista, pois a presença do paciente é muito importante para qualquer avaliação e para melhor atendê-lo em suas dúvidas. Nessa consulta serão analisados os seus hábitos alimentares atuais, preferências nutricionais e a necessidade ou não de mudanças alimentares, com o objetivo de controlar o peso e a glicemia, principalmente para ajustar a alimentação e a atividade física que já  pratica. Não são necessárias mudanças bruscas, como passar fome, mas, sim, disciplina e muita força de vontade para seguir uma dieta saudável e equilibrada. Uma das mudanças é a necessidade de realizar 6 refeições diárias e a inclusão de todos os tipos de alimentos, em todas as refeições, desde o café da manhã até o lanche noturno. As variedades dos alimentos e as quantidades adequadas devem ser individualizadas de acordo com as preferências do paciente. Quanto aos chás brancos, são excelentes e existem outros: camomila, hortelã, melissa e maçã. Os chás pretos e mate contêm cafeína que, em excesso, podem deixar o paciente mais ansioso. O café contém duas substâncias: cafestol e kahweol, que elevam o colesterol sérico, por isso é recomendado sempre que possível o uso do filtro de papel, que tem a propriedade de reter as substâncias citadas. As frutas são compostas de frutose, que é um carboidrato, não é um açúcar simples, mas ingeridas em excesso podem alimentar a taxa de glicose do sangue. Por isso, a necessidade de uma dieta individualizada. Os biscoitos, mesmo os água e sal, têm que ser ingeridos com controle, porque são carboidratos e o excesso ajuda a  aumentar a glicose. As margarinas light contêm menores quantidades de gordura, portanto não importa a marca. Todos os alimentos têm sua importância: frutas, fibras, alimentos integrais e todos devem ser ingeridos adequadamente, e calculados em consulta com o profissional e o paciente. Atenciosamente, Jussara P. Bueno, Nutricionista do HOSPITAL ANA COSTA, anacosta@anacosta.com.br

35. Olá, José Dutra. Meu nome é Nair Rabello, sou nutricionista da equipe do Dr. Levimar Araújo, que me enviou seu email. Em primeiro lugar quero pedir-lhe desculpas na demora em respondê-lo. Passei por uma série de mudanças nas últimas semanas, mas não me esqueci do seu pedido. Estive analisando as informações que me enviou e preciso fazer alguns comentários. A faixa de variação de peso teórico para você é: Peso mínimo, 58Kg; peso médio, 65KG; peso máximo, 72KG, que é justamente o peso que tem atualmente. Você tem um bom conhecimento quanto à variabilidade dos alimentos da dieta, mas precisa rever as quantidades ingeridas em cada refeição. Veja, a seguir, uma SUGESTÃO de cardápio. Desjejum. Leite (um copo duplo desnatado) ou duas fatias de queijo branco. Pão integral (duas fatias ou um pão de sal ou cream cracker). Fruta (uma unidade ou uma fatia média ou um copo de salada de frutas). Requeijão cremoso (uma colher de sopa). Colação. Uma banana ou uma maçã ou outra fruta. Almoço. Arroz (cinco colheres de sopa), podendo ser TROCADO por: Farofa, angu, batata, macarrão. Exemplo: três colheres de sopa de arroz e duas de batata. Feijão (cinco colheres de sopa), que pode ser trocado por: Grão de bico, lentilha, soja, ervilha. Vegetais folhosos (à vontade). Legumes (duas colheres de sopa): abóbora, chuchu, cenoura, etc. Quanto mais variado melhor (mais colorido o prato). Carne (um bife ou um pedaço pequeno), preferencialmente branca (peixe ou frango). Os temperos pode continuar usando-os. Lanche. Um pão (ou substituto, conforme já descrito). Leite (idem). Fruta (idem). Lanche. Um pão, carne (filé de frango, peixe ou quatro colheres de sopa de atum). Vegetais folhosos à vontade. Uma Fruta. Ceia. Duas fatias de queijo ou leite. Cinco unidades de cream cracker ou um pão de sal. Procure reduzir o intervalo entre as refeições: máximo de 3 horas. Ingerir no mínimo dois litros de água por dia (evitar fazê-lo somente no almoço) uma hora antes, durante e uma hora após. Mantenha a prática da atividade física e o controle emocional que são de fundamental importância para o sucesso do seu tratamento. Em caso de mais alguma dúvida, coloco-me à disposição para solucioná-la. Obrigada pelas lindas mensagens e que DEUS continue abençoando-o. Se quiser conhecer um pouco mais nosso trabalho, entre no site www.diabetes.med.br Um grande abraço, Nair Rabello.

36. José Carlos, uma orientação nutricional completa só é possível pessoalmente, pois necessita de algumas medidas  da estrutura física e uma análise  alimentar mais completa no que diz respeito aos hábitos e alimentos usados. Entretanto, tentarei diminuir as suas dúvidas, conforme solicitado. É importante conhecer o padrão da glicemia e o uso de hipoglicemiantes. Se as dúvidas persistirem, pode fazer novo contato. Essa  orientação não substitui uma consulta com um nutricionista. O seu peso ideal, de acordo com a altura e a faixa etária, é de 65 Kg . Os alimentos devem ser ingeridos a cada 3 horas para controlar o esvaziamento gástrico, otimizar a produção de insulina e tornar constante a absorção de glicose, evitando os picos de hiperglicemia e hipoglicemia. Esse hábito é fundamental para controle de peso e do apetite. O alho e a berinjela são alimentos importantes como fonte de vitaminas, minerais e fibras. Os chás de cidreira e erva-doce com adoçante podem ser usados sem restrições (para pacientes diabéticos), tanto a folha in-natura como o industrializado de saquinho. Os adoçantes mais indicados são à base de aspartame. Arroz e macarrão são alimentos com concentração alta de glicídios (açúcares), portanto devem ser usados como substitutos, preferindo sempre os tipos integrais. Todos os óleos podem ser usados no preparo dos alimentos, em quantidades moderadas. O importante é não usá-los sob a forma de frituras (para não causar obstrução das artérias). O azeite-de-oliva deve ser usado para temperar saladas. Lentilha e ervilha secas, grão-de-bico, feijão branco, feijão preto, podem ser usados como substitutos do feijão mulatinho. Coma vegetais (crus ou cozidos) e frutas, sem restrição. Tome qualquer leite desnatado (pó ou líquido) sem medo. “Bagaços” são fibras alimentares importantes no controle do colesterol, da glicemia e na regulação do ritmo intestinal (as frutas e os vegetais são ricos em fibras solúveis e insolúveis).  A aveia é um alimento muito importante como fonte de energia, ferro, vitaminas do complexo B e fibras. O fato do alimento ser rico em fibras não significa “pouca caloria”. É importante uma avaliação mais completa, incluindo exames de laboratório, para a elaboração de um plano alimentar. Entretanto, as dúvidas mencionadas são bem pertinentes para o controle metabólico do diabetes. Atenciosamente, Gildete Fernandes,  Nutricionista do Hospital Português, Salvador, BA, flavio@hportugues.com.br

37. Caro JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO, realmente apresenta excesso de peso. O seu peso deve ser em média 70 kg. O fracionamento da alimentação é indispensável tanto para reduzir peso, quanto para o controle do diabetes. O ideal são 6 refeições, mas pode ser 5 também. O alho e a berinjela são dois alimentos com nutrientes com efeitos positivos para nossa saúde, mas propriedades medicinais talvez seja um termo muito forte. A ingestão deles ajuda para uma boa saúde. O Daonil não engorda, ajuda no controle do diabetes e um diabetes descontrolado leva a redução de peso, pois as células não conseguem receber os nutrientes. Com a medicação o organismo passa a funcionar adequadamente, aproveitando tudo o que ingerimos. Diferente de engordar. Pode tomar qualquer chá de erva ou outro de fruta que preferir. Os chás ajudam no bom funcionamento do intestino. Evite os chás que contêm cafeína, como o preto e o mate, porque estimulam o sistema nervoso central e o deixam mais ansioso. Retire as peles do peixe e do frango antes de consumi-los. Beba 2 litros de água por dia, no mínimo. As frutas contêm açúcar que alteram o controle da glicemia. Coma somente 5 a 6 por dia. Evite comer uva, jaca e abacate. Pode substituir uma fruta por uma barra de cereal sem açúcar. Lentilha, ervilha, feijão, grão de bico e soja pertencem à mesma família das leguminosas. Uma substitui a outra. Não devem ser consumidas juntas. Fruta de casca: maçã, pêra, goiaba, caqui, ameixa. Fruta com bagaço: laranja e mexerica. No momento, não pense na aveia: é muito calórica. Cevada, nada contra nem a favor. Existem alimentos ricos em fibras, como a aveia, que são bem calóricos. Cuidado. Alimentos integrais: arroz integral, pães integrais, verduras, legumes, grãos (lentilha, ervilha, milho, etc). Existem macarrão e arroz integrais de marcas variadas. Combine-os com o seu paladar. A ingestão de farelo de trigo é para um bom hábito intestinal, ou seja, o intestino funcionar diariamente sem fazer força e produzir fezes de consistência pastosa. Margarina e manteiga não são muito saudáveis. Evite-as. Troque o óleo de cozinha por azeite extra-virgem. Use o adoçante stévia, muito mais natural, pois é retirado das plantas. Coma oleaginosas diariamente como amêndoas, avelãs, macadâmias, pistache, nozes e castanha-do-pará, que contêm óleos "bons" e protegem as artérias.  Cuidado, em excesso trarão aumento de peso. No máximo uma ou duas unidades por dia. Espero ter ajudado a contento. Um abraço, Maria Izabel Lamounier de Vasconcelos. Nutricionista ABCD. secretaria@abcd.org.br 

38. José Carlos, recebi seu e-mail hoje e vou começar a tirar-lhe algumas dúvidas. Realmente, de acordo com o seu IMC (índice de massa corporal), está com obesidade de grau 1. Seu peso ideal é 66 Kg, então seria desejável uma redução de 23 Kg. Para se emagrecer de maneira saudável, não se deve perder mais que 4 Kg por mês (essa margem permite emagrecer com saúde e com menor risco de voltar a engordar). No seu caso, tanto para emagrecer como por causa de diabetes, é mesmo indispensável a realização de 6 refeições diárias. Este é um princípio da nutrição "maior fracionamento e menor volume". Se fica por muito tempo sem comer, seu corpo pensa que está passando por um período de falta de alimento e diminui a velocidade do metabolismo, estocando tudo que é ingerido. E, devido a diabetes, está mais suscetível a uma hipoglicemia se ficar muito tempo sem se alimentar. Estarei calculando quantas calorias seriam o ideal para ingerir por dia. Entrarei em contato com você novamente, respondendo as outras dúvidas. Atenciosamente, Flávia Morais, Nutricionista,  Mundo Verde Franquia, nutricao@mundoverde.com.br http://www.mundoverde.com.br/inicio.asp OBS: A MUNDO VERDE tem várias lojas em Salvador. Localize-as abrindo o seu site. Bom dia, “Zé” Carlos, tudo bem? Espero, realmente, que sim. A essa altura já deve está realizando as seis refeições diárias, “né”? Se ingerir 1700 Kcal por dia emagrecerá 4 Kg por mês. Essas 1700 Kcal devem estar divididas nas 6 refeições diárias, da seguinte forma: 340 Kcal no café da manhã, 120 Kcal na colação, 500 Kcal no almoço, no lanche da tarde 170 Kcal, no jantar 425 Kcal e 85 Kcal na ceia. Não é aconselhável fazer somente uma refeição pela parte da manhã, porque, como diabético, pode ter uma crise de hipoglicemia. Continue consumindo alho e berinjela, pois o alho tem ação depurativa, diurética e digestiva. É um antibiótico natural, devido a alicina, além de vermífugo e anticoagulante. Previne as tromboses, purifica as mucosas e evita a formação de catarro. Também tem efeito contra o excesso de ácido úrico, o reumatismo, a pressão alta e a arteriosclerose. A berinjela é diurética, desobstrui as vias biliares e auxilia na redução do colesterol. Que bom que toma chá! Além de erva-cidreira, camomila, capim-limão, funcho, pode usar o chá verde, o abajeru e o pata-de-vaca, que ajudam a baixar a taxa de glicose sangüinea. O melhor adoçante é o stévia, feito do chá das folhas de uma planta de origem do sul do país e do Paraguai. Pode ser usado sem causar efeito colateral algum. A maioria dos chás são diuréticos, mas nem todos ajudam a diminuir a taxa de açúcar no sangue. Um abraço, Flávia, nutricao@mundoverde.com.br

39. Olá, achei muito interessante a maneira como vem adotando novos hábitos em sua vida. Primeiramente, parabenizo-o pela força de vontade e superação que demonstra ter. É, realmente, difícil responder seu e-mail da maneira mais completa, discursando sobre as questões propostas de modo satisfatório; afinal, cada tópico, cada questionamento daria horas de discussão. Sinto-me frustrada por não ter todo o tempo para debatermos como gostaria sobre o que propôs em sua mensagem, mas o que lhe posso adiantar é: Seu peso não está 19 Kg acima do ideal como relatou. A faixa de IMC (Índice de Massa Corporal) para pessoas acima de 62 anos não é a mesma para os mais jovens cronologicamente. Portanto, concluí que está, em média, 10 Kg acima do seu peso ideal. Gostaria de salientar, porém, que hoje sua perda de peso deverá ocorrer em conseqüência da mudança de seus hábitos. Continue praticando a fé, a atividade física e reduzindo alimentos ricos em gordura e açúcar. Desta maneira, terá controlado quaisquer enfermidades cardiovasculares ou crônico-degenerativas, como o próprio diabetes. Faça, sim, um esforço e fracione mais sua dieta, ou seja, reduza um pouco a quantidade ingerida no almoço (mantenha a qualidade), coma um lanche no meio da tarde, alguma coisa pela manhã e sua saúde agradece. Continue ingerindo bastante água. Se for do seu agrado, mantenha os chás e evite os “pretos”, porque aumentam a ansiedade. Cuide do estômago! Ingira produtos integrais, pois sua absorção é mais lenta, elevando, gradualmente, e de forma reduzida, a taxa de glicose no sangue. Varie ao máximo os adoçantes que usar. Não existem estudos conclusivos sobre os efeitos de nenhum deles no organismo, portanto a recomendação é de trocá-los freqüentemente. Todos os leites desnatados, com selo de fiscalização e no formato “longa-vida”, são mais confiáveis do que qualquer outro. Nenhuma restrição ao presunto de peru. Margarinas “lights” a sua escolha – nocivas somente pelo excesso em seu consumo. Barras de cereal contêm açúcar mascavo, porém seu aporte de fibras pode reduzir seu efeito negativo – consuma com moderação. Qualquer alimento, rico ou pobre em fibras, engorda se consumido em quantidades superiores a sua necessidade energética. Tenha por hábito ler o rótulo das embalagens. A princípio, será complicado entender, mas a prática e a comparação de produtos o tornarão um consumidor atento às quantidades relativas principalmente de fibras, gorduras (saturadas e insaturadas), carboidratos ou açúcares (evite os simples), proteínas, cálcio e ferro. No mais, disponho-me a ajudá-lo em quaisquer outras dúvidas e desculpe-me por não poder me aprofundar mais. Atenciosamente, POLYANA SELVATICI.

40. Olá, José Carlos. Apesar de fazer pesquisa culinária e escrever textos sobre o tema, não sou nutricionista e, portanto, não estou habilitada a dar-lhe conselhos médicos. No entanto, vou tentar responder algumas de suas dúvidas, baseadas em meu conhecimento empírico. Acho que consome alho demais, o que pode ter um efeito irritante no estômago, apesar de alho ser notoriamente bom para a saúde. Também cultiva pouco o prazer da comida e se angustia com a possibilidade de ter que deixar certos hábitos, o que pode provocar ansiedade e compulsão alimentar. A alimentação saudável, acredite, é muito gostosa e criativa. Visite meu site para ver algumas receitas e conhecer possibilidades criativas: www.clipfit.com Experimente, de manhã, comer 1 fruta, como mamão, algum cereal, tipo aveia ou granola, sem açúcar, misturado ao suco de laranja. Pode dispensar a berinjela e o alho, pois foi provado que berinjela crua não tem os efeitos medicinais que andaram divulgando, além do que o gosto deve ser terrível. Os chás são naturalmente diuréticos e pode experimentar chá verde, que é antioxidante. É importante tomar pelo menos 2 litros de água por dia, é saudável e auxilia na perda de peso. Evite usar óleo para cozinhar. Use o azeite virgem como condimento, apenas para dar gosto, sem nunca aquecê-lo. Gordura aquecida aumenta os radicais livres e faz mal para o coração. Seu almoço está bom, mas pode temperar a salada. A beterraba é rica em açúcar mas também tem fibras, o que retarda a liberação do açúcar para o sangue. Pode comê-la sem exagero. Experimente refogar as verduras com “shoyo” (molho de soja) ou mesmo água. O sabor fica mais rico e é mais saudável. O açúcar das frutas vem sempre combinado com vitaminas e fibras, e é, portanto, saudável, sem exageros. Pode consumir 4 ou 5 frutas por dia, sem problema. Não se preocupe com tantas restrições e coma as frutas de que gosta, sem exageros. Não sou a favor de laticínios. Pode substituí-los por soja. Há várias receitas ótimas com grãos de soja. Procure consumir somente cereais integrais, a fibra realmente retarda a liberação do açúcar para o sangue. Evite comer alimentos refinados, como arroz branco, biscoitos e bolos feitos de farinha de trigo refinada. Quanto à margarina, não faz bem à saúde. Elimine os adoçantes artificiais. Use o açúcar natural das frutas. Barras de cereal são um produto processado, como se fosse um biscoito grosso; elimine todo alimento processado e refinado, se possível: nunca se sabe o que vai dentro deles. Cascas e bagaços: a casca das maçãs, por exemplo, é saudável, o bagaço das laranjas também. Os alimentos ricos em fibras têm tantas calorias quanto os refinados, portanto, controle a quantidade; no entanto, dão uma sensação de saciedade e o efeito retardador de liberação do açúcar para o sangue existe. Além disso, as fibras estimulam a regularidade intestinal. Procure lojas de produtos naturais. O Mundo Verde é uma rede que tem lojas no Brasil inteiro. O site deles é: www.mundoverde.com.br . Arroz integral é muito comum e há macarrão integral também, sempre neste tipo de loja mais natural. Na verdade, hoje em dia até os grandes supermercados têm uma seção de alimentos naturais; pesquise. Um último conselho: farelo de trigo pode ser saudável, mas é muito desagradável como o suco de berinjela e alho cru. Pare de se preocupar tanto e busque mais o prazer da vida, sem feijoada e torresmo, e sem exageros. A Wickbold fabrica pães integrais e é uma empresa grande, mas as soluções caseiras são sempre melhores. Um abraço e boa sorte, Noga Lubicz, vendas@clipfit.com

41. Olá, José Carlos, como vai? Recebi seu e-mail hoje e estou um pouco surpresa pela maneira como colocou seu problema a nós, nutricionistas. Aí perto de Ipiaú não há nenhuma Universidade próxima, para atendimento nutricional? Bom, você tem muitas dúvidas, por isso acho interessante procurar um nutricionista que esteja próximo de onde mora. Somos impedidos de fazer consultas virtuais. Além disso, há técnicas importantíssimas que só em contato com os pacientes é que conseguimos realizar, como por exemplo: Peso, Altura, Pregas Cutâneas, entre outras medidas, que é de exclusiva competência do nutricionista. Atendo pacientes em seus domicílios, por isso sei da importância de se avaliar pessoalmente cada indivíduo, entende? A seguir, algumas respostas que posso lhe fornecer. Segundo seu peso e sua altura, está obeso, mas o emagrecimento deve ser cauteloso, aos poucos. Primeiramente, precisa chegar ao sobrepeso e depois se houver necessidade com relação à saúde, aí sim, chegar à eutrofia (normalidade). Tudo isso cruzando exames laboratoriais, para se certificar que níveis de colesterol, triglicérides, uréia, creatinina, hemoglobina, hematócrito, etc, estejam adequados. O emagrecimento nunca pode colocar o estado de saúde em jogo, por isso devem existir tais cuidados. O alho tem poder anti-oxidante, que retarda o envelhecimento precoce e pode auxiliar na prevenção de problemas imunológicos. Mas não há a necessidade de se tomá-lo batido com suco! Outros alimentos, mais aceitáveis, também são fontes deste nutriente, como as frutas, fontes de vitamina C (é só um exemplo!). A berinjela é conhecida como auxiliar na diminuição dos níveis séricos de colesterol. Mas o recomendável é que se tome batido com suco de laranja, em jejum, pela manhã. O paciente diabético não deve exceder 3 porções de frutas/dia, pois o açúcar próprio destes alimentos também eleva os níveis de glicemia (frutose). Por isso, quando preparar um suco, nunca o faça puro, sempre o dilua em água. E respeite o limite de quantidade de frutas. Os chás mais indicados, para qualquer patologia, realmente são os de ervas: erva-doce, cidreira, capim-limão, camomila, ou os de frutas como o de maçã (feito com a casca), o de maracujá, etc. Mas nunca tome os mais escuros, pois contêm cafeína, que é prejudicial por estimular demasiadamente o Sistema Nervoso Central, além de "competir" na absorção de vários nutrientes. Sendo os chás de ervas, podem ser consumidos livremente, puros ou adoçados com edulcorantes artificiais. Se não for Hipertenso (Pressão Alta) pode tomar qualquer tipo. O Stévia tem procedência natural, mas no seu caso não há necessidade. Compre os não calóricos! O melhor líquido para "limpar" os rins é a água pura! Quanto ao fracionamento da dieta, 5 a 6 refeições por dia são ideais. Vou enviar-lhe uma Orientação Nutricional. A sua dieta não está ruim! Qualquer alimento diet é aquele que é fabricado com o ingrediente principal modificado ou substituído por um de função terapêutica. Por exemplo: o açúcar é substituído pelo adoçante, entende? Os edulcorantes (adoçantes) têm um sabor aparentemente mais forte porque o poder adoçante deles á muito maior do que o da sacarose (açúcar). Por isso os sorvetes e todos os produtos diets (e não necessariamente os lights) são mais "doces". Desejo que consiga agendar uma consulta com o nutricionista! Mas, mesmo assim, espero tê-lo ajudado. Um abraço e não esqueça de ler a Orientação em anexo! Sílvia Regina, snd@hospitalsantamarina.com.br Hospital e Maternidade Santa Marina, Tel. 031-11-5013-1240/1241.

42. Prezado José Carlos Dutra do Carmo, em retorno ao seu e-mail gostaríamos de nos desculpar pela demora em respondê-lo, devido ao grau de questionamentos e das buscas realizadas. Se ficamos muito tempo sem ingerir alimentos, o organismo “economiza” energia, não queimando a mesma quantidade que queimaria se houvesse ingestão de alimentos em curto espaço de tempo. Com relação aos chás, a Jasmine oferece chá de Maçã (lançamento). Maçã é benéfica para o coração: pela presença de potássio, elemento indispensável na geração de energia para atividade celular, nas contrações musculares e na transmissão de estímulos nervosos. Pela presença de pectina, que evita a deposição de gordura na parede arterial, evitando a arteriosclerose. É depurativa do sangue: Contém acido málico, que elimina detritos provenientes do metabolismo. Efeito emagrecedor: pela presença de pectina, que dificulta a absorção das gorduras, da glicose e elimina o colesterol. O potássio contido na maçã faz eliminar o sódio excedente e conseqüentemente o excesso de água retida no corpo. 40 g de maçã seca equivale a 2/2,5 maçãs in-naturas. Os chás auxiliam nas funções gástricas e digestivas. Com relação a outros chás, é muito complicado indicar algum especifico, pois cada chá natural, principalmente de ervas, são indicados para algumas funções determinadas. Os chás ajudam no funcionamento do rim, assim como a ingestão de água é vital para o funcionamento do rim, que é o “filtro” do nosso organismo. A cafeína presente no café e nos chás pretos tem ação “estimulante” no sistema nervoso e pode aumentar a pressão. O coador de pano não tem nenhuma influência no colesterol. O colesterol é dado pela ingestão de gordura de origem animal. O ideal é um balanceamento de proteínas, carboidratos, fibras, gorduras e vitaminas. O arroz e o macarrão são carboidratos. A beterraba contém bastante açúcar. Quanto à ingestão de verduras e legumes, o bom é  consumir um “mix” colorido (vitaminas). A frutose é metabolizada independente da insulina. Somente seu médico poderá indicar-lhe a quantidade de frutas a ser consumida. Quanto à eliminação do suco, o melhor é consumir a fruta, pois contém fibras, que são indicadas para diabéticos e pessoas com colesterol alto. Todas as frutas têm frutose. Frutose não é o mesmo que sacarose (açúcar comercial). Sacarose é um dissacarídeo (glicose + frutose). As frutas contêm frutose que não necessitam de insulinas para serem metabolizadas. É muito importante o consumo de fibras. Está agindo corretamente, consumindo produtos integrais. Evite os produtos beneficiados e refinados. Com relação às margarinas, não podemos afirmar qual é a melhor. O mais indicado é não consumi-las. Não consuma manteiga e seus derivados! A respeito dos biscoitos, os da marca Jasmine são ricos em fibras, principalmente os salgados que possuem poucas calorias. Relativamente às mudanças de atitudes em seu cardápio e nas atividades da vida, parabéns pela determinação e força de vontade. Barra de cereais é um conjunto de elementos integrais com versões diferenciadas. Por exemplo, ingredientes que contenham aveia, mel, flocos de arroz, coco. As barras não substituem as frutas e existem nomes comercias. Quando a Jasmine as fabricava, chamava-as de Suply. Lentilha e grão de bico são leguminosos e podem ser consumidos como sopas, saladas, etc. Consumir aveia moderadamente é recomendável, pois ajuda a reduzir o teor de gordura e açúcar no sangue. Recomenda-se que a aveia seja utilizada, de preferência crua, reidratada em água, para que as vitaminas e minerais sejam aproveitados integralmente. As fibras auxiliam para o bom controle da taxa de glicose no sangue. O ideal é utilizar o máximo possível de alimentos integrais e naturais. A Jasmine é uma empresa há 12 anos no mercado e tem como linha mestra levar a seus clientes produtos integrais e naturais desenvolvidos com muito critério e extremo respeito. Temos grande preocupação em oferecer produtos de alta qualidade e estamos sempre trabalhando para que os nossos clientes estejam totalmente satisfeitos. Colocamo-nos também à sua disposição para maiores informações através do telefone 0800-7018003 (discagem gratuita) nos dias úteis, de segunda-feira a quinta-feira, das 8 às 18h e sexta-feira das 8 às 17h. Daniela Ricco Pinheiro, Engenheira de Alimentos.  www.jasminealimentos.com.br sac@jasminealimentos.com.br

43. É muito importante sua preocupação em melhorar a qualidade da alimentação. Com ela balanceada poderá evitar e ajudar (ou sanar) doenças adquiridas por hábitos alimentares errôneos. Quanto ao seu porte físico, está entrando na obesidade. Seu peso ideal seria entre 65 a 71 kg. Sendo portador de diabetes, mais um motivo forte para perder os quilos a mais. Alimentar-se 6 vezes ao dia é indispensável, ou seja, comer mais vezes com menores quantidades. Procedendo assim, estará evitando, também, uma hipoglicemia ou problemas gastro-intestinais. O alho ajuda a combater infecções e a berinjela abaixa o colesterol ruim (LDL) no sangue. O café da manhã é uma das refeições mais importantes, pois o seu principal papel é o fornecimento de nutrientes e, em especial, de energia para as primeiras horas do dia e para as necessidades globais. Saltar o café da manhã, como vem fazendo, implica em afetar parcialmente, de forma aguda, a capacidade de atenção, além de reorientar os aportes nutricionais para outros horários de alimentação, o que possui uma associação reconhecida com o risco de obesidade. Tudo em excesso é prejudicial, inclusive a quantidade de chá que está ingerindo. Os chás têm propriedades específicas e sem um controle na sua ingestão fica difícil medir o quanto dessas propriedades o organismo está recebendo. Ajudam o bom funcionamento do rim, como qualquer outro líquido, sempre tomado nos intervalos das refeições e nunca durante as grandes refeições, porque isso acarretará uma dilatação do estômago e diluição do suco gástrico, o que dificultará a digestão. A quantidade ideal é de 1,5 a 2 l/dia. O excesso de chá não elimina açúcar da urina. O que elimina o excesso de açúcar é a fibra. As fibras ajudam o organismo a eliminar o excesso de glicose, colesterol (LDL), triglicérides e previnem o câncer do colon. Os chás de cafeína eliminam o cálcio do organismo e estimulam a mucosa gástrica e o sistema nervoso central. Quanto aos adoçantes artificiais, todos são de boa qualidade. Cada pessoa tem a sua preferência, visando o paladar. Pode comer arroz com lentilha, pois os grãos (leguminosas e cereais) são ricos em fibras. Todo alimento integral é mais saudável e mais rico em fibras e vitaminas. Os óleos mais indicados no uso de tempero ou para cozinhar, são chamados monoinsaturados e polinsaturados, que são de origem vegetal e combatem o colesterol ruim. Toda gordura animal é chamada saturada e aumenta o colesterol ruim no sangue. Mas lembre-se de que os alimentos com fibras também engordam, se consumidos em excesso. Procure ingerir vegetais crus e sem temperos (no caso das saladas), aproveitando o sabor natural desses alimentos. Tudo é uma questão de hábito. O óleo aquecido aumenta a produção de radicais livres, devido a sua oxidação. Portanto, o ideal é usá-lo uma única vez, quando se tratar de frituras. Pode consumir feijão com grão-de-bico ou isoladamente, mas em pequenas quantidades. O lanche da tarde também tem o seu valor, portanto mude os seus hábitos alimentares, incluindo esta refeição. No seu caso, as frutas em excesso podem prejudicar devido ao teor de açúcar monossacarídio existente nelas (frutose). Por que 2 copos de leite à noite e os 2 pães com presunto? O ideal seria distribuí-los durante o dia, o que facilitaria um sono mais tranqüilo devido à digestão das proteínas. Cientificamente, a melhor margarina é a Becel Pró-Active, que tem antioxidantes que combatem os radicais livres. A barra de cereal não substitui a fruta, mas pode ser usada em refeições pequenas, entre o desjejum e o almoço. Continue praticando exercícios, pois melhorará o nível de açúcar e evitará outras doenças resultantes do sedentarismo. Mantenha toda essa esperança e satisfação interna confiante no seu Deus. Dê preferência às carnes magras. Retire as peles do peixe e do frango antes de consumi-los. Prefira os adoçantes como FINN, ZERO-CAL E GOLD. Evite o ASSUGRIM, DIETYL, DOCE MENOR, TAL E QUAL, SUCARYL E DOÇURA, pois poderão alterar sua pressão. Use os alimentos “DIET” com moderação. As massas (macarrão, farinha, angu, etc) e vegetal (batatas, mandioca, cará) deverão ser usadas em substituição ao arroz, ou quando usá-los juntos, diminuir a quantidade de arroz. Alimentos ricos em fibras: feijão, verduras, legumes crus, frutas com casca e bagaço, cereais integrais (arroz, pão, aveia). As fibras são muito importantes para ajudar no controle da glicemia. Elimine do seu cardápio: açúcar, rapadura, pudim, torta, bala, refrigerante, mel, bombom, sorvete. Atenciosamente, Maria Elisabete Chemim, Nutricionista Clínica dos Hospitais André Luiz e Arapiara S/A, Belo Horizonte, MG.

44. OI, SOU KEYLI, NUTRICIONISTA. Vou tentar esclarecer suas DÚVIDAS. Demonstrou ser uma pessoa muito preocupada com sua saúde. Parabéns e obrigada desde já por confiar em mim. Como você mesmo disse, não é uma consulta e por isso nem vou lhe dizer o preço que cobro. Mas saiba que estou muito feliz pelo carinho da sua mensagem. A MÉDIA DE PESO PARA SUA IDADE É 65 Kg, MAS ATÉ 73 Kg é normal pelo IMC. Fazer seis (6) refeições por dia é realmente indispensável para qualquer dieta. O medicamento DAONIL não engorda. TODOS OS CHÁS BRANCOS PODEM SER CONSUMIDOS COM ADOÇANTE. Evite os chás que contêm cafeína, como o preto e o mate, pois estimulam o sistema nervoso central e o deixam mais ansioso. Café demais faz a pressão subir. ACRESCENTE UM FIO DE AZEITE DE OLIVA NA SALADA. COMA AS FRUTAS QUE CONTÊM MAIS ÁGUA: MELANCIA, MELÃO, ABACAXI, LIMA. Evite comer jaca, uva e abacate. As frutas são ricas em um açúcar chamado frutose, que é absorvido no sangue e se transforma em glicose, no fígado. Sendo assim, não aumenta muito a taxa de glicose no sangue após a absorção, exceção feita às uvas, que possuem uma quantidade maior de glicose que as outras. Suco de fruta, apesar de natural, contém frutose, que é o açúcar da fruta que também altera a glicemia. Portanto, quando tomá-lo, misture-o com água. PODE USAR O QUEIJO BRANCO PARA SUBSTITUIR O PRESUNTO. No lugar de uma fruta pode comer uma barra de cereal LIGHT. Lentilha e grão-de-bico substituem o feijão. FRUTAS COM CASCAS E BAGAÇOS: MAÇÃ, PÊRA, LARANJA, MANGA, TANGERINA, LIMA. A ingestão de alimentos ricos em fibras é fundamental para auxiliar o bom controle da taxa de glicose no sangue. Prefira alimentos à base de grãos integrais, como pão, arroz e biscoitos integrais. Eles contêm mais fibras, são mais nutritivos, acabam com a fome mais rápido e diminuem e velocidade de absorção da glicose no sangue. Substitua o pão comum (francês, branco) pelo integral. O pão integral é aconselhado por ser rico em vitamina B e em germe de trigo, que possibilita o perfeito funcionamento dos intestinos. Uma marca de pão integral idônea é a PLUS VITA. Substitua o biscoito conhecido como “água e sal” pelo GRAN DIA DANONE. Não ingira líquidos durante as refeições e prefira carnes cozidas e assadas com pouco óleo. Recomendo ler o rótulo antes de consumir os alimentos industrializados. Se contiver as palavras glicose, sacarose, açúcar ou açúcar invertido, evite esses alimentos. O alimento dietético (“diet”) que deve ser usado é o adoçante. Utilize os que contêm CICLAMATO DE SÓDIO, SACARINA OU ASPARTAME. Alimentos “diets”: Não contêm açúcar, mas têm gorduras e outras substâncias prejudiciais em excesso. Seguindo a dieta prescrita pelo nutricionista, não é preciso consumir alimentos artificiais. Alimentos “lights”: Podem conter açúcar e por isso não devem ser consumidos. Uma alimentação equilibrada deve conter frutas e hortaliças de cores bem variadas todos os dias, pois esses alimentos são ricos em vitaminas e minerais. EVITE: Açúcar branco, mascavo, doces preparados com açúcar, mel, melaço, rapadura e frutas em calda; neston, farinha láctea, mucilon, cremogema, e excesso de farinhas de mingaus; bebidas alcoólicas e refrigerantes. Excesso de: ervilha, milho, aipim, batata-doce e inglesa, inhame, fruta-pão, bananas, uvas, cereja, castanha. Alimentos com muito sal e gorduras: Carnes salgadas, lingüiças, enlatados, frituras e biscoitos doces, principalmente os recheados. MODERE: Alimentos dietéticos, manteiga, margarina, creme de leite, leite de côco, azeite de dendê e gorduras animais; pães e massas; frutas secas (ameixa, uva passa). PREFIRA: Adoçantes, por exemplo: Stevia, Assugrin, Dietil, Sucaryl, Doce Menor, Holda, Finn, etc. Óleos Vegetais (soja, milho, canola, azeite doce e outros). Leite e iogurte desnatados, queijos brancos. Folhosos (alface, agrião, brócolis, repolho, couve, cheiro verde). Verduras (abóbora, quiabo, berinjela, jiló, maxixe, pepino, tomate, cebola, cenoura). Frutas (abacaxi, laranja, cajá, caju, goiaba, melancia, melão, tangerina. Alimentos ricos em fibras: frutas e verduras cruas e cereais integrais (aveia, por exemplo). ESPERO QUE TENHA COLABORADO COM VOCÊ. SE AINDA FICOU COM ALGUMA DÚVIDA, ESCREVA-ME DE NOVO. FOI UM PRAZER AJUDÁ-LO. QUE DEUS O ABENÇOE. KEYLI. E-mail: kquirelli@ig.com.br Oi! Como vai? Espero que esteja tudo bem. Fiquei muito feliz em saber que consegui esclarecer suas dúvidas. Mas, se ainda quiser perguntar algum coisa, estarei sempre à disposição! Lembrei de mais um site bom que fala de muitas coisas legais sobre alimentos: www.soscozinha.com.br Resolvi mandar-lhe mais algumas orientações sobre diabetes. Espero que goste. Atualmente estou trabalhando no Restaurante Baby Beef, em Salvador. Você o  conhece? Veja o site: www.babybeef.com.br  Quando vier a Salvador, fale-me, para quem sabe nos conhecermos pessoalmente. Tem esposa e filhos? Sua mãe ainda é viva? Diga a elas que lhes desejo um ótimo Dia das Mães. Um abraço, Keyli.

45. Oi, “Zé” Carlos, enviei-lhe um pacote via postal cheio de informações sobre diabetes e alimentação. Se tiver alguma dúvida, escreva-me. Um abraço. Clarice Helena Couto, Endocrinologista e Clínica Médica, Clínica Saúde Consciente, Blumenau, SC. claricecouto@uol.com.br A seguir, os dados coletados do material fantástico e maravilhoso que me enviou CLARICE. Utilize somente 20 ml de óleo por dia no preparo dos alimentos. Verduras de folhas cruas, que podem ser consumidas à vontade: Acelga, agrião, almeirão, aspargo, brócolis, chicória, couve, espinafre, repolho, palmito, rabanete, tomate, pepino, cebola. Legumes saudáveis: abóbora, abobrinha, moranga, beterraba, berinjela, cenoura, chuchu, vagem, quiabo, nabo, ervilha (fresca), jiló, couve-flor, pimentão. Tubérculos e raízes recomendados, com moderação: aipim, batata inglesa, batata doce, batata baroa (mandioquinha), cará, inhame. Frutas indicadas: abacaxi, ameixa, banana d’água, banana maçã (branca ou preta), caqui, caju, figo, goiaba, jabuticaba, laranja (pêra ou lima), maracujá, melancia, melão, morango, maçã, mamão, manga, pêra, tangerina, pêssego, uva. GRUPO DE ALIMENTOS. Vegetais do Tipo A. Podem ser ingeridos sem restrições: Acelga, agrião, alface, almeirão, chicória, couve-manteiga, brócolis, couve-flor, espinafre, mostarda, nabo, pepino, rabanete, repolho, tomate. Vegetais do tipo B: Abóbora, abobrinha, berinjela, beterraba, cebola, cenoura, chuchu, ervilha, palmito, pimentão, quiabo, vagem. FRUTAS: Abacaxi, ameixa, banana, caqui, goiaba, laranja, maçã, mamão, manga, melão, melancia, morango, pêra, pêssego, tangerina, uva. Carnes e peixes devem ser cozidos, grelhados ou assados. Não frite os alimentos. Alimentos que devem ser evitados: Açúcar, balas, chocolate, bombons, mel, bolo, tortas, geléias, marmelada, leite condensado adoçado, refrigerantes, cerveja, vinhos doces, champanha, alimentos fritos, azeitonas, castanhas. Alimentos sem restrições: Chá (sem açúcar), caldo de carne ou galinha (sem gordura), limão, mostarda, picles (não adoçados), vinagre, edulcorantes não calóricos, condimentos (alho, baunilha, canela, cebola, cebolinha, cominho, louro, orégano, pimenta, salsa, salsão). Alimentação equilibrada é aquela que contém todos os nutrientes: carboidratos ou açúcares, proteínas, gorduras, sais minerais, vitaminas, fibras vegetais e água. TIPOS DE ALIMENTOS. ENERGÉTICOS. —Fontes de carboidratos (glicose): cereais (arroz, milho, trigo, aveia, centeio, cevada) e seus produtos (farinhas, pipoca, pão, macarrão, massas, biscoitos) e tubérculos (batata, batata-doce, mandioca, cará, inhame). —Fontes de gorduras: óleos vegetais, margarina, frutas oleaginosas (amendoim, nozes, castanhas, avelãs, amêndoas). CONSTRUTORES. —Fontes de proteínas: carne de boi, aves, peixes, frutos do mar, ovos, leite, queijos, iogurte, coalhada, leguminosas (feijões, ervilhas, lentilha, grão-de-bico, soja). REGULADORES. —Fontes de vitaminas, sais minerais, fibras vegetais, água, verduras, legumes e frutas. Lembre-se de que o equilíbrio nas refeições garante boa nutrição e melhor controle da glicemia. O que são fibras vegetais? São nutrientes importantes para a saúde do aparelho digestivo e prevenção de algumas doenças como prisão-de-ventre, hemorróidas, gastrite, colite e tumores do aparelho digestivo. As fibras macias são responsáveis pelo menor aproveitamento da glicose e das gorduras durante a digestão. Exemplos de alimentos com fibras: leguminosas (feijões, ervilhas, lentilha, grão-de-bico, soja); cascas e bagaços de frutas; legumes e verduras; aveia e cevada. GORDURAS E COLESTEROL. O alto consumo de gorduras favorece o aumento dos seus níveis no sangue e de doenças decorrentes desse péssimo hábito alimentar. Prepare os alimentos com óleos vegetais (de soja, arroz, girassol, gergelim, canola, oliva). Evite carnes gordas, embutidos, queijos gordos, creme de leite, maionese e manteiga. SÓDIO. Largamente encontrado no sal de cozinha, alimentos industrializados e de origem animal, o sódio é um componente relevante para o desenvolvimento da hipertensão arterial (pressão alta) e, portanto, deve ser consumido com moderação. Prefira temperos e alimentos frescos e congelados. Abuse de ervas aromáticas, alho, cebola e cheiro verde. Alguns adoçantes à base de sacarina e ciclamato contêm alto teor de sódio. Não abuse dos adoçantes e de outros produtos dietéticos. O açúcar (refinado, cristal e mascavo), mel, doces, refrigerantes e o álcool contribuem de forma acentuada para o descontrole da glicemia. Evite-os. Mantenha o peso dentro da faixa de normalidade (20 a 25 kg/m²), que se calcula dividindo o peso por altura vezes altura (IMC). Fracione a alimentação em 3 refeições principais ao dia e coma frutas entre as refeições, evitando longos períodos em jejum. Inclua nas refeições os três grupos de alimentos: Energéticos (arroz, massas, pães, batatas); construtores (carnes, ovos, leite e derivados) e reguladores (verduras, legumes e frutas). Substitua produtos refinados por integrais (o arroz branco pelo integral, por exemplo), devido ao maior teor de fibras que ajudam a controlar o índice glicêmico. Consuma 2 a 4 porções de frutas por dia (1 por vez) e prefira as frutas com menor quantidade de glicose e frutose. Não abuse de uva, melancia e caqui. Prefira comer a fruta em vez de tomar o suco de frutas, pois este, além de ser mais calórico, contém menor teor de fibra. Evite açúcar (refinado ou mascavo), refrigerante, doce, mel, pois aumentam rapidamente a glicemia. Use produtos “diets” com moderação, pois alguns apresentam maior valor calórico (chocolate, bolacha e bolo “diet”). Evite café, chá mate, carnes gordas, queijos amarelos, frituras e bebidas alcoólicas. O exercício físico é um santo remédio para a saúde. Pratique-o sempre, todos os dias, de segunda a sexta-feira.

46. Oi, “Zé” Carlos, tudo bem? Li seu e-mail hoje, e, em breve, estarei respondendo TODAS as suas dúvidas. É um imenso prazer tê-lo como meu cliente e tentarei tudo que for possível para ajudá-lo. Como sabe, no código de ética dos nutricionistas é proibido passar dieta por e-mail sem que façamos uma análise com nosso paciente pessoalmente. Mas sei, também, como está inseguro quanto à sua alimentação, e então irei colaborar com você, pois me disse que pediu ajuda a algumas nutricionistas e não ficou satisfeito. Enviar-lhe-ei um cardápio depois. Antes, porém, peço-lhe que responda algumas perguntas que lhe mandarei em breve para ajudar-me a entendê-lo bem. Por enquanto, é isso. Aguarde ainda nesta semana. Abraços, Aline Arouca de Castro. E-mail: Nutrielite@aol.com “Zé” Carlos, aí vai a resposta às suas dúvidas. Fazer pelo menos 5 refeições diárias seria o ideal. Se forem 6, é melhor ainda: seu organismo “gasta“ mais energia para fazer a digestão em cada horário, então esta também é uma forma de fazer o metabolismo “acelerar”. O alho e a berinjela contêm propriedades medicinais. A berinjela ajuda a diminuir o colesterol ruim porque suas fibras, que são do tipo “solúveis”, “englobam” moléculas de colesterol LDL, excretando-as para fora do organismo. Portanto, faz bem ao coração. Daonil é um hipoglicemiante oral que pode trazer como efeito colateral o aumento de peso em algumas pessoas. Pode ser ou não o seu caso (se bem que pelo que come, pode até ser que ele esteja fazendo ganhar mais peso). Nunca deixe de praticar exercícios físicos diariamente e alimentar-se corretamente. Chás indicados: chá verde, banchá, jasmim (ajuda no processo de digestão), camomila, maracujá (só de noite, porque dá sono), erva-cidreira, hortelã. Não tome chá preto. Os chás ajudam no bom funcionamento do organismo em geral, desde que não sejam tomados em excesso, pois alguns podem conter compostos antinutricionais, ou seja, que irão diminuir a absorção de outros micronutrientes da dieta. Duas a quatro xícaras de chá ao dia são suficientes. Não é que o chá ajude a “limpar” o organismo, é que a pessoa ingere “tanta” água (do chá), que acaba urinando bastante, e fazendo o rim funcionar melhor. Não tome chás que contêm cafeína, nem café, porque aumentam a ansiedade. Óleo de cozinha: deve variar as fontes cada vez que for comprar óleo. Uma vez compre óleo de canola, outra vez de milho, na outra de girassol... e assim por diante. O melhor mesmo é o de canola. As verduras e legumes devem ser consumidas com bastante variedade de cores (o melhor é ter um alaranjado, um vermelho, um amarelo e um verde escuro). Acrescentar sempre um vegetal folhoso verde escuro (exemplo: espinafre cozido ou couve – crua ou cozida). Coma algum alimento na parte da tarde. Não deve ficar todo este tempo de jejum, porque poderá entrar em acidose (que é a queima de energia através da gordura, só que esta “queima” é incompleta, podendo levá-lo a ter vertigens e irritabilidade). Por ter diabetes, evite comer o carboidrato simples: acrescente uma proteína, ou uma gordura ou uma fibra junto. Exemplo: 2 fatias de pão (que é o carboidrato) com 3 pontas de faca de requeijão light (ou manteiga), biscoitos com patê, ou requeijão ou manteiga (em pouca quantidade). O carboidrato é um açúcar, então se não há uma proteína, ou uma fibra ou uma gordura para retardar sua absorção, ele “entra” de uma vez no organismo, aumentando sua glicemia. No almoço, deverá haver sempre junto com o carboidrato um peixe (que é a proteína), fibras, etc., então não terá tanto problema, porque a absorção do carboidrato será mais lenta. Nunca coma as frutas sozinhas. Acrescente a elas alguma fibra (farelo de trigo, ou aveia = 1 colher de sopa) para retardar a absorção da glicose do carboidrato da fruta. Frutose é um carboidrato simples também e não deve ser consumido em excesso, pois as frutas contêm glicose e frutose (e não só frutose). Abacate, jaca e uva deverão ser consumidas em quantidades muito pequenas. O abacate contém muita caloria (gordura vegetal, mas não contém colesterol). A uva e a jaca têm muita glicose e frutose por grama de alimento. Adicione água nos sucos naturais das frutas para que fiquem mais diluídos e a absorção mais lenta. As frutas que pode consumir, em quantidades limitadas, são: Maçã, abacaxi, ameixa vermelha, banana, pêra, goiaba, pêssego, laranja, caqui, Kiwi, figo, manga, melancia, mamão, morango, melão, uva, mexerica. As que mais contêm fibras são: laranja (com bagaço), ameixa fresca, mamão... Peito de peru: nenhuma restrição, desde que não coma mais que 2 fatias, já que é rico em sódio. Pode optar por biscoitos naturais da marca “Jasmine”, que não contêm em sua composição a gordura vegetal hidrogenada, que é péssima gordura, presente nos biscoitos em geral, sorvetes, salgadinhos, margarinas, etc. O biscoito água e sal não contém tanto sódio assim a ponto de preocupar, ainda mais porque você já não coloca sal nas refeições. Prefiro que coma manteiga (em menor quantidade) ou requeijão “light” do que margarina. Pode substituir uma fruta por uma barra de cereal de vez em quando. Há várias marcas e diferentes sabores no mercado. Sites sérios: http://www.rgnutri.com.br/ ,  http://www.nutricaoempauta.com.br/novo/46/nutriclinica.html  Lentilha é uma leguminosa que tem muita fibra e carboidrato. É deliciosa e seu tempo de preparo é menor que o feijão (20 minutos na panela de pressão). Grão-de-bico é um alimento rico em fibras e carboidrato e o tempo de seu cozimento é um pouco lento. As fibras não contêm calorias, portanto não engordam. Marcas de produtos integrais: Jasmine (cereais integrais), Wickybold (pães). O telefone do dono de uma loja de produtos naturais de Campinas é: 031-19-3252-9046/9113-1370 (Arnaldo ou Marilda). Atendem pelo correio. As melhores marcas de arroz e macarrão integrais: arroz Ráriz e macarrão Renata. São muito bons e mais fáceis de serem encontrados. “Farelo de trigo” é bom para fazer o intestino funcionar bem e retarda a absorção da glicose. Azeite, marcas mais saudáveis: Azeite de Oliva Extra Virgem, Azeite Puro de Oliva. Não sei se consegui tirar todas as suas dúvidas. Espero que tenha ficado satisfeito com as respostas. Caso ainda tenha dúvida, envie-me um e-mail: nutrielite@aol.com  Aline Arouca de Castro. Telefone: 031-19-3251-1670.

47. José Carlos, sou nutricionista do Hospital das Clínicas da UFMG e professora do Curso de Nutrição do Centro Universitário Newton Paiva. Recebemos seu e-mail no Serviço de Nutrição. Espero poder atendê-lo adequadamente. Aqui vão algumas orientações. Tomando por base seu peso, estatura e idade, recomendo uma dieta de 1800 Kcal/dia. A dieta com a lista de substituições enviarei pelo correio amanhã. Faixa de normalidade de peso para a estatura, sem considerar a idade: 53,5 a 72,3, sendo a média de peso esperado = 63 Kg. Considerando ± 30 Kcal/Kg, a dieta chegaria a 1890 Kcal, aproximadamente. O fracionamento das refeições é imprescindível para o diabético. Faça, pelo menos, 5 refeições por dia (desjejum, lanche, almoço, jantar e ceia). O alho, segundo a medicina natural, tem propriedades anti-inflamatórias. Já quanto à berinjela nada foi comprovado a respeito de redução dos níveis séricos de colesterol. O chá pode ser ingerido, sem excesso, pois pode levar a perdas consideráveis de eletrólitos, tais como os minerais sódio, potássio, cloretos, etc. Prefira os chás de hortelã, camomila, erva-cidreira, erva-doce. Evite o mate e o chá preto pelo conteúdo de cafeína. A ingestão de líquidos, preferencialmente de água, num volume de pelo menos 2 litros por dia, auxilia o funcionamento dos rins, aumentando o volume urinário, prevenindo a concentração da urina e evitando as infecções do trato urinário. Caso haja algum comprometimento renal, o volume de líquidos deve ser controlado. Não exagere no uso de adoçantes. A stévia ainda não tem estudos mais conclusivos. Utilize os adoçantes à base de ciclamato com sacarina (Assugrim, Doce Menor, Adocyl, Zero-Cal líquido) e alterne-os com os à base de aspartame (Zero-Cal em pó, Finn, Gold-fructofibras em pó, Adocyl em pó). A hipertensão arterial é muito comum em sua faixa etária, incidindo em mais de 50% da população nesta idade. É uma complicação perigosa associada ao diabetes. Portanto, use o sal com moderação. Enviarei também uma orientação para dietas hipossódicas. Os óleos mais indicados para cozinhar são os vegetais de soja, milho, algodão, girassol. Não importa a marca ou embalagem. É recomendável o uso de azeite pelo menos uma vez ao dia, podendo ser utilizado na salada (1 colher de sobremesa), uma vez que contém ácidos graxos monoinsaturados, importante fonte de lipídio para a saúde. A composição da dieta e como agrupar os alimentos, poderá entender melhor com as orientações que enviarei, posteriormente. Evite ingerir numa mesma refeição arroz e massas ou feijão com outra leguminosa, porque são do mesmo grupo de alimentos. Entretanto, se as quantidades não forem demasiadas, eventualmente podem ser consumidos, se for um hábito que lhe agrada. Não se deve ingerir líquidos durante as refeições, podendo fazê-lo de uma a duas horas antes ou após. Não conheço todos os sites da Internet para recomendar algum específico. Deve haver critérios para absorver as informações de modo geral. Portanto, use o bom senso, priorizando os que têm embasamento científico ou que estejam associados a instituições confiáveis. A cada ano  que passa, é bom ingerir porções menores de alimentos. Aí está nossa maior dificuldade, pois reproduzimos os hábitos alimentares incorporados ao longo de nossa vida. Com a idade, o metabolismo basal diminui e, por essa razão, é mais saudável consumir menos alimentos e, conseqüentemente, menos calorias. As frutas não devem ser consumidas em excesso na dieta de diabéticos, já que possuem frutose, um açúcar simples, semelhante ao metabolismo da glicose, podendo elevar os níveis sanguíneos da glicose. Três a quatro porções de frutas ao dia é o suficiente, de preferência com outros alimentos. O pão de sal não apresenta nenhum inconveniente; portanto, não precisa evitá-lo. Torradas ou pão macio não têm diferença calórica. Esta é uma falsa idéia que muitas pessoas têm. Ao torrar o pão, retirou-se apenas água ou umidade do alimento. O biscoito água é a melhor opção para o diabético hipertenso, pois não contém sal nem açúcar. Dois biscoitos equivalem a meio pão de sal, em relação às calorias. O presunto de peru é mais indicado, contendo menor teor de gordura e colesterol. As margarinas vegetais são mais apropriadas que as manteigas. Sugiro-lhe as mais cremosas e as “lights”. Quanto mais duras, apesar de vegetais, têm a estrutura química mais parecida com a manteiga animal. O processo industrial das margarinas, para adquirirem a consistência cremosa (tranformando óleos líquidos em creme) conferem-lhes a característica de saturação encontrada nas manteigas (origem animal). A barra de cereais é um bom alimento, entretanto não substitui as frutas. São ricas em fibras e auxiliam na saciedade, sendo uma boa alternativa entre as refeições. Podem provocar distensão abdominal em algumas pessoas, apresentando-se muito fermentativas. A aveia é uma boa fonte de fibra solúvel e insolúvel, auxiliando o controle glicêmico, a função intestinal, desde que em quantidades moderadas. Assim como a cevada é fonte de vitamina B. O mais importante é ter uma alimentação a mais variada possível. Não é necessário exagerar em quantidade e freqüência de certos alimentos. Coma com prazer quantidades apropriadas e devagar. Os alimentos ricos em fibras, principalmente as insolúveis (folhosos, bagaço e cascas de frutas) são pobres em calorias e têm a função principal de formar o bolo fecal e facilitar a sua eliminação. Os alimentos integrais são geralmente ricos em vitaminas do complexo B, exigem maior tempo de digestão, muitas vezes aumentam a saciedade. Enfim, espero ter atendido sua solicitação e lhe tirado algumas dúvidas. Parece que já é bastante disciplinado e preocupado com sua saúde. Parabéns. COMPLEMENTO. Evite: ameixa seca, biscoitos salgados, queijo, margarinas e manteigas com sal, doce de leite, sardinha em lata, sucos concentrados. Utilize com moderação: ameixa fresca, biscoitos doces, margarinas e manteigas sem sal, chás naturais, doce de frutas, leite tipo C, pão doce, sardinha fresca, sucos naturais. Para aumentar o sabor dos alimentos, acrescente neles: orégano, limão, manjericão, coentro, pimentão, noz moscada, pimenta, hortelã. Mastigue bem os alimentos, comendo devagar para facilitar a digestão. Evite tomar líquidos junto com as refeições, pois é um hábito que dificulta a digestão. Faça 4 a 6 refeições diárias. Evite o uso de gordura de porco, peles, bacon ou torresmo. Consuma carnes magras, frango sem pele, peixe sem couro, retirando toda a gordura que enxergar. Evite os alimentos que contêm açúcar (mel, balas, pudins, chocolates e similares). Os vegetais cozidos permitidos em sua dieta são: chuchu, abobrinha, beterraba, moranga, jiló, vagem, berinjela, brócolis, couve-flor. Vegetais crus indicados: couve, alface, taioba, almeirão, agrião, acelga, rabanete, tomate. Utilize alimentos ricos em fibras: feijão, verduras cruas, frutas com casca e bagaço, cereais integrais, farelo de aveia, legumes.  Rosângelis Del Lama Soares, Serviço de Nutrição do Hospital das Clínicas da UFMG, Belo Horizonte, MG, rodis@terra.com.br

48. Caro José Carlos, meu nome é Edith, sou nutricionista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e seu e-mail chegou em minhas mãos através da Secretária da Superintendência do Hospital. Tentarei esclarecer suas dúvidas de maneira clara e objetiva, porém, como você mesmo relatou, fica difícil através de e-mail dar-lhe uma orientação adequada. Com relação ao pagamento, não tem sentido, pois estou me propondo apenas a tirar suas dúvidas. Peso desejável: mínimo - 57,800 Kg; médio - 65,00 Kg; máximo - 72,300 Kg. O ideal é que chegue ao peso desejável médio (65 Kg). Sua necessidade calórica é de 1950 Kcal por dia, portanto não deve ultrapassar esse patamar. No entanto, deve diminuir para 1500 Kcal se quiser mesmo perder peso, manter a glicemia controlada e prevenir as complicações do diabetes. Fracione a alimentação em 5 a 6 refeições ao dia. Mantenha intervalos entre cada refeição de 2 a 3h. Inclua em cada refeição um alimento de cada grupo (roda dos alimentos). Substitua os alimentos, mas que sejam do mesmo grupo e de valor calórico semelhante. Exclua açúcar e doces. Utilize óleo no preparo dos alimentos em pequena quantidade. Evite frituras e alimentos gordurosos. Diminua o uso do sal de cozinha e alimentos industrializados. Prefira alimentos frescos, naturais e integrais, em vez dos industrializados. Pratique atividade física regular. É a melhor maneira de manter uma alimentação equilibrada e peso corporal adequado. Se quer mesmo emagrecer e controlar sua glicemia tem que mudar seus hábitos.  Sua alimentação não é bem fracionada, tente fazer as 5 ou 6 refeições com intervalos de 3horas. Isso não significa passar fome, mas comer pouco várias vezes ao dia. Atividade física é muito importante. Continue praticando-a todos dias, mas não vá além do seu  limite. Tente, não é tão difícil como parece, logo  estará adaptado! Uma alimentação saudável e equilibrada deve ser composta de alimentos variados para que forneça todos os nutrientes de que o corpo precisa. Para entender melhor é importante conhecer os grupos dos alimentos. Grupo dos Alimentos Reguladores: São os que fornecem em maior quantidade as vitaminas, sais minerais e fibras que vão regular as funções do corpo. Grupo dos Alimentos Construtores: São alimentos que fornecem em maior quantidade as proteínas que servem para manter a estrutura do corpo. Grupo dos Alimentos Energéticos: São aqueles que fornecem em maior quantidade os glicídios (hidratos de carbono) e lipídeos (gorduras) que servem para dar energia (calorias) de que o corpo precisa para funcionar. É importante saber que os alimentos ricos em glicídios, depois de ingeridos, serão transformados em glicose. São eles o açúcar, as farinhas em geral, arroz, macarrão, pães, doces, etc. Portanto, os diabéticos devem consumir com moderação e aprender como  fazer a substituição destes alimentos. Os alimentos dos grupos construtores e reguladores também contêm glicídios, porém em menor quantidade. Prato fundo: Talvez seja muita quantidade! Coma um prato de sobremesa de salada, dando preferência às verduras e depois faça um prato raso composto de arroz, feijão, verdura, legumes, um pedaço pequeno de carne e um copo de suco ou uma fruta de sobremesa. Berinjela: Tem valor calórico baixo e possui boa quantidade de  fibras solúveis e insolúveis. Fibras solúveis: excelentes para o bom funcionamento intestinal, dão sensação de saciedade e retardam a absorção dos hidratos de carbono (glicídios), evitando elevação rápida da glicemia. Os alimentos ricos em fibras têm calorias, portanto devem entrar como substitutos. As verduras são fontes de fibras insolúveis e contêm baixas calorias. Alho: Tem alicina, que funciona como anti-oxidante. Alguns estudos mostram que possui ação anti-inflamatória. Chás: Não têm valor nutricional, mas são uma maneira de aumentar ingestão hídrica. Alguns estudos mostram os benefícios dos chás. Para o bom funcionamento dos rins recomenda-se tomar bastante líquido, mas não necessariamente chá. O açúcar (glicose) é eliminado pela urina quando a glicemia está alta. Adoçante: Não existe o melhor. A recomendação atual é variar os tipos de adoçantes e usá-los apenas para melhorar o sabor e em pequena quantidade. Macarrão: É substituto do arroz, assim como batata, mandioca, batata doce, milho e outros cereais. Diabéticos e obesos devem fazer a substituição e não ingeri-los juntos em uma mesma refeição. Lentilha: É substituta do feijão, assim como ervilha, grão-de-bico e soja. São ótimos alimentos e devem fazer parte do cardápio, escolhendo um ou outro. Com relação à marca, não sei a melhor, mas deve prestar atenção na data de validade, aspecto do alimento e da embalagem. É sempre melhor escolher os integrais do que os  refinados. Óleos: milho, girassol, canola e oliva contêm maior quantidade de ácidos graxos polinsaturados e, portanto, são considerados os melhores. Mas contêm a mesma quantidade de calorias, devendo ser utilizados em pequena quantidade por obesos. Legumes e verduras: todos devem fazer parte das refeições, o importante é a variedade. Líquidos: Durante as refeições pode tomar suco de fruta ou água. As pessoas que têm esse hábito, quando não ingerem líquidos, tendem comer mais para sentir a sensação de estômago cheio, mas as enzimas não diminuem. A ingestão de líquidos deve ser de 2 a 3 litros por dia através de suco, chá, leite ou água. A dica é ingerir 1 copo de líquido a cada uma hora, mas não abuse de suco e leite, pois têm calorias. Biscoitos: São substitutos do pão. Observe que ½  pão francês (25g) equivale a 3 biscoitos água e sal, ou 1 fatia de pão de forma tradicional, ou ½  colher de aveia (tem fibra solúvel e por isso é vantagem substituir o pão pela aveia). Margarinas: Use apenas 1 ponta de faca, pois as gorduras têm alto valor calórico. Escolha a de sua preferência. Barra de cereal: Ótima opção para lanche, apesar de ser industrializada, mas fruta é natural e mais nutritiva. Cascas e bagaços: Contêm boa quantidade de fibras e algumas frutas podem ser consumidas com casca e bagaço como laranja, pêssego, nectarina, uva, maçã, pêra, tangerina, goiaba, caqui. Cevada: pode ser usada como infusão em substituição ao café e chá. Cafeína: Realmente é um estimulante do sistema nervoso, mas tomado com moderação (3 xícaras pequenas por dia) não causa problema. Frutose: É o açúcar das frutas e do mel. Se consumida em excesso pode levar ao aumento da glicemia e ganho de peso. As frutas devem ser ingeridas para fornecer vitaminas, minerais e fibras na porção de uma unidade ou fatia por refeição. Salada de fruta deve ser na quantidade de 1 xícara de chá cheia e em substituição à fruta. Leite: Não se preocupe com as melhores marcas, o importante é fervê-lo antes de consumi-lo e comprá-lo observando data de validade, aspecto da embalagem e carimbo de inspeção. Presunto de peru: Pode ser consumido esporadicamente no lugar da carne. Sites recomendados: www.diabetes.org.br     e    www.diabete.com.br Espero ter contribuído para que consiga perder peso e manter um bom controle da glicemia. Continue sempre buscando novas informações, pois só tem a ganhar! Edith, nutricao@hcrp.fmrp.usp.br 

49. Oi, José Carlos, segue abaixo as respostas das suas dúvidas. Está com excesso de 11 Kg. Para a sua altura, o seu peso deve variar entre 64 a 78 Kg. OBSERVAÇÃO. O peso ideal depende de cada pessoa, ou seja, o peso que quer e pode ter. É difícil opinar sem conhecê-lo, mas acredito que deve emagrecer, pois o ajudará no controle do diabetes. Disse que não quer passar fome e com razão, mas para emagrecer é necessário fazer uma reeducação alimentar, aliada ao controle de calorias e atividade física, não implicando em passar fome, MAS O SUCESSO DA DIETA DEPENDE EXCLUSIVAMENTE DA FORÇA DE VONTADE DO PACIENTE. Se quiser emagrecer, terá que fazer algum esforço. O fracionamento da dieta é importante, pois evita que fique muito tempo de jejum e acabe exagerando na refeição seguinte, além de ajudar no controle da glicemia. Como não se adapta a 6 refeições por dia, pelo menos deve tomar café da manhã (desjejum), almoçar, merendar e jantar, passando para 4 vezes ao dia. O alho e a berinjela são exemplos de alimentos funcionais, que possuem alguns componentes com funções especiais para o organismo. No caso do alho, é bom para o coração e anti-cancerígeno e a berinjela ajuda na diminuição do colesterol como, também, no controle da glicose. É importante ressaltar que a nutrição é uma ciência em crescente evolução. Há vários estudos científicos com estes alimentos e as quantidades diárias recomendadas é que variam muito. Tudo em excesso é ruim! O importante é saber dosar. No caso dos chás, alguns possuem componentes anti-nutricionais e competem com os minerais. São irritantes gástricos, como o chá preto e o mate. O chá com maior restrição é o chá preto. Os demais: camomila, erva-cidreira, erva-doce, capim santo, são mais liberados. A marca dos chás vai do seu gosto. Os que são vendidos no supermercado teoricamente possuem o registro do ministério da agricultura e da ANVISA. Os chás feitos da planta devem ser consumidos somente quando souber a procedência deles, para evitar contaminação microbiana. Cuidado quando for adquiri-los em feiras livres. Os chás são diuréticos, mas não ajudam a eliminar o açúcar da urina. É verdade que o chá mate e o preto possuem cafeína e por isso estimulam o sistema nervoso da maioria das pessoas. Quanto aos adoçantes, alguns não podem ser usados em alimentos que vão ao forno, por isso há limitações. O stévia é bom, mas indico-lhe um chamado SUCRALOSE (linea), que  pode ser usado em várias preparações quentes e frias e é mais natural. OBSERVAÇÃO. O stévia é feito da planta stévia, que tem poder adoçante. O sucralose é um açúcar invertido, que não é absorvido pelo organismo, sendo melhor que os demais que têm limites de uso. A mistura do arroz com a lentilha não tem problema, mas vai depender da quantidade que está ingerindo. Os óleos vegetais que listou podem ser consumidos em pouca quantidade e não têm colesterol, pois são de origem vegetal. O que diferencia uns dos outros é o perfil da gordura de cada um. O melhor óleo é o de girassol, seguido do milho e da soja. O azeite de oliva é rico em uma gordura chamada monoinsaturada, que auxilia no aumento do colesterol bom (HDL). Pode ser usado nas saladas, sem exageros! O óleo utilizado em frituras e reaproveitado possui a substância acroleína, que é cancerígena. O feijão e o grão-de-bico podem ser consumidos juntos, MAS VAI DEPENDER DA QUANTIDADE INGERIDA. As verduras que listou não tem restrições. A cenoura é um pouco mais calórica que as demais e deve ser quantificada. A ingestão de líquidos durante as refeições tem controvérsias no meio científico. Ora dizem que pode, ora relatam que não. Indico aos meus pacientes o uso de frutas, em vez de sucos. Não aconselho tomar água nas refeições, pois dificulta a digestão por “encher” o estômago. NÃO ESTÁ COMPROVADO QUE DIMINUI AS ENZIMAS DIGESTIVAS; HÁ OUTROS FATORES QUE FAZEM ISSO.  Os sites que lhe indicaria são os das associações de cardiologia, diabetes, de universidades, de hospitais, pois são mais sérios. Evite revistas que não sejam especializadas em nutrição. Poderia acessar o www.google.com.br  e pesquisar os sites de nutrição, procurando os referentes aos listados acima. Alimentos “lights” possuem redução de até 30% de algum componente (carboidratos, gordura, proteína, etc). No entanto, se ingeridos sem controle engordam tanto quanto os alimentos não “lights”. Exemplos: o sal “light” tem menos sódio que o sal normal; o creme de leite “light” tem menos gordura do que o normal, etc. O importante é sempre ler os rótulos para verificar as diferenças. LEMBRE-SE: há produtos “lights” que possuem açúcar e o diabético não pode comê-lo. No caso do sorvete “light”, tem sabor mais doce porque tem como ingrediente algum adoçante artificial, que deixa o produto mais doce. O açúcar das frutas é chamado de frutose, que não aumenta tanto a glicemia quanto a sacarose (açúcar de mesa), mas AUMENTA, dependendo da quantidade que é consumida. As frutas não podem ser ingeridas em excesso, porque aumentam a glicemia e engordam. FRUTAS COM MENOS AÇÚCAR: cereja, figo, goiaba, pêra, framboesa, uva, morango, amora, maçã, laranja, melancia, pêssego, limão, romã, groselha. Com relação às fibras, consuma as frutas com casca e bagaço, que o auxiliará no controle da glicemia e do colesterol. Beba o leite desnatado que achar mais gostoso! Olhe no rótulo a data da fabricação, procedência, enriquecimento com vitamina D para ajudar na escolha também. A restrição ao presunto de peru é só a procedência e a validade. Se tiver pressão alta, não o use. Procurar variar com “blanquet” de peru (menos calórico) e peito de peru. Evite os DEFUMADOS. O biscoito água fica a seu critério, sempre observando os rótulos. Particularmente, gosto da marca fortaleza.  A margarina becel foi desenvolvida para o controle de dislipidemias. É muito boa, porque tem menor quantidade de gordura saturada, prejudicial ao organismo. Os fabricantes relatam que o processo de produção dela difere das demais margarinas. A barra de cereal tem de várias marcas no mercado e é encontrada em qualquer supermercado, como da neston e nutri. É um alimento energético, que pode ser usado como lanche, variando de 90 a 110 Kcal. É diferente da fruta no que se refere à quantidade de carboidratos, minerais e vitaminas. Os exemplos de frutas com casca e bagaço são: maçã com casca, pêra com casca, mamão com sementes (ajuda muito na prisão de ventre), laranja (com bagaço), mexerica (com bagaço), ameixa com casca. Com relação aos exercícios que faz é difícil avaliar, pois não é minha área, MAS O IMPORTANTE É QUE PRATIQUE EXERCÍCIO FÍSICO PELO MENOS 3 VEZES NA SEMANA, SE NÃO TIVER PROBLEMAS CARDÍACOS OU OUTRA RESTRIÇÃO, com intensidade boa. O profissional de educação física poderá auxiliá-lo sobre a freqüência cardíaca, que deve estar adequada para a perda de peso. Indico-lhe o exercício aeróbico, como caminhada, andar de bicicleta, natação, pelo menos 40 minutos diários, com a freqüência cardíaca normal. A aveia e a cevada podem ser usadas. No caso da aveia, o melhor é o farelo, porque tem mais fibras. Pode ser adicionada em bebidas lácteas ou frutas. Use cevada da mesma forma. A quantidade vai depender da dieta (as calorias destes alimentos devem ser computadas). De forma geral, uma vez por dia no desjejum é uma boa opção. A ingestão de fibras é muito bom no controle da glicemia. Contudo, o controle da glicose não depende só do consumo de fibras, mas de vários fatores: ingestão adequada de calorias, atividade física, fracionamento da dieta, alimentos ricos em fibras, retirada de açúcares simples da alimentação, baixo consumo de colesterol e gorduras, etc. Os alimentos ricos em fibras engordam, sim! O ÚNICO ALIMENTO QUE NÃO ENGORDA É A ÁGUA! Os alimentos ricos em fibra têm um índice glicêmico menor que os não integrais e ajudam no controle da glicose. Os alimentos integrais têm mais fibras, dão maior saciedade e diminuem a velocidade de absorção da glicose. OBSERVAÇÕES IMPORTANTES. José Carlos, ao avaliar de maneira geral sua alimentação diária, nota-se algumas coisas importantes. Está de parabéns por se preocupar com sua alimentação, pois o diabetes tipo 2 necessita de cuidados para não haver necessidade de usar insulina no futuro. O seu café da manhã pode ser melhorado com a introdução de um alimento protéico tipo leite desnatado, uma porção de carboidratos e fruta. No almoço, a qualidade dos alimentos está boa. Atenciosamente, VANESSA. E-mail: vanessa.menezes@terra.com.br 

50. José Carlos, sua faixa de peso deve variar entre 68 a 72 kg. As seis (6) refeições diárias são muito importantes, para perder peso, controlar sua glicemia (diabetes) e, também, manter o seu metabolismo corporal saudável. O alho e a berinjela são alimentos funcionais, pois além de fornecerem calorias e nutrientes como os demais, possuem princípios ativos que beneficiam a saúde. Só aconselho café descafeinado ou chás pobres ou ausentes em cafeína, como os de espinheira santa, camomila, de frutas (cítricas ou não) e de capim limão. A água e os chás estimulam o funcionamento dos rins, que são os filtros do nosso organismo. Use o sal “light”. Troque o óleo de soja por azeite de oliva extra-virgem. Alho, cebola, açafrão, tomilho, alecrim, manjericão e outros temperos e ervas naturais devem ser utilizados em bastante quantidade em nossa alimentação diária. Use arroz, macarrão e outros produtos integrais. Com relação ao consumo de carne, diversifique seu cardápio entre carne vermelha magra, peixes ou frutos do mar e frango sem pele. É verdade que a beterraba possui um tipo de açúcar, mas pode comê-la nas quantidades certas, 1 a 2 vezes por semana. Ingira água ou chás nos intervalos das refeições. Coma jaca, uva e abacate com moderação. As frutas são ricas em um açúcar chamado frutose, que é absorvido no sangue e se transforma em glicose, no fígado. Substitua o pão francês pelo integral. A margarina “light” da marca BECEL é a melhor de todas. Dê preferência aos biscoitos integrais, sem sal. Utilize o adoçante stevita, que não possui aspartame, sacarina e ciclamato. O telefone de contato do produtor é 031-44-224-4335 e o e-mail www.stevita.com.br Além de tomar água, meia hora antes dos exercícios, deve comer um lanche leve à base de carboidratos (pão ou bolacha integral, ou aveia com granola e similares) e de proteínas (queijos brancos, blaquetes de peru ou frango, iogurte natural desnatado). Pode consumir as barras de cereais, mas somente as dietéticas (sem açúcar). O grão-de-bico e a lentilha são leguminosas, parentes do feijão. Como são do mesmo grupo, deve comer uma apenas em cada refeição. As frutas que têm cascas e bagaços são: maçã, laranja, tangerina, uva e outras similares. A ingestão de alimentos ricos em fibras é fundamental para auxiliar o bom controle da taxa de glicose no sangue e, também, ajudam a regular a absorção e excreção de gorduras e colaboram para o bom funcionamento do intestino. Os alimentos integrais são mais saudáveis por conterem maior quantidade de nutrientes benéficos ao organismo. Contêm mais fibras, são mais nutritivos, acabam com a fome mais rápido e diminuem e velocidade de absorção da glicose no sangue. Substitua o pão comum (francês) pelo integral, pois este é mais rico em vitamina B e em germe de trigo, que possibilita o perfeito funcionamento dos intestinos. A SEVEN BOYS é uma das melhores marcas de pão integral. O telefone do fabricante é 0800-313288 e o site http://www.sevenboys.com.br/ O biscoito GRAN DIA, da Nestlé, é uma marca de biscoito “light” e integral muito boa. Não tome sopa de farelo de trigo (com água, leite desnatado ou na comida). Evite tomar líquido durante as refeições, pois dilata o estômago e diluem as enzimas digestivas. A melhor oleaginosa que existe é a castanha do Pará. GRUPO DAS VERDURAS. COMA PELO MENOS 2 TIPOS POR REFEIÇÃO, TODOS OS DIAS. Acelga, aipo, espinafre, repolho, pepino, agrião, brócolis, escarola, tomate, alface, chicória, rabanete, palmito, almeirão, couve, rúcula, endívia, aspargo, cebola, bertalha, salsão. GRUPO DOS LEGUMES. COMA SOMENTE 2 TIPOS POR REFEIÇÃO, TODOS OS DIAS. Abóbora, cenoura, nabo, vargem torta, abobrinha, chuchu, pimentão, berinjela, couve-flor, quiabo, beterraba, moranga, vagem. GRUPO DAS FRUTAS. Abacate, abacaxi, ameixa, bananas (branca, caturra e maçã), caju, caqui, figo, goiaba, kiwi, laranja-pêra, maçã, mamão, manga, maracujá, melancia, melão, morango, nectarina, pêra, pêssego, tangerina, uva. As principais causas do excesso de peso são: —Consumo alimentar excessivo. —Falta de atividade física regular (vida sedentária). —Tendência familiar. —Distúrbios psicológicos (ansiedade e depressão). —Hábitos alimentares errôneos. As doenças que estão freqüentemente associadas ao sobrepeso são :—Diabetes tipo II. —Hipertensão arterial. —Doenças cardiovasculares. —Aumento nos níveis sanguíneos de colesterol e de triglicerídeos. —Dificuldades respiratórias. —Cálculos vesiculares. —Problemas articulares e distúrbios intestinais. O tratamento dietoterápico é: —Faça 5 a 6 refeições por dia, com pequenos volumes, para diminuir o apetite, evitar o jejum prolongado e prevenir problemas como a má digestão e má absorção de nutrientes. —Mastigue bem os alimentos antes e ingeri-los, pois a digestão deles começa pela boca. —Não consuma líquidos durante as refeições, porque prejudicam a digestão (ingira-os somente 30 minutos antes ou após as refeições). A ingestão de líquidos junto com os alimentos causa a diluição do suco gástrico, dificulta a quebra dos nutrientes, atrapalha a absorção deles e propicia a formação de gases, causando a distensão do abdômen. —Evite comer duas fontes de amido (carboidrato) na mesma refeição, porque o corpo selecionará um para digerir enquanto o outro ficará esperando para ser digerido, o que provoca gases, fermenta e acidifica o estômago. Evite, também, a combinação de proteínas e gorduras na mesma refeição. A presença de gordura nos alimentos diminui a atividade glandular da secreção gástrica, baixa a quantidade de ácido clorídrico no suco gástrico, atrasando a digestão por tempo considerável. —A quantidade é um fator que intervém na digestão. Comer sem fome ou em excesso são fatores desequilibrantes na digestão, já que o corpo não assimila o que é ingerido em excesso. —Consuma bastante água ou chás sem açúcar (no mínimo, 2 litros diários), nos intervalos das refeições. Outras opções de líquidos de baixa caloria são a água de coco e sucos de fruta como o de limão, melão e maracujá com adoçantes e diluídos em água. —Aumente o consumo de saladas de folhas verdes nas refeições, antes do prato principal, para diminuir a saciedade. Use e abuse do consumo das saladas verdes. Tempere as saladas com azeites extra-virgem (de oliva, linhaça ou de gergelim), pois auxiliam na função intestinal, no combate ao colesterol, no processo de emagrecimento e na manutenção da saúde do seu organismo. Acrescente sementes de linhaça e de gergelim em suas saladas. Elas possuem óleos essenciais e fibras importantíssimas para a saúde de seu organismo. —Prefira os alimentos cozidos a vapor, grelhados ou assados, eliminando de sua dieta as frituras e os ensopados gordurosos. Prepare tudo com pouquíssimo azeite de oliva extra-virgem. Elimine os alimentos ricos em gorduras saturadas de sua dieta. —Dê preferência aos alimentos integrais, que são ricos em fibras e nutrientes indispensáveis à manutenção da boa saúde, ajudando na eliminação das gorduras pelo organismo, na regulação da sua função intestinal e no processo de emagrecimento. —Evite estes alimentos: doces em geral, chocolates, frituras, maionese, carnes gordas, refrigerantes, queijos gordos, sorvetes e outros. Lembre-se de que precisa fazer certas escolhas para melhorar sua saúde e qualidade de vida. —Evite o consumo de produtos enlatados e desidratados (industrializados) e controle a quantidade de sal na sua alimentação. Ambos possuem alto teor de sódio, podendo causar retenção de líquidos e celulite. Consuma alimentos ricos em potássio (ameixa seca, ervilha, banana, figo, lentilha, espinafre, laranja, tomate, arroz integral), que regulam a excreção de sódio e elimina seus excessos no organismo. —Se é viciado em café, tome cuidado. A cafeína aumenta a ansiedade e irrita o sistema nervoso, podendo fazê-lo extrapolar na dieta. Opte por uma xícara de chá de ervas, como cidreira, hortelã ou camomila. O chá preto contém grande quantidade de cafeína. —Use os produtos dietéticos com moderação. Leia os rótulos e verifique, principalmente, o valor calórico dos produtos. Nem sempre um produto dietético tem poucas calorias. —Saiba utilizar os produtos “lights” em sua dieta, prestando muita atenção nos rótulos e nas informações nutricionais. Há vários produtos que, apesar de “lights”, possuem calorias em excesso e açúcar. —Use sal com moderação, pois pode causar retenção líquida. Dê preferência aos temperos naturais como: cebolinha, salsa, sálvia, manjericão, manjerona, tomilho, orégano, que só devem ser acrescentados aos alimentos já preparados ou no final do cozimento. —O consumo regular de soja e seus derivados é importante para manutenção da saúde. Para cozinhar grãos de soja como se fossem feijão, deixe-os de molho por cinco minutos em água fervente. Depois lave-os em água fria e cozinhe-os com alho, louro e caldo de legumes. IMPORTANTÍSSIMO. —Não persiga metas impossíveis. Peso ideal é aquele que consegue atingir e manter de maneira saudável. O objetivo do seu tratamento é a mudança de hábitos alimentares, buscando mais saúde e qualidade de vida! Dicas importantes para evitar maiores perdas dos alimentos. —Quando for usar metade do abacate, deixe a outra com o caroço, para evitar que se deteriore com rapidez. —A abóbora é altamente nutritiva e deve ser aproveitada inteira: casca, folhas, polpa e o cabo. Seus caroços, quando torrados com sal, servem como aperitivo. Use o mesmo procedimento para a soja e as sementes do melão. —Cascas, talos e folhas das hortaliças são ricos em fibras e podem ser utilizados em refogados, sopas, bolinhos, recheios para tortas, farofa, etc. —Não adicione bicarbonato de sódio ou outras substâncias químicas na água do cozimento para acentuar sua cor. Alguns nutrientes são destruídos por elas. —Pó de Casca de Ovo. Separe a casca, ferva por cinco minutos e seque-a ao sol. Bata no liquidificador e depois passe por um pano fino. Deve ficar como pó. Utilize uma colherinha nos refogados, sopas, arroz, feijão e molhos. O pó de casca de ovo é riquíssimo em cálcio, nutriente importante para o crescimento e prevenção da osteoporose, na gravidez e amamentação. —Talos de Agrião. Faça bolinhos ou refogados com carne moída. —Casca da maçã. Utilize-a no preparo de sucos e chás. Um abraço. ROBERTA DA LUZ, NUTRICIONISTA, ESPECIALISTA EM ALIMENTOS FUNCIONAIS, e-mail: beta@costao.com.br

51. Salvador, 10 de maio de 2003. Prezado José Carlos. Terei o maior prazer em esclarecer suas dúvidas. Analisando, “superficialmente”, sua vida nutricional, está com um consumo relativamente bom dos nutrientes fundamentais para uma boa alimentação, além da prática regular de atividade física que, como sabe, é essencial. A avaliação nutricional depende de vários fatores, não apenas peso, altura e idade. Baseado, apenas, nas suas informações, pude calcular o seu IMC (índice de massa corporal), que corresponde ao seu peso dividido pela sua altura ao quadrado, obtendo o valor de 30,79Kg/m2. Com esse valor analisado isoladamente, seu diagnóstico nutricional é de obesidade grau II. Entretanto, não é um diagnóstico fiel, pois precisaria avaliar sua composição nutricional (percentuais de gordura corporal e de massa magra – músculo), através de um adipômetro ou por meio da bioimpedância, além da avaliação física e de resultados de exames laboratoriais (colesterol, triglicérides, hemograma, etc.). Como a “consulta” é virtual, não será possível realizar tais métodos. Portanto, esclarecerei suas dúvidas e darei algumas dicas que poderão ajudá-lo no controle da redução de seu peso, associada a uma boa qualidade de vida. Suas necessidades energéticas, baseadas em um peso teórico de 72 kg (calculado a partir do limite máximo de normalidade do IMC, que é de 24,9 Kg/m2), será de 1800 a 2200 Kcal. Sua taxa metabólica basal (o mínimo que seu organismo “precisa” para manter-se vivo), a TMB,  corresponde a 1459 Kcal (ou seja, essa é a quantidade energética mínima para que seu organismo mantenha suas funções vitais normais). Portanto, com esse valor calórico estipulado para você (1800 a 2200 Kcal), poderá consumir alimentos em quantidades suficientes e não sentirá fome, além de contribuir com perda de peso através da reeducação alimentar. Em relação ao fracionamento alimentar (5 a 6 refeições ao dia), é FUNDAMENTAL, sim. Quanto maior o fracionamento das refeições, menor será a quantidade de alimentos ingerida por horário. Além disso, nosso organismo precisa de energia (fornecida através dos alimentos), só que em quantidade suficiente para mantê-lo em atividade. Se consumir quantidades moderadas, várias vezes ao dia, o organismo absorverá apenas o necessário para repor a energia despendida (daí não haverá reservas e, conseqüentemente, ganho de peso). Consumindo apenas 3 refeições por dia, sentirá mais fome, ingerindo uma maior quantidade de alimentos, causando uma sobrecarga de substrato energético em um mesmo momento. Isso fará com que o organismo absorva o excesso, armazenando-o sob a forma de gordura (daí o ganho de peso, ao longo do tempo). Vale ressaltar que o estômago é um órgão elástico, que vai se distendendo a depender do volume presente em seu interior. Com o estômago maior, caberá mais alimentos – e o organismo “pedirá” sempre mais, para tornar-se saciado. Portanto, vale a pena iniciar a sua reeducação alimentar pelo fracionamento e “qualidade” da alimentação. A seguir, responderei às suas perguntas, com comentários. A substituição do café pelo chá verde (ou chá de ervas), é muito interessante. Poderá consumir o que mais lhe agradar: cidreira, erva-doce, capim-santo, camomila... Evite tomar os chás pretos e o mate, além do café (devido à presença da cafeína), pois causam ansiedade e insônia. Os chás têm efeito diurético e calmante. Em relação ao excesso de café contribuir com o aumento da pressão arterial, é verdade, devido à extrapolação do consumo da cafeína. Não vejo necessidade de eliminar a beterraba. Ela é uma boa fonte de vitaminas e minerais e poderá contribuir para a sua alimentação. Não há nenhuma restrição em relação aos vegetais (couve, repolho, quiabo...). O importante é consumir uma variedade de vegetais, em quantidades adequadas. Em relação à retirada do suco durante as refeições, foi uma boa opção por estar consumindo menos calorias (deixe-o para os lanches). O ideal será o consumo da água pelo menos 30 minutos após as refeições (para evitar a distensão abdominal, além do prejuízo à digestão). IMPORTANTE: aumentar o fracionamento e reduzir o volume das refeições – é uma regrinha básica para a reeducação alimentar. Portanto, deixe de se alimentar em pratos fundos, coma devagar, mastigando bem os alimentos. Inicie sua refeição principal (almoço) sempre com um prato de salada, de preferência crua (alface, acelga, couve, tomate, pepino, cebola...), que o ajudará na saciedade, além de contribuir para o bom funcionamento do processo digestivo. O consumo do alho com berinjela pode ser mantido. São dois alimentos saudáveis, que poderão trazer benefícios para o seu organismo. Todas as frutas realmente têm frutose, que, no entanto, produz um menor aumento pós-prandial (após a alimentação) da glicose plasmática que os demais carboidratos (glicose, sacarose...). Portanto, poderá consumi-las, variando os tipos (as frutas possuem índices glicêmicos variados), desde que ingeridas nos horários certos e moderadamente (nunca em excesso, pois mesmo em se tratando de alimento saudável, todo excesso irá prejudicar no seu tratamento).  Prefira as frutas menos calóricas. Poderá consumir melancia, lima, laranja, tangerina, melão, carambola, acerola, pitanga, morango, sempre uma unidade por vez: 1 laranja ou 1 tangerina, ou 1 fatia de melancia, ou 2 carambolas, ou 10 morangos, ou 10 pitangas. À noite, nosso metabolismo está reduzido (pois “paramos” nossas atividades), portanto devemos consumir refeições mais leves, levando sempre em consideração o VOLUME. O ideal será beber apenas 1 copo de leite (e não 2, como vem consumindo), evitando a concentração de alimentos em um único horário. Isso também serve para o consumo do pão: apenas 1 (ótima escolha os integrais). Utilize o queijo branco (queijo minas “light”) ou a ricota. E poderá ainda substituir o pão por inhame, aipim ou batata doce, ou cuzcuz... As margarinas “light” (Becel e Mila são as melhores) devem ser preferidas às manteigas, pois são boas fontes de gorduras insaturadas, benéficas à saúde, além de não conterem colesterol. O COLESTEROL ESTÁ PRESENTE APENAS NAS GORDURAS ANIMAIS. Os biscoitos de água e sal poderão ser substituídos por biscoitos integrais, caseiros (à venda em lojas de produtos naturais). Na ceia deverá consumir apenas 1 fruta, ou 1 copo de iogurte “light”, ou 1 copo de leite desnatado, ou 1 copo de suco sem açúcar. O melhor adoçante que tem no mercado atualmente é o “Stevita”, à base de stévia, que é 100% natural, porque isento de aspartame, ciclamato, sacarina. É encontrado nos supermercados. Se sentir vontade de comer algum doce, opte por uma fruta. A prática regular de atividade física é FUNDAMENTAL para o bom funcionamento do organismo, associado a uma melhor qualidade de vida. O importante é manter o hábito de exercitar-se REGULARMENTE, pelo menos 40 minutos no MÍNIMO 3 vezes por semana. Como quer perder peso, aconselho-o a exercitar-se diariamente, pelo menos durante 30 minutos constantes. As barras de cereal são “concentrados” de cereais com outros nutrientes. São saudáveis, por conterem ingredientes integrais, mas têm calorias (habitue-se a ler os rótulos dos alimentos, atentando-se sempre para os carboidratos – se têm sacarose  e aos lipídeos – se têm muita gordura, teor de saturados, etc.). Poderá consumir as barrinhas “diets”  e “lights” (sempre as que forem ISENTAS de chocolate na composição – menos calorias). Será uma boa opção para os lanches da manhã e da tarde. São práticas e fáceis de carregar. As lentilhas e o grão-de-bico são do grupo das leguminosas, ricos em nutrientes saudáveis (vitaminas e minerais). A lentilha pode ser utilizada em sopas, cremes, ou misturada ao arroz (lentilha com arroz fica ótima e é bastante nutritiva. Substitui o feijão). O grão-de-bico é muito utilizado em saladas, cozido normalmente e consumido como preferir. As cascas dos alimentos são ricas em nutrientes. Daí a importância de consumi-las, sempre que possível (casca da maçã, casca da cenoura, casca da uva, casca da goiaba...). A laranja, tangerina, lima, contêm “bagaço”, que deverá ser consumido, pois são boas fontes de fibras, importante na regularização do trânsito intestinal e também auxiliam no controle do colesterol sérico, além de manter os níveis glicêmicos normais. A aveia e a cevada também são fontes importantes de fibras, principalmente as fibras solúveis, que contribuirão para o controle da taxa glicêmica do sangue. Os ALIMENTOS INTEGRAIS são fontes importantes de vitaminas e minerais, além de conterem fibras que aumentam a saciedade, fazendo com que tenhamos a sensação de plenitude por um tempo maior, além disso este tipo de carboidrato tem menor influência no aumento do índice glicêmico, o que se torna ideal para o diabético. Em relação ao local de aquisição de produtos integrais, em Salvador são encontrados facilmente em todos os supermercados e em lojas de produtos naturais. Uma marca muito conhecida e fácil de ser achada é a “Mãe Terra”, que tem a linha completa de integrais: arroz, macarrão, semente de linhaça, trigo, aveia, cevada, pão... Os produtos integrais geralmente são bem mais escuros que os convencionais, por não passarem por processos químicos, além de terem uma consistência mais “durinha”, mesmo após preparados. Os pães integrais caseiros são os melhores (contêm 100% de trigo integral). São firmes (mais durinhos que os normais) e pesados. A marca “Plus Vita”  também fabrica pão integral. Não conheço o mercado de Ipiaú no ramo dos produtos naturais. Poderá sugerir aos principais supermercados a aquisição deles (em Itabuna e Jequié talvez encontre com mais facilidade). O farelo de trigo (esse é o nome correto do cereal) é rico em fibras e possui todos os benefícios mencionados anteriormente. A grande vantagem do consumo do “farelo de trigo” para quem está fazendo restrição alimentar (dieta), é que ele dará uma maior saciedade e, com isso, irá consumir uma menor quantidade de alimentos. Consuma 1 a 2 colheres de sopa, diariamente, antes do almoço ou do jantar. Espero, de alguma forma, ter contribuído para essa nova etapa de sua vida, a da reeducação alimentar. Através dessas orientações, tem tudo para alcançar seus objetivos. Lembre-se sempre: a qualidade de vida depende de uma alimentação saudável, além da prática regular de atividade física. Estou à sua disposição para maiores esclarecimentos. Atenciosamente, Renata Alves Gonçalves Felice, Nutricionista CRN 1428, renatafelice@hotmail.com

52. Prezado José Carlos, seguem-lhe as respostas para suas indagações. Caso permaneça com alguma dúvida, entre em contato comigo. Atenciosamente, Elaine Martins Pasquim, Nutricionista/Sanitarista, CGPAN/MS, elaine.pasquim@saude.gov.br Telefone: 031-61-448-8282, Tatiana Lotfi de Sampaio. Não havia visto as perguntas finais, pois quando as imprimi não saíram. Segue-lhe a complementação. Os doces, refrigerantes, sorvetes, sem açúcar, pode consumi-los. Como faz muita atividade física, tem que ter cuidado, pois a taxa de glicose pode abaixar rapidamente. É preciso comer algo com amido (arroz, pão, bolacha de água) antes. Se demorar muito  a atividade física, coma uma fruta durante. Ao final, uma fruta também, pois mesmo quando paramos de nos exercitar o corpo continua por um tempo em atividade mais acelerada, por isso ficamos com calor, por exemplo. A aveia e a cevada têm fibras, e, como lhe disse, todos os alimentos que possuem fibras são bons, pois ajudam a diminuir a glicose, dão sensação de saciedade, ajudam o intestino a funcionar melhor. Os alimentos integrais - possuem seus nutrientes originais - como fibras, vitaminas e minerais, são mais nutritivos. Entendo sua indignação em não conseguir as repostas para suas dúvidas. No entanto, e infelizmente, somente serão sanadas por completo com uma consulta pessoal com um(a) nutricionista. Portanto, existem, sim, muitos profissionais competentes, porém sem uma consulta pessoal se torna impossível que não permaneça com dúvidas. Nesse sentido, tentarei amenizar seus questionamentos e lhe darei o contato do Conselho Regional de Nutricionista da Bahia, além de encaminhar-lhes seu e-mail, a fim de que lhe indiquem aonde poderá encontrar um profissional de modo mais fácil. Como não fazemos consulta por e-mail, justamente pelos problemas já identificados por você,  não lhe cobrarei por isso. Diabetes tipo 2 é uma doença causada essencialmente pelo estilo de vida inadequado. Se não receber o cuidado adequado pode precisar de insulina tal qual o diabetes tipo 1. O diabetes é uma doença que altera a maneira como o corpo usa o açúcar. A glicose é um açúcar que circula no sangue para levar energia ao corpo, para isso precisa da insulina, um hormônio que ajuda a glicose a entrar nas células. A doença está associada ao aparecimento de doenças cardiovasculares. CAUSAS PRINCIPAIS. É uma doença hereditária, ou seja, com antecedentes na família. Está associada com o tipo de alimentação, com a obesidade, a falta de exercícios e a idade. A necessidade das 6 refeições é essencial para todos, mas principalmente para o portador de diabetes. Nosso corpo precisa de energia mesmo quando estamos dormindo. Ao dormir, a respiração não pára, o coração continua batendo, o cérebro funcionando, os rins filtram o sangue. Na presença de alguma doença as células de defesa se multiplicam e defendem o corpo mesmo quando estamos dormindo. Portanto, para pessoas que não têm uma atividade pesada durante o dia, na maioria das vezes essas atividades básicas para a sobrevivência gastam muito mais energia do que se somar a energia gasta para andar, trabalhar, vestir-se, escovar os dentes... O diabético tem dificuldade em gerar essa energia. A energia vem normalmente pelo amido de pães, massas, arroz, macarrão, açúcar complexo, ou pelo açúcar simples. Quando falta energia o corpo começa a quebrar o músculo (proteína) para fornecer energia (e não a gordura, como muita gente pensa). Como o diabético já tem dificuldade em conseguir esse açúcar, acaba usando a proteína. Só que isso causa uma série de problemas, pois a proteína está presente no rim, no coração, no cérebro, etc, já que esses órgãos são feitos de músculo, e isso leva a um mau funcionamento deles (como ocorre com a desnutrição). Por quê das 6 refeições? Porque como o corpo tem dificuldade em absorver o nutriente dos alimentos, é preciso que o ajude, dando alimento em pequenas quantidades, várias vezes ao dia. Assim, ele sempre terá energia quando precisar, mesmo quando for dormir (pois estará fornecendo energia vinda da ceia, ou lanche da noite). Pelo Índice de Massa Corpórea, que pode calcular, como lhe mostrarei a seguir, encontra-se com um índice de 30,79 kg/m2. Isso significa que está no limite entre sobrepeso e obesidade. Para que fique no IMC de 25 (normal), deveria ficar com 72 kg, o excesso perdido de forma lenta e gradual, pois a perda de peso rápida faz com que haja esse mesmo gasto de músculos (proteína) acima. Daí a necessidade fundamental de um nutricionista acompanhá-lo por um período maior, pois é este profissional que saberá qual a quantidade de calorias deverá comer durante o dia e de que forma estará distribuída. O diabetes pode ser controlado somente com mudança no estilo de vida, especialmente alimentação e atividade física. No entanto, pode ser necessário uso de medicamentos. Uma dieta personalizada deve ser feita pelo nutricionista e a prescrição dos medicamentos pelo médico responsável. O alho é bom para reduzir o colesterol e para controlar infecções. Os efeitos da berinjela não estão comprovados. Mas ela possui muitas fibras assim como as outras verduras, que ajudam a controlar o diabetes. Isso porque as fibras ajudam a eliminar o açúcar do corpo. Qualquer coisa em excesso faz mal. Por que está bebendo chá tão cedo em jejum e várias vezes ao dia? Alguma recomendação? POR FAVOR, NÃO FAÇA ISSO. É muito perigoso, especialmente para o diabético. Lembre-se do que escrevi acima: o jejum prolongado é ruim, pois o corpo vai continuar precisando de energia e você não a estará fornecendo. Então ele vai arranjar energia de algum lugar, ou seja, do músculo. O adoçante stevia é bom porque não deixa gosto amargo, adoça bem mais que o açúcar normal, não tem calorias, só que o preço é maior que de outros. No entanto, como o efeito a longo prazo de nenhum adoçante está comprovado, recomenda-se a troca deles freqüentemente. Alguns chás têm efeitos terapêuticos, mas o melhor para eliminar o açúcar da urina são as fibras das verduras e das frutas, alimentos integrais e bastante água. O chá preto e o mate, assim como a coca-cola, o café, e os alimentos que possuem cafeína realmente estimulam – daí as  pessoas tomarem café para ficarem acordadas. Por que nunca come macarrão com arroz? Alguma coisa que leu em algum lugar? Não é problema comer os dois juntos e sim a quantidade de amido (arroz ou macarrão ou farinha ou  batata, etc) que está comendo. Como lhe disse, tudo em excesso faz mal. Todo óleo vegetal é bom para reduzir o colesterol, desde que seja cru. Seja de soja, de oliva, de canela, de girassol, de algodão, etc. Portanto, quando se frita ou cozinha, por exemplo, bifes, batatas, legumes, qualquer óleo se torna ruim, e, ao contrário, ajuda a aumentar o colesterol. Pode, sim, comer feijão com grão-de-bico misturados. O ideal é comer somente uma porção de carne por refeição e não duas como escreveu, mas isso quem tem que saber é a nutricionista que avaliará quanto de proteína precisa por dia. Em relação ao churrasco, tome cuidado, pois se formar aquela crosta preta é algo ruim que se consumido por muito tempo está relacionado ao surgimento de câncer. Quanto às verduras, quanto mais melhor. Pode temperá-las com limão, alho, cebola, ervas (orégano, salsa, etc.) para dar mais sabor. Quanto à quantidade, deve ser menor, mas mais vezes ao dia (lembra das 6 refeições – não precisa passar fome e sim dividir melhor). Sites sugeridos e confiáveis: www.anvisa.gov.br  www.abeso.org.br www.saude.gov.br/alimentacao www.who.int www.eatright.org http://www.navigator.tufts.edu/ (este site analisa as homepages da Internet com informação de nutrição e os classifica se são bons, ruins, mais ou menos) www.usda.gov  As frutas também têm açúcar (chamado frutose) e em excesso também fazem mal, por isso mais uma vez repito-lhe que é importante comer em pequenas quantidades várias vezes ao dia. No entanto, o açúcar da fruta é diferente do açúcar normal, pois demora um pouco mais para ser absorvido, e vem com vitaminas, minerais e fibra que, como falei antes, ajuda a reduzir a absorção do açúcar. Não precisa se preocupar tanto quais frutas deve comer. Lembre-se: Não precisa retirar nada da alimentação, apenas comer em pequenas quantidades com moderação. E isso é para todos os alimentos. O leite desnatado de qualquer marca é bom, desde que tenha boa procedência. O melhor é comprar o tipo A, que não possui bactérias, pois é esterilizado. Os tipos B e C possuem certa quantidade de bactérias e são mais utilizados pela indústria e não pelo consumidor. Em relação à restrição do presunto de peru ou do pão francês, não é preciso restringir nada, pois é preciso ter prazer em comer. Deu vontade, não tem problema comer, é só se alimentar com moderação (para tudo). Sobre o biscoito de água, também não tem uma marca preferencial. Mas é bom saber que 3 biscoitos é o mesmo que comer 1 pão. Qual prefere? Acredito que o pão dê maior saciedade que as 3 bolachinhas e seja mais prazeroso. Margarinas: realmente não precisa se preocupar tanto com a marca, só com a questão da boa procedência. Os produtos químicos – conservantes, aditivos – estão em vários produtos. O ideal realmente seria não consumi-los e somente comprar produtos orgânicos, mas estes são mais caros e se esses aditivos não estivessem acrescentados nos alimentos, todos os produtos que estão no supermercado estragariam, pois são eles que ajudam a preservar, por exemplo, o que chamamos de vida de prateleira. Barra de cereal: Nutri, por exemplo, ou outros podem ter açúcar, aí terá que procurar por produtos “DIET”. Lembre-se de que “DIET” é quando se tira totalmente UM nutriente do alimento (pode ser açúcar, gordura, sal). Por isso tem que conferir no rótulo se foi o açúcar mesmo que foi tirado. Só para completar, o “LIGHT” é aquele em que UM nutriente foi reduzido (pode ser o açúcar, a gordura, ou sal, etc). A fruta tem açúcar simples, portanto, talvez seja melhor comer algo com amido como um pão ou bolacha de sal antes de dormir. O açúcar simples é rapidamente absorvido, acabando com o fornecimento de energia em poucos instantes, e, como falei acima, mesmo dormindo o corpo precisa de energia. A laranja tem bagaço, a maçã tem casca, a goiaba tem casca, etc. Não busque informações na Internet, a não ser nos sites de boa qualidade. Não precisa retirar nada da sua alimentação. A moderação e a pequena quantidade é que devem ser levadas em conta. Se comer feijoada uma vez por semana, sem exagero, sem encher o prato, não faz mal. Comer uma fatia de carne de porco de vez em quando, desde que não seja frita, ou beber um copo de cerveja no fim de semana, não mata ninguém! O melhor, no entanto, é não beber nunca. Abaixo, como lhe prometi, o contato do Conselho Regional de Nutricionista da Bahia. CRN - 5ª REGIÃO, PRESIDENTE: ELIANA DE CARVALHO GOMES. ESTADOS: Sergipe e Bahia. CONTATO: AV. 7 de Setembro, 174, Edifício Santa Rita, Sala 701, 40.060-000/Salvador, BA. Telefone: 031-71-322-8037. E-MAIL: crncinco@atarde.com.br Gostaria de lhe dar uma dica, independente do profissional, pago ou não pelo serviço: acho que a graciosidade como se referiu continua sendo importante.

53. Prezado José Carlos, recebi seu e-mail e vou contribuir para o esclarecimento de suas dúvidas. Estarei respondendo suas questões. Se lhe for possível, gostaria que após o recebimento me enviasse alguns dados que se fazem importantes para entender um pouco mais de quais restrições necessita. Tentarei ser bem objetiva, mas, às vezes, onde menos se espera podem haver pontos a serem esclarecidos. Avaliando os dados de peso, altura e idade, realmente está acima de seu peso em 19 kg, como informado. Quando se calcula o seu índice de massa corpórea = IMC, este está acima do recomendado pelo órgão que institui valores de referência: Organização Mundial de Saúde. O seu índice atual é 32, indicador da obesidade de grau 1. Deveria ter o IMC igual a 24, com peso ideal em torno de 70-72 Kg. No entanto, relata que pratica atividade física várias vezes por semana. É necessária uma avaliação mais completa para saber o que realmente precisaria ser perdido em relação à gordura, pois existe também massa muscular que não gostaria de eliminar. Concordo quando diz que não quer passar fome e que o seu cardápio ajusta-se ao seu limite. Como nutricionista, não costumo proibir o consumo de alimentos (exceto em situações específicas) e aqui em nosso Hospital respeitamos o hábito alimentar do paciente, aspectos culturais e psicológicos, sempre de forma individualizada. No entanto, critérios como número de refeições ao dia, combinação de ingredientes e restrições alimentares são inseridas de forma a tornar a alimentação mais equilibrada e saudável em casos como do portador de diabetes. O fracionamento das refeições é muito importante para a perda de peso, mas caso não consiga realizar 6 refeições, faça 5. Mas para que serve o fracionamento? Durante o dia, quanto mais refeições fizer, maior será a sensação de saciedade. Não adianta comer 5 vezes ao dia em grande quantidade. As porções têm que ser o suficiente para deixá-lo satisfeito. Concordo que é uma mudança de hábito alimentar, mas é necessária, e com o passar do tempo irá se acostumar e mesmo se esquecer de comer... Claro que, eventualmente, durante sua rotina de trabalho, haverá dias em que não conseguirá comer no horário determinado. Todavia, tão logo tenha oportunidade, faça sua refeição e lembre-se de que as refeições principais como café da manhã, almoço e jantar têm de ser respeitadas nos horários definidos. Alho e berinjela possuem propriedades medicinais, mas com qual finalidade toma essa mistura com suco de limão? Se formos avaliar, uma infinidade de alimentos possuem propriedades medicinais: gengibre, tomate, cebola, soja, etc e cada um deles possui um estudo direcionado para alguma patologia. A mistura relatada, segundo alguns estudos, está ligada à diminuição de colesterol e triglicérides. Os estudos indicam a diminuição dos níveis sanguíneos de colesterol e triglicérides, mas não são conclusivos nem reconhecidos pelo Conselho de Medicina e Nutrição, portanto não provado cientificamente. Estaria realizando, também, uma dieta pobre em gorduras? Se afirmativo (devido a problemas constatados laboratorialmente), é valido o consumo, pois alguns estudos INDICAM a redução de gorduras no sangue, mas isso não o isenta de uma dieta! Sobre o consumo de chás, tudo o que é ingerido em excesso faz mal. Mas o que poderia causar o consumo excessivo de chás? Nas ervas utilizadas para infusão de chá, há dois componentes chamados taninos e fitatos que podem causar irritabilidade da mucosa do estômago. Os chás possuem menores quantidades desses componentes e segundo a quantidade indicada no seu consumo não há problema. Sobre o adoçante, o único natural é o stévia, os demais são à base de aspartame (artificial), portanto se quer uma alimentação mais saudável o stévia é indicado. Mas por que o stévia é o mais recomendado? Justamente por ser extraído da folha de stévia, que possui esteviosídio, a substância que promove o poder de adocicar. Quais chás poderia indicar-lhe? Todos, desde que consumidos com moderação. No seu caso, adoçados com adoçantes, porque o consumo de sacarose (açúcar) está proibido. Os fabricantes de chás mais conceituados do mercado são Leão e Vemat. No entanto, estas marcas mudam de região para região e  podem ou não ser encontradas. Os chás não são os principais ajudantes do rim. O que propicia o bom funcionamento deste é a água, que por sua vez é utilizada para a infusão de chá. Quanto a eliminar o açúcar na urina a informação não procede, pois uma vez diabético e não controlado sempre haverá um excesso de açúcar na urina: glicosúria. Se tiver um diabetes controlado, não haverá açúcar na sua urina. Evite os chás que contêm cafeína, como o preto e o mate, pois estimulam o sistema nervoso central e o deixam mais ansioso. Chá verde também possui cafeína, portanto não o tome em excesso. Avaliando suas dúvidas em relação ao almoço, observo que talvez desconheça a composição dos nutrientes, pois mistura os mesmos nutrientes. Há vários grupos de alimentos: proteínas (alimentos de origem animal: carnes, leite, queijos); carboidratos (pães, massas, batata, cará, arroz, inhame, farinhas, etc.); gorduras (óleos), leguminosas (grãos, como lentilha, feijão, grão-de-bico); verduras e legumes (alface, repolho, agrião, rúcula, espinafre, cenoura, beterraba, berinjela, pepino, tomate) e todas as frutas. Quando se está fazendo uma alimentação equilibrada, consome-se 1 alimento de cada grupo. Exemplo: arroz, feijão, frango, cenoura cozida, repolho refogado, salada e fruta. Quando se fala de verduras cruas usadas nas saladas, pode-se utilizar mais do que uma pois possuem baixo valor calórico e fibras. Quando pergunta se pode comer arroz e macarrão integral com lentilha a resposta é não. Arroz e macarrão são do mesmo grupo de alimentos (carboidratos) e, portanto, não devem ser consumidos juntos pelo paciente diabético, pois deve controlar os carboidratos. O fato de ser integral não permite que consuma os dois. As marcas mais conhecidas dependem igualmente da região. Sobre os óleos, indico-lhe os de origem vegetal, ou seja: soja, canola, girassol, etc. Todos são isentos de colesterol. Azeites extra-virgem e óleos crus podem, igualmente, ser utilizados, mas os azeites custam mais caro. A afirmação de que óleos reaquecidos aumentam os radicais livres e faz mal ao coração é verdadeira, mas isso só ocorre quando o óleo é reutilizado várias vezes. Quando são reaquecidos várias vezes, a altas temperaturas, podem favorecer o aparecimento de substâncias que são prejudiciais à saúde. Sobre feijão e grão-de-bico, pertencem ao mesmo grupo de alimentos e, portanto, deve-se evitar consumi-los juntos. Os peixes podem ser consumidos, sem problemas, desde que grelhados ou assados. O quibe e o espetinho de frango, se assados, tudo bem; deve-se evitar comê-los fritos. É bom variar, durante a semana, a saber: bife acebolado, frango assado, peixe assado, peito de frango grelhado, etc. Quanto às verduras, devem ser consumidas cortadas em pedaços bem pequenos, a não ser que haja algum problema de mastigação ou deglutição. Evite beber água ou sucos durante as refeições, por causa das enzimas digestivas e da dilatação do estômago. O consumo de suco de frutas é indicado após as refeições para beneficiar o aproveitamento melhor de algumas vitaminas e minerais como o ferro. Não há necessidade de se adicionar adoçante no suco, porque a fruta já é doce.    Os sorvetes “lights” são mais doces do que o normal porque o poder de adoçar do adoçante aspartame é 4 vezes maior do que a sacarose (açúcar comum). O consumo de produtos “lights” deve  ter uma atenção especial. Nunca se pode pensar que consumir somente produtos “lights” não engorda. Os produtos “diets” não possuem açúcar e são mais indicados para diabéticos. A variedade do cardápio é o segredo da dieta. Evita a monotonia e é essencial para não enjoar. O açúcar das frutas chama-se FRUTOSE, um açúcar diferente da sacarose (açúcar refinado). As frutas devem ser consumidas por quem tem diabetes com moderação, mas sua frutose não é prejudicial. Pode consumir de 2 a 4 unidades por dia (preferencialmente como lanche e após as refeições). As que possuem mais frutose são: uva, caqui, manga, jaca. O leite desnatado, se for pasteurizado, nada contra. Leites como parmalat possuem boa credibilidade. Chocolate “diet”, café, podem ser acrescidos ao leite com a utilização de adoçante. Não vejo problemas em relação ao consumo de pão francês, mas o integral é melhor, pois possui fibras. Mesmo assim deve ser consumido com moderação. Não há restrição quanto ao consumo de queijo tipo minas, ricota e cottage, já que possuem pouca gordura e pouco açúcar. O peito de peru está aprovado! Mas, que tal variar: torradas com geléia “diet” e bolacha de água com ricota? Não há restrição para o consumo de bolacha de água. Margarinas Becel e Mila estão indicadas. Consuma produtos orgânicos (sem agrotóxicos). A variedade é importante e pode-se substituir a fruta por uma barra de cereais “diet”, que nada mais é do que granola prensada. Comercialmente, recebem o nome de NUTRY. Frutas que têm cascas e bagaço: laranja, tangerina, mexerica, carambola. Sobre a cervejinha, se fosse você tomaria umas duas (sem álcool), afinal de contas do que vale a vida? Entenda: trata-se de moderação, sensatez e consciência de que obtendo uma alimentação equilibrada pode-se desfrutar de tudo. A proibição do consumo de bebidas só pelo diabetes não se justifica, mas não se deve abusar. Sabia que alguns médicos indicam o consumo de vinho para pacientes cardíacos? Não sofra com a dieta. Se faz controle de colesterol e gorduras, evite a carne de porco, que não é muito boa. Se fosse meu paciente, liberaria você para comer uma copa de lombo grelhada uma vez ao mês. Feijoada? Depende de como é preparada e da quantidade de gordura. A proibição do açúcar, no seu caso, é uma realidade. O uso de adoçante é obrigatório. Bolo, refrigerante, café, sorvete, tudo “diet”, podem ser consumidos, com moderação. A atividade física é muito importante. O acompanhamento de um profissional de educação física para monitorar os batimentos cardíacos e orientá-lo da freqüência cardíaca máxima e mínima é recomendado. Cevada e aveia podem ser consumidas entre duas a três colheres de sopa por dia. Quando se utiliza fibras como estas na alimentação deve-se ingerir no mínimo 2 litros de água por dia. Toda fibra precisa de água para contribuir com a massa fecal, ou seja, fibras mais água ajudam no funcionamento normal do intestino. Quanto à afirmação das fibras ajudarem na redução da taxa de açúcar sanguínea é verdadeira, além de promover o bom funcionamento do intestino. Mas não se engane, ter fibras não significa que possuem menos calorias e, portanto, podem engordar da mesma forma. Uma alimentação equilibrada inclui na dieta alimentos com diferentes nutrientes. Quanto mais colorida for sua refeição, maior quantidade de vitaminas contém. Sua dieta é monótona, restritiva demais para um diabetes tipo 2, pobre em frutas e com horários muito espaçados. Espero tê-lo ajudado e respondido a algumas de suas perguntas que outros profissionais não puderam. Fico contente. Com relação à cobrança, é meu dever como profissional da saúde prestar orientação quando solicitada. Atenciosamente, Marisa Fernandez Meizoso, Nutricionsita, Supervisora do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital Santa Cruz, snd@hospitalsantacruz.com.br

CAPÍTULO II.

TEXTOS de 29 programas do Globo-Repórter, da Rede Globo de Televisão, pesquisados no site http://redeglobo.globo.com/globoreporter/ com reportagens nas áreas de nutrição e saúde. Uma linguagem simples, objetiva, direta e com poucos termos técnicos. São textos belíssimos e muitos se constituem em autênticas lições de vida.

GLOBO-REPÓRTER: COMO ENVELHECER BEM—13 DE OUTUBRO DE 2000.

LONGA VIDA.

Começamos a envelhecer no final da adolescência e nessa fase a maioria das pessoas comete erros. Mas a corrida da vida é longa e, com alguma disciplina, podemos virar o jogo, arrancar para a vitória e chegar longe. Desculpas para continuar parado no lugar existem várias. Pode dizer, por exemplo, que não tem tempo para nada. O oftalmologista carioca André Cechinel também não: "Já fui para a clínica, atendi os pacientes de rotina e, agora à tarde, vou fazer 11 0cirurgias". Os filhos exigem muito, dão trabalho? A filha dele também: "Tenho uma filha de quatro anos que procuro acompanhar o máximo possível. Vejo-a quase todos os dias, levo-a para nadar duas vezes por semana e duas vezes busco-a no colégio". Mesmo com a vida agitada, consegue uma brecha quase diária para os exercícios: "Às vezes tenho que usar horários alternativos. Chego na academia às 21h30min, às vezes vou aos domingos, porque sinto que para mim é extremamente importante". André largou bem. Desde moleque faz exercícios, nunca fumou e bebe pouco. A partir dos 40, redobrou os cuidados: mais exercícios e alimentação balanceada. "Não precisa enfartar aos 40 anos para mudar radicalmente de vida. Se tomar cuidados básicos necessários, diminui muito a possibilidade de isso acontecer". Como se não bastasse ser um modelo de corredor rumo à velhice bem sucedida, André tem nas mãos o que os médicos consideram um elixir da juventude: um “hobby” que lhe enche de prazer. Tocar piano é terapia: "A música me leva para os melhores lugares do mundo". Com essa disciplina, André tem chances de ser um centenário. Não é preciso ser um super-homem para viver tanto. Aliás, nem existe um super-homem geneticamente perfeito. Mas já se sabe que, se a natureza não caprichou, a gente pode dar um jeitinho. Ou não, depende de cada um. "Descobrimos que existem genes bons e ruins e podemos driblá-los. Conhecemos pessoas que são filhos e netos de centenários e enfartaram porque fumam, são sedentários, emocionalmente estressados, têm uma percepção ruim da vida e uma baixa intelectualidade", diz a biogerontóloga Ivana Cruz. Ivana estuda o envelhecimento no Instituto de Geriatria da PUC de Porto Alegre. Tem um olho na genética e outro no estilo de vida. Comparando idosos muito diferentes, vai reforçando outros estudos de diversos países: "Só 25% do processo de envelhecimento depende da nossa herança genética e 75% de como levamos a vida".

RECEITA DA ALEGRIA.

Uma mulher vive no Rio Grande Sul, em um clima frio, quase europeu. Outra mora na Bahia, terra de sol e calor o ano inteiro. Uma se alimenta seguindo a mistura de receitas dos imigrantes italianos, portugueses e alemães. A outra herdou o paladar dos índios e africanos, gosta dos produtos da terra. Uma é católica praticante, ajuda a comunidade e adora ler. A outra é devota de São José, reza duas vezes ao dia e tem paixão pelos pontos do crochê. Mas, afinal, o que faz mulheres tão diferentes como a gaúcha Guilhermina e a baiana Carmen passarem dos 80 anos, tão cheias de vida? "É saber levar a vida, não beber, não fumar, não perder muitas noites, saber se alimentar", opina Carmen. "Levo a vida tranqüila, não tenho ódio nem raiva de ninguém, gosto de fazer amigos, aqui na rua não tem ninguém que não sabe quem é Guilhermina", conta a gaúcha. Entrando um pouco na vida de cada uma, aprendemos que não é tão complicado envelhecer bem. O segredo parece estar na maneira como elas vão saboreando cada tarefa, alimentando bem o corpo e o espírito. "Adoro ler. À noite, quando não vejo TV, leio e escrevo. Gosto de amor e aventura", diz dona Guilhermina. "Gosto do crochê. Fico com o pensamento longe, não penso no que não presta", explica dona Carmen. Elas também preparam a própria comida do jeitinho que gostam e estão sempre em movimento. Caminham por Gravataí, pelas ruas de Salvador. Aos 82, dona Guilhermina descobriu o teatro. Dona Carmen nunca deixou de freqüentar a igreja. Essas duas senhoras fazem parte de um grupo maior que está sendo estudado pela Escola Baiana de Medicina e pela PUC de Porto Alegre. O resultado vai beneficiar os idosos de amanhã.

ALIMENTOS SAUDÁVEIS.

A ação do tempo sobre o nosso corpo é semelhante ao que acontece com o metal exposto ao ar, à chuva, ao desgaste do uso. A ferrugem é resultado visível desse processo. No nosso corpo, o nome é oxidação. Invisível aos olhos, ela comanda o envelhecimento. A oxidação age fazendo verdadeiros furos na membrana das células, exatamente como a ferrugem é capaz de esburacar ou transformar em pó um objeto de ferro. Podemos enferrujar muito e rápido ou menos e mais devagar, dependendo dos nossos hábitos. O cigarro, o excesso de gordura e o estresse aceleram o processo de oxidação. Mas a proteção é coisa simples e está ao alcance das mãos. Os grandes aliados nessa batalha contra a oxidação são os alimentos naturais: quanto maior e mais variado o consumo de frutas, verduras, legumes e carnes, melhor. Alguns alimentos têm muito poder de fogo. "Agem fazendo a proteção celular. São grandes combatentes da formação de radicais livres, que são os destruidores da nossa membrana celular, e agem fazendo exatamente a proteção dessa membrana", explica a nutricionista Míriam Naja. Algumas vitaminas encontradas nos alimentos naturais lideram esse exército do bem. A vitamina C pode ser encontrada na laranja, na manga, na goiaba, na acerola e no caju. A vitamina E está presente nos óleos vegetais e no mais saudável deles, o azeite de oliva. A vitamina A está nas folhas de verde escuro, como a couve e o espinafre, e nos legumes amarelos, como cenoura e abóbora. Os minerais antioxidantes são o zinco presente nas carnes e o selênio encontrado na batata, na mandioca e na vedete do momento: a castanha do Pará. "Ela é tida como grande fonte de selênio e a ingestão de uma castanha do Pará por dia seria necessária para manter a nossa recomendação diária", diz a nutricionista. Num passeio pelo supermercado, Míriam chama a atenção para um inimigo invisível e perigoso. "A gordura hidrogenada é a gordura saturada que está presente em praticamente todos os alimentos industrializados, nas bolachas, nos pães, nos bolos, nesses alimentos preparados com gordura hidrogenada, saturada, que faz os depósitos das gorduras na corrente sanguínea". Com uma alimentação de qualidade e moderada na quantidade, as chances de envelhecer bem aumentam. Quem seguir a receita também estará melhor preparado para enfrentar o quase inevitável. Um estudo da Escola Paulista de Medicina mostra que, depois dos 65 anos de idade, cerca de 85% das pessoas têm pelo menos uma doença crônica. Mas isso não é o fim do mundo. "Aqueles que envelhecem bem não são necessariamente os que não têm doença, mas sim os que têm as doenças controladas e com isso conseguem manter sua função, sua independência", esclarece o geriatra Luís Roberto Ramos.

SEM PREGUIÇA.

Mário e Ana correm dentro da água. É uma modalidade esportiva pouco conhecida, mas que caiu como uma luva para a necessidade dos dois. Mário tem taxas de colesterol e triglicérides altíssimas. Precisa de exercício para diminuir riscos e fortalecer o coração, mas não suporta academias. "Acho a piscina democrática. Você fica com a cabeça fora da água, todo mundo é igual, não tem aquele exibicionismo. É legal", opina ele. Ana sofre de osteopenia, o estágio anterior da osteoporose, uma doença que enfraquece os ossos das mulheres principalmente depois da menopausa. Ela teve também um problema no joelho e não pode fazer exercícios de impacto. "Tive uma inflamação de menisco. Fiz sessões de fisioterapia e o médico recomendou esporte aquático", lembra ela. Ana e Mário estão seguindo à risca a recomendação médica de não dar tréguas às doenças, para que não atrapalhem a velhice. Uma perigosa ilusão é achar que existe uma poção mágica capaz de brecar a passagem do tempo. Já foi assim com o hormônio do crescimento, apresentado há dez anos como uma espécie de elixir da juventude e, logo depois, descartado pelos médicos sérios. A reposição de hormônios sexuais também já provocou muita controvérsia, mas a evolução das fórmulas e o uso criterioso atenuaram a polêmica. "Assim como grande parte das mulheres precisa de reposição hormonal, uma pequena parte dos homens pode se beneficiar com a reposição do hormônio masculino. Só que essa reposição não pode ser feita ao acaso. Precisa de exames e uma avaliação clínica boa", explica o endocrinologista Marcelo Bronstein. Da pele à atividade sexual, os efeitos aparecem no corpo todo quando é feita a reposição dos hormônios sexuais que diminuem com a idade. "Não é ir contra a natureza. Se formos pensar assim, catarata é um processo natural do envelhecimento e, portanto, não iríamos operar. Mas você não vai deixar as pessoas cegas. Tem que tratá-las na medida em que alguma coisa está interferindo no bem-estar dela", conclui Marcelo.

ESTILOS DE VIDA.

O carrão é antigo, mas sai tinindo da garagem. Ao volante, o motorista que aprendeu a dirigir aos 34 anos. Hoje tem 87 e também continua em plena forma, levando a mulher e o carrão pelas ruas da cidade. Mas isso é só um passeio para manter o motor nos trinques. No batente diário, é o corpo de seu Inésio que funciona como uma máquina de boa qualidade, muito bem conservada: "Vou dizer-lhe o remédio: em seis meses, não tomei duas aspirinas". Seu Inésio é dono do hotel onde dá expediente todos os dias. E trabalha de verdade. Sobe e desce escada o tempo todo e com grande desenvoltura. Alongamento. Musculação. A academia dele é aqui mesmo. "Venho de manhã cedo dobrar todos os acolchoados e depois vem a moça e faz o resto. Dou uma revisada geral. É importante trabalhar. Quem pára de uma vez se entrega para ir ao cemitério", diz. Que ninguém duvide. Seu Inésio mora em Veranópolis, na Serra Gaúcha. Se a fonte da juventude não fica aqui, deve estar por perto: o pessoal da terra vive em média dez anos mais do que os outros brasileiros. Já se sabe que isso se deve menos à genética e mais ao estilo de vida que levam. Remexer a terra, cultivar alface e as frutas. Seu Ferronato segue fazendo o que aprendeu na roça, "na colônia", como dizem os gaúchos: "Trabalhava na colônia até os 30 anos. Plantava trigo, milho e feijão". A diferença é que a plantação de morangos, verduras e figos agora está na varanda do apartamento na cidade. "Tenho prazer de ver nascer, crescer e levar os amigos para ver. A figueira veio dos EUA. Não existe figo mais doce. Este tipo agora tem na colônia, porque eu dei. No primeiro ano, deram 145 figos". Os grandes números. Seu Ferronato gosta deles. Aos 83 anos, ainda prevê muitas colheitas pela frente: "Meu pai viveu 105 anos. Quero ser assim também". Velhinhos poderosos como seu Ferronato, cheios de disposição, dão lições de vida o tempo todo. Com certeza, o que eles são a natureza transferiu para os filhos, netos e bisnetos. Pena que as novas gerações não dão muita bola para as lições mais importantes: os bons hábitos de alimentação, atividade física e convivência. Carla Schwanke, geriatra da PUC de Porto Alegre, faz parte de um grupo que há seis anos pesquisa a longevidade em Veranópolis. Uma nova etapa da pesquisa já mostra que o abandono dos bons hábitos pode influir na saúde da nova geração. O filho do seu Ferronato é dono de lanchonete e é estressado, mesmo vivendo em Veranópolis, uma cidade de 19 mil habitantes: "Tenho que permanecer na sorveteria e fico bastante parado. Só caminho aqui dentro, praticamente". Preocupação com tudo, falta de atividade física. É difícil mesmo imitar o pai e o avô. Entre as tentações da lanchonete do pai, olha o neto do seu Ferronato indo pelo mau caminho: "Pediria um hambúrguer e um refri". A equipe que estuda envelhecimento em Veranópolis agora ganhou o reforço do pediatra Manoel Pitrez. Ele e a equipe examinaram 250 crianças e adolescentes. "Tivemos uma prevalência de sobrepeso de 25% dos adolescentes. Um em cada quatro tem peso acima do desejável. Também tinham os níveis de pressão entre 22 e 23% e colesterol entre 12 e 13% acima de 200", explica o pediatra.

SEXO E DESEJO.

Eles redescobriram o amor e o sexo numa pista de dança depois dos 50 anos de idade. Cledy, 66 anos, estava separada desde os 30. Osvaldo, 62, ficou viúvo há seis meses. "Freqüentava um clube da terceira idade durante três anos. Uma senhora de lá deu uma festa e conheci Osvaldo", conta Cledy. "Uma amiga nossa me apresentou a Cledy. Ela me dava empadinha, coxinha, e eu pensei: “Essa aí é cozinheira'", lembra Osvaldo. "Dei-lhe uma atenção especial porque o achei bonito", esclarece ela. E começou o amor do jeito que todo amor começa: com insegurança e desejo. "Viagra, medicamento, nunca precisei, mas se precisar tomo", garante Osvaldo. "Acredito que quando está tranqüila e calma com a pessoa de que gosta, confia no outro, pode levar uma vida sexual em qualquer idade", opina Cledy. Cledy e Osvaldo confirmam o que dizem os especialistas: não é a passagem do tempo, mas sim o preconceito o principal inimigo do sexo. "O indivíduo que abdica da sexualidade quando maduro é alguém que já se dispôs a isso quando jovem. Estipula uma faixa etária na cabeça dele e pára de atuar porque se condicionou a isso", explica o endocrinologista Marcelo Bronstein. "Os indivíduos que aceitam bem a sua sexualidade, as modificações que ocorrem, são pessoas que até o fim da vida não vão abdicar do sexo", continua Marcelo. Amor e sexo na terceira idade. Quem vive sozinho? São 90 anos de idade e de lembranças. Do cartão postal de Florianópolis, dona Lauda guarda recordações de menina: "Vi a Ponte Hercílio sendo construída. Passei lá muito antes de ser inaugurada. O que me entristeceu muito foi a Segunda Guerra Mundial". A viúva que há quase três anos decidiu deixar a casa dos filhos surpreende ao falar de solidão: "Não, nunca a senti, porque solidão tem quem não gosta de ler, de passear, de conversar e outras coisas também. Nunca senti solidão, apesar de estar só". Não exatamente só. Dona Lauda encontrou um lugar para morar feito sob medida para pessoas idosas e independentes como ela: é um projeto pioneiro da Igreja Metodista de Santa Catarina, mas que aceita moradores de todas as religiões. Mistura a seriedade de um condomínio particular e a alegria de uma república de estudantes. Cada morador tem um apartamento decorado com seus próprios móveis e objetos. Entram e saem quando querem. Algumas atividades são coletivas, como as refeições e a ginástica, que acontece durante 40 minutos, três vezes por semana. As senhoras que encontramos em Florianópolis adicionam também aquela dose de sabedoria que pode fazer da terceira idade uma das melhores fases da vida. "Quando somos jovens, há pressões para provar quem somos. Não queremos ter a angústia de pensar se vamos ser amadas ou não. Depois de um certo tempo de vida, já sabemos do que somos capazes. Podemos sabiamente saborear a vida sem pressões", diz a psicanalista Suely Gevertz.

VOZES DA EXPERIÊNCIA.

A professora tem 91 anos. A aluna, 71. "Nunca é tarde para realizar um sonho antigo. Sempre digo que com dona Lindalva é uma aula de felicidade". E é mesmo. A professora doce e paciente é apaixonada por música desde que se entende por gente. O caso de amor com o piano começou na Manaus do início do século: "Desde os quatro anos sonhava com o piano. Quando completei seis, minha mãe me chamou, sentei no banquinho e ela mostrou aquelas teclas brancas e pretas para mim. Eram teclas caídas do céu". A música deu forças para a menina sem recursos sair do Amazonas e vir para o Rio de Janeiro estudar na Escola Nacional. Ajudou também dona Lindalva a superar uma doença grave, ganhar a vida e chegar serena, lúcida e saudável aos 91 anos. "Todas as minhas decepções, até o amor que perdi, foi a música que me ajudou a curar". Generosa, retribui ensinando tudo que a música lhe deu. Descobriu talento no porteiro do prédio onde mora, no Rio de Janeiro, e abre o piano para que solte a voz. Generosa também é essa paulistana de 86 anos. Todo mês costura cem fraldas para crianças carentes: "Tem gente que diz que já se aposentou e vai ficar em casa. É opção. Talvez eu seja um pouquinho carente. Preciso de qualquer coisa útil. Somos uma máquina: se não engraxa a máquina com atividade, enferruja". E dona Laurinha segue no ritmo da metrópole. Não pára nunca. Duas vezes por semana, administra o bazar da igreja: "Sou muito religiosa, com a graça de Deus. É um apoio. Assim como se precisa do psiquiatra na parte física, necessita-se ter o psiquiatra da parte espiritual lá em cima". Da saúde, dona Laurinha também cuida muito. Todos os dias faz 40 minutos de caminhada no maior pique. Dá só uma paradinha: "É um costume oriental de abraçar uma árvore. Você pede bons pensamentos, para a raiz dar-lhe forças". Com energia redobrada, segue a caminhada. "Não penso no dia de amanhã, mas no de hoje. Estou bem, ótima. Agradeço lá em cima. Já estou com juros e correção monetária". Além de um belo capital, quem vive muito pode ter boas surpresas. Dona Lindalva, que ouvia música no gramofone e tocou no cinema dos filmes mudos, gravou, aos 91 anos, com a ajuda de amigos, o seu primeiro CD. São composições dela, uma mestra na arte de tocar e de viver. "É uma emoção muito grande. Para mim significa muita coisa. Significa o céu, a terra, as cachoeiras, todas essas músicas foram inspiradas na grande saudade que tenho da Amazônia". Saudade do que passou, dos que se foram. É um sentimento natural de quem desafiou o tempo levando a vida tão longe. Mas quem soube envelhecer parece mesmo é gostar do presente, de apreciar cada dia. E se a vontade é chegar lá, nada como ouvir a voz da experiência. "Ter as pazes com Deus e consigo mesmo, com os outros, porque não há nada pior do que estar brigando com a gente mesmo e não perdoar os semelhantes", diz dona Edith. "Na velhice, é preciso se sentir útil. Não pode deixar a peteca cair", afirma dona Laurinha.

GLOBO-REPÓRTER: DIETAS—16 DE FEVEREIRO DE 2001.

MODELO DE VIDA.

Atrás de qualidade de vida, fizeram uma mudança radical. Foram viver em uma praia de Santa Catarina onde a vida anda mais lenta. E as condições do mar e o tempo ainda determinam o que se põe à mesa. Paulo Zulu e a mulher, Cassiana, construíram mais do que uma casa - um estilo de vida baseado em uma filosofia alimentar. "Sou o que eu como", afirma. Só vai para a mesa de Zulu o que ele pesca e planta. Comida sem defensivos, sem agrotóxicos, sem hormônios. Para o modelo de 37 anos, uma fórmula de beleza e juventude. O glamour que Zulu esbanja nas passarelas tira da vida doméstica simples. "Estou fissurado para colher esse milho faz tempo. Está bom quando os cabelinhos estão totalmente sequinhos”, mostra. Os tomatinhos também enfeitam o jardim, plantados ao pé das árvores de um pomar que começa a crescer com os carinhos do dono. "Aqui é meu pezinho de caqui, que venho namorar todo dia. Desse tamanho e já tem mais ou menos 15 frutos. O mamão papaya é menor porque não tem agrotóxico, nem adubo químico". Nada é desperdiçado. Maracujá que vai ao chão também vira suco. "Essa é a minha rotina o ano todo. Venho, colho as coisas, vou lá, pesco. Parece que é “marketing”, mas não é não. É verdade. É porque, para mim, a vida é isso. Se não for assim, não tem graça”, conta.

HÁBITOS ALIMENTARES.

O beija-flor come mais da metade do próprio peso em açúcar, todos os dias. Só que, batendo as asas 70 vezes por segundo, gasta tudo o que come. Para o biólogo Armando de Luca, é uma conta que nunca fechou. Nascido numa família boa de garfo, come mais do que gasta desde que se conhece por gente. Depois de 40 anos de dietas e ainda incapaz de controlar o quanto comia, Armando decidiu controlar quanto cabe no estômago. Emagreceu 22 quilos, em 45 dias, porque um balão dentro do estômago ocupa quase todo o espaço que antes enchia com comida. É o primeiro paciente brasileiro a experimentar a técnica, desenvolvida nos Estados Unidos. Os médicos levam o balão de silicone até o estômago através de uma endoscopia. Preenchido por um líquido, chega a ocupar 80% do espaço. O paciente não consegue comer muito, nem querendo. O almoço agora é assim: salada farta e “uma” sobrecoxa de frango assada, sem pele, índice mínimo de gordura. Ele agüenta? “A gente ainda dá uma misturadinha do que é fome com o que é vontade de comer”. O pouco espaço que sobrou no estômago faz Armando rejeitar as comidas pesadas. Cíntia Capella, 26 anos. Na adolescência, chegou a pesar 120 quilos. Aos 17 anos, inventou a própria dieta - vivendo no extremo do que o corpo pode agüentar. Duas salsichas por dia. Mais nada. Foi assim durante um ano. Perdeu 60 quilos. Manteve-se magra, mas não mudou a relação mal-resolvida com o que come. No restaurante a quilo, escolhe o menos saudável: bolinho frito de arroz, macarrão na manteiga, deixa a cenoura, leva o purê. O prato de Cíntia é cheio de gordura e carboidratos. O que vai comer no jantar? “Nada”. Não quer engordar e nem deixar de comer tudo o que gosta. Então submete o estômago a longos períodos sem comida e o organismo à falta de nutrientes essenciais. Como no tempo das salsichas, a filosofia é: alguns instantes de prazer e a privação total. “Acho que preciso me reeducar. É a próxima etapa”. Não é uma decisão fácil. Requer mudanças de hábito que vão além de uma temporada de regime. O único método comprovado para ser magro com saúde funciona a longo prazo, mudando os hábitos alimentares e a forma de vida.

SEGREDO DAS ESTRELAS.

Além da fama, o que têm em comum Brad Pitt, Demi Moore, Cindy Crawford, Sharon Stone e Madona? Seguem a dieta das estrelas, também conhecida como dieta da zona. Os seguidores atingem a zona de melhor aproveitamento dos alimentos e maior queima de gordura. A nutricionista Cora Hogue orienta um programa baseado na dieta da zona. Explica que a refeição ideal deve combinar 40% de carboidratos, como legumes, verduras e frutas; 30% de proteínas, peixe, galinha ou carne vermelha; e 30% de gordura, uma colher de azeite, por exemplo, ou um punhado de amêndoas. A comida é preparada por um “chef” caribenho, Kennedy Deroche. A comida é entregue em casa, a cada dois dias, durante uma semana. O bom na dieta das estrelas é que os pratos nunca se repetem. No café da manhã, mingau com amêndoas. No almoço, camarões com molho italiano. No jantar, filé de peixe recheado e espinafre. Para o lanche, uma pêra, um queijinho e uma noz. Além da variedade, a comida é gostosa e nunca se fica com fome. Nas refeições, nota-se a ausência de arroz, macarrão, batata, pão, biscoito e sucos. Cora diz que esses alimentos entopem o organismo de açúcar e viciam o cérebro. Fundamental é fazer exercício todo dia. De preferência, musculação orientada por um instrutor. Para relaxar, os adeptos da zona fazem ioga. É um regime difícil. Há regras complicadas para balancear os alimentos. Por isso, as pessoas preferem que a comida venha pronta, o que torna a dieta cara. É só mesmo para as estrelas. Elas são magras, mas o público está cada vez mais gordo: 60% dos americanos estão acima do peso e 25% são obesos. Mas gastam com dietas 33 bilhões de dólares por ano. Um estudo recente do governo americano conclui que quase todas as dietas estão erradas. Todas fazem perder peso nos primeiros dias, mas quase sempre a gordura volta. A única que dá sempre certo, segundo o estudo, é a dos Vigilantes do Peso. Baixa caloria, pouca gordura e muita fibra. E o mais importante: acompanhamento a longo prazo, com incentivo de um grupo de apoio. O segredo do sucesso dos Vigilantes talvez seja o mesmo que explica a magreza das estrelas. Estar de bem com a vida.

PRATO PERFEITO.

O problema da carne vermelha é que a gordura, tão saborosa, é um veneno a longo prazo. Mas, na composição de uma dieta saudável, os médicos não dispensam um bifinho. “A carne vermelha tem suas utilidades, como o ferro e o zinco. Se comer só peixe, vai ficar anêmico”, explica o vice-presidente da Associação Internacional para Estudo da Obesidade, Alfredo Halpern. O ferro pode ser encontrado no feijão, no zinco, nos cereais. Mas é muito mais fácil para o organismo absorver o ferro e o zinco da carne. A vantagem do peixe sobre a carne vermelha está no tipo de gordura que carrega. O ômega-3 é um ácido graxo que combate o colesterol - a gordura que se acumula nas paredes das veias e artérias. É o ômega-3 o responsável pela boa reputação dos peixes. Os nutricionistas recomendam peixe pelo menos duas vezes por semana. Em termos de quantidade de ômega-3, o salmão e a truta, peixes importados, perdem feio para a nossa tainha. Para achar o campeão de combate ao colesterol, basta procurar pela sardinha. Em lata não vale - perde o ômega-3. E frita, nem pensar: além de perder a gordura boa, fica três vezes mais engordativa. A doutora Anna Beatriz aceitou nosso convite para mostrar como se prepara uma sardinha sem perder os nutrientes. “Assada. Sal, alho, alecrim, vinho branco e água. O tempero tira o gosto forte da sardinha e evita que fique seca. Para acompanhar, batatas, tomates e azeitonas”, ensina. “É um prato completo, não precisa de acompanhamento nenhum. Se quiser, uma boa salada, para dar o teor de fibras”. No forno pré-aquecido, em 40 minutos está pronta. Livrar-se das espinhas é fácil depois de assada. Basta passar a faca, com jeitinho, nas costas da sardinha. Exposta, a espinha sai inteira. Sabor é importante. Partindo desse princípio, o endocrinologista Alfredo Halpern inventou uma dieta onde se pode comer de tudo, mas com um limite de pontos. É um sistema para controlar a quantidade de calorias que se ingere durante o dia. Faça as contas: um cachorro quente completo tem 519 calorias. Um sonho - só um - 504. E um prato feito bem brasileiro, com feijão, arroz, bife e salada, só 306 calorias. “O brasileiro está largando o carboidrato - arroz e feijão - e entrando na gordura. É por isso que está engordando”, avisa o doutor Halpern.

OBESIDADE MÓRBIDA.

Como os outros animais, temos um dispositivo no organismo que avisa quando já comemos o suficiente. É quando nos sentimos saciados. Para algumas pessoas, essa mensagem parece nunca chegar ao cérebro. A falta de controle pode levar à obesidade mórbida. É quando o excesso de peso representa risco de vida porque provoca diabetes, apnéia do sono e complicações cardíacas. O biólogo Armando de Luca vai fazer uma cirurgia para reduzir o tamanho do estômago e resolver de vez o problema da compulsão por comida. O balão que está usando agora é temporário. “Esse paciente, em um período de quatro a seis meses em que vai utilizar o balão, pode perder em torno de 30 quilos. Assim, a cirurgia tem um risco bem menor”, explica o doutor Sallet. Armando se adapta: “Estou comendo um volume de comida muito menor do que estava habituado. Mas receio que, sem o balão, volte a comer mais”. Pressão alta e apnéia do sono, paradas respiratórias de mais de um minuto, botaram o biólogo num grupo de altíssimo risco. Os médicos calculam que já temos um milhão de obesos mórbidos. “Dependendo da faixa etária, eles têm até 12 chances a mais de morrer em um ano do que a população em geral”, diz o cirurgião gástrico Arthur Garrido. A equipe do doutor Garrido já fez mais de duas mil cirurgias de redução do estômago só em São Paulo. Há dois anos, treina médicos de outros estados para ampliar o atendimento nos hospitais públicos. Ainda assim, só no Hospital das Clínicas de São Paulo a lista de espera para a operação é de 15 anos.

UM CASO RARO.

Quem vê Joyce Fornari hoje, toda animada, nem pode imaginar a história que carrega. “Fiquei quase um ano e meio dentro de casa sem querer sair. Sentia-me um monte de lixo. Um saco de banha”. Pesava 153 quilos. “Tentei fazer vários regimes, todos: sopão, dieta da lua, comer só carboidrato, não comer proteína, comer proteína, não comer carboidrato, não comer nada... Tentei remédios também”. Depois da operação, 64 quilos mais magra, Joyce conheceu o outro extremo dos distúrbios alimentares. Ficou anoréxica, com aversão à comida. “Meu pesadelo é engordar de novo. Tenho medo disso o tempo inteiro. Foi o que me levou à anorexia”. O conflito era com o espelho. O gordo olha no espelho e não se reconhece naquele corpo refletido. O que aconteceu com Joyce mostra que o oposto também acontece. A cada quilo que perdia, Joyce enxergava uma estranha no espelho. Até hoje vive uma crise: tem medo de que a imagem da memória tome o lugar da magra do espelho. Joyce foi um caso raro, mas encontrou o equilíbrio com a ajuda de um terapeuta. Joyce quase não sente fome. Agora, precisa seguir uma dieta específica de nutrientes para não ficar doente. “Hoje como porque tenho que comer. Não quero entrar nessa história de depressão por causa disso, de novo”, conta. Joyce é metade do tamanho que já foi, uma nova mulher descobrindo a própria identidade, aos 41 anos de vida. “Outro dia estava deitada e tomei o maior susto porque era o osso do meu joelho! Não sentia o osso do meu joelho há anos! Tenho descoberto meus ossos. É pura felicidade. É melhor do que namorado novo”.

DISCRIMINAÇÃO CONTRA GORDOS.

“O problema é que os obesos não cabem em um mundo onde a estética é tamanho P. É uma pressão muito grande pelo emagrecimento. Há um endeusamento da figura magra. Se for magro, não muda só o corpo, muda a sina. Vai ter sorte, ser maravilhosa, ter muitos amigos e ficar rica!”, explica o psiquiatra Taki Cordás. Poucos conseguem se manter magros por tanto tempo. “A gente sabe muito bem o que deve e o que não deve comer, mas muitas vezes acaba não raciocinando na hora de comer. É uma compulsão”, desabafa Armando. A compulsão por comida é uma doença. Um sintoma é comer escondido, até de si mesmo. Sem controle, tem gente que, todas as noites, se levanta da cama para assaltar a geladeira e nem sabe o que está fazendo, porque está dormindo. “É como se estivessem em transe hipnótico. Algumas tendem a negar o que comeram. É diferente de mentir”, diz o cirurgião gástrico José Afonso Sallet. Mauro Bernardes nunca escondeu nada. Começou a comer demais e engordou. Pulou de 85 para 120 quilos e passou a carregar um peso invisível. “A gente se sente humilhado pela discriminação feita de forma embutida”. Ele era comissário de bordo de uma companhia aérea. Acabou se demitindo e agora processa a empresa por discriminação. Quanto mais pressionado, mais comia e engordava. Ficou para trás uma carreira premiada por bom desempenho, com longa ficha de elogios. A rejeição aos obesos no mercado de trabalho foi medida por uma pesquisa em São Paulo. Foram consultados 1.400 executivos: 73% disseram que não contratariam um gordo. Reféns de um organismo desordenado, ainda têm que enfrentar limitações objetivas e específicas. “Deixamos de ir a teatro e cinema por um bom tempo porque aquela situação constrangedora de não caber na cadeira não dava para agüentar. Isso já é uma forma que a gente se sente discriminado”, diz Armando. Parece que tudo leva ao isolamento. É enfrentar isso ou a intolerância.

GORDO E ATLETA.

Como será a vida de alguém tão gordo? Andar com dificuldade, sem fôlego, com pouca saúde. Mas as aparências enganam. David Alexander é gordo e triatleta. Já competiu em 276 triatlos e nunca deixou de completar uma prova. Mede 1,70 metro e pesa 130 quilos. Começou tarde, aos 38 anos, tão pesado quanto é hoje aos 55. Chamou a atenção da imprensa esportiva e logo ficou famoso como o gordo mais atlético do mundo. David tem uma coleção de bicicletas. Com elas, viaja o mundo todo competindo. Todo dia de manhã, sai de casa e vai treinar. O triatlo é uma prova pesada. Natação, bicicleta e corrida. David aceitou o desafio do Globo Repórter e nadou em um lago gelado. “Só vou fazer isso para provocar meus amigos brasileiros, Djan Madruga e Fernanda Keller”, diz. A temperatura da água estava pouco acima de 0º. Depois de nadar, pega a bicicleta super incrementada e pedala alguns quilômetros. A bicicleta agüenta firme. Por fim, a corrida em uma trilha de terra cheia de pedras, na paisagem agreste do Arizona. David não é exatamente um campeão. Carregar esse peso todo não ajuda. Mas tem excelente condicionamento e nunca se cansa. Na faixa dele, dos mais velhos, não se sai mal nos triatlos. “Queria ser menos gordo, mais competitivo. Mas não perco peso de jeito nenhum. Nem meu médico sabe explicar porque não emagreço com tanto exercício”. É um mistério, mas David não se importa. É melhor ser gordo e em forma do que magro fora de forma. A diferença entre David e os atletas magros é que eles, depois do exercício, podem comer um prato de macarrão, bife, “pizza”, e David tem que comer só uma saladinha. David explica que o corpo dele é muito eficiente, queima poucas calorias. Se não fizer dieta, engorda. Procura comer poucos carboidratos, mas nem assim emagrece. David recomenda que os gordos como ele façam exercício todo dia, mas não façam triatlo como ele, porque é preciso ter muito treinamento. “O mais importante”, diz David, “é que me divirto muito”.

GLOBO-REPÓRTER: GORDURA—1º DE MAIO DE 2001.

HERÓIS E VILÕES.

É festa para quem tem muito fôlego. Feira de São Cristóvão, Rio de Janeiro. O forró diminui a saudade e aumenta o apetite. Para alimentar o entusiasmo, fartura de calorias. “Gordurinha” é palavra elegante. São camadas de gordura impressionantes. Carne mesmo, mal dá para enxergar. A receita faz sucesso. “Baião de dois com carne de sol. Uma delícia; isso aqui é uma beleza”. Foram quatro pratos, me servi várias vezes e vou pedir mais um. Hoje em dia diz que para passar na vistoria tem que ter “air bag”, brinca um dos freqüentadores da feira. Dona Lídia é uma quituteira de mão cheia em São Leopoldo, cidade da Grande Porto Alegre. Quando cozinha, enfrenta um drama: das comidas que faz, só sente o cheiro. “Gosto muito de fritura, mas não posso comer”. Aos 68 anos, dona Lídia descobriu uma bomba-relógio. “Fui ao médico e fiquei muito surpresa porque o meu colesterol estava muito alto - 420. Foi um susto muito grande. Tenho hipertensão e teria que mudar de vida ou enfrentar a doença. Minha médica me deu medicação e fechei a boca”. Professora aposentada, dona Lídia cozinha para fora. Faz lasanhas, bife a role, mas é famosa pelos fios de ovos. A dieta, na porta da geladeira, é à base de frango grelhado, peixe, frutas e verduras. “O colesterol baixou para 190; a pressão, para 12/8. Então, funcionou mesmo a dieta cortando gordura. Funcionou muito”, comemora. O café é polêmico até hoje. De bom para a saúde a péssimo - fala-se de tudo. Até o leite, tido como um rico alimento, é bombardeado. Em excesso, poderia causar envelhecimento precoce. Arroz e feijão, para quem todo mundo torcia o nariz, hoje são recomendados com louvor. E o macarrão, grande vilão até alguns anos atrás, está absolvido. A gordura parecia ser a única unanimidade que restou. Todo mundo contra. Mas agora até ela tem defensores. O professor Rui Curi, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, diz que as pessoas saudáveis podem comer gordura sem medo. Apenas usando bom senso. Ele acha que houve uma histeria contra os lipídios ou gordura, na alimentação. Mas são importantes até na reprodução das células. Numa experiência com ratos, uma equipe da USP descobriu que uma dieta sem gorduras enfraquece o sistema imunológico, as defesas do organismo. O médico Emílio Moriguchi é diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia e acha que a gordura continua no banco dos réus. Tem motivos para isso: “Temos várias evidências na literatura. Gordura na dieta aumenta o risco de infarto, mesmo para as pessoas com risco baixo”. O brasileiro come gordura demais. Em Brasília, a alimentação de cada pessoa, em média, é 42% gordura pura. Os índices mais baixos estão em Curitiba, com 26%, e Belém, com 24%. Mas nem nessas cidades, a alimentação pode ser considerada saudável. Henrique, com 130 quilos, não tem problemas de diabetes nem de coração. Muito menos a mulher dele, Vivian, que pesa só 48 quilos. A preocupação é outra. Com ou sem gordura, como comer uma alimentação equilibrada se as necessidades são tão diferentes? Henrique quer emagrecer e Vivian luta desesperadamente para engordar. Vivian faz um frango com quiabo no almoço. A comida, para os dois, é a mesma. A diferença está no antes e no depois. Quinze minutos antes do almoço, Henrique devora um pão doce. Assim fica muito difícil harmonizar a dieta. Sem radicalismo e sem separação, Vivian e Henrique continuam procurando a solução. 

A COR DA SAÚDE.

Salada na mesa, dieta controlada. Bacalhau é coadjuvante. Nem parece uma casa portuguesa. Mas para seu Alexandre não foi fácil aceitar os limites da cozinha saudável. Ele viveu 30 anos cercado pelas tentações. Por trás do balcão, um cotidiano engordurado. O dono de padaria brigava com outra balança. Dez quilos acima do peso, estressado, hipertenso, fumante e com uma úlcera no estômago. Não tinha hora para se alimentar. “O grande inimigo era a gordura que comia em excesso. Comia muito sanduíche de presunto. Não quero dizer com isso que o sanduíche faz mal, mas em excesso prejudica. Passei a ter problemas de colesterol. A minha pressão vivia numa faixa de 18/12 e 18/10”, conta. Seu Alexandre passava dez horas por dia no balcão. Tanto esforço para pagar os estudos da única filha. Lúcia se formou em nutrição e hoje é professora universitária. Com o conhecimento adquirido na escola assumiu o poder em casa. Criou uma dieta limpa, espantando a gordura dos pratos do pai. O pão nosso de cada dia. Tido como alimento sagrado, pode causar algum mal quando acompanhado de recheios gordurosos. Por isso, aqui vale o ditado: antes só do que mal acompanhado. O pão enriquecido seria um santo aliado para combater doenças da terceira idade. O professor Yoon Kil Chang, da Unicamp, vai nos mostrar por que o pão é matéria obrigatória. “A Universidade montou uma padaria. A idéia surgiu para atender uma nova concepção da atualidade: fornecer além da fonte calórica para quem consome o pão. Acrescentamos outros ingredientes que possam beneficiar a saúde humana”, explica. Há 20 anos o professor Yoon põe a mão na massa para descobrir novos ingredientes. A novidade agora é um pó amarelo. O cientista quer acrescentar farinha de soja ao pão dos brasileiros. Ele diz que o alimento contém substâncias como isoflavonas que ajudam a reduzir o risco de doenças degenerativas. No prato tipicamente brasileiro, o feijão deveria ser mais valorizado. É um alimento rico em fitatos - substâncias bioativas, que protegem o organismo. Ajudam a eliminar o chumbo que todos ingerimos, na dieta do dia-a-dia, tomando água ou leite. O excesso de chumbo no sangue provoca redução do coeficiente de inteligência. Uma das conseqüências é a queda no desempenho escolar. “O importante é saber que a criança deve comer feijão, não deixar de consumir o arroz polido e, sempre que puder, um pouco de pão integral de trigo, que também possui os fitatos”, explica Jaime Amaya, engenheiro de alimentos da Unicamp. As pesquisas revelam mais: os alimentos são também uma forma de compensar deficiências genéticas. Muitas pessoas trazem dentro das células, por herança familiar, genes que aumentam o risco de desenvolver doenças graves, como o câncer de mama. Em Porto Alegre, o estado com maior incidência de câncer de mama no Brasil, são 76 casos para cada 100 mil mulheres - quase o dobro da média nacional. A principal explicação está na mesa das gaúchas: muita carne e gordura de origem animal. A salada fica de lado. Uma pesquisa canadense reforça a tese sobre as gaúchas. As mulheres com defeito genético, que não comiam frutas e verduras, tinham quatro vezes mais chances de desenvolver o câncer de mama. E o mais interessante é que quem comia fruta e verdura simplesmente zerava o risco. A pesquisa está sendo feita com 200 mulheres gaúchas. Graziela e Maristela são biólogas e participam do estudo como voluntárias. Tiraram sangue para análise. O teste de DNA revelou uma diferença decisiva: Maristela, 32 anos, não tem propensão genética para câncer de mama. Já o exame de Graziela mostrou que possui o defeito genético, aumentando as chances de desenvolver o câncer. Por enquanto, Graziela não se previne. Aos 23 anos, estuda e faz estágio na universidade. Vive de sanduíche, não faz exercícios e fuma. Quando almoça de verdade, o prato vem cheio de gordura. A outra bióloga já faz isso, mesmo sem a ameaça genética. Se almoça no trabalho, procura montar um prato colorido, cheio de folhas e legumes. Não fuma e freqüenta academia. Da família, Maristela recebeu mais do que herança genética.

DIETA DAS PROTEÍNAS.

Na hora do trabalho o banquinho serve para aliviar as dores na coluna. Roupas, só encontra em pouquíssimas lojas. Estas são algumas das muitas dificuldades na vida do paisagista José Augusto Campos, de 46 anos. Desde os 12, luta contra a balança. Já perdeu a conta de quantas vezes fez regime. A consulta com o cardiologista tem um motivo especial. Vai seguir a dieta do médico americano Robert Atkins, onde só é permitido comer alimentos ricos em proteína (carnes, peixes, frutos do mar, aves e ovos) e gordura (manteiga, azeite de oliva, maionese). Açúcar, pães, massa, cereais e a maioria dos vegetais ficam proibidos - são os carboidratos. Segundo a dieta, o emagrecimento acontece porque sem os carboidratos, a fonte de energia do corpo, o organismo é obrigado a consumir a própria gordura - uma teoria contestada por muitos médicos. Lingüiças fritando. Zeca engordava só de olhar. Agora, vigia bem de perto o que vai ser uma das refeições do dia. No comando da frigideira, dona Ana, que também quer perder peso com uma dieta tradicional. Desde a década de 80, o médico Alberto Serfaty recomenda a seus clientes a dieta das proteínas. Diz que 70% dos pacientes se mantêm dentro do peso ideal. “A gente não precisa criar uma situação de sofrimento ao paciente fazendo aquelas dietas de uma colherzinha de arroz, cem gramas de carne e capim à vontade”, diz o médico. Há 22 anos, Raul e Maria Luísa não comem carne. Também aboliram açúcar e frituras. Para ele, a opção vegetariana surgiu como terapia. “Tinha enxaqueca que nenhum remédio curava, afta e uma acidez no organismo enorme”. A alimentação tradicional brasileira é muito boa. Tem arroz, feijão e mistura. Um tanto de abóbora, um pouco de couve, de mostarda ou de taioba, uma poção de inhame, um pedaço pequeno de carne ou um ovo. Em todas as tradições se encontra uma tendência natural para um equilíbrio alimentar, onde os vegetais são muito presentes. No restaurante popular do centro do Rio de Janeiro, o preço do almoço é quase simbólico: R$ 1,00. Todos os dias são servidas, em média, três mil refeições. João e Sebastião Rosa passaram a freqüentar o restaurante por motivos opostos: João quer engordar e Sebastião emagrecer. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, um adulto que trabalhe e faça apenas uma grande refeição por dia precisa de uma média entre 1500 e 1700 calorias na refeição. Isso corresponde a mais ou menos 70% das nossas necessidades calóricas diárias. Mas é preciso que todos os elementos estejam bem equilibrados nessa balança. Proteínas e gorduras na carne, carboidratos no feijão e no arroz, fibras e vitaminas na salada, legumes e verduras. Por isso, o grande desafio é fazer um prato com variedade todos os dias. No computador, o controle de todos os ingredientes da refeição. Modo de preparo, peso, valor calórico, e a quantidade de proteínas, gorduras, carboidratos e colesterol. Pesado, medido e em destaque. Cinco nutricionistas fazem o controle da qualidade dos alimentos. A preocupação com a gordura não está só no papel. Até um forno especial é usado no preparo das carnes. “A carne é colocada em grelhas e no fundo desse forno fica uma bandeja onde toda a gordura desse alimento é dissolvida e depositada”, explica a nutricionista. Dez dias depois de iniciar a dieta das proteínas, José Augusto Campos está de volta ao consultório médico. Pela primeira vez, desde que começou a comer basicamente carnes, ovos e queijos, prepara-se para enfrentar a balança.

”LOW FAT”.

Americano adora novidade. A corrida, por exemplo. O doutor Kenneth Cooper lançou a idéia: correr era um santo remédio. O povo aderiu em massa, mas 20 anos depois o doutor Cooper caiu na real. Correr é para poucos. Bom mesmo é andar. Com a gordura é a mesma coisa. Nos anos 80 o governo lançou guerra à gordura. Não coma carne vermelha, leite integral, manteiga. Gordura mata. Mas essa moda também não deu certo. Os americanos pararam de comer gordura e ficaram muito mais gordos. A guerra à gordura tinha motivos: o coração e o colesterol alto. Nasceu uma nova indústria: a da comida sem gordura. Hoje existem à venda, nos Estados Unidos, mais de 15 mil produtos com baixo teor de gordura. A indústria gasta US$ 30 bilhões por ano para convencer os americanos a só comprar o que traz as palavras mágicas: “low fat”, que significa baixa gordura. As novas pesquisas indicam: o total de gordura que uma pessoa saudável come não tem relação com o risco de ataque cardíaco. Comer muito macarrão, pão, arroz e açúcar é pior do que comer carne vermelha. Gordura é vital para o organismo. As membranas de todas as células são feitas de gordura. Perdendo a gordura, as células ficam mais expostas à invasão de doenças. Só as pessoas com colesterol muito alto, acima de 240 miligramas por decilitro de sangue, correm sério risco de ataque cardíaco. Como reação à guerra contra a gordura surgiu nos Estados Unidos o excesso oposto. A dieta do doutor Atkins, por exemplo. Com muita carne e bacon. Faz sucesso, mas é muito pobre em carboidratos. A pessoa fica sem energia. Os americanos se entopem de pão, batata, refrigerantes, sucos, balas e guloseimas. Tudo vendido como “low fat”. Engorda mais que um bife. Um prato de macarrão, batata ou arroz desencadeia um desequilíbrio hormonal no organismo. Em pouco tempo a pessoa sente fome e volta a se entupir. Por isso, mais da metade dos americanos está acima do peso. Os povos da Espanha, do Sul da França e da Itália comem carne, peixe, legumes e verduras. Tudo regado a azeite. Por isso têm os mais baixos índices de doença cardíaca. Sem abrir mão da carne vermelha. Pesquisadores americanos acabam de descobrir que a gordura retirada na lipoaspiração poderá ser uma fonte de vida. Eles colheram células-mães na gordura de ratos e enxertaram essas células em outros tecidos. Transformam-se em músculo, osso ou cartilagem. No futuro haverá bancos de gordura. Você se livra da barriguinha e guarda as células mães. 

GULA MODERADA.

O despertador da maioria dos britânicos é o som de fritura e o cheiro de gordura. Um bom dia só começa assim: salsichão, lingüiça, bacon, ovos, torradas. É o “breakfast” - o café da manhã - enchendo a mesa e a barriga. Sempre se empanturraram, mas nunca como nos últimos dez anos. É o que revelam os números do Ministério da Saúde do Reino Unido. Obcecados por gráficos e tabelas, os britânicos transformaram em estatísticas o que a balança, a fita métrica e o espelho já mostravam: silhuetas avantajadas. O levantamento comprova que o peso dos homens da Grã-Bretanha aumentou em média 6% na década passada. As mulheres ficaram 10% mais pesadas. Se o problema era a falta de uma pesquisa para deixar os gordinhos com menos peso na consciência, os cientistas britânicos providenciaram uma. A gula moderada não chega a ser pecado. O professor Tom Sanders, do Departamento de Nutrição do Kings College de Londres, uma das mais renomadas universidades do mundo, acompanha todas as pesquisas sobre o assunto: “A gente precisa da gordura para o bom funcionamento do corpo. É como se fosse um depósito de energia em volta de órgãos vitais, o coração, por exemplo”. Por falar em órgão, a gordura já foi promovida na Grã-Bretanha. Os cientistas da Universidade de Oxford estão tratando pneuzinhos e outras sobrinhas explícitas como um órgão do corpo. Um dos pesquisadores explica que é preciso aliviar o peso das acusações sobre a gordura. Ser magro demais não é necessariamente ser mais saudável. “É um erro dizer que toda gordura faz mal. Mulheres magrinhas demais podem ter dificuldade para engravidar. No caso dos homens, a falta de gordura atrasa a puberdade”, explica o nutricionista Sanders. Os pesquisadores da universidade College London também se interessaram pelo tema. O trabalho deles mostra que a gordura moderada pode ajudar no raciocínio. O grau de inteligência de 3.900 pessoas nascidas há 55 anos foi testado durante toda a vida delas. A conclusão da pesquisa se manteve: os mais gordinhos sempre mostraram ser mais inteligentes. “Coincidência ou não, uma coisa é certa: mais alimentadas, as crianças se desenvolvem melhor”, afirma o professor Sanders. O nutricionista só faz uma advertência: “Os pais precisam saber que a vantagem dos bebês mais pesadinhos é muito pequena. Não vale a pena perder o controle sobre a gula dos filhos”. Existem pesquisas também para comprovar que os pais andam mesmo precisando de um puxão de orelhas. O resultado está na balança: as crianças de quatro a 11 anos estão engordando, e muito. Quase 15% das meninas e meninos britânicos andam gordinhos demais. Para tentar achar o equilíbrio entre a gordura necessária e o conforto diante do espelho, um professor da Universidade de Birmingham teve uma idéia mirabolante: propôs a criação de um superimposto sobre a comida com altas calorias. Só que o governo britânico não engoliu a proposta do doutor Tom Marchal. Ia deixar muita gente de mau humor. Outra pesquisa concluiu que a falta absoluta de comida gordurosa pode afetar o estado emocional. Por outro lado, o estudo reafirma que gordura demais pode deixar o comilão de cara feia. “Esse é o segredo”, diz o professor Sanders. Segundo ele, a pessoa tem que saber o que é melhor para ela e transformar isso em meta. E o mais importante: gostar de si mesmo. Quanto mais gordos, menos orgulhosos. Metade dos ingleses tenta trapacear a fita métrica comprando calças abaixo do peso. O autor da pesquisa, um professor universitário meio acima do peso, admite: “A gente abotoa a calça abaixo da cintura e acaba realçando ainda mais a pança”. Como diz o doutor Sanders, gordo ou magro, o importante é ter saúde.

GLOBO-REPÓRTER: REMÉDIOS—6 DE JULHO DE 2001.

HIPOCONDRÍACOS.

Brasil, país das farmácias? Somos o quarto mercado consumidor de medicamentos do mundo, movimentando US$ 7,5 bilhões por ano. Onze mil tipos de remédios. Uma avalanche sobre os pacientes. Só em São Paulo, terra dos restaurantes, são três farmácias para cada “pizzaria”. No país inteiro, são 55 mil drogarias. No tempo em que farmácia se escrevia com “ph”, os remédios ficavam trancados a sete chaves, longe dos fregueses. Hoje, as farmácias são supermercados, vendendo a idéia da saúde. Basta encher a cestinha e pagar. Com tanta facilidade, o brasileiro acaba se envolvendo numa relação muito íntima com os medicamentos. E, às vezes, perigosa. Exagerado, hipocondríaco ou apenas cuidadoso? Para não ficar sem remédio dentro de casa, Marzio Fiorini montou postos avançados. Tudo muito organizado. A caixa no quarto é o estoque principal. “Fica aqui guardada para emergências, gripes, dores de cabeça, inflamações de garganta, enfim, não é o que vou levar comigo na bolsa”. Dentro da pochete viaja uma farmácia móvel. “Esse aqui está sempre comigo, vai na minha bolsa de trabalho, na minha pasta de mão de viagem, tem todos os anti-alérgicos, desentupidor de nariz, para o estômago”. Mais remédio na cabeceira da cama. Seria um posto de emergência? “É o socorro noturno. Aquela coisa do calmante, do remédio para o estômago, mais forte, se tiver crise de gastrite, causada pela ansiedade. Tenho meu SOS noite. Se sentir alguma coisa estranha vou recorrer”. Não precisa nem levantar da cama. Ao alcance da mão, um guia de medicamentos. Ele estuda a composição dos remédios: quem sabe um dia pode precisar? “Esse é ótimo. Cetirizina. Pode até batizar uma filha com esse nome”. Brinca, mas jura que não toma nada sem consultar o médico. Mais do que a cura, dona Assunta procura segurança. “Quando está acabando o remédio, já mando comprar porque não posso ficar um dia sem tomar medicamento”. Aos 69 anos, como tantos aposentados brasileiros, gasta com saúde mais da metade do que recebe. São R$ 200,00 por mês com o convênio. E mais R$ 300,00 com os remédios. Estômago, intestino, depressão. Medicamentos para o corpo e a alma. “Desde pequena sempre fui nervosa. E os nervos foram abalando cada vez mais. Depois tive minha primeira nenê, nasceu morta, mexeu mais ainda. Depois perdi meu marido. Problemas da vida da gente”. Presa ao círculo vicioso dos remédios ou salva por eles. Quem pode julgar? “É a minha vida. Não posso ficar sem eles”.

VENENO.

A diferença entre um remédio que cura e um veneno que pode até matar está apenas na dose ingerida. À frente dos agrotóxicos e dos produtos de limpeza, os remédios são os campeões da intoxicação no Brasil. Os centros de toxicologia colecionam histórias de envenenamento: acidentes dentro de casa ou erros cometidos nos hospitais. Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas. Médicos e farmacêuticos em plantão permanente para orientar as vítimas dessa química perigosa. Há sempre uma emergência do outro lado da linha. Os especialistas têm pouco tempo para identificar o problema e aconselhar. A primeira coisa é não dar água, nem leite. De cada dez telefonemas, seis são resultado de intoxicação por remédio. A distração em gotas. Pegou colírio por engano, achou que era remédio para dor de cabeça e bebeu. “Teve uma senhora que tomou medicamento de uso veterinário. Deu o dela para o animal e tomou o do animal”. Parecem histórias engraçadas. Não para a doutora Cristina. Há dez anos no centro, sabe que pequenos erros diluídos podem ser a receita para a tragédia. “Teve um caso de uma mãe que foi à farmácia comprar medicamento. Mas a prescrição não estava legível. Era aminofilina, de quatro gotas, de oito em oito horas. E o balconista, para ajudar a mãe, escreveu na caixinha do medicamento: 48 gotas. Confundiu o “g” com o número 8. Nisso, a criança recebeu numa dosagem só 12 vezes a dose que deveria ter recebido. Ficou convulsionando mais de um dia e no fim acabou falecendo”. O erro não é só de quem receita. Para o doutor Anthony Wong, chefe do centro de assistência toxicológica, as crianças são as vítimas mais freqüentes. Atraídas pela aparência agradável e o sabor adocicado dos medicamentos. “Remédios xaroposos com sabor “tutti-frutti” a criança pede para a mãe dar porque acha aquilo agradável”, critica. Quanto mais remédio por perto, maior a possibilidade de intoxicação. Por isso, os hospitais são um terreno perigoso. O doutor Wong alerta: “Se estiver no hospital tenha certeza de que o medicamento que está sendo dado a seu filho ou a você mesmo seja exatamente o que o médico prescreveu. Toda vigilância é pouca”.

SOCIEADE ALTERNATIVA.

Quem usa, jamais esquece. As agulhas e o pó são para tratamento, as folhas secas podem ser remédios. Quem chega ao Hospital Alternativo de Goiânia, sabe que, apesar da espera, o sonho da cura verde pode ser realidade. “É diferente, acho que o médico dá atenção para o paciente, não tem pressa de tirá-lo do consultório”, diz a paciente. Medicina de baixo custo, atendimento gratuito. Há 14 anos o hospital público oferece possibilidades de cura sem agressões químicas com a medicina ayurvedica, que veio da Índia, o tratamento com plantas medicinais, a terapia chinesa das agulhas e a homeopatia. Na busca do equilíbrio entre o corpo e a mente. Salva pelas plantas! A cantora Dagmar veio em busca de socorro com uma infecção urinária. “Tratei nove anos e só veio arruinando minha situação. Deu gastrite, por causa dos remédios, fiquei péssima, tive que correr para a medicina alternativa, há um ano e estou me sentindo ótima, bem melhor”. Dona Terezinha reclama, mas volta. Sabe que para dores na coluna, acupuntura não tem igual. A doutora Maria Luiza espeta agulhas e aplica as môxas, bastões quentes de erva nos pacientes. O alívio é imediato.“O ponto de acupuntura tem acúmulo de energia, envia estímulo ao cérebro e tem uma resposta de acordo com o ponto”, explica a médica. Daniel está de volta ao consultório da doutora Maria José. Hoje, curado, caminhando ao lado da mãe. Há dois meses, não conseguia andar. Tinha uma inflamação intensa nas juntas, estavam bem vermelhas e doloridas ao tato. Estavam jogando na loteria dos remédios. Ortopedia, reumatologia, clínica geral. De tantas consultas com especialistas só restaram as receitas. Enquanto os médicos só tratavam uma parte do corpo, Daniel sofria com dores, febre, falta de apetite e medo. O mistério só foi desvendado quando a doutora procurou na história de vida do menino a origem do problema. A partir do dia que o irmão dele, de quem gostava muito, que dormia no mesmo quarto que ele, decidiu casar e sair de casa, Daniel adoeceu. A cura não tem preço, mas o tratamento de Daniel custou apenas R$ 2,00. Aqui também se produz medicamento fototerápico. Na horta, as plantas brasileiras crescem misturadas às indianas. Guduche, nim e azaganda se adaptaram bem ao nosso clima. Foram trazidas por mestres da Índia, que inspiraram a criação do hospital.

FARMÁCIAS VIVAS.

O professor Francisco Abreu Mattos é filho, neto e bisneto de farmacêuticos. O bisavô se encantou por essa espécie - operculinamacrocarpa. Ou batata de purga. “Meu bisavô usou uma batata que fica enterrada no chão, muito rica em resina. Extraía a resina e com ela fazia as pílulas, misturada com outras plantas. Chamavam pílulas purgativas do cirurgião Mattos”. Aos 77 anos, o pesquisador cearense aposta na cura pelo verde, desde que a ciência caminhe junto com a cultura popular. Durante 25 anos, o professor Mattos e o agrônomo Afrânio Fernandes vasculharam o Nordeste em busca de plantas e conhecimento. O herbário da Universidade Federal do Ceará já tem 32 mil exemplares, todos classificados. Para o professor, o uso das plantas sem identificação científica só gera confusão. Ele dá um exemplo: o alecrim-pimenta. Existem mais de 20 espécies com esse nome popular. “No Sul, se falar em alecrim-pimenta ninguém sabe o que é, pensa que é o alecrim do sul, usado como tempero”. “Lipia Cidoidis”, o verdadeiro alecrim, é um poderoso cicatrizante e anti-séptico. No laboratório, extrai o remédio da planta. Para ter amostras vivas, o cientista plantou um horto na universidade. Ensina: o açafrão é mais que tempero. “O pessoal não reclama que o colesterol e o sangue estão cheios de gordura? Açafrão baixa o colesterol”. Para que seja considerada de uso medicinal, é preciso saber se a planta tem eficácia. E se não oferece riscos para a saúde, afirma o professor. Avelós, ou dedo do diabo, é exemplo do perigo da automedicação com as plantas. “Tem gente que usa misturando leite, com recomendação de alguns leigos, com a promessa de que cura câncer e Aids”. Todo esse conhecimento acumulado o professor Mattos transformou num projeto generoso. As farmácias vivas. Hortas e pequenas fábricas de fototerápicos. Solução para que esses remédios não acabem nas mãos dos grandes laboratórios. A semente plantada no Ceará deu frutos em todo o Brasil. Na ilha de Paquetá, o projeto das Farmácias Vivas chegou na escola. Os alunos trabalham na horta, orientados pelos idosos da comunidade. A cura verde depende desse encontro de gerações. Do trabalho na terra brotam arruda, boldo e arnica. Matéria prima da cura, que vai para o laboratório da prefeitura, no Rio de Janeiro. Dona Maria de Fátima é diabética, vem buscar um composto de pata-de-vaca e carqueja. O remédio ajuda a controlar a taxa de glicose no sangue, que estava em 346 miligramas. “Em dez dias comecei a baixar o nível, cheguei a 182”, diz ela. “Meu sonho era de que todos os municípios do Brasil adotassem esse esquema. Pode não dar dinheiro, mas dá muita satisfação”, confessa Mattos.

”G” DE GENÉRICO.

Remédio sem a marca do laboratório. Na receita, só o nome químico. É o princípio ativo, substância que cura. Eles têm nomes estranhos - cloridrato de ambroxol, diclofenaco potássico - mas criam a perspectiva de um tratamento mais barato para a saúde do brasileiro. São os genéricos. A tarja amarela e a letra “G” identificam o medicamento, que começa a ocupar espaço nas prateleiras. Cerca de 300 já conseguiram autorização do Governo para venda e estão chegando às farmácias. Pouco, num país em que são comercializados 11 mil medicamentos, na maioria remédios de marca. Quem aposta na produção dos genéricos está se preparando para uma guerra. Os fabricantes sabem que, para conquistar território no mercado de remédios, tecnologia de ponta não basta. Só vão ganhar se produzirem muito. Quem vende por menos precisa vender mais. Os genéricos são obrigados a ser mais eficientes no seu processo de produção. O professor Gonzalo Vecina, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, prevê para o Brasil o mesmo caminho dos EUA. Em seis anos, os genéricos ocuparam a metade do mercado. “O problema é que não temos ainda um número muito grande de drogas. Por isso, o mercado situa-se na ordem de 1,5 a 2%”.  “No Brasil temos cerca de 37 milhões de pessoas que vão às farmácias e não compram a receita integralmente. Isso significa que não concluem o tratamento. O que precisamos nos genéricos é ampliar o consumo deles. Fazer com que pessoas que não usam medicamentos por falta de dinheiro possam, ao ter o genérico, concluir a terapia”, explica Jailton Batista, diretor de um laboratório. Outra batalha: conseguir aprovação do governo para fabricar os genéricos. Os medicamentos passam por testes de laboratório. Precisam provar cientificamente que fazem o mesmo efeito que o remédio de marca. Um dos centros de controle dos genéricos funciona na Fundação Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro. É numa máquina de nome complicado - extrator de base sólida - que os novos produtos passam pelo grande teste. Na máquina, o plasma sanguíneo de voluntários que tomaram o medicamento candidato a genérico é analisado. A Fundação Osvaldo Cruz controla e também produz genéricos. Far-Manguinhos é a fábrica da Fiocruz que fornece remédios para as campanhas de saúde. Sete, dos 12 medicamentos que compõem o coquetel contra Aids, distribuídos pelo governo, são feitos na Fiocruz. Aí começa uma guerra entre o governo e os grandes laboratórios. O Brasil acha que não deve pagar pelo uso das patentes quando vidas estiverem em jogo. O genérico custa mais barato, diz a doutora Eloan, porque os fabricantes não gastam com pesquisa para desenvolver o remédio e nem com propaganda e marketing. E a melhor notícia: a chegada dos genéricos pode contribuir para baixar o preço dos outros remédios. “O preço cai, porque o genérico começa a ocupar mercado de forma tão violenta que, se produtos de marca não derem algum tipo de respostas, deixam de ser comprados”. 

CURA SEM REMÉDIOS.

Luz e sombra na terra do sol. Uma cidade partida. De um lado a imagem da saúde. Do outro, a luta para superar os caminhos traçados pela doença. Avenida Beira Mar, com seus prédios e hotéis modernos, fica a menos de cinco quilômetros de uma parte da cidade menos conhecida, a favela de Pirambu. Na favela surgiu um projeto simples e revolucionário. Cuidar da saúde sem depender dos remédios caros. De olhos vendados, procuram reencontrar o orgulho, superar o medo. Adalberto Barreto, psiquiatra e antropólogo, professor de medicina social, criou a terapia coletiva. Um imenso divã na favela para quem não pode pagar consulta. “É a terapia que chamamos do resgate da auto-estima, porque a pior miséria não é a miséria externa, que a gente vê, é aquela que está internalizada nas pessoas, quando não acreditam mais que são capazes, que têm direitos”, explica Adalberto. Antônio Alves está voltando a acreditar. Vendedor ambulante, esforça-se na terapia. Quer superar o medo da morte, o pânico. Para fugir da doença, freqüenta as sessões de massagem. E a reza da benzedeira. “Os medicamentos me ajudam bastante, mas procuro mesmo a cura vindo dentro de mim, através do exercício. Ponho o medo para fora”, diz. Há três anos dona Zeneide entrou em crise. Buscou nos remédios a salvação: “Tomava três tipos de medicamentos. Passei por vários psiquiatras, só muito remédio. Perdi um ano da minha vida numa cama, sem comer, nem falar. Se tivesse tomando a droga lá fora, teria morrido, porque não existia nada. Foi uma coisa criada pela minha mente”. Canindé, a 100 quilômetros de Fortaleza, é santuário dos romeiros. Onde até a farmácia tem nome de santo: “São Francisco de Assis” - santo das chagas e da cura. No pátio da igreja, um ritual de sacrifício. Quando cruzam a porta na Basílica de Canindé, é como se os fiéis estivessem entrando num grande consultório. No sertão, São Francisco de Assis também é médico. Para milhares de brasileiros, a cura não vem só dos remédios feitos em laboratório. Depende muito da fé. Dona Angélica acredita na força das orações para afastar o mal. “Pedi muito pela minha saúde. A gente tem que acreditar em São Francisco e procurar os médicos”. O doutor Adalberto diz que os médicos não precisam compartilhar das crenças. Mas devem levar em conta o principio ativo da fé: “Talvez o verdadeiro milagre seja esse - quando nós, médicos, entendermos que o processo da saúde e da cura não depende só do remédio. Depende, também, do remédio que tem dentro de cada pessoa”. 

HORMÔNIOS E PÍLULAS.

Os medicamentos ajudaram a tornar a vida melhor e mais longa. O brasileiro que vivia em média 37 anos no início do século XX, vive hoje 68. Mas os remédios e as vacinas não fizeram tudo sozinhos: as condições sanitárias melhoraram e a pobreza diminuiu em algumas regiões. Mesmo assim, a tendência ainda é acreditar que essas drogas possam resolver nossos problemas instantaneamente. Para Sheila, a felicidade era ter uma casa cheia de filhos. Hoje, luta para recuperar os movimentos, pois o lado direito do seu corpo ficou paralisado e a fala, comprometida. Sheila recebeu um bombardeio de hormônios, mas não engravidou. No começo do ano teve um acidente vascular cerebral. "Nos oito anos que a gente tentou foi em vão. Não conseguiu nada e ela sofreu muito por tudo isso”, conta o marido. Junto com os hormônios, uma rotina perigosa: Sheila fumava muito, não fazia exercícios, alimentava-se mal e não largava a cerveja. “Fiz um estudo da terapia hormonal feita pelo colega. Estava correto. Faltou eliminar os outros fatores de risco”, explica o médico Anderson Medeiros. Ele, que hoje acompanha a recuperação de Sheila, alerta para outro perigo: as pílulas anticoncepcionais também são remédios e fazem vítimas entre as mulheres jovens, fumantes e estressadas. “Assim como hormônio usado na fertilização, o anticoncepcional, usado de forma inadequada, se somar fatores de risco, exporá a mulher a uma complicação vascular”, esclarece o doutor Anderson. O médico Henrique Aquino tem a receita para o futuro: “Primeiro, não há nenhuma pílula dourada que vá resolver todos os problemas. Segundo, os medicamentos são armas importantes, contribuíram para melhoria da qualidade de vida, mas têm que ser usados com extrema cautela e precisão".

GLOBO-REPÓRTER: ENVELHERCER BEM—3 DE AGOSTO DE 2001.

APOSENTADOS E BEM DISPOSTOS.

Seu Magalhães Motta faz trabalhos manuais; dona Nair Penteado Vianna não larga o tricô. Seu Magalhães é carioca; adora passar os fins de semana no sítio. Dona Nair mora em São Paulo. Tem orgulho dos tapetes que já teceu. Dona Nair agora se arrisca no computador, mas não passa do jogo de paciência. Seu Magalhães tem prazer em percorrer o sítio. O olho do dono engorda o gado. E nunca está satisfeito. Seu Magalhães, quase nos 80 anos, acredite, está pilotando um avião. Tranqüilo, apesar das manobras audaciosas. É brigadeiro aposentado, mas nunca quis parar de voar. Hoje, faz todas as loucuras e ainda esnoba: “Vôo bem alto, mas para vocês não é interessante. Parafuso aqui não tem graça nenhuma", gaba-se ele. A experiência é tanta que sobra confiança. “Esse pára-quedas tem uns três quilos. Não pretendo saltar. O bom é sentar em cima; emergência de saltar, nunca tive. Tenho um cartãozinho que diz que posso voar até o ano que vem; até os 80 anos e meio. Vou lá e faço os exames. E vou querer outra. Vou voar até quando os médicos deixarem". Dona Nair dirige como um piloto de provas. Tem agilidade e audácia. Se acha que terceira idade significa descanso, conforto, sossego, é melhor nem conhecer dona Nair. Se tiver problema de coluna, também. Dona Nair foi sempre uma dona-de-casa pacata, avó tranqüila. Até que, há seis anos, virou pelo avesso. Encontrou a felicidade na natureza, na liberdade, na aventura. Uma cratera no meio do caminho. Impossível passar, mas ela tenta. Vai e volta. O filho a ajuda, mas até dona Nair perde a paciência. Estamos muito próximos de um precipício. E em plena situação de perigo, dona Nair às vezes parece que está brincando. Mas o filho vai dando instruções. Aos poucos, vai saindo, passando rente ao buraco. Alguns minutos depois, estamos num pequeno paraíso. Santa disposição! Será que todos podemos chegar aos 80 desse jeito ou só vamos ficar morrendo de inveja? Nunca é tarde para tentar. Vida saudável hoje é investimento certo para a velhice amanhã. João Paulo Abdu pratica esportes com regularidade. Na alimentação, muita salada e uma certa distância de frituras e comidas pesadas. "O interessante é comer alguma coisa que tenha vontade no dia”. Nem sempre é assim. João Paulo é engenheiro; tem uma vida corrida. "Nossa geração tem que trabalhar um pouco mais do que as outras. A gente tem que trabalhar, se especializar e estudar. O mercado está cada vez mais difícil". 

VIDA SAUDÁVEL.

No piano, é professora. Com as tintas, uma aluna aplicada. Dona Lenita Fiqueiredo dá aulas de historia, literatura e é jornalista há quase 50 anos. Já escreveu doze livros, principalmente para as crianças. Dito assim, parece que dona Lenita é apenas uma compenetrada intelectual. Ledo engano. Sempre foi o que se poderia chamar de “da pá virada”. Dona Lenita andou pelo mundo. Tem fotos de Martin Luther King, general Figueiredo, Médici. “Mal sabia que depois ia ser presa". Foram três meses na cadeia, por causa dos artigos que escrevia. Dona Lenita foi considerada subversiva pela ditadura militar. “Fui torturada e me quebraram 11 costelas a murros”. E, com tudo isso, ainda tem uma memória privilegiada. "Sei até a cor das cuecas do Napoleão; onde os artistas nasceram, quem amaram, onde estão, em que museu estão representados". Fantástica memória essa que desaparece, como um passe de mágica, quando o assunto é idade. "Minha avó dizia: depois que trintei, nunca mais contei. Estou beirando os 80". Mais independentes, mais saudáveis e vivendo mais. Hoje mostram a cara. Vão para as ruas sem inibição. Ocupam espaços que pareciam fechados para sempre. Para sustentar a família, seu Davi Barbosa de Menezes já fez de tudo: vendeu pastéis, foi segurança e motorista. "Sempre com vontade de estudar, de melhorar a vida e de ser uma pessoa grande em informações". Seu Davi conseguiu o que queria: rompeu com o que estava predestinado, fugiu de uma velhice previsível. "Há muitas coisas que não valem nada: pensar em morrer, em doença, que tudo vai dar errado. Penso em estudar”, diz. Seu Davi estuda em uma universidade da terceira idade, das muitas que já se espalham Brasil afora. Só na Universidade de São Paulo, são quase 5 mil alunos com mais de 60 anos. Nos cursos, da psicologia à pintura, a disposição e o empenho são permanentes. De Tarsila do Amaral a Pablo Picasso, o Museu de Arte Contemporânea da USP tem de tudo um pouco. Mais jovens e criativos. No início do curso, os desenhos eram quase infantis. Hoje, são mais refinados, mas um artista não renega sua obra. A evolução traz estilo. Imaginação, cores, tomando formas, expressando emoções. Uma redescoberta. “A vontade de reaprender, com certeza, prolonga a vida. Esse é o segredo de uma longa sobrevivência", finaliza seu Davi.

JOVENS DE ESPÍRITO.

Aos 88 anos de idade, seu Tuplet de Vasconcelos corre, ou melhor, ganha maratonas. Já disputou 125 e venceu todas. "Segundo lugar não existe para mim. A não ser que coloque um cara de 20 anos para correr comigo”, desafia ele. Troféus, medalhas, já perdeu a conta. Foi seis vezes campeão Sul-Americano e quatro campeão mundial na sua categoria. Para os médicos, é um espanto. Para ele, apenas o resultado de um estilo de vida. “Não como carne. Alimento-me de muito de frutas, legumes. Além disso, o treinamento e dormir direito, não perder noites de sono. Em relação ao sexo, estou na ativa, pode crer”. Cada um tem sua receita. Mas algumas surpreendem. A musculação, antes tida como inimiga dos idosos, foi absolvida. "A musculação que se fazia não se faz mais com nosso atleta vovô. É um trabalho bem mais leve", ensina seu Tuplet. Leve mas eficiente. A partir dos 50 anos, o homem tem uma perda de massa óssea e muscular que chega a 2% ao ano. As mudanças não alcançaram apenas a musculação. Já chegaram até às ondas. "O surfe é um esporte recente. Não tem nem 40 anos no Brasil. E, como nenhum outro, tem a imagem da liberdade, paixão pela natureza. Além de tudo, lembra juventude. O que não quer dizer que é preciso ser jovem na idade. Lá no fundo, em cima da prancha, há um jovem de espírito", garante Afonso Freitas, de 69 anos. Seu Freitas tem estilo. Tinha 37 anos quando descobriu o surfe. “Gostei de estalo. Sabe quando vê uma mulher, como, por exemplo, olhei para a minha há 30 anos? Foi algo emocionante, tive que agarrá-la na mesma hora, sem explicação. Achei aquilo bonito, superior", lembra. Hoje, o remédio é o mar. Doses homeopáticas, todo santo dia. “Todo dia há uma coisa diferente: uma onda melhor, uma queda diferente, uma manobra mais ousada. O surfe pode parecer que é igual, mas nunca é". Não vai ao médico há algum tempo. “Cuido-me à base de mel de abelha, cápsulas de alho e comidas naturais. Não tomo leite de vaca. Bebo leite de soja, como de tudo, mas muito disciplinadamente". E tem disposição para muito mais. “Daqui a alguns anos, se ainda puderem me carregar para dentro d’água, vou pegar onda. Não consigo me imaginar longe do mar". Sua mulher, dona Júlia Freitas, agradece: “quando o conheci, era estressado, uma pessoa nervosa, autoritária. Atualmente, não. Hoje quem manda sou eu."

ENTRANDO NA DANÇA.

Florianópolis, 17h. Começa o baile. Os casais dançam animados. Mas o ambiente é um pouco estranho. Aliás, muito estranho. É uma clínica para cardíacos. “Tenho três pontes de safena”, conta o militar Luiz Souto, 67 anos. A dança é complemento importante. Junto com remédios e exercícios, faz milagre. O tratamento faz parte de um programa da Universidade Estadual de Santa Catarina. E tenta salvar os velhinhos de uma cirurgia que, às vezes, nem é necessária. “Um dos aspectos mais sérios do problema cardíaco é a aderência à idéia. Muitas vezes a proposta é chata, as pessoas não se sentem motivadas a continuar na atividade. A dança aumenta muito essa aderência”, explica o cardiologista Tales Carvalho. Alguns são acompanhados com controle da pressão. Padre José Rangel, de 82 anos, nem saía mais da cama de tão doente que estava. A dança recuperou o ânimo. "Acho que se parar é a morte. A vida é caminhar, andar. E dançar como dancei num ritmo que não estava habituado", opina o padre. As caras de felicidade já são um indício da transformação. A dança só não cura. Mas é um belo começo. Gravataí, cidade da Grande Porto Alegre. Com ginástica, algumas mulheres reaprendem a viver. Têm incontinência urinária, não conseguem controlar o fluxo de urina. É um problema que aflige pelo menos 10% dos idosos, a maioria mulheres. O tratamento é um projeto piloto do Hospital da Puc do Rio Grande do Sul. Uma ginástica que fortalece a musculatura do períneo, região posterior aos órgãos sexuais. "Dão-se conta de brincar com a questão de mexer o períneo. Mesmo que não haja mais vida sexual, têm lembrança e entendem qual é a musculatura. É bem saudável para a cabeça, além de ser para o corpo", diz o fisioterapeuta Leon Kluber. O casal Marly Heloísa Kus e Renê Carlos de Souza não se desgrudam. Na verdade, nem sempre foram assim. Um encontro tardio. Marly era viúva; Renê, separado. Só se encontraram sete anos atrás. Uma paixão incontrolável entre o funcionário público e professora. "O lado sexual é um complemento de todas as atividades. E vejo no sexo não só a cama. Há pessoa que fala em sexo e pensa que é cama. É mão na mão e frio na espinha", fala René. “Conheci o lado espiritual e idealizado do amor. Cheguei a ter um susto a primeira vez. O que está acontecendo comigo? Renê me fez descobrir até isso. O encanto da vida a dois", conta Marly.

COPACABANA: PALCO DA BOA FORMA.

Copacabana, 6h. A capital brasileira da terceira idade começa a funcionar bem cedo. Da população brasileira, 25% tem mais de 60 anos. Em cada quatro moradores, um já chegou à terceira idade. Uma das maiores concentrações de idosos do planeta. E Copacabana tem muito orgulho disso. Bate-papo, até dentro d’água. Frescobol, ginástica e vôlei. Ritmo puxado. Cada um se movimenta em um estilo muito próprio. Até na lentidão do tai-chi-chuan, ou de uns minutos de meditação. Copacabana é alto astral, é estado de espírito, não tem explicação. Jovens cantoras de setenta e poucos anos. O teatro, em Copacabana, fica lotado. O público de terceira idade é sempre maioria. O show é uma viagem pelo tempo. As cantoras foram estrelas da Rádio Nacional nos anos 50. No espetáculo, dão uma aula de como estar de bem com a vida. “Se eu, com 78 anos, estou fazendo o que faço, se tiver uma pessoa na platéia com a minha idade já querendo, com essa energia que a gente joga na platéia, ela vai renascer, reviver e ficar tão feliz quanto nós", diz a cantora Carmília Alves. Disse ter 78 anos. Dá para acreditar? Algumas, para não causar tanta surpresa, escondem a idade com convicção. “Não digo a idade porque acho desnecessário. Não canto com a minha carteira de identidade, interpreto com a voz que Deus me deu”, tenta explicar Ellen de Lima. 

GLOBO-REPÓRTER: PODER VERDE—24 DE AGOSTO DE 2001.

AMAZÔNIA: CELEIRO DE REMÉDIOS NATURAIS.   

Uma nova forma de riqueza - no cerrado, na Mata Atlântica, na Floresta Amazônica - a seiva das árvores, o veneno das plantas, a química dos insetos, as substâncias que lá sustentam e destroem a vida podem ajudar a salvar seres humanos? As novas expedições pela Amazônia não vão atrás das grandes árvores e predadores da região. Buscam moléculas naquela imensidão. Partículas que poderiam curar a Aids e o câncer estariam escondidas por lá? No Brasil estão 23% de todas as espécies conhecidas no mundo. Há centenas, talvez milhares, que nem foram catalogadas pelo homem. Uma equipe de cientistas brasileiros já recolheu mais de 1,2 mil amostras de plantas e árvores. De lá, são levadas para testes em laboratório. Um barco-escola navega pelas águas da Amazônia atrás de remédios que possam combater de poderosas bactérias a tumores do câncer. Há seis anos o doutor Dráuzio Varella comanda a equipe que vasculha as margens do Rio Negro em busca de plantas medicinais. “A gente colhe tudo o que alguém diz que serve para alguma coisa”, diz o doutor Dráuzio Varella. A expedição avança mato adentro e pára diante de uma árvore que também será testada no combate ao câncer. “Essa família da vinca tem uns alcalóides que têm ação antitumoral, principalmente contra linfoma, leucemias. Já está comprovado, de uso prático”, revela o cancerologista. Os frutos são conhecidos como pepino bravo. Quem sabe não está neles a cura para outras doenças? A ciência percorre trilhas abertas pela experiência dos povos da Amazônia. O mundo está de olho nas folhas e madeiras que teriam poder de remédio. O dono de um armazém exporta plantas para os Estados Unidos, a Europa e o Japão. “A procura é muito grande fora do país. Tem muita gente vendendo gato por lebre”, afirma o comerciante Antônio Celso Ussi. Um óleo tão difícil de extrair, que muitas vezes é misturado ao diesel para render mais, na Amazônia é remédio popular. Levado ao laboratório, a copaíba mostrou atividade em tubos de ensaio. “Temos indicações de que realmente tenha atividade anti-inflamatória, cicatrizante, até repelente”, diz Gislaine Pereira, farmacêutica da Fiocruz. 

O REPELENTE QUE SAI DA ÁRVORE.

Um mestre nos usos e costumes da vida no mato. Até a jibóia pode virar remédio nas mãos de Seu Estevão. Nada assusta o mateiro que tem 47 anos de experiência na selva. Com ele, o Globo Repórter desembarcou em uma trilha às margens do Rio Negro. É a farmácia natural onde Estevão vem coletar remédios quando a família ou vizinhos precisam. “Esse é um cipó conhecido como escada de jabuti. É para hemorróida e para mulheres que tenham problema de útero”, diz. Outro cipó, que Estevão separa e corta, a água que jorra para matar a sede também seria um remédio. A busca, agora, é por uma árvore rara, difícil de encontrar no meio da floresta. Surge um amapazeiro. Um golpe no tronco e o que seria um látex medicinal escorre como leite. Seu Estevão não fica sem o “leite do Amapá” em casa. Quem freqüenta a mata tem que se defender de muitos inimigos. Inclusive dos mosquitos transmissores de doenças. Uma árvore teria o remédio, um repelente natural. A resina que se acumula no tronco é o Breu, que os índios usavam para iluminar seus caminhos. “Acendemos para espantar onça, mosquito. A fumaça funciona como se fosse um repelente. Aí todo mundo vai embora”, ensina seu Estevão. No laboratório do Instituto de Pesquisas da Amazônia, em Manaus, o conhecimento popular está sendo testado. Um equipamento retira essência do Breu. Dentro de uma gaiola estão mosquitos que transmitem dengue. Só que eles não estão infectados porque foram criados em laboratório. Será feito um teste com um óleo essencial que foi feito a partir do Breu. No braço direito tem o óleo, o repelente. No braço esquerdo não. Em alguns segundos está clara a diferença. É nítido o ataque dos insetos no braço esquerdo. No momento do teste não tem nenhum mosquito pousado no braço onde tem o repelente. Foi a primeira vez que o material foi testado. É muito promissor. Mãos experientes para lidar com as ervas. Gente que já viveu na floresta usando plantas como remédio. Geni é índia mundurucu. Formada em bioquímica, comanda o resgate do conhecimento de seus ancestrais. Eles sempre buscaram a cura no meio do mato. A língua de um peixe nobre da Amazônia serve para que o pajé prepare o que seria um composto afrodisíaco. Uma receita dos índios que aproveita plantas e animais. É um mirantã que está sendo ralado. O guaraná já veio ralado. O pênis da anta se queima para dar mais força. De onde vem o poder das folhas, das raízes, das resinas e fungos? Como surgiram na natureza as substâncias que o homem tenta usar como remédio? Parecem não ter importância na hierarquia da floresta. Mas dos fungos nasceu uma revolução na medicina. No Brasil, são cerca de 13 mil espécies.

PLANTAS NO COMBATE AO CÂNCER.   

Congeladas em hidrogênio líquido, células do câncer. Em laboratório, serão bombardeadas por extratos de plantas. O câncer mata mais de 100 mil brasileiros por ano. Na Amazônia, a equipe do doutor Dráuzio Varella coleta as amostras que serão testadas. Os cientistas marcam o lugar de onde cada amostra foi recolhida, para poder voltar exatamente à mesma planta se ela mostrar atividade em laboratório. O catálogo é feito a bordo do barco-escola. “A vantagem desse tipo de método é que se pode ter grandes surpresas. Pode se descobrir uma molécula que tenha uma ação jamais esperada”, explica Varella. Isso aconteceu com o taxol, uma droga desenvolvida nos Estados Unidos. Teve origem na casca de uma árvore canadense, o teixo do Pacífico. Combate tumores de ovário e de mama impedindo a reprodução das células cancerígenas. A pesquisa que levou ao taxol demorou mais de 40 anos. No Brasil, o trabalho de investigar plantas para usar contra tumores é recente. Da Floresta Amazônica para um laboratório em São Paulo. Os cientistas querem saber se plantas têm o poder de controlar os tumores do câncer. Congelados num “freezer”, os 1.200 extratos estão prontos para testes. Serão aplicados contra células do câncer de mama, próstata, pulmão, intestino e leucemia. “As plantas produzem antibióticos desde sempre para poder se livrar das bactérias, agentes anti-tumorais para impedir que tumores se formem no caule, nas folhas. Essas substâncias existem, aí depende da gente conseguir localizá-las, identificá-las rapidamente”, diz Drauzio Varella. Foi um dos primeiros brasileiros a falar do combate ao câncer com o uso de plantas medicinais. Nos anos 60, o doutor Walter Accorsi já divulgava o poder da casca do ipê. Hoje, há pelo menos duas patentes nos EUA associando a árvore brasileira ao tratamento de tumores. O doutor Accorsi trabalha com um arbusto africano que há dois séculos foi trazido para o Brasil, o aveloz. “A planta é indicada para o câncer e a leucemia. E funciona. Tem um látex que se cair no olho, cega. Então, se a pessoa tomar mais gotas do que o necessário, pode morrer. Temos que ter cuidado para usar plantas também, pois podem ser venenosas. A dose é o limite entre envenenamento e cura”, conta o médico.

PLANTAS EM BENEFÍCIO DAS MULHERES.

Do campo para o laboratório. O conhecimento popular traduzido em ciência. Plantas produzidas em série para virar remédio. É uma busca incentivada pelos pacientes. Uma mulher perdeu o interesse pelo sexo. Queria um remédio natural. “No caso dela indiquei o Tribulus Terrestris, que é uma planta que estimula a libido, a atividade sexual, e, também, melhora a performance física”, diz o fitoterapeuta Décio Alves. Em menos de 15 dias a dona de casa Frigg de Oliveira já começou a sentir outra vez aquela motivação. Pai, mãe e filha vivendo em um paraíso. Que pode se transformar em inferno quando a jornalista Stela Grissoti entra na TPM, a tensão pré-menstrual. Na cápsula, o óleo de uma flor, a prímula. Há um mês Estela combate a TPM com o remédio. “Senti uma melhora logo no primeiro mês. Meu marido está querendo comprar um caminhão de pílulas”, conta. A nutróloga Jane Corona usa sementes como remédio para enfrentar a TPM. Diz que uma das principais causas da TPM é a prisão de ventre. Segundo ela, uma dieta rica em fibras elimina o excesso de estrogênio do organismo. “É só colocar no liquidificador uma colher de semente de linhaça, 1/2 xícara de amêndoa e uma xícara de semente de girassol. E todo dia de manhã coma com mamão”, ensina. A ambulante Neide Oliveira teria que fazer uma cirurgia para eliminar os sangramentos causados por miomas. Procurou o botânico Juan Revilla, que lhe receitou os chás de uxi-amarelo e de unha-de-gato. Ela escolheu um tratamento de medicina natural. Após 50 dias que está usando o produto pelo qual optou, teve redução em dois nódulos miomatosos. Um cogumelo descoberto no Brasil. Tornou-se tão famoso do outro lado do mundo que o cultivo se expandiu no interior de São Paulo e 95% de toda a produção brasileira é exportada para o Japão. Lá, esse cogumelo já é estudado há mais de 30 anos. Livros publicados no Japão dizem que o consumo do cogumelo reforça o sistema imunológico. Na Universidade Estadual de São Paulo, as pesquisas ainda não comprovaram que o cogumelo estimula o sistema imunológico. Um teste foi feito com camundongos que têm tumores do câncer. Quando o chá foi preparado a 100ºC, chegou a prejudicar os animais. Mas quando feito com água até 60ºC, os camundongos tiveram um aumento na vida de 15 a 20%. Bruna, de 12 anos, passou a maior parte da vida sofrendo com febres inexplicáveis. Começou a fazer um tratamento à base de vitaminas e sais minerais. Exames revelaram que tinha o baço inchado. A família decidiu incluir no tratamento o chá de cogumelo. Em 30 dias notaram diferença. A pele corou, a febre não vinha mais. E a surpresa: o baço voltou ao tamanho normal.

TURISTAS OU BIOPIRATAS.   

Um cipó conhecido como mariri; as folhas são de chacrona. Esmagado por homens e mulheres, o cipó libera sua poderosa química na hora da fervura. O cipó representa a força; as folhas, a luz. A união desses dois vegetais deu origem a uma doutrina que tem seguidores em todo o Brasil. Reúnem-se em torno do chá “ayuahasca”, que teve origem no tempo dos incas. Quem o bebe diz que é um remédio para os males do corpo e do espírito. O cozimento é acompanhado pelos seguidores da doutrina. Samara começou a tomar o chá ainda criança. “Desde os 9 anos de idade já éramos tratadas com o chá. Às vezes estávamos gripados, com febre ou problemas intestinais e os nossos pais nos davam uma colher de chá do vegetal”, conta Samara Cardoso, professora de dança. A biopirataria fez história na Amazônia. No caso da seringueira, sementes brasileiras levadas para a Malásia provocaram o fim do ciclo da borracha. Moradora das margens do Rio Negro, a dona de casa Adalgisa diz que recebe visitas de gente interessada no poder das plantas da região: “Quando chegam aqui, perguntam tudo e querem levar”. Em abril deste ano, o governo regulamentou o acesso ao patrimônio genético brasileiro. Mas o país tem fronteiras desprotegidas. Além disso, a exportação de folhas, plantas e madeiras para fins comerciais é permitida. Com os equipamentos de nova geração, um cientista estrangeiro não precisa de muito material para fazer sua pesquisa. Em um livro, a prova do acesso dos pesquisadores de fora a plantas originárias do Brasil. São trabalhos apresentados em um congresso. “Três pesquisadores japoneses trabalham em cima de um composto brasileiro”, revela Suzana Leitão, farmacêutica da UFRJ. Na área de biotecnologia, 97% de todas as patentes registradas no Brasil são de empresas ou inventores estrangeiros. “Claro que existem casos de biopirataria, porém mais preocupante do que esses casos individuais é a falta de pesquisa do lado brasileiro”, alerta o pesquisador do Inca, Charles Clement. E os cientistas brasileiros que pesquisam na área raramente protegem o que publicam. A espinheira-santa começou a ser pesquisada no Brasil nos anos 80. Mas as duas primeiras patentes, aproveitando a planta como analgésico e contra úlceras, foram registradas no Japão. “Obtivemos resultados significativos. Na época, chegamos a publicar alguns trabalhos com os resultados, mas não foi feito nenhum encaminhamento de um possível patenteamento desse resultado”, conta o biólogo da Escola Paulista de Medicina, Ricardo Tabach. Os brasileiros agora correm atrás do prejuízo. Estão testando o comprimido de espinheira-santa. No teste com seres humanos, a droga não teve efeitos colaterais. Agora será feito o teste contra úlceras, que já deu resultado em animais. “As úlceras não sumiram, mas tiveram índice de redução ao redor de 60% comparando com o animal que não foi tratado com espinheira- santa”, explica Ricardo Tabach.

GLOBO-REPÓRTER: ALIMENTOS QUE CURAM—11 DE JANEIRO DE 2002.

REEDUCAÇÃO ALIMENTAR.

Para Lilian Brandão de Abreu, de 20 anos, a doença foi o começo de uma vida nova. Lilian sabia que seguir em frente com saúde só dependia dela. A opção foi mudar os hábitos alimentares e isso incluiu a família inteira. O pai já reduz a quantidade de comida no prato, sem reclamar. E reconhece: “Nós melhoramos muito mesmo”. O controle da alimentação surtiu efeitos. “Perdi oito quilos”, conta Amélia Brandão, professora. No início, a recomendação médica de eliminar alguns alimentos prejudiciais à saúde era só para Lilian, mas ela aproveitou a situação. “Com a família inteira mudando os hábitos é bem mais fácil”, acredita Lilian. A necessidade de mudança surgiu há cinco anos, quando Lilian era uma das maiores promessas da natação do Brasil. Uma queda no rendimento dos treinos denunciou e os exames confirmaram o aparecimento de diabetes. “Pensei em largar tudo, mas percebi que aquele era o meu sonho e não ia ser uma doença que ia me vencer”. Lilian parou de competir e trocou o sonho de atleta pela faculdade de nutrição. Estudando, aprendeu como escolher melhor os alimentos. “Mudei meus hábitos para melhor, não sinto falta das besteiras que comia antes. A nutrição está ajudando muito a controlar minha saúde”. Foi também pensando no futuro que um grupo decolou com uma idéia que colore de verde o verão carioca. A plantação na Pedra Bonita parece e é capim. É do trigo germinado que se retira a clorofila. O grão de trigo é plantado e em poucos dias nasce o capim do trigo. É no broto que é encontrada a maior concentração de clorofila da natureza - 70% da substância. O capim pode ser colhido e o suco é retirado na hora no moedor elétrico. A clorofila virou a bebida preferida da geração saúde. Para Edson e Miriam já é rotina. O casal se exercita todos os dias e encontrou no suco de clorofila uma fonte de energia. “Comecei com a clorofila e meu cabelo parou de cair. Sinto muito mais disposição durante o dia”, conta ele. “Essa disposição aumenta quando há maior suprimento de oxigênio a nível celular. A clorofila é o sangue verde das plantas”, explica a médica ortomecular Jane Corona, uma estudiosa da clorofila. Já descobriu porque o suco da substância faz tão bem. “É rica em magnésio, boa para o sistema imunológico, para os ossos, para a digestão, é cicatrizante e bactericida”. Entre os benefícios está um que pode ser o fim do drama que atinge homens e mulheres - a clorofila tem a capacidade de fazer nascer cabelo e o cabelo branco voltar à cor natural. “Tem muito zinco, vitaminas B-1, B-2 e B-5 - vitaminas que temos em grande quantidade no cabelo, então provavelmente deve ter uma ação no cabelo”, diz Jane. Mas a clorofila pode ser encontrada também em todos os vegetais verdes. O suco de folhas foi uma alternativa encontrada por algumas mulheres da favela da Maré, no Rio, para conseguir o suco de clorofila, a um preço menor. “Alface, hortelã-pimenta, couve  e a folha de abóbora também é muito bom. Dá um total de 14 folhas”, ensina uma delas. Jane Corona diz que o ideal é beber cem gramas de clorofila por dia, o que equivale a dois copos de suco: “Com dois copos está fazendo um tratamento e repondo uma quantidade boa de vitaminas na sua dieta”.

GRÃOS DE SAÚDE.

Grãos que vieram da China e trazem lucros fabulosos. A soja é a maior fonte vegetal de proteínas. Um alimento rico, mas desprezado no Ocidente. O gosto é o grande inimigo da soja. É provocado por uma enzima, ativada quando o grão da soja entra em contato com a água fria. Para eliminar o sabor forte, a solução é simples - jogar a soja na água fervendo. Mas a receita ideal é investir em pesquisa. Londrina, no norte do Paraná, é um dos principais centros de pesquisa da soja no mundo. E o Brasil, o segundo maior produtor: 37 milhões de toneladas. Só 1% é consumido no país. Os cientistas tentam mudar o sabor da soja, para que fique mais atraente e conquiste espaço na mesa do brasileiro. Onze anos de trabalho - e surge um novo tipo de soja. A professora Mercedes fez o cruzamento da soja japonesa com a brasileira. “Não é um alimento transgênico, apenas uma soja de grãos mais claros. É mais fácil vender, inclusive exportar para o Japão”, explica. Numa cozinha criativa, a soja entra para enriquecer a mesa. Saladas, queijos, bolos e biscoitos. O prato de legumes foi reforçado com tofu, o queijo de soja tradicional da culinária japonesa. A soja não altera o sabor do bolo de laranja, nem dos biscoitos. Pode ser um bom complemento no café da manhã! Mas quais são os efeitos benéficos no organismo? Na busca de respostas, Elizabeth Zanini, professora de química, cumpriu uma façanha inédita: convenceu a turma de alunos do ensino médio, gente que não costuma querer nada com a soja, a participar de uma pesquisa. Os alunos se envolveram de corpo e alma com a soja. Aprenderam a preparar farinha de soja. Distribuíram o “kinako” e também cápsulas com gérmen da soja para três grupos de pacientes voluntários: mulheres na menopausa, gente com colesterol alto e uma turma de jovens com problemas de pele. “Senti o resultado em relação ao tempo que a acne durava. Aparecia e logo desaparecia”, conta Aline Vitali, de 15 anos. Dona Maria Natália sofria com as ondas de calor, provocadas pela menopausa. Doses diárias de “kinako” misturado ao leite trouxeram alívio para a dona de casa. “Tinha de seis a sete ondas de calor por dia, agora tenho duas”, comemora dona Maria Natália.

ENERGIA NUCLEAR.

Eles estão entre nós: milhões de inimigos invisíveis invadindo nosso organismo através dos alimentos. São fungos e bactérias, estragando a comida, trazendo doenças. “As pessoas têm diarréia, vômito. O botulismo, por exemplo, pode matar”, diz Roberto Figueiredo, biomédico. São muitas doenças que estão envolvidas com alimentos. Roberto Figueiredo, especialista em conservação de alimentos, alerta: é na geladeira de casa que a invasão pode começar. A salmonela é uma bactéria perigosa, que ataca os ovos. Roberto diz que não devem ser estocados na porta da geladeira. “Os ovos não podem sofrer trepidação e a parte que mais sofre trepidação da geladeira é justamente a porta! Com a trepidação, a casca do ovo se quebra, e isso aumenta o risco de contaminação. O ovo rachado deve ser jogado fora”, orienta o especialista. Mas na guerra contra as bactérias, a indústria de alimentos usa armas mais potentes. No passado mais distante, o homem usava o sal, o fogo e algumas especiarias para conservar a comida. Depois vieram a geladeira, a pasteurização, os conservantes químicos. Agora, no século XXI, a indústria já usa até energia nuclear. A irradiação de alimentos é uma forma de impedir que sejam contaminados pelas bactérias. As caixas com alimentos entram por trilhos e passam pela fonte de cobalto, que sobe para a superfície quando o irradiador entra em ação, entrando em contato com o produto e mata os microorganismos que estão presentes nos alimentos. Para o professor Dirceu Vizeu, da USP, o mais difícil é descobrir a dose certa para cada alimento. “O problema é fazer com que as modificações não desejáveis ainda deixem o alimento apto ao consumo humano. Não há risco nenhum, a não ser o fato de que eventualmente não vai ter gosto bom”, explica o físico. Pela lei, a indústria teria que indicar no rótulo que o produto foi irradiado. Isso poderia assustar os consumidores. “É uma tecnologia segura, não oferece risco nenhum para o consumidor, é apenas uma questão de esclarecer. Provavelmente, as pessoas já estão consumindo alguns alimentos irradiados sem saber”, declara Ariel Mendes, vice-presidente da União Brasileira de Avicultura. “Irradiamos, principalmente, especiarias, como pimenta-do-reino, cebola desidratada, alho desidratado. A empresa que vende não coloca isso no rótulo para o consumidor porque ela entra numa pequena parcela do alimento, como um tempero”, justifica o engenheiro Paulo Rela. Fernando Bignardi, médico homeopata da Universidade Federal de São Paulo, não recomenda alimentos irradiados. “Se o método de radiação se disseminar, vamos ter um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Cada um deles está dentro da faixa de segurança, mas juntando todos, não sei onde a gente chega”, questiona Fernando.

ALIMENTOS SADIOS.

Foi o medo do agrotóxico que fez o agricultor Luiz Carlos repensar o trato que vinha dando à terra. Cada vez que precisava usar o veneno na lavoura, se preocupava com a família. “Pedia para minha esposa recolher as crianças para dentro de casa. Sempre tive medo do agrotóxico”, conta Luiz Carlos. O alerta chegou há 11 anos para seu Milton, numa visita a uma feira de alimentos. Ele se impressionou com a falta de cuidado dos agricultores, queria produtos mais limpos e saudáveis e resolveu plantar sua própria lavoura. Em vez da terra, usou a água - a técnica é a hidroponia. As verduras são plantadas em tubos plásticos e irrigadas com água que recebe os mesmos nutrientes da terra. O resultado são alimentos limpos, como o seu Milton queria. O produto hidropônico ainda não é tão popular entre os consumidores, apesar de ser considerado um dos mais saudáveis. Mas deve-se ter cuidado com a água usada na plantação. A água utilizada por seu Milton vem de uma nascente e chega limpa ao reservatório. Em uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio, a nutricionista Márcia Madeira já identificou que 80% das hortas do estado do Rio têm algum tipo de contaminação. Com a poesia de Olavo Bilac, seu Targino faz uma declaração de amor ao ofício que escolheu. Em um pedaço de terra encravado na favela da Maré, no Rio, os canteiros de concreto ganharam cores. Homens e mulheres viraram agricultores voluntários, numa horta comunitária e totalmente orgânica. Seu Targino passa o dia todo na horta - foi ele quem plantou as primeiras sementes. O carinho é retribuído com os frutos que vão crescendo. Um orgulho que quer deixar de herança para outras gerações. “Não quero me engrandecer não, mas vou deixar isso para mostrar e para que as crianças sigam meu exemplo”. 

RECEITA IDEAL.

O cardápio do brasileiro mistura no mesmo prato arroz, batata frita, carne, massa, farofa. Tudo isso consumido ao mesmo tempo alimenta, mas nem sempre faz bem à saúde. A médica Jane corona mostra como os alimentos podem ser combinados de forma saudável: “Se botar muita coisa no prato, não absorve nada”. Segundo Dra. Jane, a mistura mais comum da comida do brasileiro, arroz, feijão e bife é também uma das melhores do nosso cardápio. “O arroz e o feijão têm aminoácidos que se complementam”, explica. O tutu de feijão, que vem com paio, cebola, farinha, é considerado uma mistura pesada. “Fica uma digestão difícil”. O mais comum é servir a massa com molho de tomate, mas esta não é a melhor combinação. “Dá muita acidez. O bom acompanhamento da massa são verduras e legumes”, ensina. A escolha deve ser feita também sempre entre o arroz e a batata, nunca os dois juntos. “Senão fica com excesso de carboidrato”. No bufê de saladas, poucas restrições e muitos alimentos que previnem doenças. “O broto é excelente, quando a pessoa precisa de energia e também tem muitas vitaminas do complexo B”. O tomate é rico em substâncias que nem todo mundo pode comer. Segundo Dra. Jane, ele tem licopeno, que é usado no combate ao câncer de próstata. “Mas aqueles que têm ácido úrico aumentado, deve evitar o tomate”, avisa Jane. Para quem não pode consumir tomate, existem substitutos. “A cenoura tem vitamina A, o pimentão amarelo, a pimenta. A cor amarela é boa para regenerar os tecidos”, explica a médica. A doutora Jane também diz que não se deve comer salada antes das refeições, como a maior parte dos brasileiros faz. “A salada ajuda na digestão da dieta. Você come um alimento - é bom comer essa comida junto com a salada ou a salada depois, pra facilitar justamente a digestão”.

GLOBO-REPÓRTER: GUERA CONTRA A GORDURA—8 DE MARÇO DE 2002.

UM TÍTULO DE PESO.

Lagoa dos Três Cantos, um lugarzinho desconhecido no noroeste do Rio Grande do Sul. São apenas 1.650 habitantes. Um médico da região descobriu que 60% da população está muito acima do peso. Com isso, Lagoa dos Três Cantos acabou ganhando um título que não é lá muito lisonjeiro: ela é, talvez, a cidade mais gorda do país. Quase todos os moradores são descendentes de alemães. Uma família magrinha é coisa rara. Normal por lá é ter mais de 100 quilos! “Aqui tem muita festa, muita cuca, muita cerveja. Os alemães têm por costume comer cinco, seis qualidades de comida ao mesmo tempo, e isso é coisa que engorda", justifica Sueli Koppher, dona de casa. Cuca é uma receita antiga dos imigrantes, obrigatória no café da manhã, no lanche, no almoço, no jantar. É uma massa de bolo, com recheio doce, e ainda tem açúcar caramelado por cima. A cidade vai experimentar vida nova. O objetivo de todos: perder dezenas de quilos e se livrar da ameaça das doenças que vêm com a obesidade - diabetes, hipertensão, trombose. A proposta de um regime coletivo foi de médicos de São Paulo. E o prefeito da cidade, orgulhoso dos seus míseros 69 quilos, adotou a idéia. "Para mim, vai ser um desafio saber como a população se comporta. Presumo que devam perder bastante peso, comendo muito bem, tendo pequenas modificações no seu hábito, como tirar a gordura, que parece estar presente em todas as comidas", explica o endocrinologista Alfredo Halpern. Uma despedida em cada casa. A família Hoffmann convidou a equipe do Globo Repórter para o último banquete. Para eles, em uma boa refeição, vai um pouco de tudo: pernil de porco, batatinha frita, macarrão com molho de carne, pão e salame e a cuca. Tudo feito com banha de porco, estupidamente calórica. É de enlouquecer. Na nova dieta, vão poder comer só metade disso, durante um dia todo. “Vão comer a cuca, mas provavelmente não tanta cuca quanto comiam anteriormente", diz o endocrinologista. E vai ter que ser um pedacinho mesmo. A meta para todos que fizerem o regime é perder 5% da massa corporal em três meses. Os Hoffmann apostam que vão conseguir.

REGIME COLETIVO.

É uma epidemia: 60% dos americanos estão acima do peso; 30% são obesos. Nos últimos três anos, a população dos Estados Unidos engordou duas vezes e meia o que havia engordado nas quatro décadas anteriores. Este ano, a obesidade vai ultrapassar o tabaco como o inimigo público número 1 da saúde dos americanos. O problema é social. Os mais ricos conseguem emagrecer, compram livros e programas de dieta, freqüentam “spas” e academias. Os mais pobres comem alimentos mais baratos - mas menos saudáveis -, têm menos acesso a informações sobre dieta e se exercitam pouco. Nas grandes cidades americanas, a cultura do automóvel incentiva a preguiça. A crescente epidemia de obesidade obrigou as autoridades a tomar providências. O primeiro prefeito americano a declarar guerra à gordura é um ex-obeso: John Street, o prefeito de Filadélfia. Há três anos, a cidade, de maioria negra, era a campeã da obesidade no país. Agora caiu para o quarto lugar. Filadélfia é o berço da independência dos EUA, declarada em 1776. Por isso, 76 é o número da cidade. Está até no nome do time de basquete de Filadélfia. No ano 2000, o prefeito lançou a campanha “76 toneladas em 76 dias”. Trinta mil pessoas se inscreveram no programa. O prefeito contratou a professora de ginástica Gwen Foster para ser a “czarina” da boa forma. Para a cidade emagrecer 76 toneladas, bastaria que cada participante perdesse 2,5 quilos. Mas, ao fim dos 76 dias, Filadélfia só tinha emagrecido onze toneladas. Hoje, Gwen Foster, que continua na guerra à obesidade, não se considera derrotada. Afinal, Filadélfia deixou de ser a cidade mais gorda. O que mais deu certo na campanha foi a idéia de formar grupos de apoio que se reúnem na hora do almoço. Surgiram grupos nos locais de trabalho, como enfermeiras que trabalham no mesmo hospital. Todo dia, saem para caminhar mesmo que a temperatura esteja bem perto de zero. Não é à toa que Filadélfia virou a capital dos gordos nos Estados Unidos. O prato mais popular da cidade, famoso em todo o país, é um sanduíche cheio de carne, queijo, cebola frita e muita gordura. Um cozinheiro garante que come só dez por semana, mas os colegas revelam que, na verdade, ele devora dez por dia. A campanha do emagrecimento dividiu Filadélfia. Quem é contra parece decidido a recuperar as toneladas que o outro lado está perdendo. No centro da cidade, um mercado demonstra que a gordura não tem nacionalidade. A mais popular é a comida dos Amish, colonos de origem holandesa, que oferecem porções gigantescas. A favor da campanha da prefeitura, só mesmo uma cozinheira que faz um “cheese steak” vegetariano. Parece carne assada, mas é uma massa de trigo, marinada no tempero especial de dona Alfonsi. Até dá para enganar, tem gosto de carne. O exemplo de Filadélfia serviu de inspiração para Brooklyn. O novo administrador da região mais obesa de Nova York vai lançar em abril uma campanha de emagrecimento. Será um concurso entre os bairros do Brooklyn para ver quem emagrece mais.

CRIANÇAS DE OLHO NA BALANÇA.

Faz um ano que Vinícius, Camila, Damião e Vânia estão em uma corrida, mas não é um contra o outro. Cada um nada na própria raia, lutando contra um problema comum: a obesidade. Não faz muito tempo, tinham outro perfil e muitos quilos a mais. Para quem morria de vergonha do próprio corpo, a piscina era um poço de angústias. Hoje, é vitrine para as novas medidas. A maior transformação é a de Vinícius. Aos 12 anos, pesava 75 quilos. Hoje, um ano mais velho, exibe feliz o novo visual, 16 quilos mais leve. Ao vencer a obesidade, Vinícius conquistou mais que um corpo saudável. “Era um menino deprimido, triste. Mudou muito com os amigos e com a família”, conta Neusa de Oliveira Ricci, mãe do Vinícius. Junto com a turma da natação, Vinícius virou exemplo, estímulo para um grupo de jovens que começam a luta para emagrecer. No campus da USP de Ribeirão Preto, a obesidade é atacada por todos os lados: enfermeiras, psicólogos, professores de educação física e nutricionistas ajudam jovens a perder peso em meio às transformações da adolescência. A idéia é recuperar o tempo perdido e compartilhar experiências, para não errar de novo. A partir de agora, a ordem é correr das gorduras e queimar os excessos. Exercício é bom para perder peso. Uma das maneiras clássicas e mais saudáveis para entrar em forma. Mas, para quem está acima do peso é preciso ir com cuidado, para todo o esforço não acabar em um gol contra. Uma lei contra a gordura. Em Santa Catarina, lanche de escola tem de ser saudável. Desde o começo do ano, é proibido vender frituras, salgadinhos, doces e refrigerantes nas escolas. Parece uma imposição indigesta, mas a lei catarinense foi sugestão de pais, nutricionistas e educadores preocupados com a dieta pesada das crianças. Só que não é fácil ditar um cardápio saudável. As bocas se acostumaram às delícias proibidas, e as novas regras não interferem no lanche que vem de casa. Mas a nutricionista Angélica Magalhães acha que, aos poucos, os alunos vão tomar gosto por um lanche mais sadio. Se a nova regra vai pesar no desenvolvimento dos alunos, é coisa que as balanças e fitas métricas dirão daqui a um ano. Mas os catarinenses não contam só com a lei. Nas creches de Florianópolis, é de pequeno que se planta o pepino, a melancia, o melão... que se aprende a gostar de frutas, verduras e legumes. Ainda longe das tentações das cantinas, os pequenos já crescem comendo com qualidade. Nada melhor do que aprender cedo o bê-á-bá da saúde. E se a escola vira parceira, a lição é para sempre.

UMA QUESTÃO DE SAÚDE.  

Uma imagem que choca: 180 quilos. Um desejo na fila de espera: fazer a cirurgia de redução do estômago para emagrecer e ficar um homem saudável como o irmão. O metalúrgico Marivaldo Barboza também já foi obeso. Pesava três vezes mais do que hoje. “Estava morto! Não vivia, não tinha vida, nenhum sentido. Não tinha amor próprio", conta. Com 160 quilos e deprimido, Marivaldo viveu trancado no quarto durante um ano. Não queria ser visto por ninguém. "Só quem sente o peso de carregar a gordura de uma obesidade mórbida sabe o quanto ela mata. Não é só a massa corporal, mata sentimentalmente. Você perde desejos do ser humano", diz Mário Barboza. Não é só uma questão estética. Marivaldo, gordo, teve uma sucessão de doenças: trombose nas pernas, e quase a amputação delas; uma embolia pulmonar que o deixou em coma na UTI. Não podia mais esperar. A sorte foi ter convênio médico, que bancou parte das despesas. “Hoje, estou fazendo coisas que não realizava. Ser pai, por exemplo”, avalia. Desempregado, Mário, irmão de Marivaldo, não tem convênio médico. Está há mais de dois anos na fila do SUS, aguardando uma chance. Por três vezes, já esteve praticamente na sala de cirurgia. Mas não havia vaga na UTI. A cada tentativa frustrada, Mário fica mais traumatizado, mais ansioso, e mais gordo. “No fundo, desisti”, revela. Mário corre contra o tempo. Está em um grupo de risco com centenas de outros obesos que vivem a agonia da espera na fila do SUS. Em quatro anos, a quantidade de operações nos hospitais públicos cresceu 700%. Mas não chega nem perto da necessidade. Hoje, só em um hospital de São Paulo são 300 pessoas aguardando a vez. Diminuir o tamanho do estômago de um obeso é muito mais do que uma simples cirurgia. Antes e depois, a operação exige o empenho de vários especialistas. Não é solução mágica, como muitos pacientes imaginam. "A cirurgia obriga o paciente a aprender a se realimentar e, a partir daí, perder peso", explica Carlos Arasaky, gastro-cirurgião. Eles ganham muito mais do que um corpinho elegante. A equipe da Universidade Federal de São Paulo já comprovou outros benefícios. Depois da cirurgia, a maioria dos pacientes não sofreu mais com a ansiedade e a compulsão alimentar. A depressão grave, que aparecia em 73% dos pacientes pesquisados, caiu para 10%. Não é mágica e pode não ser o fim de todos os problemas. A cirurgia, para muitos pacientes, pode trazer novos transtornos: alimentares e psicológicos. Às vezes, tão graves quanto à antiga obesidade mórbida. Era uma vez uma mulher que pesava 153 quilos. Um ano depois da cirurgia, tinha perdido 64 quilos. Um sucesso acompanhado de um pesadelo: em vez de comer compulsivamente, Joyce Fornari simplesmente parou de se alimentar. Era anorexia. Por falta de nutrientes, a depressão voltou. O remédio, um velho conhecido: a dieta, agora para fortalecer e equilibrar o organismo. “O que como hoje, faço-o com prazer. Então, uma salada de rúcula, com filé de frango, me dá água na boca", garante. Joyce, com 80 quilos e manequim 46, enfim, está em paz com a balança e com a comida. Já se passaram três anos. Agora, é saborear cada conquista.

LOUCOS POR COMIDA.   

A crise, muitas vezes, vem no meio da madrugada. O sono interrompido, e o ataque voraz à geladeira. Compulsão não é gula, nem falta de vergonha. É uma doença. Entre os obesos, 40% têm esse transtorno. Um destino traçado não só pela genética. "O que a genética discute é que, talvez, haja algum papel para o aumento da compulsão, não só para alimentos, mas para exercícios compulsivos, álcool, drogas, compras, jogos. Seria alguma coisa ligada à impulsividade", explica Taki Cordás, psiquiatra especialista em transtornos alimentares. Comendo, a fonoaudióloga Regina Segalla ganhou 30 quilos em poucos meses. Encontrou ajuda em um grupo de apoio a portadores de transtornos alimentares, que também trata de muita gente, vítima das chamadas dietas milagrosas. “Essas dietas são criminosas, realmente estimulam outras complicações, além da doença que o indivíduo já tem. A compulsão é uma delas e vem carregada com outros problemas psiquiátricos, principalmente a depressão", declara Taki Cordás. A medicina ainda não descobriu a cura para a compulsão. Mas, com o apoio de uma psicóloga e de uma nutricionista, Regina está conseguindo controlar as crises. E a mulher que um dia se sentiu destruída agora já sabe lutar para voltar a ser a pessoa que era. "Estou voltando a me controlar. Antes, quem me dominava era a comida ou outras situações", diz.

GLOBO-REPÓRTER: CURA PELOS ALIMENTOS—12 DE JULHO DE 2002.

SABOR APIMENTADO.

Nunca corte uma pimenta sem luvas - ela pode queimar a pele. Mas coma sempre, tudo o que quiser, com esse delicioso tempero. Pimenta faz bem à saúde. A Embrapa analisou várias pimentas e fez descobertas surpreendentes. Justamente a parte que arde, chamada capsaicina, é a melhor novidade para a saúde. Ela impede a coagulação do sangue e, portanto, evita tromboses. A pimenta também tem vitamina E, e chega a ter seis vezes mais vitamina C do que a laranja. “Reduz o risco de doenças como o câncer, a catarata, o mal de Alzheimer, diabetes”, explica a farmacêutica Daise Lopes. A pesquisa científica elevou o “status” da pimenta de simples tempero para poderoso aliado no controle da nossa saúde. Mas um detalhe importante: a pimenta-do-reino deve ser evitada porque não pertence ao grupo das pimentas com capsaicina. Das que são boas para a saúde, a malagueta e a dedo-de-moça são as mais conhecidas. A jalapeño, originária do México, tem uma ardência bem baixa, mas a pele é bem saborosa. A cumari amarela é do Pará. Tem ainda a pimenta-de-cheiro vermelha e amarela, que em algumas regiões do país é chamada de pimenta-bode. Fabiana estuda as pimentas há pouco tempo, mas já virou uma especialista. Nem todas ardem, e mesmo as mais poderosas são agradáveis se usadas com moderação. “O importante é a dose certa de pimenta, para que sinta o alimento. Não tem que sentir só a ardência, tem que ser saborosa", explica. Na sobremesa, que tal um sorvete de creme e biscoito de chocolate, com calda de abacaxi e pimenta? “Para fazer a calda, tem que colocar o abacaxi, a pimenta dedo-de-moça e o açúcar e deixar aproximadamente uma hora e meia apurando no fogo. Para cada abacaxi, meio quilo de açúcar e duas pimentas sem semente”, conta Fabiana. Pimenta também faz bem para o humor. Não é a toa que o povo baiano, um dos mais alegres do país, é também o maior consumidor de pimentas. Atuam no cérebro estimulando a produção de endorfina, o hormônio que produz a sensação de bem-estar. É um remédio natural, um alimento funcional completo.

A COR DA SAÚDE.   

A pesquisa avança. Há pouco tempo os cientistas anunciaram que o tomate ajuda a prevenir o câncer de próstata. Agora, descobrem que a melancia é tão boa quanto o tomate, que a goiaba vermelha é duas vezes mais poderosa. E a pitanga, essa frutinha quase esquecida, é a campeã quando se trata de fonte natural de licopeno. O licopeno, um pigmento encontrado principalmente nas frutas vermelhas, é um antioxidante capaz de controlar a ação destruidora dos radicais livres. “Com esse potencial antioxidante ingerido, você tem prevenção contra doenças como o câncer, por exemplo", explica Delia Amaya, coordenadora do laboratório da Unicamp. O laboratório da Universidade de Campinas é um dos mais respeitados do mundo na pesquisa de pigmentos naturais: os carotenóides. Matéria-prima para pesquisa é o que não falta por aqui. A variedade de frutas que temos é tanta, que o Brasil já poderia até dispensar a importação.  “O caso do kiwi, por exemplo, foi promovido no mundo inteiro por propaganda muito forte. Mas kiwi não tem o mesmo valor nutricional para a saúde que muitas frutas brasileiras. Kiwi não tem licopeno. Goiaba vermelha, como o Brasil produz, tem licopeno", explica Delia. Oscar controla há três anos um câncer de próstata com uma dieta rica em licopeno. “Estava no começo da próstata e meu médico me aconselhou a carregar no tomate”, conta Oscar. O PSA, que indica a gravidade do câncer de próstata, já esteve em quase nove. Agora, está em 0,1, apenas. Há cinco anos o urologista gaúcho Gustavo Sá vem recomendando uma dieta para complementar o tratamento convencional do câncer de próstata. Os pacientes podem fazer cirurgia, radioterapia, mas não podem deixar de comer alimentos ricos em anti-oxidantes. Tem funcionado para a cura e também para a prevenção. “Basicamente é isso: tomate, derivados de soja, grãos, e principalmente a baixa ou a diminuição das gorduras saturadas, principalmente da carne vermelha”, explica Gustavo. Seu Oscar venceu o câncer com medicamentos, sem nunca abandonar a receita do médico: comer, pelo menos, três porções de derivados de tomate por semana. Comer maçã todos os dias também não é nenhum sacrifício. Quem ajudou a mudar esta história foram os descendentes de italianos da serra gaúcha. Os pomares de Veranópolis estão entre os mais antigos do país. Foram plantados há mais de 60 anos. Aqui também é o lugar do Brasil onde as pessoas vivem mais tempo. Estudos estão revelando que não é simples coincidência. Foi em Veranópolis a descoberta dos pesquisadores da PUC do Rio Grande do Sul de que a maçã é um fator importante pra se chegar à idade avançada. Seu Pedro não aparenta os 68 anos de trabalho duro. “Como três por dia”, conta. Para a equipe que estuda estes hábitos desde 94, o consumo da fruta foi fundamental para que os moradores de Veranópolis atingissem a maior expectativa de vida do país. Os veranenses vivem 10 anos mais que a média nacional, que é de 68 anos. “A maçã é um antibiótico, um anti-inflamatório, auxilia nos tratamentos das diarréias, cânceres, previne doenças do coração, esquemia cerebral, melhora a função pulmonar”, explica a geriatra Carla Schawanke. Graças a uma substância chamada quercitina, que tem ação antioxidante e retarda o envelhecimento das células.

”PIZZA” SAUDÁVEL?

Comida de domingo. Para a família toda. Ou refeição naqueles dias de pressa. Com vocês, sua majestade, a “pizza”. A invenção italiana caiu no gosto dos brasileiros já faz tempo. A novidade agora é que esse alimento que para muita gente representa um risco à saúde pode ser exatamente o contrário. “Pizza” para prevenir doenças. Será possível? A fórmula é um segredo. Invenção de um grupo de universitárias: uma massa parda, onde está um nutriente que comemos pouco, mas precisamos muito. “Essa massa tem um alto teor de fibras, solúveis e insolúveis, e foi produzida tecnologicamente para que tivesse uma aceitabilidade alta”, explica Monique, uma das inventoras da receita. As fibras insolúveis são aquelas encontradas nas hortaliças, boas para o intestino. As solúveis são um tipo mais raro. Jiló, feijão carioquinha, aveia, maça e caqui - são alimentos que têm fibras solúveis. No organismo funcionam como barreiras contra o excesso de glicose e gorduras. Por isso, “pizza” enriquecida com fibra solúvel faz bem. “A fibra, por exemplo, pode regular o açúcar no sangue controlando a incidência de diabetes na população. Pode diminuir a absorção pelo organismo de triglicerídeos e gorduras, fazendo com que o indivíduo tenha menos arteriosclerose e menos doenças cardiovasculares”, explica a pediatra-clínica Cristina Senna. Sobre a massa, recheio leve. Molho, mussarela de búfala - que é menos gordurosa - e tomate. Será que tem gosto de remédio? “É crocante, “light” e muito gostosa”, garante um “pizzaiolo”. No coração do Brasil, na vegetação do cerrado, já brotaram outras duas fontes de fibras solúveis: a quinoa, um grão de origem andina, e o amaranto, espécie mexicana. As plantações em Brasília por enquanto são uma experiência da Embrapa. Mas na casa de dona Beatriz Pellizzaro os grãos já foram para a panela! “Fiz o biscoito com quinoa e com o biscoito preparei os canapés - usei patê de tofu, queijo de soja - coloquei um pouquinho de amaranto dissolvido em carragena, uma alga marinha”, conta. Até o corante e a sobremesa são naturais. “É gelatina de alga marinha”, explica. O suco vem de uma semente, feito de linhaça tostada. Mãe e filhos trabalham juntos na cozinha, unidos também pela dieta naturalista. “Nunca comi carne, chocolate só eventualmente. Gosto, mas não sinto falta”, diz a filha. Para a família Pellizzaro, comida é remédio. “Nabo é um ótimo desintoxicante e é bom para gripe também”, explica Beatriz. Para quem acha a dieta muito estranha, os Pellizzaro mostram resultados. Na família, ninguém toma remédio. Dificilmente adoecem. As filhas foram da escola pública direto para a faculdade. A família vive em harmonia. Praticam juntos montanhismo. Para eles, saúde é tudo isso. E todos vão bem. 

”YES”, NÓS TEMOS BANANAS.

Ao longo do litoral brasileiro, milhões de bananeiras revelam a nossa vocação tropical. Em algumas regiões, as plantações cobrem de verde milhares de hectares, como no Vale do Ribeira, sul de São Paulo. Foi lá que dona Heloísa tentou ser fazendeira. Mas descobriu, rapidinho, que o negócio não era tão fácil. Os cachos são colhidos ainda verdes. O que não encontra comprador vira lixo. E de tanto ver o desperdício, dona Heloísa foi inventando um jeito de aproveitar as sobras. “Comecei com a sopa, depois a casca. Como não tinha pão, nem nada, comia a casca, porque sentia que parecia uma vagem refogadinha”, conta. Comer banana verde é tradição no Vale do Ribeira. Depois de cozida, é claro. Mas ninguém imaginava que a banana verde poderia ser tão versátil. Dona Heloísa foi descobrindo que dá para fazer qualquer coisa com a massa. Batizou a receita de bio-massa e a usa para incrementar o cardápio - de bombom a pasteizinhos. É bom para economizar e agregar valor nutritivo à comida. A novidade é que só a banana verde tem amido resistente, uma substância que se perde quando a banana amadurece. O amido resistente funciona como um modulador dos níveis de colesterol e glicose no sangue. “A banana verde é bom para a redução do colesterol, para prevenção e tratamento do diabetes e do câncer do cólon, e para aumentar a absorção dos nutrientes do organismo, pois favorece uma boa saúde intestinal. Isso é uma idéia comprovada em animais, estamos agora começando a verificar em humanos", conta a nutricionista Valéria Paschoal. A dúvida é: será que o amido resistente continua funcionando, com todas as suas propriedades, depois que a banana verde é cozida? Essa é a pesquisa que uma equipe da Universidade Federal de São Paulo está fazendo. Esclarecer isso é fundamental para saber se a bio-massa da dona Heloísa é mesmo um novo alimento funcional ou apenas um complemento nutritivo. Depois de pesquisar 15 variedades de bananas, os cientistas já comprovaram vários benefícios da fruta. Uma delas, a banana missouri, surpreendeu até os pesquisadores. “Ela tem o dobro de fibras de outras variedades e metade do teor de açúcares”, explica o professor de nutrição Franco Lajolo. Acrescentar vitaminas ao prato do brasileiro também é desafio para os técnicos dessa fazenda experimental, em Brasília. A plantação é um exemplo da busca por um alimento mais saudável. Aqui está nascendo uma cenoura com  mais 35% de vitamina A do que as cenouras comuns. Falta de vitamina A pode causar desnutrição grave em crianças e até cegueira. O agrônomo mostra a diferença: a cenoura comum tem a parte superior esverdeada e é mais clara nas laterais. A nova cenoura desenvolvida recebeu o nome de alvorada. Tem a cor mais alaranjada, o que significa um maior teor de carotenóides. “Se tiver o hábito de comer uma cenoura que tem um conteúdo de carotenóide, de pró-vitamina a maior, vai ter reduzida a sua chance de contrair alguma doença, do tipo avitaminose A, que é um problema sério em algumas regiões do Brasil”, esclarece Jairo Vidal Vieira. De grão em grão, essas galinhas enchem o papo de milho, soja e carvão vegetal. A ração vitaminada servida em uma granja de Jaboticabal, no interior de São Paulo, é resultado de uma pesquisa para reduzir o teor de colesterol do ovo. Os cientistas descobriram que o carvão de churrasqueira moído cria uma espécie de purificador no organismo da galinha. O carvão retém parte do colesterol e os dois são eliminados nas fezes. Testes de laboratório comprovaram que o ovo da galinha alimentada com a ração com pó de carvão tem 22% menos colesterol do que os ovos comuns. Os cientistas constataram também uma redução de 30% do colesterol na carne das galinhas poedeiras.

PODER DO SOLO.

Já foi o tempo em que as flores serviam apenas para decorar. A capuchinha é uma das flores mais saborosas que se põe à mesa. O gosto lembra o do agrião. É mais um surpreendente alimento funcional. A capuchinha tem dois pigmentos que são essenciais para a prevenção da cegueira dos idosos. O Brasil é um dos países mais ricos do mundo em fontes de vitamina A. Todas as regiões têm suas estrelas. O buriti, no Norte. O pequi, no cerrado. O cajá e o óleo de dendê, no Nordeste. O óleo de dendê está sendo utilizado em programas de combate à deficiência de vitamina. Aos poucos, a ciência encontra nas frutas nativas o mesmo potencial antioxidante de outras frutas já conhecidas, como a laranja, o mamão, a manga. Aquilo que enche os olhos de tão colorido, é remédio puro, que o Brasil tem para dar e vender. "O Brasil ainda não aproveita todo o seu potencial. Tanto assim, que várias equipes internacionais vêm em busca do estudo desses alimentos brasileiros. É preciso que o país coloque o foco na sua riqueza, identifique-a e a aproveite”, acredita Gláucia Pastore da engenharia de alimentos da Unicamp. “O risco é que, se não sabemos o que temos, e outros grandes grupos internacionais sabem, vão estudar e depois retornam esse próprio alimento funcional como um nutracêutico, um comprimido, uma drágea”, diz Gláucia. 

A VERDADE DO “LIGHT”.

Obesidade nos Estados Unidos virou epidemia: 30% dos americanos são obesos e mais da metade está acima do peso. Essa explosão de gordura nos últimos dez anos coincidiu com a moda dos produtos “diet”, “light” e “fat free”, ou seja, sem açúcar, ou sem gordura. A indústria dos dietéticos fatura US$ 50 bilhões por ano. E pelo visto não está fazendo efeito. Roselle e Danielle são duas jovens americanas típicas. Para os padrões obesos do país até que não são muito gordas. Para casar, diz Roselle, os rapazes querem garotas cheinhas. Mas têm que se cuidar para não engordar mais. A geladeira está cheia de produtos dietéticos. Não adianta nada, dizem. “A gente come produtos “light” porque acha que são saudáveis. Acaba comendo muito mais do que deveria”, reclamam. A nutricionista Lisa Sasson foi conosco ao supermercado. Ela condena molhos “diet” de salada. “O azeite dos molhos normais faz bem à saúde”, diz. “Ajuda o coração. Tirar da dieta justamente essa gordura boa é perigoso. É um erro achar que a gordura é o inimigo. Algumas formas de gordura são essenciais”, complementa. Uma dúvida que a gente tem quando vai ao supermercado é que pão comprar. Qual é o pão saudável e que não engorda? Segundo Lisa, é o pão de trigo integral, que é supernutritivo. Já o pão “light” não é bom: pobre em nutrição, não satisfaz. “Você acaba comendo mais do que deveria”, explica. E os sorvetes sem gordura? Lisa dá a dica: “Não coma. A gordura é que dá um gosto bom e sacia o apetite. Por isso vai acabar comendo mais desse sorvete sem gordura. É melhor comer sorvete normal. Uma bola só já satisfaz, com frutas frescas. Não se deve comer sorvete “fat free”, avisa. Muita gente ao tomar café prefere botar adoçante em vez de açúcar achando que assim não vai engordar. “As pessoas se entopem de calorias na refeição e no fim tomam café com adoçante. É um erro. Os adoçantes estão cheios de produtos químicos. Podem fazer mal à saúde”, ensina Lisa. Arroz e feijão: o que o brasileiro come todo dia. Isso engorda ou não? “É super saudável. O feijão é muito nutritivo, tem bastante proteína, faz baixar o colesterol, é rico em fibra. E o arroz em pequenas porções também é ótimo”, garante a nutricionista. 

INFORMAÇÕES ÚTEIS.

PIMENTA:

- Fabiana Gonçalves - Especialista em pimentas. Telefones: 031-11-4427-8899/4437-1598.

- Alessandro Segatto - Chefe de cozinha dos pratos de pimenta. Telefone: 031-11-3068-8605. Rua João Manuel, 1156 – Jardins - São Paulo.

- Daise Lopes - pesquisadora farmacêutica. Telefone: 031-21-2410-7441. E-mail: dlopes@ctaa.embrapa.br 

- Risoto de Pimenta: 

2 xícaras de arroz arbóreo (de fácil cozimento, para risoto);

2 xícaras de moranga cortada em cubos;

500 ml de água com um tablete de caldo de galinha diluído;

2 colheres de sopa de manteiga;

1 colher de sopa de alho amassado;

2 pimentas de tamanho médio, doce, tipo cambuci;

1 pimenta doce americana;

1 pimenta jalapeño.

Modo de fazer:

Coloque a manteiga para fritar com o alho. Jogue a moranga para fritar. Pique as pimentas - sem sementes - em rodelas. Refogue na mistura de manteiga e alho. Coloque na panela o arroz lavado e frita a mistura por 15 minutos. Jogue os 500 ml de água na panela. Ferva por 15 a 20 segundos, em fogo médio, com a panela tampada. Regule o tempo conforme o gosto da consistência do arroz. Se preferir, sirva com queijo ralado.

- Sorvete com calda de pimenta:

Use sorvetes de creme, flocos - evite sorvetes de frutas.

Para fazer a calda:

1 abacaxi tamanho médio;

500 g de açúcar;

3 pimentas vermelhas dedo-de-moça sem sementes.

Modo de fazer:

Pique o abacaxi, coloque no fogo com açúcar. Deixe uma hora fervendo tampado. Pique as três pimentas, coloque na fervura do abacaxi com o açúcar e cozinhe por mais 10 segundos. Mexa bem para a pimenta pegar na calda. Sirva quente em cima do sorvete. 

TOMATE:

- Pesquisas com tomate e outras frutas com licopeno na Faculdade de Engenharia de Alimentos - FEA, da Unicamp, em Campinas – Telefone: 031-19-3788-4097 - glaupast@fea.unicamp.br 

- Dr. Gustavo Sá - urologista, que trata os pacientes com licopeno. Telefone: 031-51-3233-4832. Rua Antenor Lemos, 57, conjunto 811 - Porto Alegre - RS.

MAÇÃ:

- Pesquisadores da PUC do Rio Grande do Sul que fazem pesquisa com a maçã. E-mail: dcpuc@terra.com.br 

- Prefeitura de Veranópolis, terra da longevidade. Telefone: 031-54-441-1477.

Receita do Chá de maçã:

Uma maçã com casca, cortada em rodelas;

Um punhado de maçã seca;

3 a 4 cravos;

1/2 colher de chá de canela;

1 litro de água;

Modo de fazer:

Ferva a água com os ingredientes, por no mínimo 1h. Caso não encontre a maçã seca, pode fazer só com a maçã comum.

BANANA:

- Heloísa Freitas Valle - Ex-bananicultora que inventou a comida com a fibra da banana. Telefones: 031-11-3487-2065/3088-1513. E-mails: noelj@uol.com.br  filhmjm@ig.com.br 

- Dra. Valéria Paschoal - nutricionista que fala das propriedades da banana. Telefone: 031-11- 6966-6089 (VP Consultoria Nutricional). E-mails: nutrival@uol.com.br  artnutri@artinutri.com.br 

- Dr. Franco Lajolo - médico da USP que fala das pesquisas. Telefone: 031-11-3091-3656.

- Receitas da Biomassa de Banana Verde:

Lave bem com esponja e detergente 10 bananas verdes cortando as pontas sem deixar aparecer a polpa (a que tiver o custo mais acessível na região). Em seguida, leve em uma panela de pressão de sete litros com água fervendo, suficiente para cobrir as bananas. Conte oito minutos a partir do início da pressão da panela. Separe as cascas das polpas e num processador leve apenas as polpas bem quentes para processar, até que fique uma massa homogênea. Leve em um recipiente plástico e armazene em geladeira. Prazo na refrigeração: uma semana. Use apenas material de inox no processo, para não oxidar.

- Sucoban de laranja—Ingredientes:

- 4 colheres de sopa de biomassa de banana (desmanchada em 1/4 de copo de água quente);

- 600 ml de suco de laranja (natural ou pronto).

Modo de preparo:

Bata a biomassa dissolvida em água quente no liquidificador e acrescente o suco de laranja. Se preferir mais doce, acrescente açúcar ou adoçante a gosto. Sirva gelado ou sem gelo.

- Feijão Enriquecido com Biomassa—Ingredientes:

500 gramas de feijão: carioca, rosinha, roxinho ou de sua preferência;

5 litros de água para cozinhar;

0,5 colher das de café de colorau em pó ou urucum;

250 gramas de biomassa (sempre diluída em água quente);

temperos: alho, cebola, ou outros de sua preferência;

1 cubo de tempero próprio para feijão (se preferir).

Modo de Preparo:

Depois de cozido, tempere o feijão a seu gosto, retire oito conchas de caldo de feijão e leve ao liquidificador, onde já está a biomassa batida e o colorau em pó. Bata bem e retorne a mistura à panela do feijão já cozido. Deixe levantar a fervura e está pronto para servir. Desejando o caldo menos espesso, acrescente água fervendo e deixe ferver por mais alguns minutos e veja o ponto de tempero.

- Arroz Cascaban—Ingredientes:

2 xícaras de chá de arroz agulhinha;

500 gramas de casca de banana verde cozida e picada;

50 gramas de queijo ralado;

Sal a gosto;

1 colher das de sopa de margarina.

Modo de Preparo:

Cozinhe o arroz normalmente com os temperos de sua preferência. Num recipiente próprio para forno, despeje o arroz cozido, a casca da banana cozida, picada em cubinhos pequenos, e margarina. Desejando enriquecer mais, acrescente cenoura ralada. Se desejar: pulverize com queijo ralado e leve ao forno para gratinar. Se não deseja tão misturado, acrescente, apenas, a casca da banana verde picadinha.

- Viradinho de Casca de Banana Verde—Ingredientes:

Casca de 5 bananas verdes e picadas;

2 colheres (sopa) de cebola picada;

3 ovos inteiros grandes;

300 g de queijo parmesão ralado;

1/2 xícara (chá) de óleo;

1 limão grande, água.

Modo de Preparo:

Lave bem as bananas e cozinhe-as na panela de pressão por oito minutos. Depois, separa a polpa da casca. A casca será colocada numa vasilha com água e limão por meia hora ou até que saia toda a oleosidade. Corte-a com uma tesoura e, novamente, deixe de molho na água com limão por mais 10 minutos. Logo depois, escorra a água e refogue, numa panela, a casca com óleo, cebola e sal. Quando estiverem bem cozidas, junte os ovos e mexa com uma colher. Se preferir, acrescente queijo ralado e sirva imediatamente.

- Carne Moída Ban—Ingredientes:

300 gramas de carne moída;

700 gramas de casca de banana verde picada (igual o procedimento da casca da receita anterior);

Alho, cebola, pimentão, tomate, sal a gosto, salsa (temperos);

2 colheres de óleo.

Modo de preparo:

Numa panela, coloque óleo, deixe o alho dourar, coloque a cebola e acrescente no refogado a carne e deixe refogar bem. Junte as 700 gramas de casca de banana picadas em cubinhos (o tomate picadinho, o pimentão - se preferir). Coloque 1/4 de copo de água, sal e mexa, tampe e deixa abafar. Por último, coloque salsa picada e é só servir.

- Iogurte ban:

2 iogurte líquidos sabor frutas vermelhas (200 ml cada);

2 colheres de biomassa de banana verde (previamente diluída em leite quente).

Modo de Preparo:

No liquidificador, leve a biomassa diluída no leite quente, bata até ficar cremoso. Acrescente o iogurte e leve à geladeira. É só servir.

CENOURA:

Pesquisadores que desenvolveram a cenoura com mais caroteno em Brasília. Telefone: 031-61-385-9110. E-mail: sac.hortalicas@embrapa.br 

OVO:

- Professor Dr. Pedro Alves de Souza - galinhas que comem carvão e produzem ovos “light”. Unesp de Jaboticabal - Departamento de Tecnologia. Telefones: 031-16-3209-2675/2676/2677, ramais: 241 (sala) e 245 (laboratório). E-mail: pasoz@fcav.unesp.br 

“PIZZA” COM FIBRAS SOLÚVEIS:

- Patrícia Nunes - técnica em alimentos e estudante de Farmácia, www.pizzafibra.hpg.com.br pizzafibra@ieg.com.br 

GRÃOS: AMARANTO E QUINOA - GRÃOS SEM GLUTEN:

- Humberto Pelizaro - Da família naturalista que come e comercializa grãos, quinoa e amaranto. Telefone: 031-61-274-9510. W3 Norte, quadra 715 - Bloco F - LOJA 63.

- Carlos Spehar - pesquisador que trabalha com quinoa e amaranto. Telefones: 031-61-388-9965/388-9865.

- Associação Nacional de Produtores de Quinoa. Telefones: 031-11-3064-9564/3088-3487.

GLOBO-REPÓRTER: SAÚDE À MESA-19 DE JULHO DE 2002.

LOUCOS POR CARNE.

Para a maioria dos brasileiros, comer sem ela é uma tortura. Não há prazer na mesa se faltar a carne. Vermelha, de preferência. Pode ser assada, frita, cozida, de qualquer jeito, mas bem temperada. As pesquisas comprovam: no Brasil, uma pessoa come, em média, quase 40 quilos de carne bovina por ano. O rebanho é do tamanho da população: 170 milhões de cabeças. Um boi para cada brasileiro. E ninguém neste país entende mais do assunto do que o povo do Rio Grande do Sul. Faz bem ou faz mal à saúde? A maioria dos gaúchos tem noção dos riscos e benefícios da carne vermelha. Mas, para eles, o que menos importa é o teor de proteínas e toxinas. Importante mesmo é o sabor. E, no Rio Grande, carne saborosa vem sempre acompanhada de um ingrediente perigoso: a gordura. Gostosa e gordurosa. Mas no Rio Grande do Sul não se faz churrasco sem costela. É o que dizem dois doutores gaúchos: Fernando Lucchese, cardiologista, e José Antônio Pinheiro, gourmet, doutor nas especialidades da carne. Para ele, só há uma parte do boi capaz de concorrer com a costela: uma gorda picanha. É regra básica do mercado bovino gaúcho: carne magra, sinônimo de prejuízo. Um empresário vende 25 toneladas por mês. Venderia mais se traseiros encalhados no frigorífico também fossem gordos. Não tem jeito. Talvez seja mais fácil fazer o boi voar do que convencer o gaúcho a comer carne sem gordura. "Acho que é uma negociação mais complicada que a negociação da dívida externa", brinca doutor Lucchese. Como bom cardiologista, vive tentando mudar o cardápio do seu amigo gourmet. O hábito é cultural, segundo os especialistas. A carne interfere até na arquitetura das cidades. Construir prédios sem chaminés, em Porto Alegre, pode não ser um bom negócio. É que os gaúchos levaram a churrasqueira até para dentro dos apartamentos. “É como banheiro, tem que ter", diz o empresário Ivan Pinheiro Machado. Os médicos advertem: as mulheres gaúchas também são vítimas dos males da carne. "O Rio Grande do Sul tem a maior incidência de câncer de mama do país. E temos um dos maiores índices de colesterol do Brasil, com grande incidência de enfartos e doenças coronárias", revela o cardiologista. Há quatro anos as biólogas Ivana da Cruz e Maristela Taufer trabalham em uma pesquisa que investiga a herança genética dos brasileiros. O estudo revela que o gene responsável pela vontade de comer carne está relacionado à serotonina, uma substância que regula o nosso sistema nervoso, encontrada em proteínas de origem animal. "O que se viu é a que as pessoas comem muito mais carne quando têm a variante que precisa da serotonina", explica a geneticista Ivana.

DIETA VERDE.

Em uma fazenda no sul de Minas Gerais vivem monges que herdaram de seus ancestrais hábitos milenares, costumes sagrados dos grandes mestres indianos. Da vaca, só o leite para fazer iogurte. Da terra, quase tudo o que ela produz: frutas, grãos, verduras. Há milhares de anos a pimenta faz parte do cardápio dos monges. Receita da medicina védica, a mais antiga medicina do mundo. “Usamos em pouca quantidade, como remédio", diz o monge Dada Siddhesh. Mas a comida tem que ser farta. A recomendação é da doutrina indiana. A cozinha é uma das áreas sagradas da fazenda. É lá que eles buscam manter a força e o equilíbrio espiritual, alimentando bem o corpo. Uma comida que consideram muito saudável é a feijoada - vegetariana, lógico. Uma feijoada rica em ingredientes. Como em qualquer feijoada, vai tudo para a panela. Só falta a carne. Mas isso eles não querem nem ouvir falar. “Os grandes animais são vegetarianos - o elefante, o cavalo. O ser humano não precisa de proteína animal. Se comermos vegetais, frutas e grãos, teremos todas as proteínas", justifica Dada Siddhesh. Para eles, os vegetais também evitam um drama de consciência na hora de comer. Uma jovem alemã, adepta da doutrina dos monges, diz que carne significa morte. "Eu vi como eles matam os animais. A carne é cheia de sofrimento. Agora tenho consciência de que é um pedaço de morte", diz Anne Schultheiss, fisioterapeuta. Mas até nos vegetais há restrições. Alguns eles não podem comer. Existem dois ingredientes que são proibidos no cardápio dos monges: o alho e a cebola. Por quê? O alho e a cebola estimulam os chacras básicos e agitam nossas mentes. Para a prática de meditação, você tem que estar mais tranqüilo. Segundo o doutor Mauro Fisberg, especialista em nutrição, os vegetais podem mesmo alimentar, inclusive o espírito. Mas o corpo precisa também de outros nutrientes. De proteínas que só existem na carne, como a vitamina B12, muito importante para o nosso sistema nervoso. "Ela pode dar alterações no funcionamento cognitivo, relacionado com a inteligência, a memória e o aprendizado, e levar a alterações importantes do funcionamento do dia-a-dia”, alerta o nutrólogo Mauro Fisberg. O bom senso na hora de comer é a melhor receita para uma alimentação saudável, diz o doutor Mauro. 

REPOSIÇÃO HORMONAL SEM REMÉDIOS.

Os grãos amarelos guardam uma riqueza. Além de fontes de proteínas, a soja contém fito-estrogênio, isoflavonas, a versão natural do mais importante hormônio feminino, que regula a sexualidade, o envelhecimento, a memória, a rigidez dos ossos. Essa grande aliada feminina, os asiáticos conhecem há muito tempo. Na Coréia, por exemplo, onde a soja é à base de toda a alimentação, cada pessoa consome em média vinte gramas de grãos por dia, sob diversas formas. Já está provado que é isso que garante às coreanas o índice muito baixo de câncer de mama. Apenas três casos em cada cem mil mulheres. No Brasil a história é outra. Somos o segundo produtor mundial, com 41 milhões de toneladas na última safra, mas o consumo interno é insignificante. E que diferença isso faz! Entre as mulheres na menopausa que fazem reposição hormonal - e são cerca de quatro milhões -, poucas usam o hormônio natural. A grande maioria faz a reposição convencional, com hormônios sintéticos, enfrentando os riscos já conhecidos dessa medicação que vão do aumento dos casos de câncer de mama, a problemas cardíacos e derrames. Para repor hormônios na menopausa, só a alimentação não é suficiente. Entram em cena as cápsulas de isoflavona, o extrato de soja concentrado e o gel feito com inhame. A psicóloga Maria Lúcia Horta toma os hormônios naturais há quase oito anos, depois de várias tentativas com os hormônios sintéticos. “Cheguei a tentar vários tipos diferentes, dosagens diversas, todos os mais poderosos que iam chegando ao mercado o meu ginecologista mandava experimentar e nada funcionava bem. Com os fito-hormônios passou tudo, não sinto mais nada”, conta. Solange Lima, terapeuta energética, ainda nem chegou na menopausa. Mas já sente os efeitos desse período. “Comecei com muita depressão, o sono piorou bastante, muita insônia, dificuldade de dormir, acordar e não voltar a dormir e os calores noturnos. Nunca me agradou muito tomar hormônio sintético, queria alguma coisa alternativa”, conta. “Além dos sintomas clínicos da menopausa, que seriam fogachos, ondas de calor, depressão, tontura, vertigem, formigamento, que fazem parte dos sintomas da menopausa, observamos que a melhora foi de 85% das pacientes que fizeram uso da isoflavona”, revela Kyunk Koo Han, ginecologista da Universidade Federal Paulista. Mas o cardiologista Otávio Gebara adverte: a isoflavona é um medicamento, pode ter efeitos colaterais, e não deve ser usada sem critério. “Tem que ter um acompanhamento do ginecologista. Não acredito que o uso de isoflavona, de compra livre no balcão da farmácia ou loja de produtos naturais, seja recomendável ou seguro”, alerta o médico.

”DIET” X “LIGHT”.

O brasileiro está mais “diet”, ou, pelo menos, tenta ser. A cada ano, dezenas de novos produtos chegam ao mercado. Para alguns, promessa de saúde. Para a maioria, o desejo da beleza. Nesse mundo de silhuetas bem delineadas, homens e mulheres, aos poucos, trocam as delícias do verbo comer pela difícil tarefa de resistir. As sobremesas conquistaram paladares em todo o mundo, mas as preferências estão mudando. Nas casas de doces, o desafio é retirar destas maravilhas dois ingredientes que fazem mal à saúde: gordura e açúcar. O cardápio é variado, mas levar à mesa o prato certo exige conhecimento. Afinal, o que é “diet” e o que é “light”?  “Diet” é um produto que não tem um ingrediente na sua composição. Essa retirada tem uma finalidade terapêutica. Por exemplo: existem diabéticos que não podem consumir açúcar. Neste caso, o “diet” para o diabético é sem açúcar, e deve estar no rótulo. “Ele pode ser “diet” para hipertenso, sem sódio”, explica a nutricionista Adriana Pelloggia. “O “light” é aquele alimento que teve uma restrição de, no mínimo, 25% de um ou mais de ingredientes, como açúcar ou gordura”, continua a nutricionista. Na teoria, é simples. Na prática, nem tanto. Diante das prateleiras, começam as confusões. Por exemplo: quem nunca, durante um regime, tentando perder alguns quilinhos, não experimentou um chocolate “diet”? Afinal, o nome já diz: é “diet”. Não engorda. Certo? Errado! A mistura que enfeitiça tanta gente vira “diet” com a retirada do açúcar. Mas as gorduras continuam lá. Em alguns casos, para dar consistência ao chocolate, as indústrias até aumentam o teor de gordura. Em uma casa, produtos dietéticos estão nas refeições de todo dia. Pai, filha e neta são diabéticos. A variedade de produtos “diets” não é problema. A queixa é contra os rótulos. “Tenho que ler a embalagem inteirinha. Não pode ser só a formulação”, diz Graça de Carvalho Câmara, Diretora da Associação de Diabete Juvenil. A nutricionista Adriana Pelloggia acompanhou durante três anos um grupo de 390 consumidores de produtos dietéticos. Descobriu que muitos abandonam a dieta logo depois das primeiras confusões com as embalagens. “Isso pode levar os indivíduos a não acreditar no produto. Não porque realmente não é confiável, mas porque a leitura do rótulo dificulta a interpretação e a sua finalidade”, revela Adriana. A clareza que o consumidor deseja, já é lei. E já deveria estar nas embalagens. "Os rótulos dos produtos “lights” devem informar o nutriente do qual o produto é reduzido. No caso dos alimentos “diets”, devem dizer o nome convencional do alimento e a finalidade a que ele se destina", declara Antônia Maria de Aquino, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Para os refrigerantes, a regra é outra, definida pelo Ministério da Agricultura. Seja “light” ou “diet”, a bebida não pode receber nem um grama de açúcar durante a fabricação. Apenas adoçantes e uma pequena quantidade de frutose, o açúcar natural da fruta, no caso, por exemplo, de refrigerantes de limão ou laranja.

LEITE SEM GORDURAS.

O mundo “diet/light” em breve vai ganhar uma nova bebida, bem mais saudável: leite com baixo teor de gordura, direto do curral. Cientistas finlandeses, americanos e brasileiros estão em busca do superleite. E já colocaram as vacas de dieta. O segredo para ter leite “light” direto da vaca está em um ácido, produzido em laboratório a partir do óleo de soja que está sendo misturado à alimentação dos animais. Uma vez colocada na ração das vacas, a substância é absorvida pelo animal e faz com que sintetize menos gordura. A cor do leite é a mesma. Tem um sabor um pouco mais fraco do que o leite integral. “O leite de uma vaca que recebeu a ração comum, tem 3,5% de gordura. E o leite da vaca que recebeu o composto tem 2% de gordura. Portanto, há uma redução de 40 a 50%. É o equivalente ao leite semidesnatado que a gente encontra no comércio”, explica Dante Pazzanese Lanna, do Laboratório de Nutrição Animal da Usp. “O que sabemos é que esse produto tem um efeito benéfico para a saúde, porque tem a propriedade de inibir o aparecimento do câncer. Isso está muito bem mostrado em pesquisas feitas em tumores de mama, próstata e pele”, revela o pesquisador. Provar que o leite, mais magrinho, também pode evitar o câncer, ainda leva tempo, é o novo desafio dos pesquisadores em busca do alimento perfeito.

JOVENS, RICOS, FAMOSOS E VEGETARIANOS.

Eles são vegan. O apelido da moda para vegetariano. Jovens, famosos, não comem carne de jeito nenhum. Ser vegan é a palavra de ordem em Hollywood. Drew Barrymore, Joaquim Phoenix, Alicia Silverstone, Ashely Judd, todos são vegan. A cantora Shania Twain acaba de ser eleita a vegan mais sexy. Uma prova da revolução na imagem das vegetarianas. Agora elas são exuberantes, bonitas e gostosas, vendendo saúde. Nada daquela imagem raquítica e pálida do passado. O movimento vegetariano está nas capas das revistas e nos supermercados. Há uma enorme variedade de produtos sem nenhum ingrediente de origem animal. E restaurantes com o último grito da cozinha vegan. A grande novidade em comida vegetariana em Nova York é um restaurante que oferece uma refeição com um prato indiano, outro de origem chinesa. A sobremesa é francesa e tem até hambúrguer. A diferença é que lá nada é cozido - tudo é feito com vegetais crus. A chinesa Tolentin Chan é a dona e “chef” da Quintessence, uma cadeia que já tem três restaurantes. Tolentin era modelo e começou a comer tudo cru há cinco anos. Ganhou mais saúde e energia e resolveu cozinhar, ou melhor, preparar tudo cru para os outros. Em um forno de baixa temperatura, no máximo 90 graus, ela desidrata os alimentos para fazer bolinhos e hambúrgueres vegetais. Por que comer tudo cru? Segundo Tolentin, isso preserva as enzimas dos vegetais, que são destruídas no cozimento. E ajudam na digestão. O resultado é atraente e muito saboroso. Uma pesquisa da Revista Time revela que mais de dez milhões de americanos são vegetarianos. Um número bem maior complementa a dieta vegetariana com peixe e laticínios, mas evita a carne. O nutricionista John La Rosa aprova a dieta. Ele é o presidente do centro médico da Universidade de Nova York e um dos mais respeitados pesquisadores de nutrição nos Estados Unidos. “A dieta vegetariana é saudável, mas não é necessária”, diz. Não faz mal comer também peixe e laticínios sem gordura. Mas a gordura de origem animal deve ser evitada. O doutor La Rosa faz um alerta: uma boa dieta vegetariana tem que incluir alimentos ricos em proteínas vegetais, como feijões e nozes. O problema é que os jovens embarcam na moda vegan sem muita informação. Acham que basta substituir o hambúrguer pelo sanduíche de salada e ficam subnutridos. Gibby e Patty são vegetarianos há 30 anos e cheios de energia. Eles mostraram como escolher alimentos para compor uma dieta vegetariana equilibrada. Há uma grande variedade de feijões, todos com muita proteína. Produtos como tofu e tempeh, à base de soja, e seitan, feito com trigo, são ricos em proteína. A abundância de cereais é impressionante. Nos legumes e verduras, Patty recomenda compor um arco-íris. A variedade de cores oferece um leque de vitaminas. E para a sobremesa, sorvete feito com arroz. Gibby garante que é uma delícia.

BODE É “LIGHT”.

Vida dura é com ele mesmo. O bode resiste às maiores adversidades, sobrevive às piores secas, come o que encontra na caatinga. Animal rústico, exige poucos cuidados, quase nada de investimento e por isso é um companheiro histórico do sertanejo. Desde muito cedo. Bode assado, bode grelhado, lingüiça, hambúrguer, almôndega e quibe de bode! Para todos os gostos. Tem bode de sobra no Nordeste. Na região estão 90% do rebanho brasileiro de caprinos. E os criadores apostam que uma nova descoberta poderá multiplicar o consumo: bode é “light”. O bode tem bons motivos para justificar a fama. Os especialistas garantem que entre as carnes vermelhas, a de bode é a mais magra - tem a metade das calorias da carne de boi. O pequeno valor calórico é semelhante ao das aves. E as vantagens não param por aí. O bode alimenta mais e engorda menos do que a carne de boi. Tem seis vezes menos gordura, mas tem a mesma quantidade de proteína e de ferro. "O bode é “light”, principalmente o cabrito. A exemplo de outros animais, agora é a vez do cabrito ser industrializado", diz José Carlos Nascimento, engenheiro agrônomo da Universidade Federal da Paraíba. A fama de que bode é “light” acabou abrindo o apetite dos consumidores e atraindo investimentos. Se antes o bode era servido em restaurantes pequenos no sertão, hoje é o carro-chefe do cardápio de grandes restaurantes nas capitais nordestinas. O bode virou prato principal. Só em um restaurante no Recife, é matéria-prima para 15 receitas diferentes. O leite também tem fama de bom. É mais digestivo e faz tão bem quanto o leite de vaca. "Pode ser ingerido por crianças, adultos, idosos, pessoas convalescentes e as que têm intolerância ao leite de vaca. O leite de cabra pode substituir o leite de vaca tranqüilamente", diz Juliana Nóbrega, técnica em alimentos da Universidade Federal da Paraíba. É por isso que no sertão tem um ditado que diz: “Da cabra, nada se perde. Nem o berro".

INFORMAÇÕES ÚTEIS.

CARNE:

- José Antônio Pinheiro Machado – gourmet, com programa de TV na PBS, em Porto Alegre, defende a carne vermelha com bom humor. Telefone: 031-51-3228-1416. E-mail: anonymus@terra.com.br 

- Fernando Antônio Lucchese - médico cardiologista de Porto Alegre, fala sobre a carne. Endereço: Rua 24 de Outubro, 650, sala 501. Telefones: 031-51-3222-3595/7116.

- Ivana da Cruz - geneticista que faz as pesquisas a respeito da compulsão pela carne ser genética. E-mail: dcpuc@terra.com.br 

- Organização Ananda Marga - onde se formam os monges vegetarianos. Telefones: 031-21-2255-5549/2236-4754. Endereço: Travessa Santa Leocádia, 30 - Copacabana – Rio.

- Mauro Fisberg - médico nutrólogo, afirma que o corpo precisa de proteínas. Telefone: 031-11- 5575-3875.

- FEIJOADA VEGETARIANA—Ingredientes:

Feijão.

Legumes, que podem ser: inhame, abóbora japonesa com casca, cenoura, beterraba, vagem, couve-flor.

Provolone defumado.

Tofu.

Glúten.

Molho de soja.

Gengibre (ralar).

Ervas em geral.

Pimentão.

Modo de fazer:

Cozinhar o feijão por 20 a 30 minutos. Cozinhar os legumes de 8 a 10 minutos, sem deixar desmanchar. Fazer o refogado.

Refogado:

Esquentar o óleo e colocar gengibre ralado, as ervas, o glúten, tofu, molho de soja e pimentão, sal e pimenta. Refogar por um tempo e misturar os legumes e o feijão.

HORMÔNIOS:

- Doutor Yukio Moriguchi - geneticista da PUC do Rio Grande do Sul que trata da colônia japonesa. E-mail: dcpuc@terra.com.br

- Jane Corona - médica nutróloga, que recomenda soja e salada para ajudar na reposição hormonal.

Telefone: 031-21-2496-3768.

- SALADA RICA EM FITOHORMÔNIOS:

Tofu (Estrogênio), orégano e/ou tomilho (progesterona), azeite e sal para temperar, maçã, agrião, brócolis, rúcula, chicória.

(Todos contêm indóis que ajudam a metabolizar estrogênio).

Semente de linhaça e/ou gergelim.

Pão de linhaça.

- SUCO RICO EM CÁLCIO, PARA COMBATER A OSTEOPOROSE:

Couve + salsa + suco de laranja (tem a vitamina C que transforma o carbonato de cálcio em citrato, que aumenta a absorção). O suco tem: cálcio, magnésio, ferro, indol e fitohormônio.

- Kyung Koo Han - ginecologista da Universidade Federal de São Paulo que pesquisa a isoflavona da soja. Telefone: 031-11-5044-2963.

- Otávio Gebara - cardiologista que fala dos efeitos colaterais da isoflavona. Telefone: 031-11- 3040-8001.

“DIET” E “LIGHT”:

- Walmir Coutinho - endocrinologista “diet” e “light”. Telefone: 031-21-2493-5764.

- Adriana Garcia – médica que fala sobre a diferença de “diet” e “light”. Telefone: 031-11-9304-7717.

- Leite “diet” e anticâncer direto da vaca - faculdade Esalq – Piracicaba. Professor Dante Pazzanese Lana.

E-mail: lnca@esalq.usp.br Telefone: 031-19-3429-4478.

CARNE DE BODE:

- Local de criação de bode na Paraíba - Município de Cabaceiras. Telefone: 031-83-356-1117.

- Restaurante "O Amigo Bode". Telefone: 031-81-3466-2023. Endereço: Rua Marquês de Valença, 30 – Boa Viagem.

GLOBO-REPÓRTER: COMER ERRADO—13 DE DEZEMBRO DE 2002.

DIETA COMUNITÁRIA.

Algo de novo no horizonte de Lagoa dos Três Cantos. Na pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul, há um movimento que, seis meses atrás, era impensável. O batalhão toma conta das ruas, é concentrado, ritmado e caminha unido em uma só direção: perder peso. Muitas toneladas! Mas como emagrecer com tanta fartura? Um terço dos moradores da cidade está fazendo dieta. Mais de 500 pessoas contando pontos em todas as refeições. O sistema permite comer de tudo, com controle da quantidade. Até a festa típica não é mais a mesma. Antigamente, os descendentes de alemães faziam da comemoração uma comilança. Em tempos de emagrecer, o almoço é simples: churrasco e saladas. Em pouco tempo de esforço, muita gente já tem o que comemorar. O sorriso da dona de casa Noeli Hoffmann vem de uma grande conquista. A cada regime, voltava a engordar em dobro. E era urgente emagrecer: o excesso de gordura ameaçava seriamente o coração. Hoje, no lugar da carne de porco, o destaque são as duas travessas de salada. Pobre do agricultor Elênio, marido de dona Noeli, que perdeu dez quilos, e nem precisava. A esposa perdeu outros 13 quilos. No total, a família ficou 40 quilos mais leve. Descobrir coisas gostosas que não engordem chega a ser motivo para competição nas aulas de culinária. O curso é outra novidade na cidade que decidiu enterrar o título de "mais gorda do Brasil". Quem diria: cuca “light”? E justo a cuca, que parecia o inimigo mortal da dieta! A cuca foi conhecida na padaria de Ivaldo Borghetti em fevereiro deste ano. Era véspera do regime coletivo na cidade e parecia que a cuca estava condenada à extinção. Mas, dez meses depois, a surpresa: a padaria está vendendo cuca como nunca. A freguesia local encolheu, com tanta gente de dieta. Em compensação, a fama aumentou o mercado externo. Com o novo forno, seu Borghetti quer passar a produção semanal de 300 para 2 mil cucas. No comércio da cidade, o novo padrão de qualidade é “tudo sem gordura”. Os fregueses fazem compras fugindo das calorias. Um pedaço de carne, que era consumido em dois dias, hoje rende o almoço da semana inteira. E ninguém reclama de comer menos. O esforço traz como recompensa a solução para problemas que pareciam insolúveis. O casal Petry está 26 quilos mais leve. É uma alegria que vai contaminando vizinhos, amigos e que prepara a turma para a segunda etapa do projeto: a atividade física. São caminhadas, aulas de aeróbica e a rotina da cidade, aos poucos, vai mudando radicalmente. E a vida das pessoas também. A agricultora Rejane Fries emagreceu 35 quilos. Junto com a auto-estima, veio um guarda-roupa totalmente novo. Sobraram uma antiga blusa de malha, que é quase um vestido, e uma calça jeans, que dispensa comentários. Quando o regime começou, o objetivo era de que cada morador da cidade perdesse 5% do peso. Mas o grupo, que levou a dieta a sério, superou a meta: chegou a 8%. Todos juntos, conseguiram perder 3,5 toneladas! As próximas gerações, provavelmente, não terão todo esse problema. O cardápio nas escolas também mudou. A criança aprende, desde cedo, o jeito certo de comer: sem frituras e gorduras; com muitas verduras e frutas.

CRIANÇAS NA COZINHA.

Algumas crianças já deixaram a mamadeira faz tempo, mas ainda não aprenderam a comer. É um longo caminho, de cheiros, sabores, comportamentos. Com 6 anos de idade, no máximo. Estão em uma aula de culinária onde têm uma missão muito importante: ensinar o boneco Boca-Mole a comer direito. A professora Ciça Ferreira é a mãe do Boca-Mole, um personagem cheio de problemas. Enquanto as crianças ajudam o boneco, elas é que superam suas próprias dificuldades. Legumes e verduras são sempre o capítulo mais difícil. A primeira vez de uma alface pode ser terrível. Mas, com um pouco de insistência, até a salada fica apetitosa. Na escola, tudo certo: João e a irmã Júlia comem o lanche sem reclamar. Em casa, cada refeição é uma queda-de-braço com a mãe. As crianças aprontam tanto que a mãe entrega os pontos: o almoço fica esquecido. Eles atacam a sobremesa e João dá um novo “show”, pois só quer saber de guloseimas. Júlia exagera: repete o prato até quatro vezes. Na casa de Cláudia da Purificação, mãe de Bianca e Matheus, nenhuma confusão na mesa. Ela pilota o fogão repetindo a tradição da família mineira. As crianças adoram. Tudo é permitido e está ao alcance, a qualquer hora. Lanche antes do almoço, pode. Pipoca e televisão à tarde, também. Ninguém é obrigado a comer o que não gosta. Desde que nasceu, Nicole passa a maior parte do dia com a avó. Foi com ela que aprendeu a comer de tudo. Até a mãe reconhece que ela comia as coisas mais detestáveis para a maioria das pessoas, como jiló, quiabo, bife de fígado. Mas a mesma avó que fez o milagre, agora quer agradar a netinha com um armário cheio de guloseimas. Nicole, que até os 2 anos não sabia o que era refrigerante, agora não vacila quando tem sede: assalta o cantinho da vovó. “A idéia de fazer esse cantinho do lanche é chamego de avó mesmo”, admite dona Lalá. A mãe, dentista, trabalha o dia inteiro, mas vigia de perto os hábitos da filha. No primeiro ano de vida, os bebês precisam de muito alimento para garantir um crescimento rápido. Ganham de nove a dez quilos. A partir dos 2 anos, tudo vai mais devagar. Aumentam, em média, dois quilos por ano. As crianças já não querem comer tanto. Mas as mães se apavoram com a "falta de apetite". “Muitas vezes, cometem erros terríveis, como mamadeira aos três, quatro anos. Até para a mãe ficar sossegada, porque a criança não comeu nada, mas pelo menos tomou a mamadeira. Conclusão: essas crianças acabam ficando obesas na maioria das vezes, porque comem muito mais do que deveriam", alerta o pediatra e nutrólogo Ari Lopes Cardoso. Cláudia sabe de tudo isso. A filha, de 8 anos, já está cinco quilos acima do peso ideal. As crianças se acostumaram. A mãe não consegue mudar. Não quer abrir mão do prazer de comer. Hábitos errados, que viram rotina, trazem resultados perigosos. Doenças que só apareceriam na vida adulta acontecem hoje cada vez mais cedo. “Pequenos erros diários vão levar a criança a uma vida adulta repleta de erros, principalmente pela obesidade e suas conseqüências: diabetes, hipertensão, doença cardiovascular. Manter horário e disciplina é fundamental. Em casa que não tem rotina, onde se come na hora que bem entende, com certeza esse filho vai ser um indivíduo com uma indisciplina alimentar para o resto da vida", observa o médico Ari Lopes.

EUA: UM PAÍS DE OBESOS.

Cesar Barber é o gordo mais famoso dos EUA. Entrou com um processo contra quatro redes de lanchonetes do país. Barber pesa 120 quilos e alega que ficou obeso, diabético e cardíaco por causa da comida. Poucos levaram o processo a sério, e ele virou até motivo de piada. Vai ser difícil convencer o júri de que foi vítima de um lugar onde se entupia de galinha, hambúrguer e batata frita. Em uma reunião de peso, dezenas de obesos recebem orientação em um hospital de Nova York para fazerem a cirurgia de redução do estômago. Uma medida extrema para quem não consegue perder peso por meios tradicionais. Consideram-se mais vítimas da genética e da gula do que da indústria alimentícia. A iniciativa de Barber pode levar a indústria alimentícia a enfrentar uma crise semelhante à do cigarro. Os ex-fumantes insistiram 30 anos processando fabricantes e venceram: receberam milhões e provaram que fumar faz mal à saúde. A nutricionista Marion Nestle espera que processos como o de Cesar Barber façam a indústria da alimentação acordar. Segundo ela, os bilhões de dólares gastos na propaganda de alimentos são a principal causa da epidemia de obesidade nos EUA. Em 20 anos, os obesos passaram de 10% para um terço da população do país. Dois terços dos americanos estão acima do peso. Isso agora vai piorar, porque a epidemia atinge as crianças. Tanto que 20% delas já são obesas. Entre os negros é pior: mais de 30% das crianças negras sofrem de obesidade. Uma das grandes indústrias americanas de “fast-food” já reagiu e anunciou que está usando um óleo mais saudável nas frituras. Mas a nutricionista afirma que a mudança não significa muita coisa, pois a batata frita não perde uma única caloria. Hambúrguer, batatas fritas e refrigerantes - o total passa de 2 mil calorias. Uma criança precisa de pouco mais do que isso por dia. Ou seja, duas refeições diárias podem levar o organismo a acumular gordura. Marion Nestle acha criminosa a propaganda que leva as crianças a se tornarem dependentes da comida altamente calórica. O vício é alimentado diariamente até no colégio. Com os cortes nos orçamentos da educação e da merenda escolar, as escolas públicas se vêem obrigadas a aceitar a presença das redes de lanchonetes e marcas de refrigerante. Na única escola pública de Nova York que ainda não foi invadida pelas lanchonetes, os pais se mobilizam para manter um refeitório onde a comida é saudável. Tem carne, legumes e verduras bem preparados. A escola tem curso de culinária, onde a professora, que é caribenha, ensina a usar alimentos frescos. Os alunos são incentivados a cozinhar em casa. Eles admitem que gostam de comer em lanchonetes, mas só de vez em quando. Depois de aprenderem na escola os princípios da boa nutrição, sabem seguir uma dieta equilibrada. Resultado: ao contrário da maioria das salas de aula nos EUA, lá ninguém é obeso. A nutricionista acha que é dos pais a responsabilidade de ensinar os filhos a comer certo. O sabor artificial que dá gosto à comida industrializada é a arma secreta que torna o ‘fast-food” tão irresistível. Química para enganar e conquistar o nosso paladar. O maior fabricante de sabores artificiais do mundo tem filiais em dezenas de países, incluindo o Brasil. O chefe de pesquisa, o inglês Brian Grainger, é um alquimista do século 21. Animado, Brian Grainger acabou revelando sua nova criação, que está em fase de teste com crianças. Refrigerantes de cores berrantes que dão uma sensação de frescor na boca. Uma mistura de sabores artificiais de frutas com um novo produto químico, super secreto. Já dá para imaginar o efeito que a novidade vai provocar entre a criançada.

O PESO DA ALIANÇA.

Disciplina, persistência e muita transpiração. É o psicólogo Eduardo Casarin, lutando para perder os quilos que ganhou depois de casado. Ele é o exemplo típico de uma tese anunciada este ano pelos médicos: o casamento engorda. A rotina, a comidinha caseira, a tranqüilidade, tudo colabora. "Os estudos mostram que 50% dos casados aumentam até 20% do peso nos primeiros cinco anos do casamento, o que é muita coisa. Um homem de 70 quilos pode ganhar até 14 quilos nos cinco primeiros anos", diz Bruno Molinari, clínico geral. Os maridos são as maiores vítimas: para cada mulher, três homens engordam depois do casamento. Eduardo ganhou 12 quilos em um ano. E o magricelinho de antes, agora, tem até barriga. "Ainda não fiz as pazes com a barriga. Está aqui, mas não me pertence, vai ter que sair!”, brinca Eduardo. Gordo, não ficou, mas se continuasse aumentando um quilo por mês, o risco era grande. "Comecei a perceber que estava com uma disposição muito baixa, cansava-me rapidamente e estava ficando feio. Então, pensei: tenho que fazer alguma coisa. Aí, parei de fumar, comecei a fazer um pouco de exercício, nada tão forçado e a ter um pouco mais de critério para me alimentar", conta Eduardo.

CUIDADOS NA TERCEIRA IDADE.

Exercício obrigatório e reeducação alimentar. Tudo muito suave, sem exageros. A psicopedagoga Maria Isabel Vieira precisa emagrecer só um pouco, para não agravar um problema de coluna. "Quanto mais peso carregar na sua hérnia, pior. Então, estou evitando isso", conta a psicopedagoga. Ela tem 69 anos, e o melhor, nesta idade, é evitar os radicalismos. Por exemplo, comer muito no almoço e eliminar o jantar. Os geriatras recomendam comer de tudo e dizem que, assim, é possível emagrecer. "O certo é a gente tentar comer várias vezes ao dia, e sempre um volume pequeno. Não temos que ter medo daquilo que é chamado beliscar, precisamos ter horário para beliscar. Esses horários, a cada duas horas e meia, três horas, seriam indicados para qualquer pessoa, não só idosa. Porque isso facilita a digestão”, orienta Míriam Najas, geriatra e nutróloga. Com esse regime, dona Maria Isabel melhorou muito da osteoporose e se livrou das crises de dor nas costas. “Com a perda de peso, a melhora nas crises, vai ser possível evitar, por exemplo, uma cirurgia. Tenho esperança de que evite, porque faço exercício e tenho uma alimentação saudável para manter meu peso", comenta.

A NOVA MERENDA ESCOLAR.

Em Minas Gerais, tomar leite e comer bem se aprende na escola. É o que está acontecendo com cerca de 300 crianças de uma escola municipal de Ouro Preto. Estão experimentando um projeto-piloto de alimentação escolar. Para quem estuda cedo, tem café da manhã, lanche e almoço. A turma da tarde, começa almoçando, toma lanche e só vai para casa depois de jantar. Arroz, feijão, angu, quiabo refogado - comidinha mineira, da boa. "A dieta está atingindo cerca de 30 a 40% das necessidades nutricionais da criança. É um valor que a gente consegue suprir na metade do turno em que o aluno está aqui, com alimentos bem interessantes, para ela ter um bom desenvolvimento", observa a nutricionista Waleska Dornas. Acostumar os alunos com a salada é trabalho feito em mutirão. Professoras, merendeiras, todas unidas em campanha a favor da alface, do quiabo, de tudo o que os alunos rejeitam. "A gente vai incentivando e eles experimentam a gostam", comenta Fátima Faria, diretora da escola. Para muitas crianças, essa nova merenda escolar veio em boa hora: faltava comida em casa. "Com certeza, isso pode refletir no aproveitamento escolar deles. A certeza de ter o almoço e o jantar já dá uma tranqüilidade, para ele e para sua família. Estudar de barriguinha cheia é muito melhor", comenta a professora Raquel Guimarães. Se o projeto for aprovado, pode virar um modelo para as escolas públicas de todo o Brasil. É para isso que está sendo testado em Ouro Preto.

INFORMAÇÕES ÚTEIS.

- Os contatos com a cidade gaúcha de Lagoa dos Três Cantos e com o médico que criou a dieta dos pontos, o endocrinologista Alfredo Halpern, podem ser feitos através site www.emagrecendo.com.br 

- Colégio Lourenço Castanho - escola que tem aula de culinária para crianças utilizando o boneco "Boca-Mole". Telefone: 031-11-3842-2302.

- Escola Coruja - escola que dá pepino e tomate no lanchinho da tarde. Telefone: 031-11-3661-8107.

- Ari Lopes Cardoso - médico pediatra e nutrólogo, chefe do Departamento de Nutrição Infantil do Hospital das Clínicas em São Paulo. Telefone: 031-11-3069-8610.

- Míriam Najas - médica geriatra e nutróloga. Telefones: 031-11-3842-5144/3841-9497.

- Escola Municipal Alfredo Baeta - escola em Ouro Preto, Minas Gerais, que está testando projeto-piloto de merenda escolar. Telefone: 031-31-3551-2731.

GLOBO-REPÓRTER: NUTRIÇÃO POPULAR—14 DE FEVEREIRO DE 2003.

FIBRA MILAGROSA.

Os olhos brilhantes e a alegria no rosto não deixam dúvida: chegou a hora do almoço no Abrigo Tereza de Jesus, no Rio de Janeiro. O feijão da dona Helena faz sucesso entre as crianças pequenas. E entre as grandes também. E hoje em dia tem algo diferente no panelão. “É o feijão com pectina. Faz bem para as crianças e para os adultos. É rico em vitamina”, anuncia a cozinheira. Até para as cozinheiras pectina é novidade. Quem diria: depois de 30 anos cozinhando quase todos os dias, agora vão ter que aprender com a nutricionista um jeito diferente de fazer o feijão. É para aproveitar. “Quando fazemos uma geléia e fica aquela cremosidade, aquele gel, é a pectina. Quando deixamos o feijão de molho na geladeira e, durante a noite, em cima do caldo se forma uma camada de gel, também é a pectina”, revela Lucília Caldas, professora de nutrição da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio). Um tipo de fibra que está em todas as frutas e em grande número de vegetais. Funciona como uma espécie de faxineira: neutraliza substâncias nocivas ao corpo, antes que provoquem doenças. Mas como aproveitar a pectina do feijão? Em vez de deixar de molho por doze horas antes de cozinhar, é só ferver dois minutos e deixar descansar por uma hora, o suficiente para eliminar fungos e outros microorganismos. Depois, é só cozinhar normalmente o feijão por mais uma hora. Mas tem um segredo, que é o mais importante. “Não joguem a água em que o feijão ficou de molho fora. Ali também está a pectina”, ensina a professora. “A pectina tem um papel importantíssimo no nosso intestino. Impede algumas doenças, como o câncer, doenças cardiovasculares, provocadas por excesso de gordura que vão fazer mal ao homem”, explica. É só prestar atenção no cardápio para encontrar pectina por todo o lado: na batata, na cenoura. Depois de cozidas, deixam a pectina no caldo que fica na panela e que muita gente joga fora, sem saber. “Nessa água tem vitaminas (betacaroteno), minerais (potássio), fibras (pectina) e carboidratos”, conta Lucília. Junto com a nutricionista, as cozinheiras também se sentem pesquisadoras. “Acho que a cozinha é a mesma coisa que medicina. Sinto-me um pouco cientista”, diz uma delas.

DO SUCO AO BAGAÇO.

Outro alimento popular, que está na dieta de ricos e de pobres, é a laranja. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de suco de laranja do planeta. E tanto na indústria quanto em casa, quase sempre só o suco é aproveitado. O bagaço, a parte mais clara, ou vira ração para animais ou vai para o lixo. Seiscentas e quarenta toneladas por ano no Brasil. O número impressionou pesquisadoras da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), que sabem: o bagaço da laranja é uma das maiores fontes de pectina existentes na natureza. “A gente está perdendo uma substância importante, porque tem atividades terapêuticas no organismo, como a diminuição dos níveis de colesterol. Para aqueles que são diabéticos, atua diminuindo o teor de glicose no sangue. Também melhora o trânsito intestinal”, diz a professora de nutrição da Uni-Rio Simone Boekel. Então, por que não transformar o que era considerado lixo em ingrediente? O laboratório de nutrição se transforma em uma usina de idéias, e o bagaço em pedacinhos virou ingrediente nobre em uma receita. Nove colheres de bagaço e polpa de laranja picado, tudo misturado com a receita tradicional de bolo de laranja. O que era desperdício virou tentação nutritiva para o café da tarde. Quem resiste a essa pectina? “A casca de laranja poderá evitar que se venha a tomar remédios. Tem um efeito preventivo e até terapêutico, principalmente das doenças cardiovasculares e do diabetes tipo II. Não é um remédio, mas uma substância de alto valor fisiológico”, explica Wilma Turano, professora de nutrição da Uni-Rio. As cientistas descobriram que, além do suco, da laranja também sai farinha. O bagaço desidratado e moído fica parecido com farinha de mandioca e pode enriquecer bolos, massas e biscoitos. Cada cem toneladas de bagaço jogadas no lixo levam junto 17 toneladas de farinha, que poderiam estar alimentando a população.

REMÉDIO NATURAL.

Em uma casa, em Niterói, no Rio de Janeiro, todo o cuidado é pouco com a alimentação. E um legume recebe atenção especial: a berinjela. Nos últimos quatro meses, três vezes por semana tem berinjela no cardápio. Quem nunca experimentou um prato novo por sugestão dos parentes ou dos amigos? Comer algo diferente porque alguém disse que faz bem? No caso das doutoras em Ciência de Alimentos Maria Heidi e Sandra Derivi, o cardápio mudou não porque alguém sugeriu, mas porque descobriram um dos segredos da berinjela. Não foi na cozinha, mas entre os equipamentos do laboratório. Há dois anos as pesquisadoras da Universidade Federal Fluminense estudam a berinjela. Tentavam descobrir os efeitos da pectina na saúde das pessoas. Mas acabaram descobrindo outra substância misteriosa ao fazer uma experiência com as cascas do legume. Uma ração especial feita com elas foi testada em ratos com diabetes. Duas semanas depois, uma surpresa: a saúde das cobaias melhorou. Era como se os ratos nunca tivessem tido diabetes. Agora, as cientistas precisam descobrir qual é a substância misteriosa que parece fazer a berinjela funcionar como um remédio natural. “Ela deve ter uma freqüência grande na mesa dos que são diabéticos, porque a experiência com animais mostrou resultados muito significativos”, acredita Sandra. As pesquisadoras lembram: nem sempre vemos tudo o que está em nosso prato. “A gente não conhece tudo. Ainda existe muita coisa a ser descoberta. Muitas substâncias que talvez tragam benefícios à saúde e que melhorem a qualidade de vida das pessoas. É preciso trazer o almoço para o laboratório”, diz Sandra. Em casa, a professora Heidi vai além: é diabética e decidiu aplicar nela mesma os resultados da pesquisa. “A berinjela pode melhorar muito meu diabetes. Posso atenuar, diminuir com o tempo a medicação e, com isso, ter uma qualidade de vida melhor. É a minha esperança”, comenta a pesquisadora.

ALIMENTOS FUNCIONAIS.

Antes de sair para o trabalho, Eloísa já planeja as refeições do dia inteiro. Guilherme está de volta às piscinas, depois de mudar a dieta, que foi decisiva também para acalmar o irrequieto André. No caso de Beatriz, era uma questão de vida ou morte. O que essas quatro pessoas têm em comum? Precisaram trocar o cardápio para viver melhor. Guilherme sofria com uma dor forte no ombro. Descobriu que o problema estava no leite, consumido em grandes quantidades. Eloísa tinha enxaquecas diárias provocadas por chocolate e iogurte. André parecia ligado na tomada – salgadinhos e refrigerantes eram liberados - e Beatriz teve câncer de mama. “Abria latinhas e vidrinhos de conservas”, conta. Os quatro descobriram, a duras penas, que um prato bem feito pode prevenir e até curar algumas doenças. O licopeno do tomate, o magnésio da alface, o betacaroteno da cenoura. Já imaginou fazer a feira com uma receita médica na mão, encher um carrinho com substâncias que a gente não vê, mas que estão ali, nas frutas e verduras, e funcionam como remédio para o nosso corpo? Fica mais barato do que correr para a farmácia, depois que as doenças aparecem. Isso já é possível graças à ciência dos alimentos funcionais. "Alimento funcional é aquele que traz substâncias que podem prevenir e curar certas patologias, como as frutas, as verduras, os cereais integrais e vários tipos de ervas", explica a nutricionista Joselaine Stürmer. Ela não é médica, mas assina receitas que mudam a vida de seus pacientes. A dor no ombro de Guilherme era resultado de uma tendinite dos repetidos exercícios de musculação. "O leite dava inflamação nas articulações e, por isso, as dores. Ele é um caso bem específico, porque também queria ganhar massa muscular e diminuir o percentual de gordura. Tive que trocar uma proteína por outra. Onde tinha leite e derivados, a gente substituiu por soja e derivados”. Joselaine cortou 30 itens da alimentação de Eloísa, para descobrir a causa da enxaqueca que durante oito anos atormentou a paciente. O chocolate e o iogurte eram os grandes vilões, mas havia ainda um outro motivo. "Tomava café da manhã, almoçava e ficava a tarde inteira sem comer nada e depois só jantava. Isso também pode causar enxaqueca, porque é um intervalo muito grande entre as refeições", diz Eloísa Teixeira, administradora. 20% da população sofre com a enxaqueca, segundo pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo. Eloísa criou nova rotina para manter a dor bem longe. "Todas as manhãs, preparo meu sanduíche, boto na sacolinha com frutas, meus lactobacilos e levo para o trabalho. Às 10h, faço um lanche, como uma fruta", conta a administradora. O almoço ao meio-dia não mudou. Às 15h, lactobacilos e às 17h, mais um lanchinho, sem dar tempo para a dor de cabeça voltar. Há oito meses, André era considerado hiperativo (agitado demais). Os remédios pareciam ser a melhor opção para tratar o menino de 9 anos. A nutricionista Joselaine descobriu o que deixava André agitado: não era a falta de medicamentos, mas o excesso de alimentos inadequados. "Todo alimento condimentado, com conservantes e acidulantes, pode provocar em algumas pessoas essa reação de agito. Muitas bolachas recheadas contêm chocolate, cafeína e o refrigerante também. Diminuímos e até tiramos esses alimentos e introduzimos aqueles que ajudam a acalmar - frutas, verduras, sucos naturais, saladas cruas”, diz a nutricionista. Para André mudar, a família inteira teve que mudar junto. Hoje, a nova dieta não é nenhum sacrifício. Os pais saem para trabalhar e ele faz sozinho o lanche da tarde. Como os salgadinhos sumiram da dispensa, aprendeu novas alternativas. "Antigamente, comia todo dia uma carne bem gorda, uma boa costela. Na hora do jantar vinha um prato bem consistente, com massas, salsichas, de que gostava muito", lembra a advogada Beatriz Cecchim. “Tenho certeza de que essa alimentação contribuiu para o câncer, porque era muito errada, já que baseada em gordura, embutidos e alimentos inadequados", comenta. Durante a quimioterapia, Beatriz percebeu como os alimentos eram importantes para reforçar o organismo debilitado. Quando o tratamento mais pesado terminou, a comida virou prevenção. A salada é o prato de quase todas as noites. Ela dispensa o sal: uma pitada de especiarias é o único tempero. É claro que não vive só de salada. A alimentação faz parte do esforço de Beatriz para ter uma vida mais equilibrada, em todos os sentidos. "O papel da alimentação é me manter saudável, para que a doença não volte. Não tenho 100% de garantia de que não possa ter novamente uma doença séria. Com uma alimentação saudável, essas chances diminuem bastante", observa.

FARINHA ENRIQUECIDA.

Grãos que sustentam a raça humana desde a Pré-História. Há dez mil anos o homem aprendeu a moer o trigo e fabricar essa névoa branca que passou a ser o melhor, mais popular e mais barato alimento da humanidade. Fonte de proteína, carboidratos, gordura e minerais, a farinha de trigo pode ser também a fonte de um milagre: o fim de uma das mais cruéis doenças que uma criança pode ter, a anemia, que não deixa crescer, impede o aprendizado, enfraquece o corpo e às vezes até mata. Esta farinha de trigo parece igual às outras, mas os cientistas fazem o teste e revelam a diferença: ela contém ferro. Mas o que isso significa? No laboratório da Embrapa, que mais parece uma padaria, o pesquisador prepara o que chamam de pão de ferro. Parece pouco, cabe na ponta do dedo, mas 32 miligramas de ferro misturados a cada quilo de farinha têm um efeito poderoso nas pessoas que consomem as coisas que podem ser feitas com ela. Bolos, biscoitos, até o pãozinho feito de farinha misturada com ferro é como se fosse uma pilha nova no organismo. “Terá um benefício notável na saúde: melhores condições de trabalho e maior vontade de estudar. Vai ficar muito mais animado que antes, porque a falta de ferro deixa a pessoa muito cansada, sem vontade de fazer as coisas”, explica José Luis Aschieri, engenheiro de alimentos. Para deixar a farinha mais poderosa, alguns moinhos já usam o sulfato de ferro ou o ferro puro mesmo, em pó. Tão fino, que pode ser absorvido na hora pelo organismo. “O gosto é igual, não existirá nenhuma diferença nas características do produto se o processo for feito adequadamente”, revela o especialista. Os moinhos não gostaram da idéia, poucos aceitaram fazer o teste. No início do ano que vem, todas vão ser iguais. Foi preciso uma lei federal para que os brasileiros tivessem a mesma farinha enriquecida que há mais de seis décadas está na mesa dos países desenvolvidos. A alegria na brincadeira de criança é a prova do milagre que a farinha com ferro pode fazer. Há bem pouco tempo, Larissa não conseguia caminhar. Gabriel não tinha forças nem para se manter acordado, dormia a maior parte do dia. Fizeram parte de uma pesquisa da Embrapa e da Fundação Oswaldo Cruz. Durante nove meses, comeram pães, massas e biscoitos enriquecidos com ferro, além da dieta normal da creche. Depois de três meses, o pó de ferro misturado na farinha transformou as crianças. Gabriel, que era sonolento, acordou para a vida. “Começou a ter melhora na concentração, facilitando o aprendizado. E isso foi comprovado no exame. Tinha uma dosagem de hemoglobina de 10.2 e passou a ter 12.8 e uma quantidade de ferro no sangue normalizada”, conta a nutricionista Ana Paula Rodrigues. Uma solução simples para a anemia, que atinge crianças ricas e pobres de todos os cantos do país. “O que chama a atenção são as taxas extremamente elevadas em crianças menores de dois a cinco anos. Por exemplo, em São Paulo há taxa de 50% em crianças; no Nordeste, chega a 80%”, revela a nutricionista. É um problema para o país. O pó de ferro na farinha foi a força que faltava na vida das crianças. Hoje, Gabriel corre no quintal da casa, se diverte com o irmão e agora não gosta quando chega a hora de dormir. A mãe agradece todos os dias a chegada da farinha de ferro na vida do menino. “A farinha o trouxe de volta para mim e para a vida”, comemora.

LEITE, FONTE DE VIDA.

Touca e maiô. Dona Maria da Glória Soares, de 83 anos, nunca perde os exercícios de hidroterapia. Quem vê a aluna dedicada esbanjando bom humor não é capaz de imaginar o sofrimento que enfrentou por causa da osteoporose. O tratamento que deu vida nova à dona Glória é à base de vitamina D e cálcio. E o médico é o pesquisador e endocrinologista pernambucano Francisco Bandeira. O especialista passou dois anos estudando a principal causa da osteoporose nas mulheres: a carência de vitamina D. Examinou e entrevistou 150 pacientes. Chegou a uma conclusão alarmante: 40% das mulheres entre 50 e 80 anos de idade, no período pós-menopausa, têm deficiência de vitamina D. O diagnóstico também foi confirmado em 20% das mulheres entre 20 e 40 anos de idade. “As complicações da deficiência são perda e fragilidade ósseas e pré-disposição a fraturas”, anuncia o endocrinologista. O organismo obtém a vitamina D através de duas fontes naturais. A primeira é uma alimentação rica em fígado de bacalhau, óleo de fígado de peixes e bacalhau e peixes gordurosos, como salmão e arenque. Quem entende de pescado sabe que nossos peixes quase não têm gordura. Outra alternativa é uma fonte que o Brasil tem de sobra: a vitamina D é produzida quando a pele é exposta ao sol. Mas não é tão simples assim: a partir dos 50 anos a pele vai perdendo a capacidade de sintetizar a vitamina, e as mulheres têm se exposto menos ao sol para evitar o risco de contrair câncer de pele. Resultado: em um país tropical, ensolarado por natureza, a falta de vitamina D nas mulheres já se transformou em um problema de saúde pública. A saída para as mulheres que já estão com osteoporose, segundo o pesquisador, é o consumo de alimentos enriquecidos com vitamina D. O estudo sugere que o leite seja enriquecido durante o processo industrial e já chegue às consumidoras com a dosagem ideal para suprir a falta da vitamina. “O que se recomenda é o enriquecimento dos alimentos de uso diário. Como o leite é recomendado por ser um alimento rico em cálcio, a pessoa vai ingerir os dois nutrientes – cálcio e vitamina D. Isso é um procedimento de custo baixo e tem um resultado do ponto de vista de melhora da saúde da população considerado excelente”, analisa o médico. Com as doses de vitamina D e exercícios, dona Glória voltou a ter uma vida saudável. O difícil agora é encontrá-la quieta dentro de casa. “De repente, passou a ser uma pessoa que está vivendo intensamente todos os momentos da vida”, diz a filha, Vanja Soares.

PITADAS DE SAÚDE.

As ervas, que dão sabor aos nossos pratos, também protegem o nosso corpo. É o que descobriram os pesquisadores do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Além do orégano, estudam as propriedades do alecrim, da linhaça, da canela, especiarias que há muito tempo despertam a curiosidade dos cientistas. "Os egípcios, ao embalsamar as múmias, utilizavam a canela, para impedir o processo de oxidação. Se protegia as múmias, protege também o nosso organismo”, diz Jorge Mancini, farmacêutico bioquímico da USP. No século XV, os portugueses foram ao Oriente em busca de especiarias. "Identificaram que as especiarias, em contato com os alimentos, aumentavam a conservação deles, podiam ser utilizados por mais tempo", conta o pesquisador. Protegem os alimentos e o organismo de quem os consome. Foi o que mostraram os testes de laboratório, feitos com ratos. “Pesquisas com seres humanos ainda estão no início. O que se observa é que a forma natural de consumo é a mais benéfica”, diz Ana Vládia Moreira, nutricionista. A nutricionista dá uma dica para quem pretende usar mais especiarias na cozinha: nunca devem ir para o forno junto com a comida, para que o calor não destrua suas propriedades. Quando outra pesquisa estiver concluída nem será preciso se preocupar com isso. Em vez de pôr orégano no ovo frito, como tanta gente gosta, a farmacêutica bioquímica Maria Helena Bernal resolveu encurtar o caminho: mistura as especiarias na ração das galinhas. Primeiro a linhaça, rica em ômega 3, substância que ajuda a combater o colesterol. Depois, em forma de extrato, o orégano e o alecrim. Uma garantia de que o ômega 3 não vai se perder. Mas enquanto o ovo não vem das granjas já recheado, vale a dica das nutricionistas: para ter os benefícios das especiarias, ninguém precisa exagerar. "Não é necessário consumir demais, quantidade culinária é suficiente", orienta Ana Vládia. Uma pitada de saúde no prato todos os dias.

PÃO SEM GLÚTEN.

O pão é sinônimo de comida desde os tempos da Bíblia. Só que para 500 mil brasileiros não é um alimento para ser levado à mesa, mas um veneno, que pode causar doenças graves, como anemia, osteoporose e câncer. Nildes de Oliveira Andrade é uma dessas pessoas que possuem a doença celíaca. O pão não é a única ameaça. A presidente da Associação dos Celíacos está proibida de comer qualquer alimento que contenha glúten, proteína presente na farinha de trigo. Por lei, os produtos com glúten devem trazer o aviso na embalagem. No laboratório da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Botucatu, a professora Marney Cereda tenta isolar o inimigo número um dos celíacos. Da farinha de trigo, extrai uma massa borrachuda. "É a alma do pão. Parece chiclete e é isso que a gente tem que substituir, no caso de desenvolver um produto que seja adequado aos celíacos", diz. A professora mostra os ingredientes que podem substituir o glúten: “clara de ovo em pó, farinha de mandioca moída e refinada e ainda polvilho azedo, que sai da mandioca e vai substituir o coração do pão, o glúten”. Quem testa a nova fórmula é o nutricionista Luiz Fernando Escouto. "O desafio é compreender o papel do polvilho com sua característica tecnológica, na substituição do glúten. A proporção é o segredo”, observa. O pesquisador quer chegar a uma mistura semipronta, que possa ser vendida para os celíacos prepararem o pão sem glúten em casa, ou em padarias especiais. Dona Nildes foi conhecer o projeto de perto. O novo pão de mandioca é preparado em um ambiente esterilizado, sem contato com farinha de trigo. O pão sem glúten foi para o forno e voltou para a avaliação de dona Nildes. “Há anos que não chego perto de um pãozinho com aparência de pão francês. Está gostoso, só a textura deve ser melhorada, lembra um pouco o pão-de-queijo”, comentou.

O PODER DA PALMA.

No chão seco da Paraíba não nasce nem capim. Quem diria que ia brotar ali planta tão nutritiva? Resistente à pior das secas, a palma já é usada há anos para alimentar a bicharada. As cabras adoram. Malaquias Batista Filho, professor da Universidade Federal de Pernambuco e médico do Instituto Materno Infantil de Pernambuco, descobriu que a salvação do rebanho, no auge da estiagem, pode salvar também vidas humanas, em um lugar onde a comida é cara e escassa. “Nosso grande problema nutricional na região é a deficiência em vitamina A, e, em segundo lugar, de ferro. A palma forrageira é rica em vitamina A, bem mais do que os alimentos convencionais com preço elevado, como repolho, couve, coentro, bertalha, com uma vantagem adicional: não tem agrotóxico”, revela. Malaquias trocou o milho e o feijão pela lavoura de palma. A centenária fazenda da família, no interior da Paraíba, virou um grande experimento. Cacto que não tem espinhos, a palma é fácil de manipular e pode ser a grande saída para as deficiências nutricionais das crianças da região. “Há dois problemas imediatos: a anemia e a deficiência de vitamina A. Estamos aproveitando a merenda para acrescentar vitamina A e ferro”, conta Malaquias. Cortada em fatias e picada, em São Sebastião do Umbuzeiro, a palma entrou para o cardápio da merenda escolar e deixou as crianças mais saudáveis e rechonchudas. O professor Malaquias sabe que a falta de vitamina A pode afetar a visão. Mas não é só isso: ela mina a resistência do organismo das crianças, transformando doenças aparentemente inofensivas em um risco para a saúde delas. Conhecimento científico guardado na universidade não vale nada. Sertanejo da gema, Malaquias quer agora vencer o preconceito e a resistência cultural de seu povo. Na região ainda se pensa que palma só serve para alimentar bicho. Convencer o pessoal de que a planta é comida de gente é a nova obsessão do professor. E mesmo alimentando os bichos, a palma estará melhorando a alimentação humana. A cabra que come a planta produz um leite bem mais nutritivo. Os benefícios da palma não se restringem à vitamina A. O professor descobriu propriedades que podem ajudar os diabéticos. “A palma tem valor hipoglicemiante, pode ser um auxiliar no caso de diabetes”, anuncia. Olhar para a terra seca de São Sebastião do Umbuzeiro e enxergar possibilidades infinitas de combinações culinárias. No cardápio de soluções nutritivas do professor, um produto importado: a avestruz. A ave tem metade do colesterol da carne da galinha, um quarto do colesterol da carne de boi, e é plenamente adaptada ao clima do semi-árido. A avestruz africana pode substituir com vantagens as criações tradicionais do Nordeste. “Criando a avestruz, você utiliza o meio ambiente a seu favor, ao contrário do boi”, conta o professor.

INFORMAÇÕES ÚTEIS.   

FEIJÃO E CALDO DE LEGUMES.

- Lucília Caldas, nutricionista.

Telefone: 031-21-2295-5737 - Ramais: 301/302 (Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio).

- Cozinheiras do Abrigo Tereza de Jesus. Telefone: 031-21-2569-0387.

Como preparar o feijão:

- fervê-lo por 2 minutos (a partir da ebulição),

- deixá-lo de molho por 1 hora,

- atenção: não escorrer a água do molho,

- fervê-lo até cozinhar,

- temperá-lo como de costume.

Purê de cenoura com batata:

- lavar e descascar os legumes,

- cozinhar os pedaços de cenoura e de batata na mesma panela,

- atenção: escorrer os legumes e reservar a água do cozimento (caldo),

- amassar os legumes,

- de volta à panela, acrescentar o caldo do cozimento e duas colheres das de sopa de leite em pó,

- sal a gosto,

- mexer bem até incorporar todos os ingredientes.

FARINHA CÍTRICA:

- Wilma Turano e Simone Boekel, nutricionistas. Telefone: 031-21-2295-5737. Ramais: 301/302 (Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio).

Bolo de laranja—Ingredientes:

- 9 colheres de sopa da parte branca da laranja (albedo) e polpa picados (bagaço),

- 150 g de margarina,

- 4 claras batidas em neve,

- 100 ml de suco de laranja,

- 2 xícaras de chá niveladas de açúcar,

- 2 xícaras de chá de farinha de trigo,

- 1 colher de chá de fermento em pó.

Modo de fazer:

- bater no liquidificador o bagaço picado, a margarina, o suco de laranja e o açúcar até formar um creme,

- bater as claras em neve e reservar,

- misturar levemente, na batedeira, o creme e a farinha de trigo,

- envolver as claras em neve e o fermento em pó na massa,

- colocar para assar no forno, pré-aquecido, por aproximadamente 25 minutos, em temperatura média.

Rendimento: 20 fatias médias.

BERINJELA:

- Sandra Derivi e Maria Heide Marques Mendez, doutoras em Ciência dos Alimentos. Telefone: 031-21-2711-1012. Departamento de Bromatologia da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Berinjela espalmada:

- lavar bem a berinjela,

- partir em fatias finas no comprido, sem separá-las (em forma de leque),

- entre as fatias, colocar rodelas de tomate, cebola, sal, queijo e ervas,

- regar com azeite a gosto,

- levar ao forno até assar.

ALIMENTOS FUNCIONAIS:

- Joselaine Stümer, nutricionista. Telefones: 031-51-3311-0514/3222-1387. Endereço: Rua Dona Laura, 87/205 - Bela Vista – Porto Alegre.

FARINHA ENRIQUECIDA COM FERRO:

- Embrapa - enriquecimento de farinhas, nutrição a preços baixos. Endereço: Avenida das Américas, 29501 – Guaratiba – Rio de Janeiro.

Assessoria de Comunicação: Jornalista João Eugênio Diaz. Telefones: 031-21-2410-7488/9424.2162. E-mail: joao@ctaa.embrapa.br 

- José Luis Ascheri, engenheiro de alimentos. Telefone: 031-21-2410-7449 (Embrapa).

- Rogério Germani, engenheiro químico. Telefone: 031-21-2410-7447 (Embrapa).

- Creche da Fundação Xuxa Meneghel, onde foi testada a farinha. Endereço: Rua Belchior da Fonseca, 1025 - Pedra de Guaratiba – Rio de Janeiro. Telefone: 031-21-2417-1252.

- Ana Paula Rodrigues, nutricionista. Telefone: 031-21-2411-5880.

- Elyne Engstron, médica sanitarista. Telefone: 031-21-2598-2525. Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz. Centro Colaborador de Alimentação e Nutrição.

LEITE ENRIQUECIDO COM VITAMINA D:

- Francisco Bandeira, endocrinologista. Telefone: 031-81-3426-8321 (consultório).

ESPECIARIAS QUE COMBATEM DOENÇAS DEGENERATIVAS:

- Associação dos Celíacos do Brasil. Endereço: Rua Loefgreen, 1596 - Vila Clementino – 04040-002/São Paulo – SP. Telefone: 031-11-5579-5834.

- Jorge Mancini, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Telefone: 031-11-3091-3674. E-mails: fcf@edu.usp.br  jmancini@usp.br 

- Orégano, alecrim e mostarda: antioxidantes testados com a comida.

- Linhaça com orégano e alecrim: misturados à ração das galinhas para produção de ovos com ômega 3, menos suscetíveis à oxidação.

PALMA:

- Malaquias Batista Filho, médico do Instituto Materno Infantil de Pernambuco e professor da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe) – pesquisas alternativas alimentares na região do semi-árido brasileiro. Departamento de nutrição da Ufpe. Telefones: 031-81-3271-8474/8470/8471/8475.

Instituto Materno Infantil de Pernambuco. Telefone: 031-81-3413-2119.

GLOBO-REPÓRTER: EMAGREÇA COM SAÚDE—23 DE MAIO DE 2003.

"GORDO NA ESSÊNCIA". 

Picanha irresistível assando na churrasqueira. Parece não existir imagem melhor para explicar por que o ser humano não se satisfaz só com a comida que alimenta. Queremos prazer na ponta do garfo. Na churrascaria, Fernando Ceylão é cliente dos bons. Comer no rodízio mais farto da cidade para ele é rotina. Mas para o restaurante, a chegada de Fernando é sinal de alerta na cozinha. Fernando justifica tanto apetite. “Quem é gordo não come como todo mundo”, diz. Fernando é escritor e humorista. Troca o dia pela noite e passa madrugadas no computador cercado de super-heróis que lhe dão inspiração. “Tem dias que nem saio daqui”, conta. Uma vida sedentária, sem exercícios e recheada de lanchinhos. Fernando diz que o peso está na cabeça. “Na verdade, não sou só gordo porque estou gordo, tenho cabeça de gordo. Quando perco peso, continuo gordo na essência, penso como gordo”, confessa. “Meu peso é igual idade de mulher, não revelo por nada”, diz. Não gosta de falar do próprio peso - quase 150 quilos. Mas as fotos na porta do guarda-roupa revelam outra pessoa. O mesmo Fernando, com 37 quilos a menos. Uma dieta rigorosa lhe deu três anos do que chama de “vida de magro”. “É uma beleza. Você fica mais seguro, acha que todo mundo está a fim de você. E, realmente, dá mais sorte com mulher”, diz. Mas, aos poucos, voltou a engordar e hoje uma ordem do médico obrigou o humorista e pensar de novo em regime. A dieta já foi adiada três vezes. Esta é mais uma tentativa. Em busca de uma solução para o excesso de peso, o humorista foi conhecer a dieta da doutora Jane Corona. Desfilando por um labirinto de pratos apetitosos, foi recebendo sugestões, ouviu conselhos, comeu salada e... “Está muito sem graça”, disse. “É muito difícil começar a fazer dieta porque alguém o convenceu”, afirma. Hoje Fernando vive um dilema: de um lado, o prazer da comida; do outro, uma vida bem mais saudável. “Acho que vou ganhar essa guerra. Já venci uma vez, vou vencer de novo”, declara.

DIETA DO "VALE-TUDO". 

Situação comum para quem tem excesso de peso: o aviso pode vir dos amigos, da família e até dos médicos. E, às vezes, nem precisa de aviso: quem fica gordo acaba percebendo quando chega a hora de começar a emagrecer. É aí é bom saber que dá para trocar a tentação da comida que engorda por alimentos que ajudam a emagrecer de maneira bem mais saudável, sem que necessariamente seja preciso passar pelo sacrifício da fome. Perder peso comendo de tudo é o que promete a nutróloga Jane Corona. Quer que seus pacientes emagreçam de barriga cheia. “A dieta boa é aquela em que se sai da mesa sem fome”, diz a especialista. Comer bastante os alimentos certos sem cortar o que dá prazer. O segredo da dieta do "vale-tudo" é encaixar as peças certas no quebra-cabeças do prato. Os alimentos obrigatórios são divididos em grupos com nomes esquisitos. Os "termogênicos" obrigam o organismo a gastar energia, queimar calorias. Ela recomenda o açafrão e as sementes de gergelim, papoula e linhaça. Os "monoterpenos" reduzem o apetite (hortelã, broto de alfafa, limão, laranja, tangerina, maçã). E não podem faltar os "pré-bióticos" (cebola, banana, trigo), que melhoram a digestão e alimentam a flora intestinal. Quem diria que até uma vilã das dietas está liberada pela doutora. “A batata contém substâncias que diminuem a ansiedade da pessoa que está acima do peso. Normalmente o obeso é uma pessoa ansiosa, tem necessidade de estar toda hora colocando um alimento na boca”, explica. “Se aquilo que dá prazer a uma pessoa é o arroz, como vai conseguir mudar esse hábito alimentar? O arroz tem que ser trabalhado de maneira que a pessoa possa comê-lo. Então, a gente faz arroz de lentilha e de ervilha”, diz a especialista. Ou seja, é possível emagrecer comendo bastante. 

MUSCULAÇÃO DIGESTIVA. 

Os quilinhos a mais não vêm só do prato mal feito. Luciana Alves das Chagas ganhou 15 quilos quando ficou grávida da primeira filha. Procurou ajuda do médico Décio Luís Alves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que receita uma dieta à base de cálcio e fibras. Uma combinação que obriga o estômago e o intestino a trabalharem mais. “Digamos que seja assim, uma musculação digestiva. Isso aumenta o calor do corpo, você queima mais calorias e gasta muita energia para consumir essas fibras. Isso junto, acelerando o metabolismo com o cálcio, é que faz o emagrecimento”, explica o médico. “O melhor é consumir leite, iogurte, caroço de tomate. Essas coisas, que têm muito cálcio, vão ajudar, junto com as fibras", ensina o especialista. Em seis meses, Luciana recuperou a silhueta de recém-casada. Mas não foi fácil. Além da "forcinha" a mais exigida do sistema digestivo, o cardápio também mudou. “Agora tem legumes, frutas, suco, iogurte”, conta ela.

POÇÃO ENERGÉTICA. 

Outra mistura poderosa promete acabar com aquela fome que aparece antes do almoço e estraga qualquer regime. Uma espécie de poção energética. “Maçã, banana, salsinha ou alfafa, gérmen de trigo, semente de linhaça, isso tudo ajuda a aumentar o metabolismo, a queimar gordura”, revela a nutróloga Jane Corona. A receita veio de um antigo livro de nutrição, que Jane adotou e repassou para suas pacientes. O efeito poderoso mudou a vida da psicóloga Graça Souza Leão. Cheia de energia, hoje trabalha como voluntária ajudando crianças de uma comunidade pobre. Mas há seis anos o cansaço tomou conta de um corpo submetido à pior das combinações: vida agitada e má alimentação. Sete quilos a mais e o alarme tocou. A mudança na dieta foi radical. A alimentação baseada em sanduíches comprados na rua foi toda substituída por coisa mais nutritiva. Resultado: não foi só a comida na mesa que mudou. “A vitamina me deu muita vitalidade, outra disposição para viver. A dieta mudou a minha vida, hoje tenho um dinamismo saudável”, afirma Graça.

COMBATE À DIABETE. 

Já faz quatro anos que a auxiliar administrativa Yvette Monteiro toma remédio diariamente, por causa da diabete. A taxa de açúcar no sangue já chegou a 362, considerada um risco. O normal é entre 90 e 110. Com a taxa alta, os sintomas são imediatos. “Coceira nos olhos, muita sede, vontade de urinar e muita fome”, conta. Para controlar a glicose, dona Yvette precisou trocar os doces, sorvetes e salgadinhos por pratos mais saudáveis. “alfacinha, cebola, tomate e pimentão em grande quantidade. Não posso misturar no mesmo dia macarrão, arroz e batata”, ressalta dona Yvette. “Nunca experimentei remédios naturais, mas gostaria. Não custa nada, para poder comer um pedacinho de pudim, um sorvete”, comentou. Se era isso que dona Yvette queria, já tem. Foi uma das primeiras a testar um produto natural, a farinha de maracujá, criada para controlar a taxa de açúcar no sangue. Um teste rápido mostrou que a taxa de glicose estava alta. Mesmo com remédios e cuidados: 175. O quadro é perfeito para a farinha de maracujá. A casca da fruta, que normalmente é jogada fora, na Faculdade de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é material nobre. É rica em uma substância chamada pectina. “A pectina é uma fração de fibra solúvel. No organismo, forma um gel. No caso da diabete, dificulta a absorção de carboidratos de uma maneira geral, inclusive da glicose”, revela o doutor em alimentos da UFRJ Armando Sabba Srur. A farinha já foi testada em ratos, com bons resultados. O preparo é no laboratório. Depois de lavar e retirar toda a polpa e as sementes, a casca é cortada e levada ao forno para torrar. A casca de maracujá é triturada e peneirada. Estava pronta a farinha que dona Yvette ia levar para casa. O professor ensina como a farinha deve ser usada. “Durante as refeições. No café da manhã, almoço, jantar, pode-se colocar uma ou duas colheres de sobremesa no leite ou no suco e beber”. Em casa, dona Yvette cumpriu à risca. Durante quatro dias, três vezes por dia, tomou a farinha de maracujá. O teste de sangue mostrou que a taxa baixou de 175 para 148. Um resultado comemorado por ela. “Nunca tinha chegado a esta taxa depois que descobri o diabete”, diz. “Vou incorporar a farinha de maracujá a minha alimentação”, anuncia dona Yvette. Para o pesquisador, a queda na taxa de glicose mostra que a farinha de maracujá cumpriu o seu papel. Mas alerta que ela não cura o diabete. “Se parar de usar, a taxa volta a ficar como era”, ressalta.

NATUREZA: FONTE DE INVENÇÕES. 

Se depender do professor Armando Sabba Srur, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não vai faltar produto diferente para dona Yvette provar. Ele é uma espécie de Professor Pardal - descobre utilidade para tudo, principalmente para partes de alimentos que costumam ir para o lixo. Foi assim com o sabugo de milho, que até agora só era usado em ração animal. Com a ajuda dos alunos de nutrição, o professor descobriu que o sabugo é riquíssimo em fibra e podia ser uma boa indicação para quem tem prisão de ventre. A palha e os grãos não interessam na experiência. O sabugo é cortado em pedaços e levado ao forno para secar. A farinha do sabugo de milho não é solúvel, não se dissolve na água ou no leite. A melhor forma é usá-la em receitas de bolos, de massas de pizza, por exemplo. O professor Sabba preparou um biscoito com a farinha do sabugo de milho. A experiência foi feita em uma fábrica de biscoitos na Região Serrana do Rio. Leva manteiga, açúcar, farinha de trigo, ovos e a farinha do sabugo. O biscoito é crocante e o sabor não decepciona quem experimenta. A criação do professor foi aprovada no sabor e também como fonte de fibra, para ajudar no funcionamento do intestino. “As fibras, tanto do sabugo quanto da casca do maracujá, são excelentes fontes de fibras, nutrientes e sais minerais. Não podemos abusar deles, mas não há nenhuma contra-indicação”, diz o médico Sérgio Puppin. Uma vitória para o nosso Professor Pardal dos alimentos, que não se cansa de buscar na natureza a fonte de suas invenções.

SUBSTITUTO “LIGHT” DA GORDURA. 

Arrancar mandioca não é fácil, mas o resultado do esforço é recompensado na mesa. “Podemos preparar muitos pratos com ela. Alguns, nem conhecemos”, diz o agricultor Abelardo. Tem razão. O que pouca gente sabe é que a mandioca, tão popular, pode render muito mais que antigas e deliciosas receitas. Quando é retirada da terra e faz o caminho até os laboratórios de pesquisa, a velha mandioca pode se transformar em produto do futuro, virar alimentos, aditivos, complementos, coisas que o povo da roça – e mesmo o povo da cidade – nunca imaginou. A transformação acontece no laboratório de engenharia de alimentos da Universidade de Belo Horizonte (Uni-BH). O gel do amido da mandioca é um produto criado para substituir a gordura. E deu muito trabalho. Foram quatro anos de pesquisas até acertar o ponto. “É difícil, porque a gordura, além de saciar, confere cremosidade, textura, volume e brilho aos alimentos. Tentamos fazer um amido modificado, que conseguisse imitar a gordura na maioria dessas características”, explica a engenheira de alimentos da Universidade de Belo Horizonte Maria Aparecida Teixeira. Na maionese, o risco diminui bastante. Na receita, a pesquisadora substituiu metade da gordura pelo gel da mandioca. A maionese da mandioca passou no teste. O esforço agora é fazer com que o gel que substitui a gordura possa ser usado pela indústria em muitas outras receitas. Trabalhando na roça de mandioca, seu Abelardo comemora a descoberta e pensa no futuro dos negócios. “Depois o preço deve melhorar, porque vai ter consumo. Todos que plantarem vão faturar”, avalia o agricultor.

FIBRA DE LARANJA. 

Pães, bolos, delícias saindo do forno a todo instante. Na padaria da faculdade de engenharia de alimentos da universidade de Campinas (Unicamp), tudo é preparado para agradar ao paladar e melhorar a saúde. “Tem que ser saboroso e ter uma textura adequada, senão vira remédio, que ninguém gosta de tomar”, comenta a nutricionista da Unicamp Maria Aparecida da Silva. E para fazer o gostoso saudável também lá sai a gordura e entram substitutos. Adicionar fibras a todas as receitas também é parte da luta para reduzir a gordura no organismo. A da laranja, qualquer um pode fazer em casa. 

O PODER DOS GRÃOS. 

Analisando o poder do feijão carioca, cientistas constataram que o grão ajuda a eliminar o colesterol. “O maior destaque do feijão é a capacidade que tem de reduzir a gordura sangüínea, especialmente o colesterol”, observa o doutor em química da Universidade de Campinas (Unicamp) Admar Costa de Oliveira. O feijão, a ervilha, o grão-de-bico e a lentilha vêm sendo estudados no laboratório da Unicamp. Transformados em pó, alimentam as cobaias que ajudaram a elaborar a lista dos campeões da saúde. “O grão-de-bico, embora não seja um alimento amplamente divulgado entre a população, possui um valor nutritivo de proteína bem maior que os outros três. Isso foi uma surpresa para nós”, conta o especialista.

YACON.   

A raiz parece batata, tem um leve gosto de pêra e é bem suculenta. É o yacon. “O yacon é uma raiz originária dos Andes que já pode ser encontrada no Brasil, mas ainda é pouco conhecida”, diz a engenheira de alimentos da Universidade de Campinas (Unicamp) Fernanda Ventura. “A raiz tem propriedades interessantes: diminui a absorção de açúcares, de gordura, reforça o sistema imunológico, previne alguns tipos de câncer e aumenta a absorção de sais, como cálcio, ferro e magnésio”, destaca a pesquisadora. Não é à toa que decidiu encontrar um jeito saboroso de aproveitar todos esses benefícios. No laboratório de engenharia de alimentos da Unicamp, Fernanda criou uma supergeléia. “Foram misturados yacon, acerola e goiaba. Essa geléia não tem adição de açúcares, é de baixo valor calórico. Mas a dona de casa pode preparar a geléia com açúcar. Basta misturar a proporção de 50% de frutas e 50% de açúcar tradicional e levar ao fogo para fazer o cozimento como de costume”, explica. E se a idéia é buscar sabor e saúde, por que não experimentar? “Devemos mexer com essas coisas, já que isso faz bem à saúde”, comenta o agricultor Abelardo.

OBESIDADE E CÂNCER. 

Quem está acima do peso corre muito mais risco de morrer de câncer. O alerta acaba de ser divulgado pela Sociedade Americana de Câncer, ao fim de uma pesquisa que acompanhou 900 mil americanos ao longo de 16 anos. Segundo Jill de Marco, porta-voz da organização, o risco é maior para as mulheres. A probabilidade de que elas morram de câncer pelo excesso de peso é mais alta: 60% acima do risco normal. Os homens com excesso de peso também correm mais risco de morrer de câncer: 50% mais que os homens de peso regular. Os números da pesquisa são impressionantes: a cada ano, 90 mil americanos morrem de câncer por estarem acima do peso. Já se sabia que a obesidade pode causar diabetes e problemas cardiovasculares. Agora está provado que também aumenta o risco de vários tipos de câncer. O médico Louis Aronne, do New York Presbyterian Weill Cornell Medical Center, explica por que as pessoas gordas desenvolvem mais tumores que as magras. “É que as células de gordura produzem hormônios como a insulina, que provocam a reprodução desordenada das células, o que pode levar ao câncer”, diz. Isso vai depender, além do peso, do perfil genético da pessoa. Para a maioria, os muitos quilos a mais não vão necessariamente levar ao câncer. Mas como ainda não há como saber quem tem ou não a predisposição genética ao câncer, é melhor prevenir reduzindo o peso. Para os obesos, aqueles com peso 30% acima do normal, o doutor Aronne tem obtido sucesso com um novo enfoque: o controle do apetite através do café da manhã. A dieta é simples: evitar no café da manhã alimentos que contenham amido e açúcar, como cereais, pães, gelatina ou qualquer doce, sucos, refrigerantes e frutas doces como banana e maçã. Tudo isso eleva o açúcar no sangue, produz insulina e abre o apetite. Vai sentir mais fome durante o dia e comer. Segundo o doutor Aronne, os gordos devem comer no café da manhã alimentos ricos em proteína, como queijo, ovos, presunto, frutas ácidas como o abacaxi e limonada sem açúcar. Segundo ele, quem segue essa dieta sente menos fome durante o dia e perde mais peso. Mas o doutor Aronne adverte que só as pessoas que estão muito acima do peso devem fazer dietas rigorosas porque têm a saúde em risco. A dieta rica em proteínas não é saudável para pessoas que têm peso normal.

TRABALHO PREVENTIVO. 

No Brasil, antes que surjam os efeitos devastadores da obesidade, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) está ensinando à população a se prevenir contra a doença. Comida saudável, sem exagero na gordura, passou a fazer parte do currículo escolar. A merenda agora tem pratos bem coloridos, recheados com legumes, e salada de fruta de sobremesa. O que antes era recebido de cara feia hoje é devorado com prazer. Em Cordeiro, na Região Serrana do Rio, a Secretaria de Saúde recebeu treinamento do Inca e repassou aos professores de escolas públicas e particulares. Falar em prevenção é começar a pensar em se cuidar o mais cedo possível. O primeiro alvo do programa é a criançada que nem aprendeu a ler ou escrever, mas já sabe o que a alimentação pode fazer pela saúde. São elas a grande esperança do programa de prevenção. São quase cinco mil alunos empenhados em cuidar da própria saúde e ensinar aos pequenininhos. Uma lição saborosa aprendida rapidinho. “Maçã, abacaxi, banana, pêra faz bem à saúde”, diz Jorge Manoel Júnior, de 3 anos. Mexer na terra e cultivar a horta é atividade que mobiliza a escola inteira. “As crianças, os adolescentes, todos têm uma consciência clara dos fatores de risco de câncer. A mudança virá com o tempo. Acreditamos que isso vai reduzir o quadro de câncer no município”, comenta Gláucia Gonçalves, coordenadora do programa em Cordeiro. Da escola para casa, o programa vai ganhando seguidores. Alessandra precisou se adaptar às novas exigências dos filhos. Plantou alimentos escolhidos pelas crianças. Segundo os médicos, essa mudança de hábitos pode ser o diferencial para evitar o câncer. “No caso do câncer, as pesquisas mostram que a influência do meio ambiente é maior do que a genética. Muitas vezes a predisposição genética dá suscetibilidade maior a determinados agentes cancerígenos do meio ambiente. Se você evita, diminui o risco”, explica a chefe do programa de prevenção do Inca, Tânia Cavalcanti. A ex-ferroviária Sandra Teixeira sabe bem o que é essa sensação. Assistiu à morte da mãe, da tia e da irmã mais nova, todas vítimas de câncer de mama. E não foi poupada pela doença. Um tumor no seio esquerdo foi o primeiro sinal para pedir socorro. Queria saber por que teve tantos parentes com a mesma doença. No Instituto Nacional do Câncer foi encaminhada para o aconselhamento genético, feito apenas nos parentes de pacientes. O exame de sangue confirmou: ela tem uma alteração hereditária no código genético que provoca câncer. O diagnóstico e a história de tragédias da família serviram para que Sandra reforçasse alguns cuidados com a saúde. Segundo os médicos, ela tinha muitas chances de trilhar o mesmo caminho da mãe, da tia, da irmã. A opção foi fazer algumas mudanças e investir na qualidade de vida. Umas das principais preocupações passou a ser a alimentação. “Passei a comer mais legumes, mais verduras, a beber mais suco natural”, conta ela. O cigarro já tinha sido abandonado. Faltava acabar com o estresse, substituído por sessões de crochê. O exercício físico é cumprido levando as netas para a escola. Já são três anos desde que a doença foi controlada. “Faço a minha parte. Procuro me alimentar, fazer o melhor por mim mesma. Resolvi que a saúde é a principal coisa desse mundo. Se a gente não tem saúde, não tem nada”, conclui Sandra.

OS PERIGOS DO ESTRESSE. 

Passos rápidos, suor e olhares determinados. Parece uma procissão em busca do corpo ideal. Vontade de emagrecer que pode esbarrar em um inimigo poderoso: o prazer que existe em um bom prato de comida. “Às vezes o organismo não está precisando de alimento e a pessoa come, por isso engorda. Engorda porque come muito mais do que o organismo precisa. E come por quê? Come por angústia, ansiedade, tensão. O alimento passa a ser uma espécie de alimento do espírito”, observa o médico psicanalista Luiz Alberto Py. Em 2001, o Globo Repórter mostrou o gerente comercial Carlos Antônio Ferreira, um homem ansioso, de vida agitada e com o estresse à flor da pele. Um dia, o médico avisou: Carlos tinha um estilo de vida que desajustou o sistema hormonal e fez disparar o peso na balança. A luta para emagrecer começou na mesma semana, com muitas promessas. Chegou a perder 37 quilos. Dois anos depois, a equipe do programa encontrou Carlos novamente. Abandonou a dieta, engordou de novo e parece mais estressado do que nunca. “Quero morrer, estrangular-me”, diz. “O estresse é, provavelmente, um dos grandes mecanismos de engorda. Algumas pessoas são mais sensíveis a ele do que outras”, observa Amélio de Godoy Matos, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. A solução definitiva para o emagrecimento ainda não existe, mas a ciência já tem pistas. Os cientistas sabem que o intrincado jogo de hormônios e substâncias químicas agem no cérebro, fazendo aparecer e desaparecer a sensação de fome. Já foram identificadas pelo menos 12 substâncias que trabalham assim. O problema são as ordens que o cérebro dá para que se coma mais, ou menos. Dependem também do tipo de vida que cada um leva. A genética humana não ajuda. A natureza nos construiu para acumular gordura. Mas, na vida moderna, não precisamos mais caçar o alimento. O conforto dos equipamentos e da vida urbana nos leva à vida sedentária, ao estresse inevitável. “O estresse aumenta a cortisona, e a cortisona aumenta a gordura na região do abdômen, a famosa barriguinha. As pessoas que tendem a engordar mais na barriga são provavelmente mais suscetíveis à ação do stress”, explica o doutor Godoy. Carlos sabe que compensa com comida o estresse do dia-a-dia. No ano passado, sofreu com a perda do pai. Desde então, sente que só a força de vontade não é suficiente para emagrecer. “Necessito de uma terapia para descobrir a ansiedade que gera essa depressão que me faz comer”, diz o executivo. Todos os dias, Carlos é vencido pelas forças químicas e psíquicas que agem em seu corpo. O bombom dá prazer. "É muito bom para tirar o estresse!", diz. A geladeira o ampara. “A porta da geladeira é uma tentativa de saída da depressão, mas é, ao mesmo tempo, a porta de entrada da obesidade”, ressalta o psicanalista. “Estou perdendo a coisa mais natural que tenho, a alegria. É complicado, como ser humano, admitir que estou deixando de ser alegre para ser triste”, diz Carlos. Mas não desiste. Um novo exame de sangue indicou glicose e colesterol acima do normal no seu organismo. “Pode resolver o problema dele, e vai conseguir”, afirma o doutor Godoy. “Não posso continuar gordo, porque senão vou abreviar minha vida”, ressalta Carlos.

EXCLUSIVO: RECEITAS. 

- Jane Corona, nutróloga - dá as dicas dos tipos de alimentos e faz o drinque para ajudar no regime. Telefone: 031-21-2496-3768 (consultório).

- Divisão dos alimentos da dieta elaborada pela nutróloga Jane Corona:

TERMOGÊNICOS - obrigam o organismo a gastar energia, queimar calorias: açafrão, sementes de gergelim, papoula e linhaça.

MONTERPENOS - reduzem o apetite: hortelã, broto de alfafa, limão, laranja, tangerina e maçã.

PRÉ-BIÓTICOS - melhoram a digestão e alimentam a flora intestinal: cebola, banana e trigo.

COQUETEL PREPARADO PELA NUTRÓLOGA JANE CORONA PARA AJUDAR NA DIETA.

Ingredientes:

1 maçã cortada em pedaços,

1 banana cortada em rodelas,

1 colher de sopa de gérmen de trigo,

1 colher de sopa de semente de linhaça,

1 punhado de salsinha ou de broto de alfafa,

1 copo grande de água.

Modo de fazer:

Bater todos os ingredientes no liquidificador e servir.

- Décio Alves, médico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - fala do cálcio e das fibras. Telefone: 031-21-2496-3768.

- Professor Armando Sabba (Professor Pardal), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - dá receitas para combater diabetes e prisão de ventre. Telefone: 031-21-2562-6449. E-mail: sabaa@nbe.ufrj.br 

FARINHA DE CASCA DE MARACUJÁ PARA BAIXAR A TAXA DE AÇÚCAR NO SANGUE.

Ingrediente:

Maracujá.

Modo de fazer:

Lave bem o maracujá. Tire as sementes e a polpa. Conserve a casca e corte-a em pedacinhos. Seque no forno e depois triture no liquidificador.

Coma 1 a 2 colheres de sobremesa, a cada refeição, misturada na comida ou no suco.

FARINHA DE SABUGO DE MILHO PARA MELHORAR A PRISÃO DE VENTRE.

Modo de fazer:

Limpe o sabugo de milho, tirando os grãos e conservando o sabugo. Corte-o em fatias finas e leve ao forno para secar. Triture no liquidificador e use a farinha para produzir biscoitos.

- Biscoitos James – fábrica de biscoitos de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, onde foram feitos os biscoitos experimentais. Endereço: Avenida Portugal, 880 – Valparaíso. Telefones: 031-24-2231-6612/2231-6630.

- Sérgio Puppin, cardiologista - fala do benefício das fibras. Telefone: 031-21-2543-9666.

- Maria Aparecida Teixeira, engenheira de alimentos da Universidade de Belo Horizonte (Uni-BH) – prepara maionese “light”, que substitui a gordura por amido de mandioca. Telefone: 031-31-3891-3301.

- Maria Aparecida Silva, nutricionista - prepara farinha da laranja na padaria da Universidade de Campinas. Telefone: 031-19-3788-4074.

FARINHA DA LARANJA, RICA EM FIBRAS, PARA AJUDAR NA REDUÇÃO DO COLESTEROL E FUNCIONAMENTO DO INTESTINO.

Modo de fazer:

Descascar a laranja, espremer o suco e conservar o bagaço. Bater o bagaço com água no liquidificador. Coar bem e depois enxaguar o bagaço que ficou no coador, para retirar o excesso da essência de laranja. Tirar o bagaço da peneira, levar ao forno baixo para secar.

Usar como farinha para enriquecer com fibras bolos, pães e biscoitos.

- Fernanda Ventura, engenheira de alimentos da Universidade de Campinas (Unicamp) - fala sobre o yacon. Telefone: 031-19-3788-4006.

GELÉIA DE YACON - PARA AJUDAR NO REFORÇO IMUNOLÓGICO.

Ingredientes:

Polpa de goiaba, acerola e yacon.

Modo de fazer:

Misturar as polpas de goiaba, acerola e yacon (por exemplo, metade goiaba e a outra metade misturar acerola e yacon). Se não tiver goiaba e acerola, pode usar yacon e a fruta que tiver em casa. Misturar 1/2 quilo de polpas de frutas e 1/2 quilo de açúcar. Levar ao forno até dar a consistência de geléia.

- Dr. Admar Costa de Oliveira – faz pesquisa com grãos na Universidade de Campinas (Unicamp). Telefone: 031-19-3788-4077.

- Controle do apetite através do café da manhã – receita do médico Louis Aronne, do New York Presbyterian Weill Cornell Medical Center. Evitar, no café da manhã, alimentos que contenham amido e açúcar, como cereais, pães, gelatina ou qualquer doce, sucos, refrigerantes e frutas doces como banana e maçã. Segundo o doutor Aronne, os gordos devem comer no café da manhã alimentos ricos em proteína, como queijo, ovos, presunto, frutas ácidas como o abacaxi e limonada sem açúcar. Os homens gordos têm mais chance de sofrer de câncer do estômago e da próstata. Entre as mulheres, aumenta o risco de câncer de seio, útero e ovário. Tanto homens quanto mulheres acima do peso estão mais expostos ao câncer no esôfago, intestino, fígado, pâncreas, bexiga e rim.

- Gláucia Gonçalves, coordenadora do programa de prevenção do câncer em Cordeiro, Região Serrana do Rio. Telefones: 031-22-2551-1293/2551-0012 - Secretaria Municipal de Saúde.

- Tânia Cavalcanti, responsável pela campanha do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para prevenção do câncer nas escolas. Telefone: 031-21-3970-7400.

- Dr. Luís Alberto Py, médico psicanalista - fala da influência da ansiedade na obesidade. Telefone: 031-21-2274-7507.

- Dr. Amélio de Godoy Matos, endocrinologista - trata do paciente Carlos Antônio Ferreira e fala sobre os hormônios do apetite. Telefones: 031-21-2266-2553/2579-0291/2579-0292.

GLOBO-REPÓRTER: VIVER MAIS E MELHOR—2 DE OUTUBRO DE 2003.

QUALIDADE DE VIDA.

No mesmo salão, no mesmo ritmo, passam jovens casais e outros, mais vividos. Música e dança diminuem a distância entre eles - unem o que o tempo separa. “Dançar para mim é receita médica”, diz dona Cecilia Gehrard. “Um médico recomendou que dançasse por causa da coluna”. O baile da noite anterior faz o dia amanhecer lento na pequena cidade, a 120 quilômetros de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Protegidos pelas montanhas, estariam guardados na região os segredos da longevidade? Colinas é a cidade brasileira com a maior concentração de idosos. Mais de 21% dos 2,5 mil habitantes - um em cada cinco moradores. O retrato do Brasil nos próximos anos. Nós, que fomos o país do futuro, agora nos descobrimos envelhecendo. Viver mais já é um sonho possível. Hoje, quase 16 milhões de brasileiros já passaram dos 60 anos. Daqui a duas décadas seremos 32 milhões. O desafio é chegar lá com saúde, vitalidade e vontade de viver. Vigor é o que não falta a Eldo Scholler, alfaiate aposentado que não aposentou a tesoura. Hoje, cria esculturas nos jardins que enfeitam as ruas de Colinas. Casado com dona Loiva, com filha e netos morando em outra cidade, Eldo ainda tem disposição para construir brinquedos, reinventar a própria vida. “Quando trabalhamos, estamos felizes”, comenta Eldo. “Também gosto”, diz dona Loiva Scholler. “Ele está mais do que correto e deve viver isso intensamente”, recomenda a biogerontóloga Ivana da Cruz. “Se ao longo de nossas vidas buscarmos com nosso trabalho e nossas relações familiares outros tipos de atividade que nos dêem prazer, quando formos mais velhos, as trocas serão amenas e muito mais um prêmio do que um castigo”, avalia a especialista. A maioria dos moradores de Colinas é de origem alemã e vive no campo. Dona Emília e Carlos Klein já comemoraram 65 anos de casados. Klein tem 88 e não pára de trabalhar. “Tem muita gente que pensa que sou velho, não posso trabalhar mais, mas não sou. Gosto de trabalhar”, afirma Klein. Perto dali, Ilmo Horst e a mulher saem juntos para a lavoura todas as manhãs. Vão cuidar das plantações de mandioca e feijão. Gostam do que fazem. Com o que produzem, conseguem um dinheirinho extra, que complementa a aposentadoria. “Às vezes, sentimos o cansaço, é verdade. Mas depois diminui”, conta Horst. “Não me imagino parado, sem fazer nada”. “A princípio, a atividade física faz muito bem para a saúde. Infelizmente, no Brasil, a expectativa de uma vida saudável é de 56 anos de idade. Com essa idade, 50% da população já tem pelo menos uma doença estabelecida – hipertensão, diabetes, colesterol alto - e isso é muito ruim”, diz Ivana da Cruz.

RECEITA DA LONGEVIDADE.

Na boa alimentação, está a principal receita para evitar as doenças. Ou, pelo menos, fazer com que elas apareçam bem mais tarde. “A gente come feijão, arroz, carne, aipim, batata, tudo o que se colhe em casa”, conta Horst. “Comi coisas como cheesburguer e cachorro-quente uma outra vez”. Ter à mesa um alimento saudável é um privilégio que não atinge a maioria dos idosos brasileiros. Uma pesquisa feita pela Universidade de Campinas (Unicamp) na Universidade da Terceira Idade de São João da Boa Vista, em São Paulo, revelou que os mais velhos não se alimentam bem. O estudo acompanhou 94 mulheres, com idade entre 55 e 83 anos. A conclusão é de que 60% comiam mal. “Comia muita fritura. Adorava um pastelzinho, uma coxinha de galinha”, conta a aposentada Maria José dos Santos Rodrigues. Os olhos de dona Francisca Krause brilham quando fala do torresminho que adora preparar. “Ele fica crocante. Você vai mordendo e fazendo aquele barulhinho gostoso... É uma delícia! Com mandioca cozida, então...”, ressalta dona Francisca. Extravagâncias à parte, o problema é falta de nutrientes básicos, aqueles de que todos precisamos e que nem sempre aparecem nas refeições do dia-a-dia. “Falta quantidade adequada de leite ou derivados, por conta do cálcio. Por isso, temos muitos problemas de osteoporose no grupo de idosos. Foi constatado que somente 6% das idosas consomem carne duas vezes por semana, o que pode causar problemas como anemia, carência de proteínas e outros problemas futuros”, revela a mestre em nutrição da Unicamp Gláucia Navarro Ruga. E qual seria, afinal, a refeição ideal para quem tem mais de 60? Exatamente a mesma de quem tem menos de 60. Deve incluir carboidratos, proteínas e fibras, que ajudam a regular o intestino. “Agora que aprendi a comer, pareço uma menina. Pratico esportes, jogo vôlei, faço mil e uma coisas”, garante dona Maria José.

ENVELHECER SEM ESQUECER.

Corpo sadio, mente lúcida. Na busca desse equilíbrio, os idosos ainda têm de driblar o terrível problema da falta de memória. Quem já não experimentou? No Brasil, 1,2 milhão de pessoas sofrem da mais comum das doenças degenerativas do cérebro: o Mal de Alzheimer. Mas, envelhecer é esquecer? Quando os adultos devem se preocupar com esses lapsos? “Quando notam, por exemplo, a incapacidade de lembrar o nome ou o rosto de pessoas que lhe são importantes - o rosto de um grande amigo ou o rosto do filho”, anuncia o professor titular em neuroquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ivan Izquierdo. Mas, calma: ninguém precisa ficar em pânico quando deixa a carteira em casa, por exemplo. “Quanto mais ocupados sejamos, mas vamos esquecer, temos mais coisas em que pensar e isto não é uma coisa importante”, diz o professor. Conselho de um dos maiores especialistas no assunto: assim como a ginástica é importante para manter o corpo a mente também precisa de exercício. “E a melhor forma de se exercitar é pela leitura, porque a leitura ativa ao mesmo tempo várias memórias”, explica Izquierdo. Feliz de quem pode visitar a memória como se fizesse um passeio pelo porão da casa: reencontrar objetos, cultivar lembranças, misturar passado e presente. “Lembro-me de tudo, recito poesias de quando era adolescente, canto coisas de quando era menina. Desculpem-me, mas não me sinto uma mulher de 71 anos”, diz a musicista Ivone Pacheco. Esta gaúcha de 71 anos casou muito cedo. Teve três filhos e depois de uma separação difícil e muitas angústias deu uma guinada na vida. Com quase 50 anos, passou a se dedicar inteiramente à arte que aprendeu na infância. “Quero esquecer o passado, mas só as coisas ruins. Na memória, guardo as coisas boas, como, por exemplo, a música”, diz dona Ivone. Ivone criou um clube de jazz em Porto Alegre, onde mora. Revirou o baú de memórias e hoje divide o palco com músicos de todas as idades. Eterna, como uma estrela. “A carcaça, a matéria, a forma de caminhar, o tombo, as doenças, isso envelhece. Mas o espírito não”, ressalta a musicista.

CUIDADOS ESPECIAIS.

Para os especialistas, uma velhice saudável é mesmo a eterna juventude tão perseguida pelos sonhadores. Não começa aos 60, nem aos 40, mas aos 20 anos. Alguns conselhos para quem quer chegar lá de bem com a vida: cuidar da pele. Uma vez por mês, faça um exame diante do espelho. “Ver se não tem nenhuma mancha ou feridinha que não está cicatrizando”, orienta a biogerontóloga Ivana da Cruz. Nunca esquecer o protetor solar. Usar óculos escuros em ambiente de muita luz evita a catarata. Consumir pelo menos cinco tipos de frutas ou vegetais a cada dia. Tomar muita água limpa hidrata o organismo. Dormir bem: o sono tranqüilo é um dos segredos da longevidade. Ivana completa: “Pessoas que estão tendo sonos entrecortados e que acordam cansadas devem procurar ajuda”. Mulheres: auto-exame da mama e Papanicolau como rotina de vida. Homens: avaliação freqüente da próstata. “Muito pior do que a vergonha é uma doença. Então, o exame de próstata, que consiste no toque mais o exame de sangue, é fundamental”, diz a especialista. Fundamental, mesmo, é não perder o ritmo e seguir os passos de quem fez do tempo o melhor parceiro.

CORRIDA PARA O FUTURO.

Flexibilidade para tirar o corpo esguio do chão e erguê-lo a 1,2 metro de altura. Massa muscular para suportar a explosão nos cem metros rasos, percorridos em 17 segundos. Nada demais para quem passa a vida treinando os músculos. A diferença é que, no caso de Antônio e Inês Shizimo, "a vida" é algo que já dura há mais de 70 anos. “Tenho 72 anos”, ela conta. “Nasci no dia 12 de setembro de 1927”, anuncia Antônio. Depois dos 50, o doce casal parou de contar velinhas e começou a colecionar medalhas. E tudo começou em uma marcha leve, para envelhecer com saúde, em grupo de vencedores: a turma de cabeça branca das aulas de educação física da Universidade de São Paulo (USP). “Os exercícios não cansam. Pelo contrário, dá mais vontade de fazê-los”, garante o aluno Horácio Gailito, de 67 anos. O exercício é para a corrida de obstáculos da velhice. “Acho que é muito desagradável viver sem qualidade de vida, com dependência”, diz outro aluno, Álvaro do Nascimento, de 76 anos. Objetos do cotidiano viram equipamento para aguçar reflexos. O cabo de vassoura fortalece braços e pernas. "Preciso de força muscular nas pernas para poder levantar da cadeira, do vaso sanitário, subir em um ônibus, subir degraus, abaixar-me para pegar um assado no forno, por exemplo", observa a professora de educação física da USP, Silene Sumire Okuma. O rolinho de areia ensina a fazer força do jeito certo. O alongamento apronta os músculos para a longa jornada vida adiante. Doutora em educação física para a terceira idade, Silene vive correndo contra o calendário. Luta para impedir que o tempo roube a independência desta gente. "O envelhecimento sedentário vai fazer com que se tenha velocidade de perda, que leva à degeneração, muito mais rapidamente do que um corpo que se mantém ativo", explica.

ENERGIA AOS 99.

Pular na piscina duas vezes por semana. Esse é um dos maiores prazeres de um homem que atravessou um século de vida em largas braçadas. "Comecei a nadar aos 18 anos. Vou parar quando morrer”, diz Miguel Graziano. Parar é palavra sem registro no vocabulário deste italiano de 99 anos e três meses de idade. Nos 20 minutos diários de bicicleta, Miguel aproveita para ficar de olho na notícia. O resto do tempo, trabalha. "Há dez anos, desde que veio morar comigo, jamais tive que fazer uma compra. Ele se encarrega de fazer supermercado, feira, vai aos bancos", revela sua filha, Marisa Grasiano Tortamano. Com a idade que tem, Miguel faz ainda mais: prepara com mãos firmes a massa do pão e do macarrão que a família consome. "Quanto menos fico parado, mais a vida alonga", comenta. Mas o que alonga, mesmo, parecem ser as simpáticas sessões semanais de convívio familiar. É quando Miguel preside, orgulhoso, a mesa que reúne quatro gerações de Grazianos. A vida em família parece ser a fonte da vitalidade deste velho senhor, que não come carne desde os 70, mas, até hoje, não dispensa um bom vinho tinto - italiano, de preferência. "Tudo tem que ser moderado na vida. A começar pelo amor, pela comida e pelo modo de viver. Tudo tem que ter um certo comportamento", ressalta Miguel.

TEMPO DE SE MEXER.

Na superfície, o grupo da terceira idade de São Caetano ensaia a coreografia para o campeonato de hidroginástica. No fundo, estes aposentados do ABC Paulista comemoram a descoberta de que exercício e amizade são um santo remédio para envelhecer com saúde. “A gente deixa os problemas de saúde para depois", conta dona Dirce de Matos calvo, de 74 anos. Moço ou velho, no local, são categorias que parecem depender mais da disposição que da data de nascimento. Nos três centros da terceira idade de São Caetano, a energia madura é canalizada para atividades que melhoram a qualidade de vida de quem passou dos 50. A cidade, que tem o melhor índice de desenvolvimento humano do país e um dos melhores atendimentos ao idoso, atraiu a atenção dos cientistas. Todas as semanas, uma equipe multidisciplinar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desembarca em São Caetano com cronômetros e balanças e tenta traduzir para a ciência o bem-estar estampado em cada rosto da turma. "Ando para ir ao banco, à padaria, faço tudo a pé, não vou de carro. Esse é o segredo para me manter bem, além de piscina e hidroginástica duas vezes por semana", revela um dos alunos, João Bernardes, de 68 anos. "Começamos a acumular peso, gordura, a perder flexibilidade, a partir dos 30 anos. Nossa condição respiratória, cardiovascular, o fôlego que a gente tem, também é perdida a partir dos 30. Então, dos 30 aos 60, perdi 30 anos de saúde que poderia ter poupado perfeitamente se tivesse feito atividade física regular", observa a médica esportiva da Unifesp Sandra Matsudo. Foi-se o tempo em que o estetoscópio bastava. Para conferir a saúde desses vovôs sarados, haja fôlego e tecnologia! No Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício da Unifesp, idosos passam por um programa de condicionamento físico de seis meses. O resultado é impressionante: a depressão caiu 30%; a ansiedade foi 70% menor nos grupos estudados; 80% dos idosos tiveram uma melhora de qualidade de vida, com reflexos na memória, raciocínio e humor. O exercício pode não rejuvenescer, mas retarda o envelhecimento e o torna mais saudável. “O exercício físico faz com que o idoso tenha um grande restabelecimento físico e mental”, diz o professor da Unifesp Marco Túlio de Mello.

MENTE EM EXERCÍCIO.

Exercitar os neurônios é outro jeito de driblar o tempo e envelhecer bem. Vovôs e vovós ocupam carteiras nas universidades que abriram suas portas à terceira idade, como a Federal de São Paulo. A hora do intervalo – e do lanchinho – é sagrada, mas as aulas são levadas muito a sério. A freqüência mínima para a pessoa ser aprovada é de 75%. Se não comparecer a pelo menos três quartos das aulas, não recebe o diploma. Em quatro anos de Universidade Aberta à Terceira Idade, nunca houve uma reprovação. Ou seja, o pessoal vai às aulas mesmo. Os estudantes têm aulas de saúde, assuntos contemporâneos, informática, inglês e integração social. Portas que, em muitos casos, se abrem pela primeira vez diante de olhos que continuam a brilhar de curiosidade. "Hoje não sou mais uma analfabeta virtual, antes era", conta a aluna Maria Luiza Vannucche, de 68 anos. Um senhor nunca saiu da universidade. O velho mestre da Escola de Agricultura Luís de Queirós, em Piracicaba, está aposentado há 20 anos e trabalha até hoje. Aos 90 anos, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), o doutor Walter Accorsi é especialista em fitoterápicos, remédios feitos com plantas cuidadosamente cultivadas no horto que leva o nome dele. Diante da placa que diz Horto de Plantas Medicinais e Aromáticas Professor Walter Radamés Accorsi, brinca: “Não sei quem ele é”. O bom humor, a mente ágil, a memória prodigiosa surpreendem a cada frase. “Os americanos chamam a babosa de planta milagrosa. Ela serve para tudo, tem 56 aplicações. É muito importante para o coração e para o fígado”, destaca o mestre. Doutor Accorsi ficou famoso pela defesa do uso medicinal do confrei e pela pesquisa com o ipê roxo, o popular pau d'arco. "Agora estou tomando o extrato. Além de produzir sangue, combate as hemorragias. Os leucêmicos encontram no pau d’arco um tratamento natural. Câncer, então, nem se fala", comenta. Usuário das próprias receitas, o velho professor toma um coquetel diário de fitoterápicos. Ultimamente, anda entusiasmado com um tipo de ginseng vindo do Peru. "Agora vou tomar maca, que impede o envelhecimento precoce. Como já estou velho, sem ser precocemente, não sei se vai fazer efeito. A substância impede o envelhecimento precoce, mas já estou no fim da vida", brinca. Uma vida dedicada à ciência de plantar e colher. Alguém que lançou raízes fortes desde o princípio, continua a semear até hoje. E merece, mais do que nunca, o reconhecimento de várias gerações de discípulos.

APOSENTADOS NA ATIVA.

Quando as rugas desenham a pele, os cabelos perdem a cor e o corpo pede descanso, seria a hora de esperar o tempo passar em um embalo suave. Mas essa é uma imagem que está ficando velha. Ele tem 88 anos e se recusa a representar o papel de velhinho. Heitor Farias prefere vestir o figurino da rebeldia. Nos passeios com um grupo de motociclistas, vai na frente. É um veterano e conhece os caminhos da beleza, do prazer. Heitor não tem dúvida: precisa do movimento para viver. "Ela precisa de combustível para funcionar e é para mim um combustível estar andando, trabalhando. Cheguei a ficar parado um tempo, mas senti tristeza”, conta. Aposentando do serviço público por causa da idade, Heitor virou consultor na área de administração. Entrega os relatórios que faz usando a moto. “Acho que o segredo é continuar ativo e tenho convicção disso. Por isso que estou nessa atividade. Não paro e enquanto tiver disposição estarei em cima da moto. E trabalhando”, garante. Nem tão aventureiros e radicais como Heitor, mas com muita energia para o trabalho. São assim os idosos de hoje. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que quase 60% dos aposentados acabam voltando para o batente. Como a estrada da vida está ficando cada vez mais longa, tem muita gente com disposição para continuar rodando nela. Uma vida inteira de trabalho no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A obra identifica o homem. O nome dele é Orlando Pereira da Silva, mas todo mundo o conhece como Folha Seca. Um apelido da época em que usava folhas secas para desatolar caminhões nas estradinhas barrentas do Jardim Botânico. Hoje, é nome de lago. Aos 80 anos, tem um orgulho: suas mãos ajudaram a embelezar e a cuidar de tudo. "São 20 lagos, quatro cascatas e cinco metros de vala. Aposentei-me em 1977, mas continuei”, diz. Continuou atendendo ao pedido da Sociedade dos Amigos do Jardim Botânico. E também por medo. "Mais de 30 colegas meus que se aposentam morreram. Morreram porque ficavam parados, iam dormir até 14h. Não faziam nada, ficavam jogando dominó. Eu não, faço movimento”, afirma. Entra no lago, cuida das plantas, pedala por toda parte. Folha Seca dispensa as folgas e as férias. Fez do trabalho sua seiva e das árvores centenárias seu exemplo. “A árvore ainda está brotando”, aponta. “É por isso que o velho aqui também está brotando”. Transformar garrafas pet em vassouras. A idéia, revolucionária na época, surgiu da necessidade de um grupo de aposentados de uma grande siderúrgica de Sabará, Minas Gerais. Precisavam bancar o plano de saúde e também não queriam ficar parados. Formaram uma cooperativa. "Tínhamos um capital de R$ 2 mil. Fomos ao ferro-velho e compramos todo o material por um preço baixinho. Um colega tinha uma máquina de costura e começamos a aproveitar essas peças", lembra o aposentado Araken Gomes de Paiva. Assim, foi montada a fábrica, que tem capacidade para produzir sete mil vassouras por mês. As garrafas são doadas pela comunidade. O negócio deu tão certo que foi ampliado. Agora, também fabricam sacos plásticos. Máquinas antigas? Não importa. Ninguém persegue a produtividade a qualquer preço. "Aqui não existe regulamento rígido. As pessoas fazem o que querem, quando querem e como podem fazer. E funciona, porque nosso objetivo é a valorização da vida e não o enriquecimento", revela Araken. Hoje, os 90 aposentados que se revezam no trabalho da fábrica têm plano de saúde. Ganham pouco, mas o orgulho é grande. Não há mais garrafas boiando no rio, e as vassouras deixam a histórica Sabará um brinco.

VIOLÊNCIA CONTRA O IDOSO.

As marcas não são só do tempo. O país que envelhece ainda maltrata quem cruza a barreira da terceira idade. A violência muitas vezes vem da família, como na novela “Mulheres Apaixonadas”. Na vida real, pode ser muito pior. “Ah, meu Deus! Tenho sofrido na minha vida, sabe...”, declara dona Maria Alexandre Rosa. A dança com as amigas é um jeito de espantar tanto sofrimento. Aos 76 anos, dona Maria encontrou o respeito que não tinha em casa. Moradora da Cidade de Deus, um bairro do Rio de Janeiro dominado por traficantes, viveu anos com medo do próprio filho - usuário de drogas.  "Bateu nas minhas costas, deu um soco na minha boca, que levei 20 pontos", conta. Violência sem limites. "Não pude suportar. Fui obrigada a entregá-lo à policia”, revela. Mas o sentimento de mãe pode ser mais forte do que a dor da agressão. "Pedi para que não fosse preso, porque iam bater muito nele. Fiquei com pena. Mãe é mãe, ? Coração de mãe dói", observa. O filho morreu há dois anos. Só então dona Maria começou a viver. Recuperou a auto-estima em um centro de convivência onde os idosos ficam só durante o dia. "Essa alternativa visa evitar que o idoso vá para um asilo desnecessariamente, porque a gente entende que o asilo é a última opção", diz a coordenadora da Casa de Santa Ana, Maria de Lourdes Braz. Em São Paulo, a vigilância no meio da noite. Promotores e técnicos de saúde percorrem asilos particulares e ficam chocados com o que ainda se faz contra os idosos, que pagam para ter atendimento. Em um quarto frio e mal-cheiroso, Francisco, de 69 anos, passa as noites trancado. "Quando o senhor precisa de alguma coisa, bate na porta?”, pergunta um dos promotores. “Não”, responde Francisco. “O senhor fica a noite toda com a porta fechada?”, questiona o promotor. “Fico”, afirma Francisco. Outro asilo, outra forma de exclusão. No local, a responsável pela limpeza faz também o papel de enfermeira. O diretor da Vigilância Sanitária de São Paulo, Ocimar Azzolini, estranha tantos idosos dormindo tão profundamente. Identificou exagero nos remédios. "Dormindo mais à noite, o trabalho para quem está tomando conta é menor", explica o Azzolini. Só 13 anos depois da criança e do adolescente, chegou a vez de o idoso ganhar proteção legal. O Estatuto do Idoso, sancionado na quarta-feira, pune com mais rigor os abusos contra quem passou dos 60. Agora, é a sociedade que precisa ficar mais vigilante, porque o caminho é a denúncia. No Rio de Janeiro, o Ligue-Idoso registrou só neste ano 1,2 mil casos. As ligações são anônimas, e quase todas de vizinhos indignados com o que vêem. Dona Zélia é um caso mais raro. Foi pessoalmente denunciar duas agressoras: a filha e a neta. “Fui agredida pela minha neta, que tem 13 anos. A mãe dela, minha filha, foi quem me segurou. Ela me maltrata”, conta. "Só mesmo quem trabalha no atendimento ao idoso pode ter noção de quanto nossa população é massacrada", constata a assistente social do Ligue-Idoso, Rosângela de Castro Augusto. No fundo da enfermaria, em um hospital do Rio, a mostra de que o Brasil ainda não aprendeu a lidar com seus velhos. Presa a uma cama, dona Maria Lucy recebe mais carinho do que tinha em casa. Ela foi libertada pela polícia depois do alerta dos vizinhos. Aos 87 anos, viúva, perdeu o único filho e morava sozinha em uma casa que parecia abandonada. Um pouquinho de biscoito e leite eram os únicos alimentos dentro de casa. Quem passava pela rua conta que uma porta ficava sempre aberta, mas o contato de Maria Lucy com o mundo externo terminava no quintal. Não podia passar para a rua. O portão permanecia fechado e Maria Lucy não tinha as chaves. Nos últimos tempos, comovidos, os vizinhos resolveram ajudar passando alimentos por cima do portão e até café por um buraco. Era uma prisão dentro de casa. Dona Maria Lucy traduzia a solidão em gritos. "Gritava muito, a noite inteirinha. Quebrava tudo dentro de casa. Acho que era de fome, porque ela gritava que tava com fome", lembra a vizinha Cremilda Almeida. A equipe do Globo Repórter localizou dona Raimunda de Souza Lopes, a irmã de Maria Lucy. Ela não acha que a idosa estivesse abandonada. Conta que, sempre que podia, ia visitá-la e que uma neta mandava dinheiro todo mês. As dificuldades de dona Maria Lucy, diz Raimunda, são as dificuldades comuns de uma família simples do Brasil. "Acho que existem três ou quatro testemunhas dizendo que ela é maltratada. Mas a pessoa ia agüentar três anos, como eles falam, sem morrer?", argumenta Raimunda. Cárcere privado, abandono, maus-tratos. Quem investiga diz que, em mais da metade dos casos as agressões contra os idosos são motivadas por dinheiro. Dona Ruth Giannico, de 80 anos, sofreu um derrame há seis meses. Quando deixou o hospital, foi internada pela filha em um asilo, que também recebe pacientes psiquiátricos. Só conseguiu sair com ajuda do Ministério Público de São Paulo. "Falei que não queria mais ficar lá porque ia ficar maluca também. Minha própria filha falou assim: ‘Olha aqui, se acha que não está bom, vou levá-la para um lugar ainda pior’. Senti como se fosse uma punhalada”, emociona-se dona Ruth. Hoje, dona Ruth está em uma casa de repouso melhor, mas divide um quarto com outras idosas. Poderia estar em um sobrado que já foi dela. Dona Ruth contou aos promotores que, seis anos atrás, transferiu o imóvel para outra pessoa por pressão da filha. "Ela me fez assinar para passar a casa para esse homem, que é amigo deles", revela. Um mês depois, a casa foi transferida de novo: do primeiro comprador para a filha de dona Ruth. Ela queria vendê-lo, mas, por enquanto, a Justiça impede. Por que tudo isso? A filha de dona Ruth não explica e se recusa a gravar entrevista. "Cuidar do envelhecimento de um minuto para outro não resolve. Tem que se preparar, preparar o idoso de amanhã, para enfrentar seu próprio envelhecimento junto aos filhos e à família”, comenta o promotor público João Estevam da Silva.

DE BEM COM A VIDA.

“Parabéns pra você...”. A festa é pelos 74 anos de Jacira. A reunião das amigas é em um edifício em Copacabana, bairro do Rio de Janeiro onde vivem mais de 40 mil idosos - a maior concentração do Brasil. No lugar, velhice não é sinônimo de isolamento e desânimo. Na praia tão famosa se aprende que a terceira idade pode - e deve - ser vivida com disposição e alegria. Prazer ao alcance de todos, em qualquer lugar. A caminhada no calçadão, a praia, o jogo de cartas. Físico e mente sempre ativos. “O cérebro é o que temos de mais precioso. Se a cabeça não funcionar, nada funciona”, avalia Esmeralda Kwaszinsky, de 91 anos. Dona Esmeralda, viúva, mora com a filha e o neto. São 91 anos de pura sabedoria. E um grande senso de humor. Quando perguntada sobre a possibilidade de amar de novo, responde: “Em primeiro lugar, teria de ser um moço. Porque um homem de 91, nem de graça!”. Em um hotel exclusivo para a terceira idade há equipamentos de segurança e serviços de enfermaria. Dona Welza Loyola, de 85 anos, garante que é feliz. “Prefiro morar aqui. Meu filho é muito meu amigo, está sempre comigo, mas vou dar trabalho se morar com ele”, diz. Motivo para reclamar, todo mundo tem. Mas, unidas pela solidariedade, mulheres superam seus dramas. Há 35 anos reúnem-se em um clube de idosas em Copacabana. E trabalham muito, sempre pensando nos outros. “Os vestidinhos que fazemos vão para vários lugares - para casas de saúde, maternidades”, conta Cila da Fonseca, de 77 anos. “O trabalho é maravilhoso”. Dona Rosa Comezzano tem 88 anos e coordena o trabalho das costureiras voluntárias. No peito, um marcapasso dita o ritmo do coração generoso. “O que nos dá saúde é fazer alguma coisa por nossos semelhantes”, diz a coordenadora de costura da Cejuve, Rosa Comezzano. Copacabana ficou lá embaixo. No alto do morro, é a Favela do Cantagalo. Ser aposentado e viver no local é, antes de tudo, um exercício de sobrevivência. Seu João Feliciano é um dos milhões de aposentados brasileiros que trabalham. Aos 73 anos, ainda não pôde descansar. Com a pensão da aposentadoria, o salário de técnico de manutenção e mais alguns biscates, sustenta nove pessoas - filhos, netos e bisnetos. “Considero-me um vencedor porque nunca tive derrota”, garante seu João. “O que tenho é suficiente: uma família consagrada, graças a Deus”, diz. Do alto, Dona Maria Helena Rocha, de 63 anos, vê a cidade dividida. Mora no morro desde os dez anos. E ainda sonha morar lá embaixo. Aos 65 anos, já perdeu a conta de quantos netos e bisnetos mantém com uma aposentadoria de apenas um salário mínimo. “Os pais dessa molecada toda já estão no andar de cima, morreram”, revela dona Lelena. Quem vive no morro conhece a lei do silêncio. Da família toda, só um dos netos concorda em aparecer. Mas nessa luta diária pela vida, dona Lelena não tem tempo para sentir medo. “Tenho insônia. Fico preocupada, pensando no meu pão”, conta. Por mais bonita que seja, a cidade grande é, a cada dia, um lugar mais assustador. É barulho, poluição, trânsito, violência. Com medo, o idoso sai cada vez menos de casa. Alguns poucos têm a sorte de poder deixar tudo isso para trás e ir aproveitar a aposentadoria em uma cidade menor, com direito a um horizonte com muito verde e tranqüilidade. Em Teresópolis, Região Serrana do Rio, fica uma casa adaptada para um casal de aposentados. Apenas uma pequena rampa na entrada. De resto, a casa é toda plana. Portas e corredores largos, as tomadas são mais altas, a iluminação é acionada por sensores. Os tapetes têm antiderrapantes e no banheiro, preocupação redobrada. “Das pessoas que caem dentro de casa, 70% sofrem algum tipo de fraturas. E grande parte dessas fraturas acontece dentro dos banheiros, por causa do piso escorregadio”, revela a arquiteta do Projeto Casa Segura, Cybele Monteiro de Barros. Para evitar acidentes, piso que não escorrega, vaso sanitário mais alto, barras de apoio nas paredes e cadeira no box para ajudar no banho do idoso. “Nunca escorreguei. A gente se sente mais seguro”, observam os moradores da casa.

GLOBO-REPÓRTER: SONO—31 DE OUTUBRO DE 2003.

INSÔNIA EM FAMÍLIA.

O fim da tarde é um momento mágico para Luís Guilherme. Desde criança, é nesta hora que solta o corpo e deixa a imaginação flutuar ao som das ondas da Praia do Arpoador, na Zona Sul do Rio. Quando o sol se for, a paz de Luís Guilherme também vai desaparecer. A noite virou inimiga deste músico de 26 anos. O problema começou na adolescência. "Desde que passei para o segundo grau, quando fui estudar à noite, comecei a ter problemas para dormir. Ficava na Internet acordado o tempo inteiro, sem sono nenhum, tendo problemas para dormir entre 23h e 6h", conta. Desde 1997 Luís Guilherme mudou de vida e de nome. Virou Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas. Mas os problemas de sono dele não mudaram. Aliás, agravaram-se. "Estava trabalhando muito, ficava cansado e tudo, mas quando chegava à noite não conseguia dormir de jeito nenhum. As distâncias entre as cidades onde a gente tocava eram longas e não conseguia dormir no ônibus direito. Comecei a ter problemas na voz. Procurei um médico, que me orientou a tomar um remédio para poder descansar e dormir enquanto estivesse em turnê”, diz Tico. “Fiquei oito meses só dormindo à base de remédio. E isso era horrível porque quando você fica viciado em um remédio o sono fica superficial sem ele". Tico não é o único na família com problemas de sono. A mãe dele, Lúcia Fontenelle, há 25 anos tem insônia e para dormir toma remédios que só podem ser vendidos com receita medica. “Não consigo dormir uma noite inteira tranqüilamente. Durmo umas duas horas, acordo e tomo meio comprimido para ver se adianta. Meio comprimido faz efeito por mais umas duas horas. Aí, acordo de novo. Quando é mais ou menos 6h, fico num mau humor danado, porque o mundo inteiro dormiu e fiquei acordada, o mundo inteiro está acordando e eu querendo dormir”, diz. “Acho que se chegasse um gênio e perguntasse quais são meus três desejos, um deles com certeza seria dormir direito”.

ENQUANTO A MANHÃ NÃO CHEGA.

Uma da manhã no centro de São Paulo. Cada janela acesa marca mais uma madrugada de rolar na cama sem conseguir dormir, de andar pela casa, de ver televisão para passar o tempo enquanto a manhã não chega. Assim como Tico e a mãe dele, outros milhões de brasileiros, nesta hora, em outras cidades, estão lutando para pegar no sono. De 15% a 20% da população sofrem de insônia. São aproximadamente 36 milhões de pessoas. Dessas, 70% são mulheres. A viúva Maria Gomes é uma delas. Sempre dormiu mal, mesmo antes da morte do marido. Mas a insônia se agravou quando perdeu o filho mais velho, vítima de meningite. “Estava viajando para voltar para casa. Mas não cheguei. A viagem de ônibus durou três dias. Esconderam de mim que ele estava internado e aconteceu o pior. Passei a não dormir. Um dia dormia, outro não”, conta dona Maria. “Quando acordo, estou cansada e muito mau humorada”. "Sempre digo que a insônia é a ponta do iceberg. Na verdade, por debaixo desse iceberg existe uma complexidade de fatores. Podem ser fatores físicos, como problemas respiratórios durante a noite, que levam a um sono extremamente fragmentado, ou problemas psicológicos – afetivos, profissionais, familiares, econômicos", revela o neurologista do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luciano Ribeiro Pinto Jr. O que há por baixo do iceberg, no caso de dona Maria, é o que os pesquisadores do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) tentaram descobrir. Ela foi submetida a uma polissonografia. Eletrodos ligados a várias partes do corpo registraram, durante toda a noite, a atividade cerebral, muscular, respiratória e cardiológica de dona Maria. Dona Maria demorou quase uma hora para dormir – exatos 58 minutos. A polissonografia mostrou que dormiu um sono leve, que não descansa. Acordou várias vezes durante a noite. E o mais importante: a polissonografia revelou a razão para tantos despertares. "O principal, que chama atenção no exame dela, é que teve movimentos periódicos de perna. A pessoa fica movimentando a perna em um intervalo regular. Então, não é só uma queixa psicológica, ela tem um motivo real para ficar acordando à noite, que são os movimentos de perna", anuncia a pneumologista do Instituto do Sono da Unifesp Lia Rita Bittencourt. Um problema de décadas, finalmente, tem chance de ser resolvido. Pelos próximos oito meses dona Maria vai passar por um tratamento para acabar com a insônia. Nada de remédios para dormir, vai fazer ginástica aeróbica, para cansar os músculos da perna, e tomar uma medicação do mesmo tipo que se dá a quem tem o Mal de Parkinson. “Espero uma melhora com o tratamento, que encoste e durma. É o que mais quero", diz ela.

SONO VIGIADO.

Tico livrou-se da insônia e dos remédios sozinho. Enfrentou crise de abstinência. Ficou quatro dias praticamente sem dormir, mas hoje dorme tranqüilo, sem remédios. Em compensação... Com a vida agitada de shows que tem pelo Brasil, o problema dele agora é outro. “Hoje em dia, sempre que dá para dormir nas viagens, durmo. A dificuldade agora é só tempo mesmo. Durmo seis horas, às vezes cinco, às vezes três, às vezes oito. Então, não existe uma regularidade no meu cronograma de sono”, diz o líder da banda Detonautas. Tico é o único da banda que realmente tem problema de sono. “Tchello é um rapaz que dorme onde bate. É que nem saco de batata: você joga num canto, ele encosta e dorme. Todas às vezes que levanto à noite, para ir ao banheiro, por exemplo, Renato está dormindo. Fabinho ronca para caramba. Rodrigo, o outro guitarrista, também. DJ Clashton é outro saco de batata. Dorme e ronca para caramba”, revela Tico. Tico concordou em fazer um teste para o Globo Repórter. Foi monitorado pelo Instituto do Sono da Unifesp. Durante dez dias, o músico usou um actígrafo – um objeto que parece um relógio, sem ponteiros nem mostrador. Dentro há um chip, como os de computador, que registra os momentos de atividade e de repouso. O Globo Repórter acompanhou a viagem de Tico e conheceu a rotina dele, inclusive o ônibus onde dorme, quando dá. "Este é o Favelão. O ônibus é realmente um favelão, no bom sentido”, diz Tico. Primeira etapa da viagem: a equipe saiu da capital paulista para Barra do Piraí, no interior do estado do Rio. Foram 406 quilômetros de estrada, cansaço e falta de sono.

SINAIS DE NOITES MAL DORMIDAS.

Onze e meia da manhã, sol a pino, engarrafamento. É sexta-feira e muitos paulistanos já começam a sair da cidade, em busca de um fim de semana na serra ou na praia. No meio deles, o ônibus que leva Tico Santa Cruz e seus companheiros de banda ao trabalho. Hoje à noite eles farão um show e precisam descansar. Mas é difícil dormir com o calor, a luminosidade, o barulho. Quatrocentos e seis quilômetros depois, já à noite, a chegada em Piraí. Fãs na porta. Tico se fecha no quarto para tentar dormir até a hora do show, que vai ser à 1h. “Descansei legal no ônibus”, diz Tchello, músico da banda. “Não dormi nada, só consegui dormir meia hora no ônibus. Cheguei aqui ainda com um pouco de sinusite, talvez até por causa do cansaço, que baixa a resistência do corpo”, revela o líder dos Detonautas. Mas vai ter que enfrentar duas horas de show, assim mesmo. Por isso, muito exercício vocal. E o actígrafo no braço. Acabado o show, às 4h, a estrada novamente. Destino: Jaboticabal, no interior do estado de São Paulo. Até lá, serão 718 quilômetros. “Ontem particularmente estava muito cansado. Então deitei no ônibus e só acordei em Jaboticabal. Para mim foi maravilhoso, porque consegui dormir nove horas ininterruptas. Só acordei para ir ao banheiro”, conta o músico. O repouso se reflete no show. Milhares de jovens vibram com a demonstração de energia do ex-insone. E sempre com o actígrafo no braço. Do palco, direto para o ônibus. De Jaboticabal para a capital paulista, onde fará show no dia seguinte, serão mais 373 quilômetros. Já faz três dias que a equipe do Globo Repórter está acompanhando Tico. O actígrafo deve confirmar o que foi presenciado: pouquíssimas horas de sono. Além de perigosa, a privação do sono traz problemas de saúde que muita gente nem imagina. "Se privar os animais do sono por 20 dias, morrem. Então, sono é essencial à vida. Mas, antes de morrer, com poucas privações, começa a dar irritabilidade, a ter problemas cárdio-vasculares, dá uma acelerada no coração, problemas de memória, começa a não guardar mais as coisas. Então, a qualidade de vida cai muito", revela Sérgio Tufik, coordenador do Instituto do Sono da Unifesp. O médico diz que não há nada pior para o organismo do que a falta de regularidade, de rotina. “Comer, dormir e acordar sempre na mesma hora é uma economia grande para o organismo. Em animais, a gente fez experimentos mostrando que quando o ritmo varia perde-se de 20% a 30% do tempo de...

AGITO NA NOITE.

Antigamente, as pessoas obedeciam a seus relógios internos, a seus relógios biológicos. Dormiam quando escurecia e acordavam com o nascer do sol. A invenção da luz elétrica acabou com isso: estendemos o dia noite a dentro e com isso reduzimos as horas de sono. Tudo funciona, tudo está à mão. Mas nosso corpo sofre com essa privação voluntária de sono. “Durmo em média de duas a três horas por noite”, conta a empresária Tammy Kunyoshi. "Gosto de sair e voltar por volta das 4h. Às vezes retorno um pouco mais tarde. Então dou aquela dormidinha de duas horas, acordo e vou para a faculdade. Capengando, mas vou", diz a universitária Melissa Almeida. Tamy e a amiga Melissa são escravas da noite. Tamy, que é dona de uma agência de DJs, vai a festas cinco noites na semana. Chega em casa de manhã, troca de roupa, sai de novo. “Às vezes chego da festa 6h30min, 6h45min. Minha aula começa às 7h20min. Daí, vou para o estacionamento da faculdade, dou aquela dormidinha de 15 minutos, só para dar uma acordada”, conta Tamy. Melissa também trabalha com DJs, também faz faculdade e, além de tudo, tem um filho para criar. Mas não abre mão da noite. “Acho que esse ritmo de vida vai ser duradouro porque sou meio acelerada normalmente. Então, por que parar? Festa é bom, passear é bom, então vamos unir o útil ao agradável”, diz a universitária. “Tenho 27 anos. Se Deus quiser, continuo nessa vida até uns 80”, anuncia Tammy. Só o tempo dirá se Tamy vai conseguir manter esse ritmo - e por quanto tempo. Mas o corpo, com certeza, vai se ressentir. “O indivíduo que dorme mal cronicamente, que tem insônia crônica, pode ter menos tempo de vida. Existem indícios mostrando que processos químicos, relacionados à privação de sono crônica num organismo podem determinar que um indivíduo envelheça mais”.

APRENDIZAGEM COMPROMETIDA.

Dormir bastante pode não garantir juventude eterna. Mas quem dorme melhor, comprovadamente rende mais. No trabalho e no estudo. Uma pesquisa feita com jovens da capital paulista e de um vilarejo no litoral de São Paulo mostrou que não é só Deus que ajuda a quem cedo madruga. O Sol mal começa a brilhar e jovens já estão indo para a escola. Ontem foram se deitar quando anoiteceu - não há luz elétrica na comunidade. O desempenho escolar deles foi analisado pelo professor-adjunto da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fernando Louzada. “Em ambientes rurais, as crianças dormem mais cedo. Em função do horário da escola ser quase o mesmo que o da zona urbana, acabam dormindo mais. Então, não apresentam privação de sono, dormem o suficiente”, explica o professor. A pesquisa estudou 620 alunos de 5ª a 8ª séries de comunidades rurais e urbanas e comparou o padrão de sono e o desempenho escolar deles. “Observamos que os alunos expostos ao ambiente urbano, à televisão, ao computador, à possibilidade do uso da Internet, acabam atrasando os horários de sono e dormem menos. Com certeza, se dormissem mais, poderiam ter um desempenho melhor na escola”, revela Fernando Louzada. Thiago Luis Barbosa é inteligente, interessado, bom aluno. Mas poderia ser melhor, não fossem os cochilos nas aulas. “Hoje não dormi na aula, só dei uma descansadinha na aula de História, uma deitadinha básica na carteira. Cochilei um pouquinho”, conta. Depois de um dia exaustivo nas aulas e cheio de atividades esportivas, Thiago está cansado, mas não resiste à sedução do computador - fica na Internet até, pelo menos, uma da manhã. Diz que dorme por volta de 2h30min e acorda às 6h. Sua mãe, Silmara Parise, nem desconfiava das atividades noturnas de Thiago. “Vou dormir antes deles e achava que estivessem dormindo. Às vezes percebo os sinais de cansaço dele: uma irritaçãozinha aqui e ali, um mau humor. Às vezes é complicado para acordar de manhã”, conta a coordenadora pedagógica. “Na aula, principalmente, dou uma cochiladinha de vez em quando. A primeira aula dá aquele soninho... Tem vezes até que durmo numa aula assim ou outra. Como vou bem na aula? Segredo”, diz o estudante. O autor da pesquisa sugere que as escolas mudem o horário de entrada, para deixar os jovens dormirem um pouco mais. “A mudança de horário é algo que muitas escolas norte-americanas já fizeram, atrasando o horário do início das aulas para tentar tornar a duração de sono desses adolescentes maior”, conta o professor Fernando Louzada. Uma horinha a mais de manhã é tudo o que eles sonham. E mais querem.

SONO INCONTROLÁVEL.

O trabalho da analista de contas Helga de Oliveira Bispo exige total concentração. Mas, quatro anos atrás, seria uma tarefa impossível. Não precisava nem ser um trabalho monótono: Helga vivia caindo no sono - um sono irresistível. “A gente acha que é preguiça. Tinha uma vida útil e de repente se tornou um vegetal. Porque só sabia comer, dormir e mais nada. Nem correspondia aos carinhos que o marido procurava, queria dormir. Queria bater nele quando ele supunha a hipótese de fazermos alguma coisa”, conta Helga. “A gente chega em casa cansado, recém-casado, esperando encontrar a esposa, a comida, as crianças. E não tinha nada disso. Isso vai magoando, chateando, criando o afastamento do casal”, comenta o empreiteiro Gislano da Silva Bispo. Há quatro anos as brincadeiras de Gabriel com o irmão mais novo também eram impossíveis. A mãe passava a maior parte do dia na cama: era Gabriel quem arrumava a casa e ainda tomava conta do irmão menor. “Para meu pai não ficar chateado, porque ele trabalhava e chegava cansado, pensava em ajudar minha mãe, para ela ficar feliz comigo. Lavava a louça, e quando via que o chão estava sujo, passava pano”, conta Gabriel. As crises de sono de Helga foram se tornando cada vez mais freqüentes. E cada vez mais perigosas. “Certa vez, estava refogando o arroz e a sonolência foi chegando, chegando... Via que estava incontrolável, mas insisti em fazer o arroz. Encostei na parede, a colher estava pesando, e de repente... Não me lembro de mais nada. Só sei que acordei depois e a casa estava toda tomada por fumaça. Foi quando percebi que não estava mais só afetando a mim, e que não estava só sendo desleixada com a família, estava colocando-a em risco também. Era uma coisa mais séria”, diz Helga. Helga sofre de narcolepsia. A doença era tida como rara há algum tempo atrás. Hoje sabe-se que é muito mais comum do que parece. Uma em cada duas mil pessoas tem a doença. Só na cidade de São Paulo, estima-se que existam cinco mil narcolépticos. Menos de 60 estão em tratamento. “A narcolepsia é difícil de ser diagnosticada porque nem sempre os sintomas se apresentam completamente em todos os pacientes”, observa o pesquisador do Instituto do Sono da Unifesp Mario Pedrazzoli. O doutor Mario Pedrazolli e sua equipe querem chegar a um diagnóstico genético que facilite a identificação da doença. Se um exame assim estivesse disponível na rede pública federal, teria diminuído a angústia da professora Terezinha de Jesus da Silva. “É uma doença incompreendida. Hoje se fala muito em inclusão e eu, como educadora, pergunto-me: ‘Será que a sociedade mudou?’. Porque em relação ao caso do meu filho, tive muitos problemas e não achava apoio em lugar nenhum. Ninguém sabia o que estava acontecendo”, conta a professora. A mãe se angustiava e o filho sofria. Ashley era discriminado, motivo de chacotas dos colegas de escola. Seu único refúgio era a solidão. “Tornei-me um cara um pouco anti-social, porque acabei desenvolvendo uma espécie de paranóia, de que se sair de casa, todo mundo vai achar que sou preguiçoso, que sou isso, sou aquilo. Então, vou ficar dentro de casa mesmo”, diz o professor Ashley Silva Costa. O diagnóstico da narcolepsia demorou e só veio depois que a família, que mora no Maranhão, procurou especialistas em São Paulo. Ashley tem uma narcolepsia do tipo aguda, com todos os sintomas clássicos: sonolência diurna, alucinações e perda repentina do tônus muscular. Uma narcolepsia do mesmo tipo da de uma criança que cai quando é submetida a uma emoção, que pode ser uma simples piada. Cai, porque perde o tônus muscular. É a cataplexia. A cataplexia também atinge os cães. E foram eles que ajudaram os pesquisadores a dar o primeiro grande passo para um tratamento efetivo da doença. Um grupo de cientistas, que incluiu o brasileiro Mario Pedrazolli, conseguiu isolar o gene da narcolepsia. “Com a identificação desse gene no cão, fomos capazes de saber qual o exato mecanismo da doença no homem. Hoje se busca uma droga que tenha uma ação muito semelhante à molécula que está faltando no cérebro do paciente narcoléptico”, anuncia o pesquisador. “Tenho quatro anos de diagnóstico. Para acertar a medicação, foi preciso mais ou menos um ano. É uma luta com nós mesmos. Antes era um desespero por não saber o que era. A dificuldade em seguida foi aceitar a doença. Quando você passa por essas duas fases, consegue ver que sua vida realmente mudou”, comenta Helga. Quem sofre de narcolepsia no Brasil enfrenta outro problema - e grande: os remédios que existem atualmente no mercado custam caro e não são distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Não conseguia importar o remédio”, diz a professora. “A gente é obrigado a fazer uma economia curiosa. Quando não tenho um dia muito puxado nos finais de semana, simplesmente não tomo, justamente para poder economizar, para ter remédio que possa ser aproveitado num momento mais puxado”, conta Ashley.

HORA DE DORMIR.

Ashley Silva Costa é professor de História em uma turma de cegos. Pode até cochilar no intervalo das aulas. Mas o que quer mesmo é se manter acordado sem problemas. O exato oposto de Tico, que gostaria de dormir a hora que bem entendesse. Mas são muitas noites e dias de pouco ou nenhum sono por causa dos shows. Em um deles, em São Paulo, Tico chegou a se jogar na multidão. “Depois dessa descarga de energia, estou bem, muito bem, graças a Deus. Parece que acabei de acordar. Levaram meus brincos”, conta Tico. Sem brincos, sem os sapatos, mas com o relógio - o actígrafo sobreviveu. E registrou os ciclos de vigília e sono de Tico em mais seis dias de viagens. Agora, Tico entrega o actígrafo para os pesquisadores do Instituto do Sono da Unifesp, que recolhem os dados no computador. Vão analisar o quanto o músico dormiu nesses dez dias. “Pequenos movimentos durante a noite”, observa a pesquisadora do instituto Dalva Poyares. Até a pesquisadora se assusta. "Gente, esse cara não dorme!", anuncia. Cada linha do gráfico mostra um dia na vida de Tico Santa Cruz. Os momentos de sono ou cochilos são poucos em relação aos períodos de atividade. Nos dois primeiros dias, por exemplo, Tico praticamente não dormiu. Uma pessoa normal, que dorme e acorda todo dia à mesma hora, apresentaria um gráfico diferente. “No dia seguinte, atrasa o começo do seu sono, e ele encurta. Daí, no outro dia, atrasou um pouco mais, encurtou ainda mais. Acho que está precisando dormir”, diz a pesquisadora para Tico. “Se perder muito a informação do relógio biológico dele, o horário de dormir e acordar, pode daqui a uns anos desenvolver um quadro de insônia”, alerta Dalva Poyares. “Preciso dormir”, constata Tico. É, Tico, precisa dormir um pouco mais.

PROFISSÃO DE RISCO.

Quinhentos vôos por dia. No Aeroporto Internacional de Cumbica, em São Paulo, há sempre um avião que pousa, outro que decola e vários no ar. Vinte e quatro horas sem interrupção. Tudo monitorado do alto da torre de controle, onde não pode haver erro. Uma falha pode causar um desastre. Myron José Coelho, há 20 anos nessa rotina, sabe disso. Ontem trabalhou de dia. Anteontem, à tarde. Hoje começou à meia-noite e irá até às 6h. "Se saio no período da manhã, às 6h, trabalhei no turno da madrugada todinha. Não durmo, para que possa dormir somente no período da noite e não inverta o dia pela noite”, explica Myron. “Nos períodos que tenho de descanso, durmo muito bem”, garante. Mas nem todo mundo consegue se adaptar tão facilmente ao trabalho em turnos, porque quem determina qual a melhor hora para dormir e acordar é o relógio biológico que existe dentro de cada um. “Se encontrasse os vespertinos, que gostam de trabalhar só à noite, e os pusesse trabalhando à noite; e os matutinos, aqueles que gostam do dia, só de dia, teria um rendimento muito melhor. Essas pessoas teriam uma qualidade de vida melhor e conseguiriam um desempenho muito mais adequado do que estão conseguindo hoje, com essa variação de trabalho em turno”, comenta o coordenador do Instituto do Sono da Unifesp Sérgio Tufik. No caso de Myron, o domínio do sono é uma questão literalmente de vida e morte. “É uma profissão muito estressante. Trabalhamos com vidas e, trabalhando com vidas, a margem de erro deve ser zero. E o acerto tem que ser sempre de 100%”, ressalta o controlador de vôo. 

O PERIGO DO COCHILO NA ESTRADA.

A falta de sono é uma das maiores causas de morte nas estradas do Brasil. Em uma delas, no dia 5 de março de 2002, um carro com três policiais voltava de uma investigação, quando de repente o carro cruzou a pista e foi bater em um caminhão que vinha no sentido contrário. Uma carcaça retorcida foi o que sobrou do carro. O motorista, Edmar Guimarães, morreu na hora. O investigador de polícia Rosvaldo Costa, que estava ao lado do motorista, perdeu um pedaço da orelha e só teve ferimentos leves. "Na frente, estava o Guimarães, todo moído”, conta Rosvaldo. “Durante a viagem, a gente conversava com ele, que parecia estar pensando em outra coisa. Não dava para perceber que estava dormindo”. Acredita-se que o motorista tenha dormido ao volante, depois de um almoço farto. “O Guimarães comia bastante. Sempre que almoçávamos em um restaurante comia muito. Parecia um pouco cansado, como também estávamos”, lembra o policial. "Temos um erro alimentar que é freqüente. O Brasil é extremamente rico em churrascarias nas estradas, o que estimula a alimentação pesada", observa o médico especialista do sono Sérgio Barros Vieira. O médico diz que 20% dos acidentes nas estradas ocorrem entre 15h e 19h. Exatamente após o almoço, um período em que o corpo naturalmente já sente sonolência, por causa da queda da temperatura corporal. Dr. Sérgio desenvolveu um programa de medicina do sono pioneiro e patenteado por uma empresa de ônibus. O motorista de ônibus João Alexandre da Silva vai dirigir 10 horas esta noite: do Rio até Vitória. Antes de sair da empresa, é submetido a um teste que avalia a capacidade de reação a estímulos. João completa o teste em 18 segundos. “Acima de 30 e abaixo de dez, não viajaria e seria encaminhado ao Programa de Medicina do Sono, para ser avaliado”, diz o médico. Às 23h10min, o ônibus de João parte da rodoviária, pega a ponte Rio-Niterói e logo está na estrada. Os passageiros adormecem. A segurança deles depende de João, que está alerta. Às 3h, a única parada. Em uma sala construída especialmente, a iluminação é intensa: 5 mil lux. Tanta luz inibe a produção do hormônio melatonina, um dos fatores responsáveis pelo sono. Os exercícios aumentam a temperatura corporal, o que ajuda a evitar a sonolência. O lanche leve não pesa na digestão. “Ao entrar, a gente sente o foco de luz. Nossos olhos já ficam mais alertas. E o lanche é muito bom”, ressalta João Alexandre. João atravessa a noite e chega de manhã a Vitória, sem problemas, nem sonolência. “Estou tranqüilo, firme e forte”, garante o motorista. “Só o ombro dói um pouquinho, mas nada de sono”. Dever cumprido, João vai para o dormitório da empresa. Pegar a estrada, de novo, só amanhã à noite, bem descansado.

DRAMA PARA DORMIR.

Homens se preparam para um sono tranqüilo e reparador. Um aparelho que parece uma máscara de piloto de caça é a arma deles para dormir melhor. Chama-se cepap e é capaz de acabar com o inferno de muitos casamentos: o ronco dos maridos. O cepap é um compressor de ar, ligado a uma máscara, que injeta ar pelo nariz. O fluxo de ar abre a garganta, aumenta a oxigenação e evita o ronco e as paradas respiratórias. Por mais feio e desconfortável que pareça, quem experimentou não quer mais viver sem ele. “O uso do cepap fez uma diferença de 90% na minha vida. Os resultados são rápidos demais. Você dorme normalmente e acorda bem”, diz o corretor Armando Burgatto. "O benefício que traz, o dia seguinte muito melhor, faz com que a gente queira se adaptar, e logo depois se acostuma a essa máscara", garante o administrador de empresas Ronaldo Gelain. O bom humor, por exemplo, tinha sumido da vida deste executivo de multinacional. Hoje não há má notícia que tire o sorriso do rosto dele. A irritação constante foi trocada por uma harmoniosa vida em família. Até a pressão arterial se estabilizou. "Ronaldo tinha um problema com a pressão, vivia sempre irritado, cansado, tudo era motivo para perder muito rapidamente a calma. Isso, ao longo dos anos, vai tornando a pessoa insuportável", observa a advogada Maria Auzinda Gonçalves. "Sentia cansaço e não sabia a razão. Achava, inicialmente, que era pelo excesso de trabalho, pelo esforço físico, excesso de viagens e tudo mais. Depois é que vim a saber que, na realidade, não era excesso de trabalho e sim falta de sono", conta Ronaldo. O diagnóstico preciso foi feito no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, através de uma polissonaografia. Não era ronco apenas. O exame constatou várias paradas respiratórias. Ronaldo sofre de apnéia, um problema que afeta aproximadamente 24 milhões de brasileiros. E a maioria nem sabe da existência dele. Quem tem apnéia possui uma via aérea propensa a desabar. Quando dorme, a língua cai para trás, os músculos da garganta relaxam e ela se fecha, interrompendo a passagem do ar. Esse estreitamento leva ao ronco. Quando a obstrução é total, a respiração fica impossível, aí a pessoa entra em apnéia. "Então, fica bem claro que você tem paradas respiratórias. No caso, de 35, 38 segundos”, anuncia o diretor do Laboratório do Sono do Incor Geraldo Lorenzi Filho ao corretor Armando Burgatto. Armando teve 70 paradas respiratórias por hora de sono. Mais do que uma por minuto. A solução para ele foi o uso do cepap. “Minha pressão voltou aos níveis normais e não preciso tomar remédio para baixar a pressão. Não tenho mais sono ao dirigir, nem sentado. Se me colocassem em uma cadeira por dez minutos dormiria com certeza”, diz Armando. Desde que passou a usar o cepap, Ronaldo também não ronca mais. “Não existiam noites sem ronco, em nenhuma situação”, conta Maria Auzinda. E na vida de Ronaldo, que diferença fez? “Sinto-me muito mais bem disposto, o humor melhorou, o cansaço durante o dia praticamente desapareceu. Minha esposa deve estar bastante feliz, porque o ronco também melhorou muito”, avalia. “Melhorou muito. A essa altura, uma pessoa com bom humor, mais disposição, traz benefício para a família toda, não só para ele”, acrescenta Maria Auzinda. Os médicos lembram que sono não é um luxo. Sono é uma necessidade vital. “Basta dormir pouco por alguns dias que vai sentir o efeito disso na sua qualidade de vida, na sua capacidade de concentração, na sua própria capacidade de trabalho”, constata o diretor do Laboratório do Sono do Incor.

GLOBO-REPÓRTER: DESNUTRIÇÃO X OBESIDADE—28 DE NOVEMBRO DE 2003.

JOVENS OBESOS.

Juventude sem limites. Da infância açucarada à adolescência temperada por sabores proibidos, a cada mordida o corpo vai ganhando muito mais gordura do que é capaz de consumir. Comer tudo, a toda hora, em qualquer lugar, para eles é estilo de vida. Busca pelo prazer. “Cheesebúrger, cheesesalada, cachorro-quente, salsichão, pão-de-queijo, de batata”, anuncia Luíza Guimarães, de 14 anos. Em Santa Catarina há um fogão que não pára. Na cozinha, quem faz o cardápio é Fernanda, de 7 anos. Ela adora macarrão. E também hambúrguer, ovo frito... Desejos da menina, sempre atendidos pela mãe, a qualquer hora do dia. “Às vezes, isso é o nosso café da manhã. Se ela gosta, eu faço”, conta a doméstica Paula da Souza. De gosto em gosto, Fernanda vai construindo hábitos alimentares difíceis de mudar. Ela não troca o prato de macarrão por cenoura, beterraba, nem repolho. “Só trocaria por arroz, bife e batata frita”, diz a menina. Tanto colesterol, tanta gordura no início da vida, ameaça o futuro das crianças. Medindo peso, altura e as dobras da pele dos alunos das escolas de Santos, no litoral paulista, especialistas descobriram: já chegou ao Brasil uma epidemia que se espalha pelo mundo. A pesquisa mostrou que um terço dos estudantes está com peso acima do normal. Para conferir o resultado, é só olhar na praia, no calçadão, nas escolas. O resultado surpreendeu os médicos. Por isso, de cada dez alunos de Santos, três vão receber uma carta – uma espécie de atestado de excesso de peso. Um aviso aos pais de que os filhos precisam de tratamento, são todos vítimas da epidemia da obesidade. “Se nada for feito para reverter esse quadro, 40% dessas crianças serão adultos gordos. E se atingirem a faixa de 14 a 15 anos de idade com este sobrepeso, as chances são de que 80% desses jovens se tornem adultos obesos”, alerta o pediatra Jorge Maxter. Uma força-tarefa foi criada para tentar emagrecer as crianças. Quem recebe a carta vai para lugares como os centros de reeducação alimentar, instalados nas universidades e hospitais. Sensores elétricos para medir a gordura foram espalhados pelo corpo de Bruna. Aos 13 anos, já pesa cem quilos. A corrente elétrica atravessa o corpo da menina. Mas, sensação de choque mesmo, só na hora do resultado. “Deu uma percentagem de gordura muito alta: 38%. É por isso que vai ter que fazer dieta e também atividade física”, anuncia a médica. “Aprendi que devo controlar, ter bastante força de vontade para emagrecer, fazer exercícios, muitas coisas”, diz Maria Borges, de 8 anos. Mariana tem apenas 8 anos, mas já carrega no corpo taxas de colesterol e de açúcar iguais às de um adulto de 25 anos. “Fiquei nervosa, porque nem eu mesmo sabia o que era colesterol”, conta a mãe da menina, a dona de casa Edileusa Queirós. “A culpa de a criança se alimentar errado é da gente. Se a gente não comprar aquilo que não deve ser consumido, naturalmente a criança vai se alimentar de uma forma mais saudável”, observa o pai de Mariana, o metalúrgico Gilson Borges. A médica Jane Santana nunca imaginou que um dia receberia lições de saúde para mudar a vida do próprio filho. Vinícius tem 8 anos e pesa 40 quilos, cinco acima do normal. E já sofre de hipertensão. O corpo respondeu ao excesso de salgadinhos e à falta de exercícios. Foi preciso que o nome do filho aparecesse na lista de alunos com excesso de peso para que a médica percebesse: a epidemia de obesidade atingiu a própria família. Com estímulo dos pais e do irmão, Vinícius descobriu na praia de Santos uma vida equilibrada, cheia de novos sabores. “Comia pouco e comia mais frituras e guloseimas. Agora melhorei, estou comendo rúcula, arroz e feijão. Antes, sentia-me mais cansado, mais pesado, Agora sinto-me mais energético, mais saudável”, conta Vinícius de 8 anos. “Atualmente, vejo que ele está consciente do que o levou a ficar acima do peso”, comenta a mãe do menino, a cardiologista Jane Santanna. “Tem que mexer agora. Quanto mais gordo ficar, mais difícil é voltar atrás”, ressalta o pai do menino, o pneumologista Valmir Nascimento Filho. Os médicos alertam: é na idade de Vinícius que é preciso mais atenção com o que as crianças comem. Eles precisam de regras. A partir dos 7, 8 anos - no início da segunda infância -, as crianças ficam mais horas sentadas na escola. Sobra pouco tempo para as antigas brincadeiras. Quando os amigos não querem nada com a bola, fica mais difícil remar contra a maré. “Meus amigos não gostam de brincar disso, só querem ficar no videogame. Peço para fazerem uma brincadeira esportiva, mas imploram para ficar no videogame, no computador”, diz Vinícius. Como resistir? Em uma rua de Curitiba há comida pesada, de todas as partes do mundo. Desde pequeno, Guilherme Poli vive cercado por tentações. Na feira da gordura globalizada, é o rei da comida mineira. Pais donos de restaurante, filho solto na cozinha. Trabalhando e engordando, Guilherme foi parar em um spa com apenas 19 anos. “Estava pesando 134 quilos”, lembra. Guilherme diz que a culpa é do refrigerante. Aos 10 anos, chegou a beber 18 latinhas em quatro horas. “Os médicos disseram que se não me cuidasse, daqui a 15 anos estaria em uma mesa de cirurgia, fazendo ponte de safena”, conta Gulherme. Hoje, sabe que o peso da juventude impõe sacrifícios. Sem excessos, agora faz dieta rigorosa e promete perder peso. “Até o final do ano serão de 15 a 20 quilos a menos”, calcula.

FISCAL À MESA.

Foi com medo da gordura que Edson Araújo tomou uma decisão difícil até para um adulto. Aos 8 anos, o menino decidiu sozinho parar de engordar. Depois que decidiu aplicar em casa as lições que aprendeu na escola, muitas coisas começaram a mudar. A primeira delas foi no jardim. Os planos da família para um grande gramado tiveram que ser cancelados, porque hoje o que cresce no local não são flores, são as verduras de Edson. Quando voltou de viagem, o pai descobriu sinais das mudanças crescendo no quintal. “Encontrei alface e cebolinha nascendo. Confesso que comer verduras não é o meu forte”, revela Luís Carlos Araújo, gerente administrativo. “Agora estou me habituando ao novo costume do Edson. É o regime do Edson”, brinca o pai do menino. O regime era um pedido de socorro. Edson não queria mais ver os pais só engordando. Na hora do jantar, é ele quem leva as folhas para a salada. Hora de pegar leve no cardápio. Que tal um filé de peixe grelhado? O fiscal está à mesa! “Por um lado é bom e por outro é ruim. Às vezes, a gente quer comer um docinho e ele já fica de olho”, comenta a estudante Priscila, irmã de Edson. “A gente comia muita massa, muita carne vermelha. Hoje, comemos mais saladas, frutas, peixe e substituímos o refrigerante por sucos. O cardápio da família mudou totalmente, e o responsável por isso foi o Edson”, diz a mãe do menino, a dona de casa Rosângela Araújo. “Não quero que  fiquem gordos”, diz o menino. Com a família sob controle, o caçula já fez o pai perder 15 quilos. A mãe, 8. Em casa, quando o assunto é comida, quem dá as ordens é Edson. “Nossa horta vai crescer. E a nossa alimentação vai sempre assim. A cada dia se faz uma salada diferente, um tipo de carne diferente. A verdura não vai sair mais da nossa mesa”, garante a mãe.

FOME QUE EMAGRECE.

Quem come muito engorda. Quem come pouco emagrece. No Brasil de 2003, a lógica é outra. Pesquisas mostram que crianças desnutridas tendem a ser adultos obesos e doentes. Não crescem, mas ganham peso. Mesmo quando comem muito pouco. Camila, de 3 anos, come muito na escola e pouco em casa. Milhares de crianças que vivem abaixo da linha de pobreza no Brasil também são assim. Em São Paulo, uma realidade para moradores das 2.106 favelas. O Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren) tem apoio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No local, as crianças maltratadas pela fome ganham uma chance de viver. Gabriel foi um dos casos mais graves. Prematuro de sete meses, pesava 1.100 gramas e media 32 centímetros. Em três meses, o bebê já engordou dois quilos e cresceu dez centímetros. “Quando vim pra cá, ele era bem miudinho mesmo. Achava que nem ia se criar”, lembra a mãe de Gabriel, Rosileide Farias Silva. Quem chega com risco de morte vai para um semi-internato. A fórmula é simples: os pais deixam os filhos às 7h30min e os buscam às 17h30min. O café da manhã é a primeira de cinco refeições. Depois, um soninho também alimenta. Quando os pequenos começam a despertar, é hora de brincar e ouvir histórias. Eles são crianças em tempo integral. A mistura simples de comida e afeto em doses certas compensa também no custo. O gasto mensal é de apenas R$ 200,00 com cada criança. Uma internação hospitalar custaria dez vezes mais. Cruzar a porta e conseguir vaga em um centro de reabilitação muitas vezes é o que faz a diferença entre a criança continuar viva ou ter a possibilidade de uma morte prematura. O esforço intensivo do centro é para recuperar crianças até que elas atinjam 6 anos, a idade limite para se evitar as seqüelas graves da desnutrição, e para que voltem a ter um comportamento de crianças saudáveis. É preciso também evitar recaídas. A família se torna a parte mais importante na volta para casa. Mães e pais aprendem a preparar comida saudável e barata. “Ensinamos a reutilizar os alimentos. O arroz que sobrou do dia anterior é transformado em nhoque”, explica a nutricionista Mariana Nogueira. Às vezes, é preciso começar do zero. Quem já aprendeu, agora ensina. “Não basta dá só arroz e feijão. Enche a barriga, mas não faz tanto efeito. Elas me ensinaram a preparar sempre um tipo de carne e um pouquinho de verdura”, constata a dona de casa Eunice da Silva. “Fiz bolinho de folha de cenoura”, conta a faxineira Luciana Leal. “Se tiver força de vontade, consegue fazer as coisas. Não deixa a criança passar fome”, observa o auxiliar de serviços gerais Cláudio Oliveira. “É uma mudança que surte efeito, fica para a vida da família. Tanto que temos casos de famílias que têm outros filhos e os caçulas não ficam desnutridos”, diz a diretora de projetos do Cren. As crianças só recebem alta quando já estão sem sinais da desnutrição e já têm vaga garantida na escola ou na creche. David e Dayane têm 7 anos. Quando chegaram no centro, aos 3 anos e meio, mal alimentados, tinham peso e altura de crianças de 2 anos. Eles cresceram e engordaram. Um sinal de que o organismo retomou o funcionamento normal. “Isso significa que ela está ganhando massa magra, os ossos estão crescendo e puxando os músculos. É uma criança recuperada”, explica a nutricionista Paula Martins. Dayane ganhou saúde e um futuro. “Não corria direito, agora estou correndo muito bem. Acho que não tinha força”, conta Dayane Rodrigues, de 8 anos. Agilidade, energia. A desnutrição agora é passado. Se não tivesse encontrado um novo caminho, o destino de Dayane já estaria escrito: seria uma mulher gorda e doente.

FOME QUE ENGORDA.

Um mal que atinge o Brasil de Norte a Sul. Alagoas é um dos estados mais privilegiados pela natureza e também é considerado um dos mais pobres do país. Uma pesquisa feita em Maceió comprovou o que os cientistas já desconfiavam: crianças desnutridas estão se transformando em adultos obesos. A obesidade é uma das conseqüências mais graves da desnutrição infantil, um problema comum em todas as 135 favelas da cidade. O cenário é de pobreza extrema. Tudo é difícil na região. Um cano cortado no meio da rua é a única fonte de água. A sopa doada pela prefeitura uma vez por dia é esperada com ansiedade. A desnutrição já deixou seqüelas no lugar: os homens não são altos. Têm cinco centímetros a menos que a média nacional. Os mais subnutridos na infância não passam de 1,58 metro na idade adulta. Nas mulheres, a média nacional é de 1,60 metro. As moradoras da favela medem menos: 1,54 metro; as desnutridas, 1,47 metro. A escassez de comida que não deixa crescer também provoca obesidade. Um em cada quatro favelados convive com o excesso de peso. “Nosso cérebro entende quando está faltando alimento, quando o alimento não está adequado, em qualidade adequada. Assim, durante o desenvolvimento infantil, o cérebro entende que precisa economizar energia. Então, ele vai mudar todo o seu metabolismo e o corpo vai economizar gordura, deixar de crescer, para a manutenção da vida”, explica Ana Lydia Sawaya, chefe do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O acúmulo de gordura se agrava com a falta de atividade física. Os homens se movimentam mais, saem à procura de emprego. A nutricionista Telma Toledo, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), foi quem primeiro observou: as mulheres de comunidades pobres estavam engordando, e a gordura é a do tipo abdominal, considerada a mais perigosa – atinge o coração. Aos 31 anos, Zoraide de Lira faz uma única refeição por dia, mas o peso não diminui: 111 quilos. “Todo dia como sopa. Só isso. Sempre fui assim, mesmo que não coma”, revela. Maria Alessandra dos Santos tem 23 anos e dois filhos. Também nunca teve fartura de comida em casa. Agora, são as crianças que nem sempre têm o que comer. “Ontem não tinha nada, nem um grão de farinha”, conta. Mas a fome não faz o menor efeito na balança. No posto de saúde da favela, Maria Alessandra descobriu que engordou. Hoje, está com quase 123 quilos. “Todo carboidrato, que é a base da alimentação deles, contribui para manter o nível de insulina alto. A insulina é um hormônio que praticamente proíbe a lipólise, quer dizer, a quebra da gordura”, comenta o nutricionista Haroldo Ferreira. A receita simples do Centro de Recuperação Nutricional de São Paulo (Cren) poderia evitar que as crianças desnutridas de Maceió fossem as próximas vítimas de uma alimentação inadequada. Para os adultos, as conseqüências da desnutrição e da obesidade já chegaram e desenham um novo Brasil - um país menos produtivo e mais doente. “Elas estão adoecendo em uma época muito prematura. Essas pessoas estão ficando doentes com 35, 40 anos. Imagine para o sistema de saúde o ônus causado por milhares de pessoas com idade jovem precisando de atendimento e algumas vezes de internação com diabetes, hipertensão e problemas cardíacos”, alerta a nutricionista Telma Toledo.

MERENDA ECOLÓGICA.

Saúde que brota da terra. No interior de Santa Catarina, em vez de agrotóxico na lavoura, é a enxada que acaba com as ervas daninhas. Inseto é bem-vindo - afasta as pragas. E a couve plantada pertinho da cenoura ajuda a manter a terra cheia de nutrientes. Lá se vão quatro anos desde que Hamilton Voges abandonou os venenos da lavoura e adotou a agricultura orgânica. Nos últimos meses, ganhou clientes especiais: as escolas estaduais de Santa Catarina. Hoje, o que sai do canteiro é servido aos alunos da cidade. Plantar a merenda ecológica também dá sentimento cidadão. “A sensação, para nós, é saber que a gente está no campo, trabalhando com o orgânico, no sol quente, mas que as crianças estão lá na escola recebendo o alimento saudável”, comenta o produtor orgânico. Não é só saúde que sai da horta. Os alimentos orgânicos produzidos na região estão servindo também como uma espécie de material didático, como os livros e cadernos. Nas escolas de Santa Catarina, a merenda ecológica não entra só nos refeitórios na hora do almoço, virou também matéria obrigatória em todas as salas de aula. Enquanto as merendeiras preparam um cardápio mais saudável para as crianças, frutas, verduras e legumes invadem os computadores na aula de informática. Do lado de fora, a horta é real. O professor da escola de Laguna ensina que a dieta de pescador precisa mudar. “É preciso sair do arroz com pirão e peixe frito e passar a acrescentar na alimentação as verduras em geral”, recomenda. Aprender a comer vira uma grande brincadeira. Mas nem todos aplaudem, sempre tem gente do contra. “Se tivesse educação alimentar em casa, seria mais fácil de nós trabalharmos”, diz a professora Daniela Rosa. Hora do almoço, hora do teste. O que os alunos viram na aula, surge no prato. É hora de experimentar o que aprenderam. “Acho que é nota dez para nossa saúde”, elogia Ana Cristina dos Santos, de 16 anos. “Mas não como assim todo dia. Gordura é comigo mesma, batata frita, refrigerante...”, revela a aluna. “Arroz, galinha, salada. Não vai beterraba, porque não gosto”, conta Douglas da Luz, de 15 anos. Como vencer o cardápio de preconceitos levados de casa: sanduíches, doces e salgadinhos escondidos reforçam a preocupação das autoridades com a merenda que engorda. O alerta é dos nutricionistas: o que as crianças comem hoje vai determinar que tipo de doenças elas podem ter no futuro. Em Santa Catarina, a preocupação com a saúde da meninada foi bem além daquela recomendação informal, do conselho para comer melhor. No estado, refrigerantes, salgadinhos e frituras foram banidos das escolas. Está em vigor a “Lei das Cantinas”. Nada escapa aos olhos da nutricionista da lei. Há seis anos, Gladys Milanez inspeciona a comida vendida nas escolas. É a xerife da merenda. “Hoje é proibido vender qualquer refrigerante e sucos artificiais, salgados fritos, salgadinhos industrializados, pipocas, balas e chicletes”, anuncia a nutricionista da Secretaria Estadual de Educação de Santa Catarina. Proibidos na cantina, mas liberados na hora do lanche. Para um grupo, a lei não faz efeito. “Normalmente a bala, o chiclete e às vezes o refrigerante vêm de casa”, conta a coordenadora de uma escola, Luci Ambros. “É um contrabando de lanches”, ressalta a pediatra e nutricionista Marlene Pires, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A médica avisa: acabar com o prazer de comer por decreto não funciona. “Isso é cultural, portanto, vai demorar um tempo até que as pessoas entendam que a alimentação tem duas funções: prazer e nutrição. Usando o bom senso”, diz ela. “Ficam me chamando de gorda, saco de areia, essas coisas. Dá vontade de esganar eles! Fico chateada”, revela Amanda. Idéia da mãe: Amanda entrou em campo para perder peso, recuperar a auto-estima e ganhar o jogo diário contra a balança. A dona de casa Patrícia Pretula, a mãe controladora, confere o sobe e desce do peso. Amanda ganhou um quilo. “Controlo ela para que não seja discriminada na sociedade por ser obesa”, justifica a mãe. A comida da despensa foi para em uma caixa. “Quero que se sinta bem com ela mesma - corpo e mente”, diz Patrícia. O regime de Amanda conta com reforço importante na escola pública de Curitiba. Os professores mudaram a dieta dos alunos. Em vez de giz e quadro negro, liquidificador na sala de aula. A tarefa hoje é fazer e comer torta... de legumes. Na escola, o sonho dos pais vira realidade. As crianças descobrem o segredo para gostar de salada. “Comecei a gostar”, conta uma aluna. “Acostumei-me e agora amo banana”, garante uma coleguinha. “A professora falava bastante de comida. Quando falou sobre feijão, experimentei um pouco e gostei”, diz um menino. Os médicos usam iscas irresistíveis. “Um dia, a criança podia receber um lanche mais atrativo, como um sanduíche ou um cachorro-quente. E no dia seguinte, já fazia uma refeição mais normal, como um prato de arroz com feijão, carnes e verduras”, explica o pediatra Nilo Willrich. O refeitório hoje é a principal sala de aula. “Aconteceu uma transformação de hábitos e atitudes. No início do ano, comiam só arroz e feijão. Hoje, as crianças já comem legumes, salada e frutas”, conta Anicyr Sanches, diretora da Escola Municipal Ulisses Falcão Vieira. Quem vê Carol, de 6 anos, na feira, nem imagina como era o cardápio da menina há seis meses. “De chocolate, bala, bombom, biscoito para fruta, verdura”, conta. “Não vigiava a alimentação dela. A partir do momento que foi para a escola e começou a ficar o dia todo, começou a comer verdura e fruta e a me cobrar isso em casa”, diz a professora Célia Ogeda. Na hora do lanche, Carol se lambuza com as vitaminas. A menina já fala com bom senso de gente grande. “Quando crescer, vou escolher as mesmas coisas de hoje”, garante.

TRANSTORNO ALIMENTAR.

Na adolescência, o descontentamento com o próprio corpo passa a ocupar o universo de meninos e meninas. E a ditadura da estética agrava a obsessão. Por todo lado, fórmulas milagrosas. Como se enquadrar em um padrão de beleza que passa longe dos mais gordinhos? Pode estar começando aí uma batalha dolorosa. Os números da insatisfação surpreendem. Uma pesquisa que ouviu mais de três mil adolescentes revela: três entre quatro jovens queriam um corpo diferente. “A insatisfação leva a um padrão alimentar anormal, que traz sofrimentos para o corpo, doenças físicas que afetam diversos sistemas, como o cardíaco e o renal. Dessas dietas ditas normais, 35% evoluem para dietas patológicas. Então, daqui a 20 anos, teremos 75% de adultos doentes fisicamente também”, explica a psiquiatra Paula Melin. Vanessa Dellapruta tem 19 anos e o sonho que povoa a cabeça de milhões de adolescentes: quer ser modelo de passarela. A altura, 1,73 metro, não seria problema. A questão é a briga com a balança, que começou aos 10 anos. Com 1,55 metro, Vanessa chegou a pesar 70 quilos. Pelo menos dez acima do considerado normal para a altura. Ela cansou de ouvir piadas na escola. A comparação com a irmã era inevitável. “A irmã era meio que um ídolo para ela. Na família, diziam que estava gordinha e ela ouvia as pessoas falarem que deveria ficar como a irmã, que era magra. Diziam que estava gorda e ela respondia: ‘Quero ser aceita’”, conta a mãe de Vanessa, Elyan Dellapruta. Para emagrecer e ser aceita, Vanessa radicalizou: reduziu a alimentação a 250 gramas de queijo branco por dia. Resultado: 32 quilos e um quadro de anorexia nervosa. “Quando me olhava no espelho, achava que estava muito magra, que estava muito feia, mas tinha medo de engordar”, diz Vanessa. Nos últimos nove anos, Vanessa conheceu o pior lado dessa obsessão pela magreza: quatro internações para cuidar da anorexia e de outros transtornos que surgiram. Tornou-se compulsiva. “Teve uma época que cheguei a fazer sete horas de exercício por dia”, lembra. E os longos períodos de jejum também despertaram um desejo descontrolado por comida. “Cheguei a comer 15 pacotes de biscoito de cada vez”, diz Vanessa. Só exagerava porque em seguida vomitava tudo, acreditando que assim não iria engordar. Era a bulimia, um vômito provocado. A doença não ajuda a emagrecer. Ao contrário, provoca retenção de líquido e inchaço. As refeições balanceadas que hoje são servidas em quantidades e horários controlados fazem parte de um tratamento. Vanessa é acompanhada 24 horas por uma enfermeira. Evita os exageros e orienta a jovem em todas as refeições. “Oriento para que coma um pouco devagar, porque faz parte da compulsão comer rápido demais”, diz a enfermeira Damiana Gomes. Vanessa está fora da escola há quatro anos. Ainda luta para controlar a doença. “Se alguém me oferecer um chocolate, não aceito. Mesmo sabendo que tem a mesma caloria que uma maçã, não vou comer o chocolate porque tenho medo de engordar”, admite a jovem. Os pais precisam ficar atentos. A mudança radical nos hábitos alimentares dos filhos é o primeiro sinal de alerta. “Em primeiro lugar, é preciso ver o que o filho mais gosta de comer. Se o filho estiver resistindo muito tempo a isso e estiver emagrecendo muito, fazendo muita ginástica, em caso de dúvida procure um psicólogo especializado”, orienta a mãe de Vanessa. E nessa busca por ajuda, muitas vezes o jovem precisa ser levado pela mão. Poucos têm consciência do problema e procuram tratamento sozinhos. A Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro mantém um serviço gratuito para atendimento de transtornos alimentares, com uma equipe de profissionais voluntários formada por psiquiatra, psicólogos, nutricionistas e endocrinologistas. É cada vez maior o número de adolescentes com preocupação obsessiva pelo corpo. Kamila Ayres, de 12 anos, como a maioria dos pacientes, era obesa quando criança e se sentia discriminada. “Quando era do jardim de infância, todo mundo me chamava de baleia, saco de areia, coisas assim. Sofria discriminação dos colegas. Ninguém me aceitava na hora do recreio. Sempre fui sozinha por causa disso”, conta. Decidiu livrar-se dos 56 quilos. Só parou de emagrecer quando chegou aos 30 quilos e desmaiou na escola. “Comecei a querer emagrecer por conta própria, para as pessoas me aceitarem melhor, para conseguir ter mais amigos”, diz Kamila. “Espero que essa minha história tenha um final feliz”. A anorexia e a bulimia são problemas mais comuns entre as mulheres. A proporção é de dez meninas para um menino. Diego Barbosa, de 19 anos, era o gordinho da turma: tinha 87 quilos aos 14 anos. Nele, a anorexia se manifestou diferente. Achava que ia morrer sufocado se engolisse comida sólida e passou a se alimentar só de líquidos. Acabou ficando com 50 quilos. Segundo os médicos, um medo inconsciente de ser gordo. Hoje, aos 19 anos, está se recuperando do transtorno. “Se ficasse gordinho como antes, ficaria feliz, porque depois de vários anos me vendo magro no espelho nunca mais quero ver essa imagem”, diz. “A anorexia nervosa e a bulimia têm cura. São doenças crônicas, de difícil tratamento, mas em 70% dos casos a remissão dos sintomas é total. O tratamento é difícil, custoso, mas vale a pena”, garante a psiquiatra Paula Melin.

VIDA NOVA PARA EX-OBESOS.

O estudante Bernard Ottoboni, de 19 anos, tem 100 quilos. O professor universitário Renato Ferreira, de 30 anos, tem 94 quilos. Em comum, uma infância e adolescência fugindo da balança. Bernard bateu os 180 quilos. Renato chegou a pesar 186. Separados por 500 quilômetros, os dois percorreram os mesmos caminhos. O estudante Bernard, em São Paulo, e o professor Renato, em Juiz de Fora, Minas Gerais, fizeram todas as dietas possíveis. Freqüentaram spas, conheceram o efeito-sanfona. “Aos 11 anos, fiquei oito meses em um spa. Perdi 50 quilos e depois que saí engordei 100”, conta Bernard. A aparência que chamava tanto a atenção passava despercebida diante do espelho. “Achava que estava um pouco acima do peso, só”, lembra Renato. Para Renato e Bernard, o excesso de peso deixou a vida mais arriscada. “Estava começando a ter apnéia do sono, falta de ar durante o sono, erisipela, em decorrência de má circulação na perna”, revela Bernard. “Era uma pessoa muito agressiva, de contato difícil”, diz Renato. Renato e Bernard pertencem ao chamado “grupo de risco da obesidade”. São os obesos mórbidos. Casos em que a cirurgia de redução do estômago é sinônimo de sobrevivência. Bernard foi o paciente mais novo a fazer a cirurgia no Brasil, aos 13 anos. “Continuo gostando do chocolate, da picanha, mas como em uma quantidade extremamente menor. Antes precisava de cinco bifes para